The Project Gutenberg EBook of Noções elementares de archeologia by Joaquim Possidónio Narciso da Silva This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at www.gutenberg.net Title: Noções elementares de archeologia Author: Joaquim Possidónio Narciso da Silva Commentator: I. de Vilhena Barbosa Release Date: November 29, 2005 [EBook #17186] Language: Portuguese Character set encoding: ISO-8859-1 *** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOÇÕES ELEMENTARES DE ARCHEOLOGIA *** Produced by Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) NOÇÕES ELEMENTARES DE ARCHEOLOGIA OBRA ILLUSTRADA COM 324 GRAVURAS E UMA INTRODUCÇÃO Do Sr. I. DE VILHENA BARBOSA Socio Effectivo da Academia Real das Sciencias DEDICADA Á MEMORIA DO ILLUSTRE ARCHEOLOGO MR. A. DE CAUMONT por JOAQUIM POSSIDONIO NARCISO DA SILVA Architecto da Casa Real, Socio correspondente do Instituto de França, Honorario do Instituto Real dos Architectos Britannicos, da Sociedade Franceza de Archeologia, da Sociedade Central dos Architectos de Paris, correspondente da Academia Real de S. Fernando, fundador do Museu de Archeologia em Lisboa, etc. etc. etc. MEDALHA DO CONGRESSO ARCHEOLOGICO DE LOCHES CONFERIDA NA SUA SESSÃO DE JUNHO DE 1869 LISBOA LALLEMANT FRÈRES 6, Rua do Thesouro Velho, 6 1878 A SUA ALTEZA REAL O SERENISSIMO PRINCIPE *D. Carlos Fernando Pedro d'Alcantara* DUQUE DE BRAGANÇA *Com a mais respeitosa homenagem* O. D. C. *O humilde auctor d'este compendio* JOAQUIM POSSIDONIO NARCISO DA SILVA. INTRODUCÇÃO I Não conheceram os povos da antiguidade a archeologia, pelo menos como uma sciencia. Foi ignorada dos proprios gregos e romanos, não obstante a sua brilhante civilisacão, e apezar dos primeiros lhe terem creado o nome, composto de dois vocabulos seus: _archaios_, que quer dizer antigo, e _logos_ discurso. E tanto a desconheciam, confundindo-a com a historia, que alguns escriptores gregos e israelitas do principio da era christã, deram o nome de archeologia a obras que tratavam simplesmente da historia de povos, embora desde tempos remotos, ou que se occupavam de antiguidades, mas limitando-se a descreverem os monumentos, sem entrarem nas apreciações e conjecturas, que levam o archeologo ao conhecimento do viver dos povos da antiguidade. Os generaes romanos, quando voltavam d'essas emprezas guerreiras que accrescentavam ao imperio novas provincias, traziam mil objectos preciosos, variadissimas manifestações da arte e da industria dos vencidos, curiosos utensilios e ricos ornamentos em marmore, bronze, prata e oiro, obra de diversos povos, e differentes seculos. Pois os romanos applaudiam e apreciavam essas preciosidades, que vinham enriquecer a sua capital, constituindo-a um verdadeiro museu archeologico, apreciavam-n'as, repito, sómente como despojos arrebatados aos vencidos pelas suas aguias triumphantes, como tropheus de victorias, que glorificavam o seu nome, e estendiam o seu poderio. Nem os vasos sagrados do templo de Jerusalem, preciosos pela materia e ricos de tradições antiquissimas; nem os obeliscos do Egypto, padrões de tão remotas eras; nem as famosas estatuas da Grecia, sublimes creacões do genio humano em uma das quadras mais notaveis da historia geral da civilisacão; nem estes, nem outros objectos archeologicos e primores d'arte, que eram transportados a Roma a todo o momento, nos tempos da sua grandeza, faziam meditar os romanos sobre as extinctas civilisações, que muitos d'esses objectos recordavam, com o intuito de devassarem os mysterios da vida d'essas nações, sumidas nos abysmos do passado. Pausanias, geographo e historiador grego que, nas suas longas viagens, visitou a maior parte do mundo então conhecido, vindo depois estabelecer a sua residencia em Roma, no anno 170 do nascimento de Christo, escreveu a _Descripção da Grecia_, na qual trata com minuciosidade de todos os seus monumentos. Porém limita-se a descrevel-os como historiographo, sem os estudar e apreciar como archeologo. Baqueou o imperio romano ao duro embate dos barbaros do norte; e o mesmo tufão, que o varreu da face da terra, apagou aquelle facho resplandecente, que irradiava a luz da civilisacão para todas as regiões do orbe antigo, onde chegavam as armas da soberba Roma. Succederam-se, portanto, a tamanho explendor as mais crassas trevas da ignorancia e da barbaridade, em que a Europa esteve mergulhