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CONTOS
PARA A
INFÂNCIA
ESCOLHIDOS DOS MELHORES AUTORES
POR
GUERRA JUNQUEIRO
LISBOA
TIPOGRAFIA UNIVERSAL DE THOMÁS QUINTINO ANTUNES,
IMPRESSOR DA CASA REAL
Rua dos Calafates, 110
1877
A mãe
Estava uma mãe muito aflita, sentada ao pé do
berço do seu filho, com
medo que lhe morresse. A criancinha pálida tinha os olhos
fechados.
Respirava com dificuldade, e às vezes tão
profundamente, que parecia
gemer; mas a mãe causava ainda mais lástima do
que o pequenino
moribundo.
Nisto bateram à porta, e entrou um pobre homem muito velho,
embuçado
numa manta de arrieiro. Era no Inverno. Lá fora estava tudo
coberto de
neve e de gelo, e o vento cortava como uma navalha.
O pobre homem tremia de frio; a criança adormecera por
alguns instantes,
e a mãe levantou-se a pôr ao lume uma caneca com
cerveja. O velho
começou a embalar a criança, e a mãe,
pegando numa cadeira, sentou-se
ao lado dele. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada
vez com mais dificuldade, pegou-lhe na mãozinha descarnada e
disse para
o velho:
Oh! Nosso Senhor não mo há-de levar!
não é verdade?―
[4]E o velho, que era a
Morte, meneou a cabeça duma maneira estranha, em
ar de dúvida. A mãe deixou pender a fronte para o
chão, e as lágrimas
corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso
de
cabeça; estava sem dormir havia três dias e
três noites. Passou
ligeiramente pelo sono, durante um minuto, e despertou sobressaltada a
tremer de frio.
―Que é isto! exclamou, lançando à
volta de si o olhar alucinado. O
berço estava vazio. O velho tinha-se ido embora,
roubando-lhe a criança.
A pobre mãe saiu precipitadamente, gritando pelo filho.
Encontrou uma
mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. «A Morte
entrou-te em
casa, disse-lhe ela. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais
depressa que o vento, e o que ela furta nunca o torna a
entregar.»
―Por onde foi ela? gritou a mãe. Diz-mo pelo amor de
Deus!»
―Sei o caminho por onde ela foi, respondeu a mulher vestida de preto.
Mas só to ensino, se me cantares primeiro todas as
canções que cantavas
ao teu filho. São lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou
a Noite e
muitas vezes tas ouvi cantar, debulhada em lágrimas.
―Cantar-tas-ei todas, todas, mas logo, disse a mãe. Agora
não me
demores, porque quero encontrar o meu filho.―
A Noite ficou silenciosa. A mãe então, desfeita
em lágrimas, começou a
cantar. Cantou muitas canções, mas as
lágrimas foram mais do que as
palavras.
[5]No fim disse-lhe a
Noite: «Toma à direita, pela floresta escura de
pinheiros. Foi por aí que a Morte fugiu com o teu
filho.»
A mãe correu para a floresta; mas no meio dividia-se o
caminho, e não
sabia que direcção havia de seguir. Diante dela
havia um matagal,
cheio de silvas, sem folhas nem flores, de cujos ramos pendia a neve
cristalizada.
―Não viste a Morte que levava o meu filho?»
perguntou-lhe a mãe.
―Vi, respondeu o matagal, mas não te ensino o caminho,
senão com a
condição de me aqueceres no teu seio, porque
estou gelado.»
E a mãe estreitou o matagal contra o
coração; os espinhos
dilaceraram-lhe o peito, donde corria sangue. Mas o matagal vestiu-se
de folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores numa noite
de Inverno frigidíssima, tal é o calor
febricitante do seio duma mãe
angustiosa.
E o matagal ensinou-lhe o caminho que devia seguir. Foi andando,
andando, até que chegou à margem dum grande lago,
onde não havia nem
barcos, nem navios. Não estava suficientemente gelado para
se andar por
ele, e era demasiadamente profundo para o passar a vau. Contudo,
querendo encontrar o seu filho, era necessário
atravessá-lo. No delírio
do seu amor, atirou-se de bruços a ver se poderia beber toda
a água do
lago. Era impossível, mas lembrava-se que Deus, por
compaixão, faria
talvez um milagre.
[6]―Não!
não és capaz de me esgotar, disse o lago.
Sossega, e
entendamo-nos
amigavelmente. Gosto de ver pérolas no fundo das minhas
águas, e os teus
olhos são dum brilho mais suave do que as pérolas
mais ricas que eu
tenho possuído. Se queres, arranca-os das órbitas
à força de chorar, e
levar-te-ei à estufa grandiosa, que está do outro
lado: essa estufa é a
habitação da Morte; e as flores e as
árvores que estão lá dentro,
é ela
quem as cultiva; cada flor e cada árvore é a vida
duma criatura
humana.»
―Oh! o que não darei eu, para reaver o meu filho!»
disse a mãe. E
apesar de ter já chorado tantas lágrimas, chorou
com mais amargura do
que nunca, e os seus olhos destacaram-se das órbitas e
caíram no fundo
do lago, transformando-se em duas pérolas, como ainda as
não teve no
mundo uma rainha.
O lago então ergueu-a, e com um movimento de
ondulação depositou-a na
outra margem, aonde havia um maravilhoso edifício, com mais
de uma légua
de comprido. De longe não se sabia se era uma
construção artística ou
uma montanha com grutas e florestas. Mas a pobre mãe
não podia ver nada;
tinha dado os seus olhos.
―Como hei-de eu reconhecer a Morte que me roubou o meu
filho!» bradou
ela desesperada.
―A Morte ainda não chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que
andava dum
lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como
vieste tu aqui parar? Quem te ensinou o caminho?»
―Deus auxiliou-me, respondeu ela. Deus é misericordioso. [7]Compadece-te
de mim, e diz-me onde está o meu filho.»
―Eu não o conheço, e tu és cega, disse
a velha. Há aqui muitas plantas
e muitas árvores, que murcharam esta noite: a Morte
não tarda aí para
as tirar da estufa. Deves saber, que toda a criatura humana tem neste
sítio uma árvore ou uma flor, que representam a
sua vida e que morrem
com ela. Parecem plantas como quaisquer outras, mas tocando-lhes,
sente-se bater um coração. Guia-te por isto, e
talvez reconheças as
pulsações do coração de teu
filho. E que davas tu por eu te ensinar o
que tens ainda de fazer?»
―Já não tenho nada que te dar, disse a pobre
mãe. Mas irei até ao fim
do mundo buscar o que tu quiseres.―«Fora daqui não
preciso de nada,
respondeu a velha. Dá-me os teus longos cabelos negros; tu
sabes que
são belos, e agradam-me. Trocá-los-ei pelos meus
cabelos
brancos.»―Não pedes mais nada do que isso? disse a
mãe. Aí os tens,
dou-tos de boa vontade.»
E arrancou os seus magníficos cabelos, que tinham sido
outrora o seu
orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabelos curtos e
inteiramente brancos da velha.
Esta levou-a pela mão à grande estufa, onde
crescia exuberantemente uma
vegetação maravilhosa. Viam-se debaixo de
campânulas de cristal jacintos
mimosíssimos ao lado de peónias inchadas e
ordinárias. Havia também plantas
aquáticas, umas cheias de seiva, outras meio murchas, e em
cujas raízes
se enovelavam cobras asquerosas.
[8]Mais longe
erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e plátanos
frondosos; depois num outro sítio isolado havia canteiros de
salsa,
tomilho, hortelã e outras plantas humildes que representavam
o género de
utilidade das pessoas que elas simbolizavam.
Havia ainda grandes arbustos em vasos demasiadamente estreitos, que
pareciam rebentar; mas viam-se também florzitas
insignificantes, em
vasos de porcelana, na melhor terra, circundadas de musgo, tratadas com
esmero delicadíssimo. Tudo isso representava a vida dos
homens, que a
essa hora existiam no mundo, desde a China até à
Groenlândia.
A velha queria mostrar-lhe todas estas coisas misteriosas, mas a
mãe
impacientada pediu-lhe que a levasse ao sítio onde estavam
as plantas
pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do
coração, e, depois de ter tocado em milhares
delas, reconheceu as
pulsações do coração do seu
filho.
―É ele!» exclamou, lançando a
mão a um açafroeiro, que, pendido sobre
a terra, parecia completamente estiolado.
―Não lhe toques, disse a velha. Fica neste sítio;
e quando a Morte
vier, que não tarda, proíbe-lhe que arranque esta
planta; ameaça-a de
arrancar todas as flores que estão aqui. A Morte
terá medo, porque tem
de dar conta delas a Deus. Nenhuma pode ser arrancada sem o seu
consentimento.»
Nisto sentiu-se um vento glacial, e a mãe adivinhou que era
a Morte,
que se aproximava.
[9]―Como é
que deste com o caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda
primeiro do que eu! Como o conseguiste?―«Sou
mãe» respondeu ela.
E a Morte estendeu a sua mão ganchosa para o pequenino
açafroeiro.
Mas a mãe protegia-o violentamente com ambas as
mãos, tendo o cuidado de
não ferir uma só das pequeninas
pétalas. Então a Morte soprou-lhe nas
mãos, fazendo-lhas cair inanimadas. O hálito da
Morte era mais frio do
que os ventos enregelados do Inverno.
―Não podes nada comigo!» disse a Morte.―Mas Deus
tem mais força do que
tu, respondeu a mãe.»―«É
verdade, mas eu não faço senão aquilo
que
ele manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas,
árvores e
arbustos, quando começam a murchar, transplanto-as para
outros jardins,
um dos quais é o grande jardim do Paraíso.
São regiões desconhecidas;
ninguém sabe o que se lá passa.»
―Misericórdia! misericórdia! soluçou a
mãe. Não me roubem o meu filho,
agora que acabo de o encontrar!» Suplicava e gemia. A Morte
conservava-se impassível; agarrou então
instantaneamente em duas flores
lindíssimas e disse à Morte: «Tu
desprezas-me, mas olha, vou arrancar,
despedaçar não só esta, mas todas as
flores que estão aqui!
―Não as arranques, não as mates, bradou a Morte.
Dizes que és
desgraçada, e querias ir partir o
coração de outra mãe!―«Outra
mãe!»
disse a pobre mulher, largando as flores imediatamente.
[10]―Toma, aqui tens os
teus olhos, disse a Morte. Brilhavam tão suavemente que os
tirei do lago. Não sabia que eram teus.
Mete-os nas órbitas, e olha para o fundo deste
poço; vê o que ias destruir,
se arrancasses estas flores. Verás passar nos reflexos da
água, como numa miragem,
a sorte destinada a cada uma dessas duas flores, e a que teria tido o
teu filho, se
porventura vivesse.»
Debruçou-se no poço, e viu passar imagens de
felicidade e alegria,
quadros risonhos e deliciosos, e logo depois cenas terríveis
de
miséria, de angústias e de
desolação.
―Nisto que eu vejo, disse a mãe aflitíssima,
não distingo qual era a
sorte que Deus destinava ao meu filho.»
―Não posso dizer-to, respondeu a Morte. Mas repito-te, em
tudo isto
que te apareceu viste o que no mundo havia de suceder ao teu
filho.»
A mãe desvairada, lançou-se de joelhos
exclamando: Suplico-te, diz-me:
era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? Não
é verdade! Fala!
Não me respondes? Oh! na dúvida, leva-o, leva-o,
não vá ele sofrer
desgraças tão horríveis. O meu querido
filho! Quero-lho mais que à minha
vida. As angústias que sejam para mim. Leva-o para o reino
dos céus.
Esquece as minhas lágrimas, as minhas súplicas,
esquece tudo o que fiz
e tudo o que disse.»
―Não te compreendo, respondeu a Morte: Queres que te
entregue o teu
filho ou que o leve para a região desconhecida de que
não posso
falar-te!» Então a mãe alucinada,
convulsa, torcendo os braços,
deitou-se de joelhos e dirigindo-se [11]a
Deus exclamou: «Não me ouças,
Senhor, se reclamo no fundo do meu coração contra
a tua vontade que é
sempre justa! Não me atendas meu Deus!»
E deixou cair a cabeça sobre o peito, mergulhada na sua
agonia
dilacerante.
E a Morte arrancou o pequenino açafroeiro, e foi
transplantá-lo no
jardim do paraíso.
[12]
O ouro
Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas de
ouro,
empregou a maior parte dos vassalos a extrair o ouro dessas minas; e o
resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve uma
grande
fome no país.
Mas a rainha, que era prudente e que amava o povo, mandou fabricar em
segredo frangos, pombos, galinhas e outras iguarias todas de ouro fino;
e quando o rei quis jantar mandou-lhe servir essas iguarias de ouro,
com
que ele ficou todo satisfeito, porque não compreendeu ao
princípio
qual era o sentido da rainha; mas, vendo que não lhe traziam
mais nada
de comer, começou a zangar-se. Pediu-lhe então a
rainha, que visse bem
que o ouro não era alimento, e que seria melhor empregar os
seus
vassalos em cultivar a terra, que nunca se cansa de produzir, do que
trazê-los nas minas à busca do ouro, que
não mata a fome nem a sede, e
que não tem outro valor além da
estimação que lhe é dada pelos homens,
estimação que havia de converter-se em desprezo,
logo que ouro
aparecesse em abundância.
A rainha tinha juízo.
[13]
Doçura e bondade
Há entre vós, meus filhos, índoles
violentas, que não sabem dominar-se,
e que são arrastadas pelas primeiras impressões.
É uma péssima
disposição, que é
necessário corrigir; dá lugar a disputas, e a que
se
cometam acções, cujo arrependimento chega
demasiadamente tarde.
Citar-vos-ei dois exemplos de que fui testemunha.
Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha diante
dele, volta-se e dá-lhe uma bofetada.
―Oh! senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena que vai ter! Bateu num
cego!»
Um homem ainda novo montado num burro, atravessava uma aldeia, e uns
camponeses grosseiros começaram a apupá-lo e a
bater no burro, para o
fazer correr. O homem apeou-se, foi direito a eles, e, mostrando-lhes a
sua perna aleijada, disse-lhes: «Se soubésseis que
eu era coxo, não
teríeis sido tão covardes.»
Os camponeses, envergonhados, coraram, afastando-se sem pronunciar uma
palavra.
Que vos parece estas duas lições? Estou
convencido que aproveitaram a
quem as recebeu.
[14]
O malmequer
Ouvi com atenção esta pequenina
história!
No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que
deveis ter visto muitas vezes. Há na frente um jardinzinho
com flores,
rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do valado, no
meio da erva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a
olhos vistos, graças ao sol, que repartia igualmente a sua
luz tanto por
ele como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bela
manhã, já inteiramente aberto, com as folhinhas
alvas e brilhantes,
parecia um sol em miniatura circundado dos seus raios. Pouco se lhe
dava
que o vissem no meio da erva e não fizessem caso dele, pobre
florinha
insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o calor do
sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.
Nesse dia o pequeno malmequer, apesar de ser numa segunda-feira,
sentia-se tão feliz como se fosse um domingo. Enquanto as
crianças
sentadas nos bancos da escola estudavam a lição,
ele, sentado na haste
verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo
o que [15]sentia
misteriosamente, em silêncio, julgava ouvi-lo traduzido com
admirável nitidez nas canções alegres
da cotovia. Por isso pôs-se a
olhar com uma espécie de respeito, mas sem inveja, para essa
avezinha
feliz que cantava e voava.
«Eu vejo e oiço, pensou o malmequer; o sol
aquece-me e o vento
acaricia-me. Oh! não tenho razão de me
queixar.»
Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocráticas;
quanto menos
aroma tinham, mais orgulhosas se aprumavam. As dálias
inchavam-se para
parecerem maiores do que as rosas; mas não é o
tamanho que faz a rosa.
As tulipas brilhavam pela beleza das suas cores, pavoneando-se
pretensiosamente. Não se dignavam de lançar um
olhar para o pequeno
malmequer, enquanto que o pobrezinho admirava-as, exclamando:
«Como são
ricas e bonitas! A cotovia irá certamente
visitá-las. Graças a Deus,
poderei assistir a este belo espectáculo.» E no
mesmo instante a
cotovia dirigiu o seu voo, não para as dálias e
tulipas, mas para a
relva, junto do pobre malmequer, que morto de alegria não
sabia o que
havia de pensar.
O passarinho pôs-se a saltitar à roda dele,
cantando: «Como a erva é
macia! oh! que encantadora florinha, com um
coração de oiro, vestida de
prata!»
Não se pode fazer ideia da felicidade do malmequer. A ave
acariciou-o com
o bico, cantou outra vez diante dele, e perdeu-se depois no azul do
firmamento. Durante mais de um quarto de hora não
pôde o malmequer
reprimir a sua comoção. Meio envergonhado, mas
todo contente, olhou
[16]para as outras
flores do jardim, que, como testemunhas da honra que
acaba de receber, deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas
as
tulipas estavam cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e
pontiaguda manifestava o despeito. As dálias tinham a
cabeça toda
inchada. Se elas pudessem falar, teriam dito coisas bem
desagradáveis
ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste.
Passados alguns momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma
grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as
uma a uma.
«Que desgraça! disse o malmequer suspirando;
é horrível; foram-se
todas.»
E enquanto a rapariguinha levava as tulipas, o malmequer alegrara-se
por
ser simplesmente uma pequenina flor no meio da erva. Apreciando
reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da tarde as suas folhas,
adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a cotovia.
No dia seguinte de manhã, assim que o malmequer abriu as
suas folhas ao
ar e à luz, reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto
era triste,
muitíssimo triste. A pobre cotovia tinha boas
razões para se afligir:
haviam-na agarrado e metido numa gaiola, suspensa entre uma janela
aberta. Cantava a alegria da liberdade, a beleza dos campos e as suas
antigas viagens através do espaço ilimitado.
O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe acudir: mas como? Era
difícil. A compaixão pelo pobre passarinho
prisioneiro, fez-lhe
esquecer [17]inteiramente
as belezas que o cercavam, o doce calor do sol e
a alvura resplandecente das suas próprias folhas.
Nisto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia na
mão
uma faca comprida e afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as
tulipas. Encaminharam-se para o malmequer, que não podia
compreender o
que desejavam.
«Podemos arrancar daqui um pedaço de relva para a
cotovia, disse um dos
rapazes, e começou a fazer um quadrado profundo à
volta da florinha.
―«Arranca a flor, disse o outro.»
A estas palavras o malmequer estremeceu de terror. Arrancarem-no era
morrer; e nunca tinha abençoado tanto a
existência, como no momento em
que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia.
«Não; deixemo-la, disse o mais velho.
Está aí muito bem.»
Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia.
O pobre passarinho, queixando-se amargamente do seu cativeiro, batia
com as asas nos arames da gaiola. O malmequer não podia,
apesar dos seus
desejos, articular-lhe uma palavra de consolação.
Passou-se assim toda a manhã.
«Já não tenho água, exclamou
a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me
deixarem ao menos uma gota de água. A garganta queima-me,
tenho uma febre
terrível, sinto-me abafada! Ai! Não há
remédio senão morrer, longe do
sol esplêndido, longe da fresca verdura e de todas as
magnificências da
criação!»
[18]Depois enterrou o
bico na relva húmida para se refrescar um pouco. Viu
então o malmequer; fez-lhe um sinal de cabeça
amigável, e disse-lhe,
afagando-o: «Também tu, pobre florinha,
morrerás aqui! Em vez do mundo
inteiro, que eu tinha à minha
disposição, deram-me um pedacito de relva,
e a ti só por única companhia. Cada pezinho de
relva substitui para mim
uma árvore, e cada uma das tuas folhas brancas, uma flor
odorífera. Ah!
como me fazes recordar de todas as coisas que perdi!
―Se eu pudesse consolá-la! pensava o malmequer, incapaz de
fazer o
mínimo movimento.
Contudo o perfume que ele exalava, tornou-se mais forte que de costume;
a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a
arrancar a erva, teve todo o cuidado em não tocar nem sequer
de leve na
flor.
Caiu a noite; não estava ali ninguém, para trazer
uma gota de água à
desditosa cotovia; Estendeu então as suas belas asas,
sacudindo-as
convulsivamente, e pôs-se a cantar uma
cançãozinha melancólica; a sua
cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu
coração quebrado de desejos e
de angústias cessou de bater. Vendo este triste
espectáculo, o malmequer
não pôde como na véspera fechar as suas
folhas para dormir; curvou-se
para o chão, doente de tristeza.
Os rapazitos só voltaram no dia seguinte, e, vendo o
passarinho morto,
rebentaram-lhe as lágrimas e abriram uma cova. Meteram o
cadáver dentro
de uma caixa vermelha, lindíssima, fizeram-lhe um enterro de
príncipe, e
cobriram o túmulo com folhas de rosas.
[19]Pobre passarinho!
Enquanto vivia e cantava, esqueceram-se dele e
deixaram-no morrer de fome na gaiola; depois de morto é que
o choraram
e lhe fizeram honrarias pomposíssimas.
A relva e o malmequer lançaram-nas para a poeira da estrada;
daquele
que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ninguém se
lembrou.
[20]
Não quero
Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que falavam muito
alto: «Não, dizia um com voz enérgica,
não quero.» Parei e
perguntei-lhe:―O que é que tu não queres, meu
rapaz?―«Não quero dizer
à mamã que venho da escola, porque é
mentira. Sei que me há-de ralhar,
mas antes quero que me ralhe do que mentir.»―E tens
razão, disse-lhe
eu. És um rapaz como se quer.» Apertei-lhe a
mão, enquanto que o outro
pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora
todo envergonhado.
Daí a alguns meses, passando pela mesma aldeia e tendo de
falar com o
professor, entrei na escola, onde reconheci imediatamente os meus dois
pequenos; o que não quis mentir, sorria-me, enquanto que o
outro,
vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre sobre os
dois alunos: Oh! disse-me ele, falando do primeiro, é um
magnífico
estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre pronto a
confessar as suas faltas e o que é ainda melhor, a
repará-las. O outro
pelo contrário, é mentiroso, covarde e
incorrigível.»―Não me espanto,
disse eu, já tinha tirado o horóscopo destas duas
crianças; e
contei-lhe o que tinha ouvido.
[21]
Piloto
Piloto era o mais inteligente e o mais afectuoso dos cães, e
o
infatigável companheiro dos brinquedos das
crianças da quinta.
Fazia gosto vê-lo atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que
João lhe
lançava o mais longe que podia; pegava nele, metia-o na boca
e
trazia-o à margem, com grande alegria do pequerrucho e da
sua irmã
Joaninha.
Esta brincadeira recomeçava vinte vezes sem cansar nunca a
paciência do
Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos,
até que o
assobio do criado da quinta chamava o fiel animal às suas
obrigações:
partia então como um raio, para escoltar as vacas, que
levavam aos
pastos, e impedi-las de entrar no lameiro do vizinho.
Quando o hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o
Piloto o guarda
da carroça; e muito atrevido seria quem saltasse
à noite a parede da
quinta.
Uma vez deu prova de uma extraordinária sagacidade; um
jornaleiro, que se
empregava muitas vezes em levar sacos de trigo da quinta para casa,
tentou de noite roubar um saco.
Piloto, que o conhecia, não fez a menor
demonstração de hostilidade
em quanto o homem seguiu o [22]caminho
da quinta, mas, desde que se afastou
tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem
o
largar.
Era como se dissesse: «Onde vais tu com o trigo de meu
dono?»
O ladrão quis pôr então outra vez o
saco donde o tinha tirado; Piloto
não consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir,
até de
manhã; o quinteiro foi dar com ele nesta difícil
posição,
repreendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o
não
desonrar.
Mas o homem ficou com ódio ao cão, e muito tempo
depois, aproveitando a
ausência do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que
correu para
ele sem desconfiança; atou-lhe uma corda ao
pescoço e arrastou-o até à
margem do ribeiro.
Atou uma grande pedra à outra extremidade da corda e
levantando o animal
atirou-o à água; mas arrastado ele
próprio com o peso e com o esforço,
caiu também.
Como não sabia nadar, teria sido despedaçado pela
roda do moinho, se o
corajoso Piloto, obedecendo ao seu instinto de salvador e
desembaraçando-se da pedra mal atada, não tivesse
mergulhado duas vezes
e trazido para terra o seu mortal inimigo.
Este, que estava quase desmaiado, compreendeu quando voltou a si, que o
cão que ele tinha querido afogar, lhe salvara a vida.
Teve vergonha de seu acto miserável; e desde esse dia,
violentou-se a si
mesmo e combateu as suas más
inclinações.
O exemplo do cão corrigiu o homem.
[23]
O rico e o pobre
Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um
dia, voltando de uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e
deitou-se debaixo de uma árvore, à porta de uma
estalagem, junto da
estrada. Estava comendo um bocado de pão que tinha trazido
para jantar,
quando chegou uma bela carruagem em que vinha um fidalguinho, com o seu
preceptor. O estalajadeiro correu imediatamente e perguntou aos
viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que não
tinham tempo,
e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de
vinho.
Martinho estava pasmado a olhar para eles; olhou depois para a sua
côdea de pão, para a sua velha jaqueta, para o seu
chapéu todo roto, e
suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquele menino
tão rico,
em vez do desgraçado Martinho! Que fortuna se ele estivesse
aqui, e eu
dentro daquela carruagem!» O preceptor ouviu casualmente o
que dizia
Martinho e repetiu-o ao seu aluno, que, lançando a
cabeça fora da
carruagem, chamou Martinho com a mão.
―Ficarias muito contente, não é verdade, meu [24]rapaz, podendo trocar a
minha sorte pela tua?»―Peço que me desculpe
senhor, replicou Martinho
corando, o que eu disse não foi por
mal.»―Não estou zangado contigo,
replicou o fidalguinho, pelo contrário, desejo fazer a
troca.»
―Oh! está a divertir-se comigo! tornou Martinho,
ninguém quereria estar
no meu lugar, quanto mais um belo e rico menino como o senhor. Ando
muitas léguas por dia, como pão seco e batatas,
enquanto que o senhor
anda numa carruagem, pode comer frangos e beber vinho.»―Pois
bem,
volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo aquilo que tens e que eu
não tenho, dou-te em troca de boa vontade tudo o que
possuo.» Martinho
ficou com os olhos espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o
preceptor continuou: «Aceitas a troca?»―Ora essa!
exclamou Martinho,
ainda mo pergunta! Oh! como toda a gente da aldeia vai ficar assombrada
de me ver entrar nesta bela carruagem!» E Martinho desatou a
rir com a
ideia da entrada triunfante na sua aldeia.
O fidalguinho chamou os criados, que abriram a portinhola e o ajudaram
a
descer. Mas qual foi a surpresa de Martinho, vendo que ele tinha uma
perna de pau e que a outra era tão fraca, que se via
obrigado a andar em
duas muletas: depois, olhando para ele de mais perto, Martinho observou
que era muito pálido e que tinha cara de doente.
Sorriu para o rapazito com ar benévolo, e
disse-lhe:―Então sempre
desejas trocar? Querias porventura, se pudesses, deixar as tuas pernas
valentes e as tuas faces coradas, pelo prazer de ter [25]uma carruagem e
andar bem vestido?»―Oh! não, por coisa nenhuma!
replicou
Martinho.―«Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria
pobre, se
tivesse saúde. Mas, como Deus quis que fosse aleijado e
doente, sofro
os meus males com paciência e faço por ser alegre,
dando graças a Deus
pelos bens que me concedeu na sua infinita misericórdia.
«Faz o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se
és pobre e comes mal,
tens força e saúde, coisas que valem mais que uma
carruagem, e que não
podem comprar-se com dinheiro.
[26]
Como um camponês
aprendeu o Padre Nosso
Tinha o coração duro, e não dava
esmolas. Foi-se confessar uma vez, e o
confessor deu-lhe por penitência rezar sete vezes o Padre
Nosso.
«Não o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o
aldeão.»
«Pois nesse caso, tornou o confessor, imponho-te por
penitência dar a
crédito um alqueire de trigo a todas as pessoas que to forem
pedir da
minha parte.»
No dia seguinte de manhã apresentou-se o primeiro pobre.
«Como te chamas? perguntou-lhe o camponês.
«Padre―Nosso―Que―Estais―No―Céu, respondeu o
pobre.»
«E o teu apelido?»
«Seja―Santificado―O―Vosso―Nome.»
E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.
Ao outro dia chega segundo pobre.
«Como te chamas?
«Venha―A―Nós―O―Vosso―Reino.»
«E o teu apelido?»
«Seja―Feita―A―Vossa―Vontade.»
[27]E partiu com o seu
alqueire de trigo.
Veio terceiro pobre.
«Como te chamas?»
«Assim―Na―Terra―Como―No―Céu.»
«E o teu apelido?»
«Dai-nos―Hoje―O―Pão―Nosso―De―Cada―Dia.»
E levou o seu alqueire.
Vieram ainda dois pobres sucessivamente, e passou-se tudo da mesma
forma até chegar ao Amen.
Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeão.
«Então já sabes o Padre
Nosso?»
«Não, sr. cura, sei só os nomes e
apelidos dos pobres a quem emprestei
o meu trigo.»
«Quais são? tornou o padre.»
E o aldeão enumerou-lhos a seguir, e pela ordem porque cada
um se tinha
apresentado.
«Já vês, disse o confessor, que
não era muito difícil aprender o Padre
Nosso, porque já o sabes perfeitamente.»
[28]
O talismã
Dois habitantes da mesma cidade exerciam nela a mesma
indústria, mas
com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, o
que não era de espantar, porque o primeiro zelava os seus
negócios com
uma actividade infatigável, enquanto que o segundo, entregue
inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da
direcção da
sua casa.
«Explica-me, disse um dia este último ao seu
colega, qual é a razão
porque a sorte nos trata de um modo tão diferente? Vendemos
as mesmas
mercadorias, a minha loja está tão bem situada
como a tua, e apesar
disso, enquanto tu ganhas, eu não faço
senão perder. E não é porque eu
seja estroina; não bebo, nem jogo. Já tenho
pensado algumas vezes se não
terás tu por acaso algum precioso
talismã.»
«Efectivamente, respondeu o outro, herdei de meu pai um
talismã de uma
virtude incomparável. Trago-o ao pescoço, e ando
assim com ele todo o
dia por toda a casa, do celeiro para a adega, e da adega para o
celeiro. E o caso é que tudo me corre
perfeitamente.»
[29]«Olé
meu querido colega, empresta-me pelo amor de Deus essa
relíquia
preciosa de que tanto necessito; podes ter a certeza de que ta
restituo.»
«Pois vem buscá-la amanhã de
manhã.»
Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente,
apresentou-lhe este uma avelã, através da qual
tinha passado um
fio de seda.
O nosso homem pô-la imediatamente ao pescoço, e
começou a correr toda a
casa com o talismã. Observou então a completa
desordem que por toda a
parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na
cozinha o pão, a carne e os legumes; no celeiro, o milho, o
trigo, o
feijão; na estribaria, o feno e a aveia, roubados das
manjedouras dos
cavalos; viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal
escriturados; viu tudo isto, e que era necessário dar-lhe
remédio,
compreendendo que o dono da casa nunca pode ser substituído
por
terceira pessoa na direcção dos seus
negócios.
Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso
talismã,
agradecendo-lhe duplamente, em primeiro lugar, o seu bom conselho, e em
segundo lugar, a maneira delicada porque lho tinha dado.
[30]
A alma
«Mamã, nem todas as crianças que morrem
vão para o Paraíso. O outro dia
vi levar para o cemitério um menino que tinha morrido; o seu
papá e as
suas duas irmãzinhas acompanhavam o caixão, e
choravam tanto que me
fazia pena. Iam a chorar porque aquele menino tinha sido mau,
não é
verdade?»
«Não; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma,
enquanto choravam seus
pais e suas irmãs, já estava vivendo feliz no
Paraíso.»
«A alma? mamã; não sei o que
é; não compreendo bem.»
«Maria, acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as
duas
pequerruchas.»
«Tive sim, mamã, tive muita pena.»
«Ora bem, o que é que no teu corpo estava
desconsolado e triste? eram os
braços?»
«Não, mamã.»
«Eram as orelhas?»
«Oh! não mamã, era cá
dentro.»
«Esse lá dentro, Maria,
é a tua alma que se alegra ou se entristece,
que te repreende quando fazes o mal, e que está satisfeita
quando
praticas o bem.
[31]
Alberto
Alberto tinha seis anos. Era filho de um jardineiro. Via seu pai e seus
irmãos, que eram activos e laboriosos, plantar
árvores e fazer
sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fruto. Tinha visto um
único
feijão produzir cem feijões e muitas vezes mais,
e de uma talhada de
batata nascerem quarenta batatas magníficas; sabia que a
terra pagava
com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um dia achou uma libra no
quarto do pai, e foi enterrá-la imediatamente no seu
jardinzinho. «Há-de
nascer uma árvore, dizia ele consigo, que dará
libras como uma
cerejeira dá cerejas, e irei entregá-las ao
papá, que ficará muito
contente.» Todas as manhãs ia ver se a libra tinha
nascido, mas não
rebentava nada. Entretanto o pai procurava a libra por toda a parte.
Por
fim perguntou ao Albertinho se a tinha visto.
«Vi papá; achei-a e fui
semeá-la.»
«Como, semeá-la? doido! julgas talvez que vai
nascer como uma couve?»
«Mas, papá, ouvi dizer que o oiro se encontrava na
terra.»
«É verdade, mas não nasce como uma
semente; o oiro não tem vida.»
[32]Desenterrou-se a
libra, e Alberto foi castigado por dispor do que lhe
não pertencia.
Há contudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro,
fazendo-lhe
produzir os mais belos frutos que existem no mundo. Quereis saber como
é? É dando-o aos pobres. Faz-se no
Paraíso a colheita dessa sementeira.
[33]
A
canção da cerejeira
Disse Deus na Primavera: «Ponham a mesa às
lagartas!» E a cerejeira
cobriu-se imediatamente de folhas, milhões de folhas,
fresquinhas e
verdejantes.
A lagarta, que estava dormindo dentro de casa, acordou,
espreguiçou-se,
abriu a boca, esfregou os olhos e pôs-se a comer
tranquilamente as
folhinhas tenras, dizendo: «Não se pode a gente
despegar delas. Quem é
que me arranjou este banquete?»
Então Deus disse de novo: «Ponham a mesa
às abelhas!» E a cerejeira
cobriu-se imediatamente de flores, milhões de flores
delicadas e
brancas.
E a abelha matinal aos primeiros raios da aurora pousou sobre elas,
dizendo: «Vamos tomar o nosso café; e que
chávenas tão bonitas em que o
deitaram!»
Provou com a linguita, exclamando: «Que deliciosa bebida!
Não pouparam o
açúcar!»
No Verão disse Deus: «Ponham a mesa aos
passarinhos!» E a cerejeira
cobriu-se de mil frutos apetitosos e vermelhos.
[34]«Ah! ah!
exclamaram os passarinhos, foi em boa ocasião; temos
apetite,
e isto dar-nos-á novas forças para podermos
cantar uma nova canção.» No
Outono disse Deus: «Levantai a mesa, já
estão satisfeitos.» E o vento
frio das montanhas começou a soprar, e fez estremecer a
árvore.
As folhas tornaram-se amarelas e avermelhadas, caíram uma a
uma, e o
vento que as lançou ao chão erguia-as novamente,
fazendo-as esvoaçar.
Chegou o Inverno e disse Deus: «Cobri o resto!» E
os turbilhões dos
ventos trouxeram a neve, sob cuja mortalha tudo dorme e descansa.
[35]
Os gigantes da montanha e
os anões da planície
Era uma vez uma família de gigantes, que viviam num castelo
na
montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis anos, da altura dum
álamo. Era curiosa e andava com vontade de descer
à planície a ver o que
faziam lá em baixo os homens, que de cima do monte lhe
pareciam anões.
Um belo dia, em que seu pai o gigante tinha ido à
caça e sua mãe estava
dormindo, a jovem giganta desatou a correr para um campo, onde os
jornaleiros trabalhavam. Parou surpreendida a ver a charrua e os
lavradores, coisas inteiramente novas para ela. «Oh! que
lindos
brinquedos!» exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o
avental, que
quase que cobriu o campo. Lançou-lhe dentro os homens, os
cavalos, a
charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no castelo,
onde seu pai estava a jantar.
―Que trazes aí, minha filha?» perguntou ele.
―Olhe, disse ela, abrindo o avental, que lindos brinquedos.
São os
mais bonitos que tenho visto.»
E pô-los em cima da mesa, a um e um,―os cavalos, a charrua e
os
trabalhadores, que estavam [36]todos
espantados, como formigas a quem
tivessem transportado dum formigueiro para um salão. A
gigantinha
pôs-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o
gigante
fez-se sério e franziu o sobrolho. «Fizeste mal,
disse-lhe ele. Isso
não são brinquedos, mas coisas e pessoas que
devem estimar-se e
respeitar-se. Mete tudo isso com cuidado no teu avental, e
põe-no
imediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da
montanha, morreriam de fome, se os anões da
planície deixassem de lavrar
a terra e de semear o trigo.
[37]
A criança, a
anjo e flor
Quando morre uma criança, desce um anjo do céu,
toma-a nos braços, e
desdobrando as asas imaculadas, voa por cima de todos os
sítios que
ela amara durante a sua pequenina existência; o anjo
abaixa-se de
quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que
floresçam
no paraíso ainda mais belas do que tinham sido na terra.
Deus recebe
todas as flores, escolhe uma delas, toca-a com os lábios, e
a flor
escolhida, adquirindo voz imediatamente, começa a cantar os
coros
maviosos dos bem-aventurados. Ora escutai o que disse o anjo a uma
criança morta, que o estava ouvindo como num sonho. Pairaram
primeiro
sobre a casa em que a criança brincara, e depois sobre
jardins
deliciosos, cobertos de flores.
«Qual é a flor que desejas para plantar no
paraíso?» perguntou o anjo.
Havia nesse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa,
magnífica; mas quebraram-lhe o pé, e todos os
seus ramos cheios de
botõezinhos lindíssimos pendiam estiolados para o
chão.
«Pobre roseira! disse a criança ao anjo; vamos
buscá-la para que possa
reflorir no paraíso.»
[38]O anjo foi
buscá-la, e abraçou a criança.
Colheram muitas flores
brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres.
A colheita estava terminada, e contudo não voavam ainda para
Deus. Caiu
a noite silenciosa, e a criança e o seu guia Divino andavam
ainda por
cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas, cheia
de cacos de louça, de vidros partidos, de farrapos, de toda
a casta de
imundície. Entre estes destroços distinguiu o
anjo um vaso de flores
com a terra pelo chão, onde pendiam as longas
raízes duma flor dos
campos, já murcha, e que parecia não poder
reverdecer: tinham-na
atirado para a rua como inútil e morta.
«Vale a pena levantá-la disse o anjo; levemo-la, e
pelo caminho, voando,
te contarei a história da florinha. Lá ao fundo,
lá ao fundo, naquela
rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma criança
miserável e
doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passear
com a ajuda das muletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos
dias
de Verão os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante
meia hora.
Então a criança sentada à janela,
aquecida pelo sol, sem o cansaço do
andar, imaginava-se passeando; não conhecia da floresta, da
fresca
verdura da primavera, senão o ramo de faia, que uma vez o
filho do
vizinho tinha colhido para ele. Suspendia por cima da cabeça
o ramo
verdejante, e, supondo-se debaixo das árvores abrigadas do
sol, sonhava
com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do vizinho trouxe-lhe
flores do campo, e por acaso entre elas apareceu uma que tinha ainda
raízes; [39]o
pequerrucho plantou-a num vaso, e pô-lo à janela,
junto da
cama. A flor plantada por mão abençoada, cresceu,
tornou-se grande, e
todos os anos dava novas flores. Era o seu jardinzinho, o seu
único
tesouro neste mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe
aproveitar os raios do sol até ao último. A flor
aparecia-lhe em
sonhos, porque era para ele que floria, que espalhava o seu aroma e
ostentava as suas cores; quando se sentiu morrer foi para ela que se
voltou.
«Faz hoje um ano que esse pequerrucho habita no
paraíso; a sua querida
flor, esquecida à janela desde então, murchou,
estiolou-se e
atiraram-na à rua finalmente. E contudo esta flor quase seca
é o
tesouro do nosso ramalhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os
canteiros dum jardim realengo.»
«Como sabes tu isso?» perguntou a
criança, que o anjo levava para o céu.
―Sei-o, respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava
em muletas; como não havia de eu reconhecer a minha flor bem
amada!»
A criança abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo
quando entravam
no céu onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas
flores,
levou-as ao coração, mas a que ele beijou foi a
florinha silvestre,
desprezada e murcha: a flor adquiriu voz imediatamente,
pôs-se a cantar
com as almas que rodeiam o Criador, umas junto dele, outras ao longe,
formando círculos que vão aumentando
sucessivamente, multiplicando-se
até ao infinito, povoados de [40]seres
inteiramente felizes, cantando todos
harmoniosamente―desde a criança abençoada
até à humilde florinha do
campo, levantada do lodo, dentre os tristes despojos da rua sombria e
tortuosa.
[41]
Presente por presente
Um grande fidalgo, que se tinha perdido numa floresta, foi dar de noite
à choupana de um pobre carvoeiro. Como este ainda
não tinha chegado, foi
a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o o melhor que
pôde, desculpando-se da miserável hospitalidade
que lhe ia dar, porque
eram batatas cozidas a única coisa que lhe poderia oferecer;
cama não a
tinha, por conseguinte dormiria sobre a palha. Mas o estrangeiro estava
morto de fome e de fadiga; as batatas souberam-lhe mais do que
faisões,
e dormiu melhor em cima da palha do que num leito de
príncipes. Ao
outro dia pela manhã disse isto mesmo à pobre
mulher, gratificando-a ao
despedir-se com uma moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha
dito que a guardasse como uma pequena lembrança, a boa
camponesa julgou
que seria uma medalha, e sentiu que não tivesse um buraquito
para a
trazer ao pescoço. Quando o carvoeiro chegou a casa,
contou-lhe logo o
que lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro
examinou os cunhos e o valor da moeda de ouro, e disse para a mulher:
[42]«Esse
forasteiro era nada mais nada menos do que o nosso príncipe!
E o bom do homem não podia conter-se de alegria, por sua
alteza ter
achado as suas batatas melhores do que faisões.
«É necessário confessar, disse ele com
um ar triunfante, que não há
talvez no mundo um terreno mais favorável do que este para a
cultura das
batatas; hei-de lhe levar um cesto delas, já que as acha
tão boas.
E partiu imediatamente para o palácio com uma
provisão de batatas
escolhidas.
Os lacaios e as sentinelas ao princípio não o
queriam deixar entrar;
mas insistiu energicamente, dizendo que não vinha pedir
nada, e que pelo
contrário vinha trazer alguma coisa.
Foi, pois, introduzido na sala da audiência.
«Meu senhor, disse ele ao príncipe: Vossa alteza
dignou-se recentemente
pedir hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma peça de
ouro, em troca
duma enxerga miserável e de um prato de batatas cosidas. Era
pagar
demasiadamente, apesar de serdes um príncipe muito rico e
poderoso. Eis
o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das
batatas, que vos souberam melhor do que os vossos faisões.
Dignai-vos
aceitá-las, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso
hospede, lá
as encontrareis sempre ao vosso dispor.»
A honrada simplicidade do camponês agradou ao
príncipe, e, como estava
num momento de bom humor, fez-lhe doação de uma
quinta com trinta
jeiras de terra.
[43]Ora o carvoeiro
tinha um irmão muito rico, mas invejoso e avarento, que,
sabendo da fortuna do irmão mais novo, disse consigo:
«Porque não me há
de suceder a mim outro tanto? O príncipe gosta do meu
cavalo, pelo
qual lhe pedi sessenta libras, que ele me recusou. Vou-lhe fazer
presente dele: se deu ao João uma quinta com trinta jeiras
de terra,
simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me
há de
recompensar ainda mais generosamente.»
Tirou o cavalo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do
palácio; recomendou ao criado que o segurasse, e,
atravessando com ar
altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audiência.
«Ouvi dizer, disse ele, que vossa alteza gosta do meu cavalo;
não
tenho querido trocá-lo a dinheiro, mas dignai-vos
permitir-me que vo-lo
ofereça.»
O príncipe viu imediatamente onde o nosso homem queria
chegar, e disse
consigo: «Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que
mereces:
Depois dirigindo-se a ele:
«Aceito a tua dádiva, mas não sei como
agradecer-ta condignamente. Oh!
espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que
faisões. Custaram-me trinta jeiras de terra. Parece-me que
é um bom
preço para um cavalo, que eu poderia ter comprado por
sessenta libras.»
E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.
[44]
O pinheiro ambicioso
Era uma vez um pinheiro, que não estava contente com a sua
sorte. «Oh!
dizia ele, como são horrorosas estas linhas uniformes de
agulhas
verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou um pouco mais
orgulhoso que os meus vizinhos, e sinto que fui feito para andar
vestido
de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!»
O Génio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela
manhã acordou o
pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e admirou-se,
pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros pinheiros, que,
mais sensatos do que ele, não invejavam a sua
rápida fortuna. À noite
passou por ali um judeu, arrancou-lhe todas as folhas, meteu-as num
saco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos pés
à cabeça.
«Oh! disse ele, que doido que eu fui! não me tinha
lembrado da cobiça
dos homens. Fiquei completamente despido. Não há
agora em toda a
floresta uma planta tão pobre como eu. Fiz mal em pedir
folhas de oiro;
o oiro atrai as ambições.
Ah! se eu arranjasse um vestuário de vidro! Era [45]deslumbrante, e o judeu
avarento não me teria despido.»
No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao
sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e
orgulhoso,
fitando desdenhosamente os seus vizinhos. Mas nisto o céu
cobriu-se de
nuvens, e o vento rugindo, estalando, quebrou com a sua asa negra as
folhas de cristal.
«Enganei-me ainda, disse o jovem pinheiro, vendo por terra
todo feito em
pedaços o seu manto cristalino. O oiro e o vidro
não servem para vestir
as florestas. Se eu tivesse a folhagem acetinada das aveleiras, seria
menos brilhante, mas viveria descansado.»
Cumpriu-se o seu último desejo, e, apesar de ter renunciado
às vaidades
primitivas, julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os
outros pinheiros seus irmãos. Mas passou por ali um rebanho
de cabras, e
vendo as folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lhas
todas sem deixar uma única.
O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, já queria
voltar à sua
forma natural. Conseguiu ainda este favor, e nunca mais se queixou da
sua sorte.
[46]
Perfeição
das obras de Deus
A filha.―Oh! mamã quebrou-se-me a agulha.
A mãe.―Vou-te dar outra.
A filha.―Como se fazem as agulhas, mamã?
A mãe.―Vê se adivinhas.
A filha.―Não sei, mamã.
A mãe.―Conheces os metais?
A filha.―Conheço mamã; tenho
lá dentro muitos bocadinhos dentro de
uma caixa.
A mãe.―Ora muito bem, diz-me
lá, as agulhas são de pau, de pedra, de
mármore?
A filha.―Oh! não; são de
metal; mas de que metal?
A mãe.―Antes de perguntar qualquer coisa,
vê sempre se a adivinhas
primeiro.
A filha.―Ora espere!... uma agulha é de
metal: não é de prata, porque
não é branca; não é de
oiro, porque não é de um lindo amarelo muito
brilhante; não é de cobre, porque não
é de um amarelo muito feio, que
cheira mal... Então é de ferro, mamã?
A mãe.―Adivinhaste.
A filha.―Mas, mamã, o ferro
não é liso e brilhante como as agulhas.
[47]A
mãe.―É que é primeiro polido
e preparado de certo modo, e depois já
se não chama ferro, é aço.
A filha.―Bem, as agulhas são de
aço. Agora quero adivinhar como é que
as fazem.
A mãe.―É
impossível, não és capaz disso; mas
hei de levar-te a uma
fábrica onde se fazem agulhas. Hás-de
vê-las fazer, e hás-de gostar
muito.
A filha.―Tinha vontade de saber como se fazem todas
as coisas de que
nos servimos.
A mãe.―Tens razão;
é uma vergonha ignorá-lo.
A filha.―Mamã, deixe-me ver as suas
agulhas.
A mãe.―Olha, aí tens o meu
estojo.
A filha.―Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que
lindas! São tão
fininhas, tão fininhas!... Muita habilidade há-de
ser necessária para
fazer uma coisinha tão delicada!
A mãe.―Lembras-te de ver na feira um
carrinho de marfim puxado por
uma pulga, presa por uma cadeia de oiro?
A filha.―Lembro, mamã; era tão
bonito!
A mãe.―Li num jornal alemão
que um operário chamado Nerlinger fez
um copo de um grão de pimenta, e que dentro deste copo havia
mais
doze...
A filha.―Que pequeninos deviam ser os doze copos
para caberem num
grão de pimenta!
A mãe.―E ainda não
é tudo; cada um desses copinhos tinha as bordas
doiradas, e sustentava-se no pé.
A filha.―Que vontade eu tinha de ver isso!
A mãe.―Tens razão de te
admirares da habilidade dos homens. É
efectivamente espantoso, e [48]deve
saber-se, o modo porque se fabricam
certas coisas; contudo ainda há outras obras mais dignas de
admiração.
A filha.―Quais, mamã?
A mãe.―Já to digo. (Levanta-se.)
A filha.―Que quer, mamã?
A mãe.―Quero que vejas o
microscópio de teu papá.
A filha.―Pois sim; eu gosto de olhar pelo
microscópio.
A mãe.―Este é
magnífico, e aumenta prodigiosamente os objectos. Vais
ver a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como
é fina,
lisa e brilhante... Agora olha; o que é que vês?
A filha.―Meu Deus, que coisa tão feia!
Que agulha tão grosseira!
A mãe.―Vês-lhe buracos, riscos,
asperezas, não é verdade?
A filha.―Parece um prego muito grande e muito mal
feito.
A mãe.―Pois todas essas
imperfeições são verdadeiras, existem
na
agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, é que
não dá por elas.
A filha.―O operário que fez esta agulha
ficaria envergonhado, se a
visse ao microscópio.
A mãe.―Tiremos a agulha, e vejamos outra
coisa.
A filha.―O quê, mamã?
A mãe.―O aguilhãozinho de uma
abelha.
A filha.―Oh! que pequenino, que bonito!... Como
é liso, como é
brilhante!... Mas já sei que visto ao microscópio
há de acontecer o
mesmo que com a agulha.
[49]A
mãe.―Pronto: olha.
A filha (olhando).―É esquisito,
mamã!
A mãe.―Então?
A filha.―Aumentou, aumentou como a agulha, mas
não é áspero, pelo
contrario, é perfeitamente liso... A agulha parecia que
não tinha ponta,
e o ferrãozinho da abelha tem uma ponta tão fina
como um cabelo. Porque
será isto, mamã?
A mãe.―É porque o
operário que fez este aguilhão é muito
mais hábil
do que o que fez a agulha.
A filha.―Quem é esse operário
tão hábil?
A mãe.―É o mesmo que fez o
céu, os astros, a terra, as plantas e as
criaturas.
A filha.―É Deus.
A mãe.―Exactamente. Pois não
é Deus que fez as abelhas e todos os
animais?
A filha.―De certo.
A mãe.―Foi ele por conseguinte que fez o
aguilhão desta abelha; e
aí tens porque o aguilhão é superior
à agulha: é obra de Deus. Mas
continuemos a olhar pelo microscópio. Aqui está
um pedacinho de
musselina finíssima. Olha pelo microscópio; o que
é que vês?
A filha.―Vejo uma rede grossa, desigual, muito mal
feita.
A mãe.―Aqui tens agora um pedacinho de
renda delicadíssima.
A filha.―Essa estou bem certa que há de
ser linda, mesmo vista pelo
microscópio.
A mãe.―Então?
A filha.―É horrorosa... Parece feita de
pelos grosseiros com grandes
buracos desiguais.
A mãe.―As obras do homem são
todas assim.
[50]A filha.―Oh!
mamã, vejamos agora as obras de Deus.
A mãe.―Sabes o que é isto?
A filha.―Sei, mamã, é um
casulo de bicho de seda.
A mãe.―Os fiozinhos que o
compõem são muito finos, muito lisos; olha
pelo microscópio a ver se te parecem desiguais.
A filha (olhando pelo
microscópio).―Não, mamã; os fios
são todos
iguais, e o casulo é sempre muito liso, muito brilhante.
A mãe.―É porque é
obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que há
sobre este papel?
A filha.―Pontinhos feitos com tinta e manchazinhas
redondas feitas
também com tinta.
A mãe.―Estes pontinhos e estas manchas
parecem-te perfeitamente
redondos?
A filha.―Sim, mamã, perfeitamente
redondos.
A mãe.―Vê-os agora ao
microscópio.
A filha.―Oh! já não
são redondos, são todos desiguais.
A mãe.―Tira o papel; vejamos a obra de
Deus. É uma asa de borboleta;
vês que está mosqueada de pequeninas manchas
redondas; olha pelo
microscópio; o que é que vês?
A filha.―Vejo a mesma coisa que via sem o vidro,
só com a diferença
que agora é maior. Que belas que são as obras de
Deus!
A mãe.―Merece bem a pena
estudá-las.
A filha.―De certo. Farei sempre por isso,
comparando-as com as obras
dos homens.
A mãe.―E sempre e em tudo
hás-de encontrar defeitos nas obras do
homem, enquanto que [51]as
obras de Deus, quanto mais se observam, mais
perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a
primeira é que Deus merece tanto a nossa
admiração como o nosso amor; a
segunda é que os homens orgulhosos são
insensatos, porque não podem
fazer nada perfeitamente belo, perfeitamente regular, e as suas obras
mais primorosas são cheias de
imperfeições, se as compararmos com as
obras do Criador.
[52]
João e os seus
camaradas
Era uma vez uma viúva com um filho único. Ao cabo
dum Inverno rigoroso,
possuía apenas um galo, e meio alqueire de farinha.
João resolveu-se a
correr mundo, à busca de fortuna. A mãe cozeu o
resto da farinha, matou
o galo, e disse-lhe:
«O que é que preferes: metade desta merenda com a
minha bênção, ou toda
com a minha maldição?»
«Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos tesouros
há no
mundo eu quereria a tua maldição.»
«Bem, meu filho, replicou a mãe carinhosamente.
Leva tudo, e Deus te
abençoe.»
E partiu. Foi andando, andando, até que encontrou um
jumento, que tinha
caído num atoleiro, donde não podia sair.
«Oh! João, exclamou o burro, tira-me daqui, que
estou quase a
afogar-me.»
«Espera, respondeu João.»
E, formando uma ponte com pedras e ramos de árvores,
conseguiu tirar o
quadrúpede do atoleiro.
[53]«Obrigado,
disse-lhe ele, aproximando-se de João. Se te posso ser
útil,
aqui me tens ao teu dispor. Aonde vais tu?»
―«Vou por esse mundo fora, a ver se ganho a minha
vida.»
«Queres tu que eu te acompanhe?
«Anda daí.»
E puseram-se a caminho.
Ao passarem por uma aldeia, viram um cão perseguido pelos
rapazes da
escola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre
animal correu para João que o acariciou, e o jumento
pôs-se a ornear de
tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir.
«Obrigado, disse o rafeiro a João. Se para alguma
coisa te for
prestável, aqui me tens às tuas ordens. Aonde
vais tu?»
«Vou por esse mundo de Cristo, a ver se ganho a minha
vida.»
«Queres que te acompanhe?»
«Anda daí.»
Quando saíram da aldeia pararam junto duma fonte. O pequeno
tirou a
merenda do alforge, e repartiu-a com o cão. O burro pastou
alguma erva
que por ali havia. Enquanto jantavam, apareceu um gato esfaimado a miar
lastimosamente.
Coitado, exclamou João!» E deu-lhe uma asa do
frango.
―«Obrigado disse o gato. Oxalá que um dia eu te
possa ser útil. Aonde
vais tu?
―«Procurar trabalho. Se queres, anda connosco.»
―De boa vontade.
[54]Os quatro viajantes
puseram-se a caminho. Ao cair da tarde, ouviram um
grito dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um
galo na boca.
«Agarra! agarra!» bradou o pequeno ao
cão.
E no mesmo instante o cão atirou-se atrás da
raposa, que, vendo-se em
perigo, largou o galo para correr melhor. O galo saltando de contente
disse a João:
―«Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde
vais tu?»
―Arranjar trabalho. Queres vir connosco?
―«De boa vontade.»
―Então anda. Se te cansares, empoleira-te no
jumento.»
Os viajantes continuaram a jornada com o seu novo companheiro.
Sentiram-se todos fatigados e não avistavam à
roda nem uma quinta, nem
uma cabana.
―«Paciência, disse João, outra vez
seremos mais felizes. Resignemo-nos
hoje a dormir ao ar livre; além disso a noite
está sossegada, e a relva
é macia.»
Dito isto estendeu-se no chão; o jumento deitou-se ao lado
dele, o cão
e o gato aninharam-se entre as pernas do burro complacente, e o galo
empoleirou-se numa árvore.
Dormiam todos um sono profundíssimo, quando de repente o
galo começou
a cantar.
―«Que demónio! disse o jumento acordando todo
zangado. Porque é que
estás a gritar?»
―«Porque já é dia, respondeu o galo.
Não vês ao longe a luz da
madrugada, que vem rompendo?»
[55]―«Vejo
uma luz, disse João, mas não é do sol,
é duma lanterna.
Provavelmente há ali alguma casa, onde nos
poderíamos recolher o resto
da noite.»
Foi aceita a proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando,
através
dos campos, até que parou junto da casa do guarda dum grande
castelo,
donde subiam gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e
blasfémias horríveis.
―Escutem, disse João; vamos devagarinho, muito devagarinho,
a ver quem
é que está lá dentro.»
Eram seis ladrões armados de pistolas e de punhais, que se
banqueteavam
alegremente, sentados a uma mesa principesca.
―«Que bom assalto acabámos de dar, disse um deles,
ao castelo do
conde, graças ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que
é este
porteiro. À sua saúde!»
―«À saúde do nosso amigo!»
repetiram em coro todos os ladrões.
E dum trago despejaram os copos.
João voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz
baixa:
―«Uni-vos uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que
vos der
sinal, rompei todos ao mesmo tempo numa gritaria
diabólica.»
O burro, levantando-se nas patas traseiras, lançou as
mãos ao peitoril
duma janela, o cão trepou-lhe à
cabeça, o gato à cabeça do
cão e o
galo à cabeça do gato. João deu o
sinal, e estoirou à uma o ornear do
jumento, os latidos do cão, o miar do gato e os gritos
estridentes do
galo.
[56]―«Agora,
bradou João, fingindo que comandava um destacamento,
carregar
armas! Dai-me cabo dos ladrões; fogo!»
No mesmo instante o jumento quebrou a janela com as patas, zurrando
cada vez mais; os ladrões atemorizados refugiaram-se no
bosque, saindo
precipitadamente por uma porta falsa.
João e os seus companheiros penetraram na sala abandonada,
comeram um
excelente jantar, e deitaram-se em seguida―João numa cama, o
burro na
cavalariça, o cão numa esteira ao pé
da porta, o gato junto do fogão e
o galo num poleiro.
Ao principio os ladrões ficaram muito contentes, por se
verem sãos e
salvos na floresta. Mas depois, começaram a reflectir.
―«Era bem melhor a minha cama, do que esta erva
tão húmida, disse um
deles.»
―«Tenho pena do frango que eu começava a saborear,
disse um outro.»
―«E que rico vinho aquele! acrescentou o terceiro.»
―«E o que é mais lamentável, exclamou
um quarto, é ficar-nos lá todo o
dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, tínhamos
tirado das
gavetas.»
―Vou ver se torno lá a entrar!
disse o capitão.
―Bravo! exclamaram os ladrões.
E pôs-se a caminho.
Já não havia luz na casa; o capitão
entrou às apalpadelas, e dirigiu-se
para o fogão; o gato saltou-lhe à cara e
esfarrapou-lha com as garras.
[57]Soltou um grito
doloroso, correu para a porta, mas infelizmente pisou o
rabo do cão, que lhe deu uma grande dentada. Gritou de novo,
e conseguiu
por fim transpor o limiar da porta. Mas quando ia a sair, o galo
atirou-se a ele, rasgando-o com o bico e com as unhas.
―Anda o diabo nesta casa! exclamou o capitão, como poderei
eu sair!»
Julgou encontrar refúgio na estrebaria; mas o burro
atirou-lhe uma
parelha de coices, que o deitou quase morto ao meio do chão.
Passado algum tempo veio a si; apalpou o corpo, viu que não
tinha nem
pernas nem braços partidos, ergueu-se e tornou para a
floresta.
―Então? então?―perguntaram-lhe os camaradas assim
que o viram.
―Nada feito, exclamou ele. Mas antes de tudo arranjem-me uma cama para
me deitar e cataplasmas de linhaça para pôr neste
corpo, que o trago
num feixe. Não podeis imaginar o que sofri. Na cozinha fui
assaltado
por uma velha que estava a cardar lã, e arrumou-me na cara
com o
sedeiro, deixando-me neste miserável estado. Quando ia a
sair a porta,
um demónio dum remendão atravessou-me as pernas
com a sovela. Logo
depois Satanás em pessoa atirou-se a mim,
despedaçando-me com as garras.
Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se
vocês me não
acreditam, vão lá, e experimentem.»
―Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo
ensanguentado: Não seremos nós que lá
tornaremos.»
Pela manhã, João e os seus camaradas
almoçaram [58]ainda excelentemente,
e
partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro que os
ladrões
lhe tinham roubado. Meteram-no cuidadosamente dentro de dois sacos,
com que carregou o jumento. Foram andando, andando, até que
chegaram à
porta do castelo. Diante dessa porta estava o malvado do porteiro, com
uma libré esplêndida, meias de seda,
calções escarlates e cabelo
empoado.
Olhou com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a João:
―Que vindes aqui buscar? Não há lugar para os
recolher, vão-se embora.»
―Não queremos nada de ti, respondeu João. O dono
do castelo far-nos-á
um bom acolhimento.
―Fora daqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a
andar imediatamente, quando não atiro-lhes já
às pernas os meus cães de
fila.»
―Perdão, só um instante, replicou o galo
empoleirado na cabeça do
jumento; não me poderias dizer quem é que abriu
aos ladrões na noite
passada a porta do castelo?»
O porteiro corou. O conde que estava à janela, disse-lhe:
―Ó Bernabé, responde ao que esse galo te acaba de
perguntar.
―Senhor, replicou Bernabé, este galo é um
miserável. Não fui eu que
abri a porta aos seis ladrões.
―Como é então, meu velhaco, tornou o conde, que
tu sabes que eram seis?
Seja como for, disse João, aqui lhe trazemos o [59]dinheiro roubado,
pedindo-lhe unicamente que nos dê de jantar e nos recolha
esta noite,
porque vimos cansados do caminho.
―Ficai certos que sereis bem tratados.
O burro, o cão e o galo, levaram-nos para a quinta. O gato
ficou na
cozinha. E enquanto a João, o conde reconhecido, vestiu-o
dos pés à
cabeça com um vestuário magnífico,
deu-lhe um relógio de ouro, e
disse-lhe:
―Queres ficar comigo? És esperto e honrado, serás
o meu intendente.»
João aceitou a proposta, e mandou vir a sua velha
mãe para o pé de si.
Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre
felicíssimo.
[60]
O rabequista
Em tempos muito remotos os habitantes duma grande cidade levantaram uma
igreja magnífica a Santa Cecília, padroeira dos
músicos.
As rosas mais vermelhas e os lírios mais cândidos
enfeitavam o altar. O
vestido da santa era de filigrana de prata e os sapatinhos eram de
oiro,
feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capela estava
constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi lá
em romaria
um pobre rabequista, pálido, magro, escaveirado. Como a
jornada tinha
sido muito longa, estava cansado, e já no seu alforge
não havia pão nem
dinheiro no bolso para o comprar.
Assim que entrou na capela, começou a tocar na sua rabeca
com tal
suavidade, com tanta expressão, que a santa ficou
enternecida ao vê-lo
tão pobre e ao escutar aquela música deliciosa.
Quando terminou, Santa
Cecília abaixou-se, descalçou um dos seus ricos
sapatos de ouro, e deu-o
ao pobre músico, que tonto de alegria, dançando,
cantando, chorando,
correu à loja dum ourives para lho vender. O ourives,
reconhecendo o
sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e levou-o à
presença [61]do
juiz. Instauraram-lhe processo, julgaram-no, e foi condenado
à morte.
Chegara o dia da execução. Os sinos dobravam
lastimosamente, e o cortejo
pôs-se em marcha ao som dos cânticos dos frades,
que ainda assim não
chegavam a dominar os sons da rabeca do condenado, que pedira, como
última graça, o deixarem-lhe tocar na sua rabeca
até ao último momento.
O cortejo chegou defronte da capela da santa, e quando pararam
suplicou o triste desgraçado, que o levassem lá
dentro para tocar a sua
derradeira melodia.
Os padres e os chefes da escolta consentiram, e o rabequista entrou,
ajoelhou aos pés da santa, e debulhado em
lágrimas começou a tocar.
Então o povo, maravilhado e aterrado, viu Santa
Cecília curvar-se de
novo, descalçar o outro sapato e metê-lo nas
mãos do infeliz músico. À
vista deste milagre, todos os assistentes, levaram em triunfo o
rabequista, coroaram-no de flores, e os magistrados vieram solenemente
prestar-lhe as mais honrosas homenagens.
[62]
Os pêssegos
Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco
pêssegos
magníficos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes
frutos,
extasiaram-se diante das suas cores e da fina penugem que os cobria.
À
noite o pai perguntou-lhes:
―Então comeram os pêssegos?
―Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! Guardei o
caroço, e
hei-de plantá-lo para nascer uma
árvore.»
―Fizeste bem, respondeu o pai, é bom ser
económico e pensar no futuro.»
―Eu, disse o mais novo, o meu pêssego comi-o logo, e a
mamã ainda me deu
metade do que lhe tocou a ela. Era doce como mel.»
―Ah! acudiu o pai, foste um pouco guloso, mas na tua idade
não admira;
espero que quando fores maior te hás-de corrigir.»
―Pois eu cá, disse um terceiro, apanhei o caroço
que o meu irmão deitou
fora, quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz.
Vendi
o meu pêssego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando
for à
cidade.»
O pai meneou a cabeça:
[63]―Foi uma ideia
engenhosa, mas eu preferia menos cálculo.
―E tu, Eduardo, provaste o teu pêssego?
―Eu, meu pai, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso vizinho,
ao Jorge, que está coitadinho com febre. Ele não
o queria, mas
deixei-lho em cima da cama, e vim-me embora.
―Ora bem, perguntou o pai, qual de vós é que
empregou melhor o pêssego
que eu lhe dei?
E os três pequenos disseram à uma:
―Foi o mano Eduardo.
Este no entanto não dizia palavra, e a mãe
abraçou-o com os olhos
arrasados de lágrimas.
[64]
A urna das
lágrimas
Era uma vez uma viúva, que tinha uma filhinha muito linda, a
quem
adorava sobre todas as coisas. Não se separava dela um
só momento; mas
um dia a pobre pequerrucha começou a sofrer, adoeceu e
morreu. A
desditosa mãe, que tinha passado as noites e os dias, sem
repousar um
momento, à cabeceira da filha, julgou endoidecer de
mágoa e de saudades.
Não comia, não fazia senão chorar e
lamentar-se. Uma noite em que estava
acabrunhada, chorando no mesmo sítio em que a filha tinha
morrido,
abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a aparecer a ela, a sua
querida filha, sorrindo com uma expressão
angélica e trazendo nas mãos
uma urna, que vinha cheia até às bordas.
―«Oh! minha querida mãe, disse-lhe ela,
não chores mais. Olha, o anjo
das lágrimas recolheu as tuas nesta urna. Se chorares mais,
transbordará, e as tuas lágrimas
correrão sobre mim, inquietando-me no
túmulo e perturbando a minha felicidade no
paraíso.
A pequenina desapareceu, e a mãe não tornou a
chorar para a não
afligir.
[65]
Reconhecimento e
ingratidão
Os vossos filhos serão para vós como
vós tiverdes sido para vossos pais.
E é natural. As crianças vêem
diariamente o que fazem seus pais, e
imitam-nos. Justifica-se desta maneira o provérbio que
diz,―que a
bênção ou a
maldição dum pai cai sobre a cabeça de
seus filhos,
terminando sempre por se realizar. Citaremos dois exemplos, que merecem
ser meditados.
Um príncipe, passeando no campo, viu um pobre homem, que
andava muito
satisfeito, a lavrar a terra. Pôs-se a conversar com ele.
Depois
de algumas perguntas, soube que o campo não pertencia ao
homem, mas que
trabalhava nele mediante um salário de doze
vinténs por dia. O
príncipe, que para as suas despesas de
administração e
representação
necessitava de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber,
como se vivia com doze vinténs diários,
andando-se ainda por cima
satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeão, que lhe
respondeu:
«Gasto diariamente comigo a terça parte dessa
quantia; outro terço é
para pagar as minhas dividas; [66]e
o resto é para ir juntando algumas
economias.»
Era um novo enigma para o príncipe. Mas o alegre
camponês explicou-lho
deste modo.
«Reparto quanto ganho com os meus velhos pais, que
já não podem
trabalhar, e com os meus filhos, que ainda não têm
força para isso. Aos
primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na minha
infância; e espero que os segundos não me
abandonem, quando os anos
tiverem pesado sobre mim.»
O príncipe, ouvindo isto, quis premiar o honrado
camponês; encarregou-se
da educação de seus filhos; e a
bênção que lhe deram os seus velhos
pais, os seus filhos merecerem-na depois pela sua vez, rodeando
igualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna
dedicação.
Mas posso desgraçadamente citar-vos outro filho, que
procedeu duma
maneira tão indigna com seu velho pai doente e aleijado, que
este teve
de pedir que o levassem para o hospital da misericórdia. O
filho ingrato
recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que nessa mesma tarde
foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse
muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como
última
esmola, um par de lençóis, para cobrir a palha
que lhe servia de leito.
O mau filho escolheu os lençóis mais usados, e
disse ao seu pequeno, de
dez anos de idade, que os fosse levar a esse velho rabujento.
Mas
notou que a criança ao partir tinha escondido um dos
lençóis a um canto,
atrás da porta.
[67]Quando voltou
perguntou-lhe o pai, porque fizera aquilo.
«Foi, respondeu a criança desabridamente, para me
servir mais tarde
deste lençol, quando pela minha vez te mandar
também para o hospital.
[68]
O fato novo do
sultão
Era uma vez um sultão, que despendia em vestuário
todo o seu rendimento.
Quando passara revista ao exercito, quando ia aos passeios ou ao
teatro, não tinha outro fim senão mostrar os seus
fatos novos. Mudava
de traje a todos os instantes, e como se diz dum rei: Está
no conselho;
dizia-se dele: Está-se a vestir. A capital do seu reino era
uma cidade
muito alegre, graças à quantidade de estrangeiros
que por ali passavam;
mas chegaram lá um dia dois larápios, que,
dando-se por tecelões,
disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo.
Não
só eram extraordinariamente belos os desenhos e as cores,
mas além
disso os vestuários feitos com esse estofo,
possuíam uma qualidade
maravilhosa: tornavam-se invisíveis para os idiotas e para
todos
aqueles que não exercessem bem o seu emprego.
―São vestuários impagáveis, disse
consigo o sultão; graças a eles,
saberei distinguir os inteligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade
dos ministros. Preciso desse estofo!»
E mandou em seguida adiantar aos dois charlatães [69]uma quantia avultada,
para que pudessem começar os trabalhos imediatamente.
Os homens levantaram com efeito dois teares, e fingiram que
trabalhavam, apesar de não haver absolutamente nada nas
lançadeiras.
Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante; mas guardavam tudo
isso
muito bem guardado, trabalhando até à meia noite
com os teares vazios.
―«Preciso saber se a obra vai adiantada».
Mas tremia de medo ao lembrar-se que o estofo não podia ser
visto pelos
idiotas. E, apesar de ter confiança na sua
inteligência, achou prudente
em todo o caso mandar alguém adiante.
Todos os habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do
estofo, e ardiam em desejos de verificar se seria exacto.
―Vou mandar aos tecelões o meu velho ministro, pensou o
sultão; tem um
grande talento, e por isso ninguém pode melhor do que ele
avaliar o
estofo.
O honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam
com os teares vazios.
―Meu Deus! disse ele consigo arregalando os olhos, não vejo
absolutamente nada!» Mas no entanto calou-se. Os dois
tecelões
convidaram-no a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opinião
sobre os
desenhos e as cores. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava,
olhava, mas não via nada, pela razão
simplicíssima de nada lá existir.
―Meu Deus! pensou ele, serei realmente estúpido?
É necessário que
ninguém o saiba!... Ora esta! Pois serei tolo realmente! Mas
lá
confessar que não vejo nada, isso é que eu
não confesso.»
[70]«Então
que lhe parece?» perguntou um dos tecelões:
―«Encantador, admirável! respondeu o ministro,
pondo os óculos. Este
desenho... estas cores... magnífico!... Direi ao
sultão que fiquei
completamente satisfeito.»
―«Muito agradecido, muito agradecido», disseram os
tecelões; e
mostraram-lhe cores e desenhos imaginários, fazendo-lhe
deles uma
descrição minuciosa. O ministro ouviu
atentamente, para ir depois
repetir tudo ao sultão.
Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro;
precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Metiam tudo no
bolso, é claro; o tear continuava vazio, e apesar disso
trabalhavam
sempre.
Passado algum tempo, mandou o sultão um novo
funcionário, homem
honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria pronto. Aconteceu a
este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e
não
via nada.
―Não acha um tecido admirável?»
perguntaram os tratantes, mostrando o
magnífico desenho e as belas cores, que tinham apenas o
inconveniente
de não existir.
―Mas que diabo! Eu não sou tolo! dizia o homem consigo. Pois
não serei
eu capaz de desempenhar o meu lugar? É esquisito! mas
deixá-lo, não o
deixo eu.»
Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua
admiração pelo
desenho e o bem combinado das cores.
―É duma magnificência incomparável,
disse [71]ele ao
sultão. E toda a
cidade começou a falar desse tecido
extraordinário.
Enfim o próprio sultão quis vê-lo
enquanto estava no tear. Com um grande
acompanhamento de pessoas distintas, entre as quais se contavam os dois
honrados funcionários, dirigiu-se para as oficinas, em que
os dois
velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem de oiro, nem
de
espécie alguma.
―Não acha magnífico? disseram os dois honrados
funcionários. O desenho
e as cores são dignos de vossa alteza.»
E apontaram para o tear vazio, como se as outras pessoas que ali
estavam
pudessem ver alguma coisa.
―Que é isto! disse consigo mesmo o sultão,
não vejo nada! É horrível!
serei eu tolo, incapaz de governar os meus estados? Que
desgraça que me
acontece!» Depois de repente exclamou:
«É magnífico! Testemunho-vos a
minha satisfação.»
E meneou a cabeça com um ar satisfeito, e olhou para o tear,
sem se
atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu
séquito olharam do
mesmo modo, uns atrás dos outros, mas sem ver coisa alguma,
e no entanto
repetiam como o sultão: «É
magnífico!» Até lhe aconselharam a que
se
apresentasse com o fato novo no dia da grande procissão.
«É magnífico! é
encantador! é admirável!» exclamavam
todas as bocas, e a satisfação era
geral.
Os dois impostores foram condecorados e receberam o titulo de fidalgos
tecelões.
Na véspera do dia da procissão passaram a noite
em claro, trabalhando à
luz de dezasseis velas. [72]Finalmente
fingiram tirar o estofo do tear,
cortaram-no com umas grandes tesouras, coseram-no com uma agulha sem
fio,
e declararam, depois disto, que estava o vestuário
concluído.
O sultão com os seus ajudantes de campo foi
examiná-lo, e os impostores
levantando um braço, como para sustentar alguma coisa,
disseram:
«Eis as calças, eis a casaca, eis o manto. Leve
como uma teia de aranha;
é a principal virtude deste tecido.»
―Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.
―Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os
larápios,
provar-lhe-íamos o fato diante do espelho.»
O sultão despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe
as calças,
depois a casaca, depois o manto. O sultão tudo era voltar-se
defronte do
espelho.
―Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os
cortesãos.
Que desenho! que cores! que vestuário
incomparável!»
Nisto entrou o grão-mestre de cerimónias.
―Está à porta o dossel sobre que vossa alteza
deve assistir à procissão,
disse ele.»
―Bom! estou pronto, respondeu o sultão. Parece-me que
não vou mal.»
E voltou-se ainda uma vez diante do espelho, para ver bem o efeito do
seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto,
não
querendo confessar que não viam absolutamente nada, fingiam
arregaçá-la.
E, enquanto o sultão caminhava altivo sob um [73]dossel deslumbrante, toda a
gente na rua e às janelas exclamava: «Que
vestuário magnífico! Que
cauda tão graciosa! Que talhe elegante!»
Ninguém queria dar a perceber,
que não via nada, porque isso equivalia a confessar que se
era tolo.
Nunca os fatos do sultão tinham sido tão
admirados.
―Mas parece que vai em cuecas», observou um pequerrucho, ao
colo do
pai.
―É a voz da inocência, disse o pai.
―Há ali uma criança que diz que o
sultão vai em cuecas.
«Vai em cuecas! vai em cuecas!» exclamou o povo
finalmente.
O sultão ficou muito aflito porque lhe pareceu que realmente
era
verdade. Entretanto tomou a enérgica
resolução de ir até ao fim, e os
camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda
imaginária.
[74]
Boa sentença
Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro dum alforge uma
quantia em oiro bastante avultada. Anunciou que daria cem mil
réis
de alvíssaras a quem lha trouxesse. Apresentou-se-lhe em
casa um honrado
camponês levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro,
e disse:
―Deviam ser oitocentos mil réis, que foi a quantia que eu
perdi; no
alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste
adiantados os cem mil réis de alvíssaras: estamos
pagos por conseguinte.»
O bom camponês, que nem por sombras tocara no dinheiro,
não podia nem
devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o
juiz,
que, vendo a má fé do avarento, deu a seguinte
sentença:
―Um de vós perdeu oitocentos mil réis; o outro
encontrou um alforge
apenas com setecentos: Resulta daí claramente que o dinheiro
que o
último encontrou não pode ser o mesmo a que o
primeiro se julga com
direito. Por consequência tu, meu bom homem, leva o dinheiro
que
encontraste, [75]e
guarda-o até que apareça o indivíduo
que perdeu somente
setecentos mil réis. E tu, o único conselho que
passo a dar-te, é que
tenhas paciência até que apareça
alguém que tenha achado os teus
oitocentos mil réis.
[76]
Os animais agradecidos
Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a quem
perguntou como se chamava, de donde era, e que oficio tinha. Este
respondeu:
―«Senhor: eu sou um desgraçado, um
miserável; nasci no vosso reino, e
chamo-me Ingratidão.»
―«Se pudesse contar com a tua fidelidade, disse o rei,
tomava-te ao meu
serviço.»
O nosso homem prometeu ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse.
Desde que chegaram a palácio, deu tais provas de habilidade,
mostrou-se
tão esperto e tão solícito, que o rei
afeiçoou-se-lhe de tal modo, que
o nomeou seu intendente, confiando-lhe a
administração da sua casa.
Deslumbrado por uma fortuna tão rápida, o seu
orgulho desde então não
conheceu limites; maltratava os inferiores, e não tinha
compaixão dos
desventurados.
Ora, na vizinhança do palácio havia uma floresta
cheia de animais
selvagens e perigosíssimos. O intendente mandou
aí fazer por toda a
parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras,
caindo
dentro, pudessem ser agarradas. [77]Um
dia que o intendente atravessava a
floresta, ia tão absorvido pelos seus pensamentos
orgulhosos, que se
precipitou ele mesmo dentro duma das covas.
Passado um instante, caiu um leão dentro do mesmo
poço; caiu depois um
lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O
governador, ao ver-se em tão extraordinária
companhia, ficou tão
horrorizado, que lhe embranqueceram os cabelos; e toda a
esperança de
salvação lhe parecia inteiramente perdida, porque
por mais que gritasse,
ninguém o vinha socorrer.
Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre,
chamado António, que todos os dias ia rachar lenha
à floresta, para
ganhar o pão necessário à sua mulher e
aos seus filhos. António também
lá foi nesse dia, como de costume, e pôs-se a
trabalhar não longe da
cova em que caíra o intendente, cujos gritos de
aflição não tardou a
ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem era que estava
ali.
―«Sou o governador do palácio do rei, e, se me
tirares daqui, prometo
encher-te de riquezas; estou em companhia dum leão, dum lobo
e duma
enorme serpente.»
―«Eu, respondeu o lenhador, sou um miserável
jornaleiro, não tendo para
sustentar a minha família, mais que o produto do meu
trabalho; bastava
um dia perdido para me causar um grande desarranjo; vê
lá pois, se
cumpres a tua promessa?
O intendente continuou:
―«Pela fé que devo a Deus e a el-rei nosso senhor,
[78]juro-te que
cumprirei a minha palavra.»
Confiado nisto o rachador de lenha foi à cidade, e voltou
com uma corda
muito comprida, que deixou correr dentro do abismo. O leão
atirou-se a
ela, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era
o intendente.
Quando chegou acima, o leão agradeceu ao seu salvador com a
maior
amabilidade, e foi-se embora à procura de jantar, porque
tinha fome.
António deitou outra vez a corda ao fundo do
poço, e, julgando tirar o
governador, enganou-se, porque era o lobo; à terceira vez
subiu a
serpente; foi necessário fazer uma quarta tentativa, para
sair o
governador. Este não perdeu tempo em agradecimentos, e
partiu a correr
para o palácio. O jornaleiro voltou para casa, e contou
à mulher tudo o
que se tinha passado, não lhe esquecendo, é
claro, as brilhantes
promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manhã,
foi o pobre
homem bater à porta do palácio. O porteiro
perguntou-lhe o que queria.
―«Faça-me o favor, respondeu o rachador de dizer a
s.ex.ª o intendente
que o homem com quem ele esteve ontem na floresta lhe deseja
falar.»
O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou:
―«Vai dizer a esse homem, que eu não vi
ninguém na floresta; que se
ponha a andar, porque o não conheço.»
O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito.
O pobre homem tornou para casa mui descorçoado, [79]e contou à
mulher a
odiosa perfídia de que tinha sido vitima.
A mulher disse-lhe:
―«Tem paciência; o sr. intendente estava hoje
decerto muito ocupado, e
foi talvez por isso que te não pôde
receber.»
Estas palavras sossegaram o rachador que outra vez nutriu
esperanças.
Na manhã seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo
à porta do palácio.
Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos ásperos, que
não tornasse
ali a aparecer, quando não ver-se-ia obrigado a empregar
meios
violentos. A mulher ainda desta vez procurou consolá-lo:
―«Experimenta terceira e última vez, disse-lhe
ela, talvez Deus o
inspire melhor. E se assim não for, ainda que te custe,
não penses mais
nisso.»
No dia seguinte o bom do homem voltou à carga; e tendo o
porteiro
consentido à força de suplicas em
anunciá-lo ainda ao governador, este
encolerizado atirou-se praguejando fora do quarto, e crivou o pobre
homem duma tal chuva de bengaladas, que o deixou quase morto no meio do
chão. A mulher dele, sabendo disto, correu imediatamente com
um
burro, pôs-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As
feridas
levaram-lhe seis meses a curar, estando sempre de cama, vendo-se
obrigado a contrair dividas para pagar ao médico. Quando
finalmente
tinha recobrado algumas forças, voltou ao bosque segundo o
costume para
fazer alguma lenha. Apenas lá chegou, apareceu-lhe o
leão, que ele
tinha ajudado a sair do poço. O leão conduzia um
burro diante de si, e
[80]este burro estava
carregado de sacos cheios de preciosidades. O leão,
vendo António, parou e inclinou-se diante dele com um ar de
respeitoso
agradecimento. Depois disto continuou o seu caminho, fazendo-lhe sinal
de que ficasse com o jumento. António doido de alegria levou
o animal
para casa, abriu os sacos, e viu que estava rico.
No dia seguinte, voltando de novo à floresta, apareceu-lhe o
lobo, que
o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe desta maneira o quanto
lhe era agradecido. Quando a tarefa estava concluída, e
tinha carregado
o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente, que ele tinha
tirado do fôjo, e que trazia na ponta da língua
uma pedra preciosa, em
que brilhavam três cores,―o branco, o preto e o vermelho.
Quando a
serpente chegou ao pé do rachador de lenha, deixou cair a
pedra junto
dele, e depois dando um salto desapareceu no matagal.
António
levantou a pedra, examinou-a por todos os lados, para ver que
propriedade ou virtude ela teria. Para isto foi ter com um velho,
afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os astros. Este,
assim que viu a pedra, ofereceu-lhe por ela uma grande quantia.
António respondeu-lhe que a não queria vender,
mas simplesmente saber se
seria boa.
O velho respondeu:
―«São três as virtudes desta pedra:
abundância contínua, alegria
imperturbável e luz sem trevas. Se alguém ta
comprar por menos dinheiro
do que vale, tornará imediatamente para a tua
mão.»
António ficou muito contente com esta resposta, [81]agradeceu ao velho da
ciência maravilhosa, e correu a contar à mulher a
sua felicidade. Como
se imagina, graças à virtude da famosa pedra,
não lhe faltaram daí em
diante, nem honras nem riquezas.
Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia destas prosperidades, mandou
chamar António, e mostrou-lhe desejos de adquirir o precioso
talismã.
António, vendo que semelhante desejo era uma ordem,
respondeu:
―«Devo prevenir a vossa majestade de que, se esta pedra me
não for paga
pelo que vale, tornará ela mesma para o meu poder.»
―«Hei de pagar-ta bem, disse o rei.»
E mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de
manhã,
António achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher
sabendo isto
disse-lhe:
―«Torna a levá-la ao rei imediatamente;
não vá ele persuadir-se que
lha furtaste.»
O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou à
presença de sua
majestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra
preciosa.
―«Mandei-a meter com todo o cuidado dentro dum cofre de
ferro,
fechado com sete chaves, disse o rei.»
António mostrou-lhe então a jóia
preciosa, e o rei ficou
extraordinariamente espantado, e quis saber como ele tinha adquirido
semelhante tesouro.
António contou-lhe tudo que tinha havido, a
ingratidão do governador e o
reconhecimento dos animais ferozes. O rei indignado, mandou chamar o
seu
intendente, e disse-lhe:
[82]―«Homem
perverso, com justo motivo te puseram o nome de Ingratidão,
porque és mais falso e mais pérfido que os
animais ferozes, e pagaste
com o mal o bem que te fizeram. Mas justiça será
feita. Dou a António as
tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o castigo de seres
enforcado.»
Admiraram todos a sentença do rei, e António
desempenhou as suas altas
funções com tanta sabedoria e bondade, que depois
da morte do rei foi
escolhido para o substituir, e reinou pacificamente durante longos anos
gloriosos.
[83]
O ermitão
Um homem, animado pela mais ardente crença religiosa,
deliberou
retirar-se a uma gruta solitária para se consagrar
inteiramente ao
trabalho da sua salvação. Jejuando sempre,
orando, ciliciando-se, os
seus pensamentos não se desviavam nunca da ideia de Deus.
Depois de ter
assim vivido durante muitos anos, uma noite lembrou-se de que
já tinha
merecido um lugar glorioso no paraíso, e podia ser contado
entre os
santos mais notáveis.
Na noite seguinte o anjo Gabriel apareceu-lhe, e disse-lhe:
―Há no mundo um pobre músico, que anda de porta
em porta, tocando viola
e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.
O ermitão, atónito, ao ouvir estas palavras,
levantou-se, agarrou no
seu bordão, foi em busca do músico e mal o
encontrou disse-lhe:
―Irmão, diz-me que boas obras fizeste, e por meio de que
orações e
penitências te tornaste agradável a Deus.
―Ora, respondeu-lhe o músico, abaixando a cabeça,
santo padre, não
zombes de mim. Nunca fiz [84]boas
obras, e quanto a orações não as sei,
pobre de mim, que sou um pecador. O que faço é
andar de casa em casa a
divertir os outros.»
O austero ermitão continuou a insistir:
―Estou certo que, no meio da tua existência vagabunda,
praticaste algum
acto de virtude.»
―Em verdade não poderia citar nem um
só.»
―Mas então como chegaste a este estado de pobreza? Tens
vivido
loucamente como os que exercem a tua profissão? Dissipaste
frivolamente
o teu património e o produto do teu
ofício?»
―Não; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo
marido e
filhos tinham sido condenados à escravidão para
pagar uma dívida. Essa
mulher era nova e bela, e queriam seduzi-la. Recolhi-a em minha casa,
protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possuía
para resgatar a
sua família, e levei-a à cidade, onde ela devia
encontrar-se com seu
marido e com seus filhos. Mas quem não teria feito outro
tanto?»
A estas palavras o ermitão pôs-se a chorar, e
exclamou:
―Nos meus setenta anos de solidão nunca pratiquei uma obra
tão
meritória, e apesar disso chamo-me o homem de Deus, enquanto
que tu não
passas dum pobre músico.»
[85]
Carlos Magno e o abade de
S. Gall
Carlos Magno numa das suas frequentes viagens viu o abade de S. Gall,
preguiçosamente reclinado sobre almofadas à porta
da abadia, fresco,
rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens
enérgicos e
activos, e o abade era indolente. Além disso o imperador
tinha mais
dum motivo de queixa contra ele.
―Bons dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submeter
à
sua esclarecida razão três perguntas,
às quais terá a bondade de me
responder daqui a três meses, contados dia a dia, em
sessão solene do
nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu valor em
dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao
mundo;
em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v.
rev.ma vier à minha
presença, pensamento que deve ser um erro. Trate
de arranjar resposta satisfatória a tudo, aliás
deixa de ser abade de S.
Gall, e tem de abandonar a abadia, montado num burro com a cara voltada
para o rabo.»
O abade não sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as
escolas, mas
os doutores mais [86]famosos
pela sua ciência, não lhe souberam dar
resposta. No entanto os dias iam correndo, e a época fatal
aproximava-se; já não faltava senão um
mês, já não faltavam senão
semanas, e afinal só dias. O abade, que noutro tempo era
gordo e
anafado, estava magro como um esqueleto. Perdera o sono e o apetite.
Andava errante nos bosques lamentando a sua desgraça, quando
se
encontrou com o seu pastor.
―Bons dias senhor abade. Parece que está mais magro!
Está doente?»
―Estou, meu caro Félix, estou muito doente.»
―Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa
curar.»
―Infelizmente não são ervas que eu preciso, mas
resposta às minhas três
perguntas.»
―É então latim?»
―Não, não é latim, senão os
doutores tinham-me arranjado tudo.»
―Visto que não é latim, queira v. rev.ma
dizer-me o que é: minha mãe
era uma pobre de Cristo, mas tinha resposta para tudo.»
Quando o abade lhe formulou as três perguntas, o pastor
atirou com o
barrete ao ar, e disse-lhe:
―Se é apenas isso, eu me encarrego de responder por si, e v.
rev.ma
pode continuar a engordar; mas para isso é
necessário que eu vista o seu
hábito.»
Quando chegou o dia, o pastor disfarçado com o
hábito do abade de S.
Gall, foi introduzido na sala onde o imperador presidia o conselho
imperial.
―Então, senhor abade, parece que está mais magro,
deu-lhe muito que
pensar a chave do [87]enigma?
Vamos lá a ver a primeira pergunta: Quanto
valho eu em dinheiro?»
―Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Cristo foi vendido por
trinta dinheiros, sua majestade vale à justa vinte e nove,
só um
dinheiro menos.»
―Bravo, senhor abade, a resposta é hábil, e na
realidade não posso
deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos à segunda
pergunta, não há de
ser tão fácil dar a resposta. Vamos lá
a ver: quanto tempo levaria eu a
dar a volta ao mundo?»
―Senhor, se vossa majestade se levantar ao romper do dia e puder seguir
constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e
quatro horas.»
―Decididamente, v. rev.ma é um grande
finório, e desta vez,
confesso-me vencido; mas a terceira, não dessas à
que se responde com
suposições. Quem lhe há de dizer o que
eu estou pensando, e como me há
de provar que este pensamento é um erro? Tem a palavra
senhor abade.»
―Senhor: Vossa majestade imagina que eu sou o abade de S. Gall;
está
enganado, porque eu sou o seu pastor.»
―Mas então tu é que deves ser o abade de S. Gall,
e desde já o ficas
sendo.»
―Não sei latim, mas, se vossa majestade quer fazer-me um
favor,
peço-lhe outra coisa.»
―Não tens mais que falar.»
―Peço a vossa majestade que perdoe ao meu amigo.»
Carlos Magno não era homem que faltasse à sua
palavra.
[88]
A boneca
Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma história―a
história duma
boneca!
Não há muitos anos, mas ainda não era
a Cordoaria do Porto o ameno
jardim, onde a infância folga por entre maciços de
flores e sob o
sorriso do sol, sem que lhe enegreça o espírito a
vista dos dois
monumentos, que a meu ver simbolisam as duas mais horríveis
calamidades,
que podem aniquilar um homem―o hospital e a cadeia!―ainda
não há
muitos anos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da
feira, divertindo-me a meu modo.
Cansado das inúmeras figuras, que tinha visto passar por
aquela
espécie de lanterna mágica, dispunha-me a dar por
findo o espectáculo,
quando novos personagens me chamaram a atenção.
Eram os meus vizinhos ricos.
Aqui é preciso uma rápida
explicação.
Das famílias da minha vizinhança, só
conheço três.
Qual destas três famílias será mais
feliz?...
Pelo que tenho notado, não têm que invejar umas
às outras.
[89]São
todas felizes; cada qual a seu modo.
Vi, pois, chegar os meus vizinhos ricos.
Parou o carro, o criado saltou da almofada e veio, de chapéu
na mão e
dorso ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu vizinho saltou,
tomou nos braços a filhinha e depô-la no
chão, e oferecendo, em
seguida, a mão à esposa, para a ajudar a apear,
dirigiu-se com ela e
com a menina para a barraca onde eu estava.
Não havia ali segredo a surpreender.
Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que
parecia agradecer àquela formosa criança a
manifestação de qualquer
desejo.
No fim de meia hora possuía a minha pequena vizinha com que
fazer a
felicidade de dez crianças menos abastadas.
Tinha o necessário para montar completamente a casa duma
boneca...
rica.
Faltava apenas a dona da casa―a boneca.
Todo risos e atenções, o lojista apresentou o que
tinha de melhor.
Depois de muita hesitação e de, já com
os olhos, já com a voz, consultar
a mamã, a gentil criança acabou por escolher uma
magnífica boneca de
dois palmos de altura, com cabelo em bandeaux e
olhos azuis.
Uma boneca como as outras: cabeça e colo de massa, corpo de
pelica
recheada, braços e pernas de pau.
Uma vive na loja da casa, que habito. É uma tribo de
crianças, que fazem
o martírio e a alegria da pobre mãe, e tem por
chefe um honrado
sapateiro.
[90]Alguns deles, se
andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem
anjos, caídos do céu sobre um monte de lama.
São os meus vizinhos pobres.
A segunda compõe-se de marido, mulher e filha, e ocupa a
casa
imediata.
É como se costuma dizer, gente que vai muito bem
com a sua vida.
A filha que terá dez anos, tem destas faces rosadas, rijas e
carnudas,
cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que resistem
à
pressão.
São os meus vizinhos remediados.
A terceira é a dos meus vizinhos ricos.
Casa nobre, jardim espaçoso, cavalos, criados, nome inscrito
nas
listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do
estado―nada falta àquela ditosa gente!
Compõe-se igualmente de marido, mulher e filha.
Que formosa criança!... Terá oito anos.
Franzina e pálida, com os cabelos negros, os olhos grandes e
cismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas mãos de dedos
compridos e
esguios, terminados por unhas duma cor de rosa transparente, que
não
sinta antecipada inveja do feliz namorado―provavelmente ainda a
crescer―que há-de um dia ter o direito de lhas cobrir de
beijos.
Feita a compra, o pai pagou, chamou o criado, e este mudou todas
aquelas preciosidades de sobre o balcão da barraca para
dentro do
carro.
A boneca teve a honra de ser transportada pela aristocrática
criança.
[91]Saí
dali, logo que o trem rodou, e fui fazendo até casa
variadíssimas
considerações, sugeridas pela quase
indiferença, com que aquela menina
recebera brinquedos, que representavam um par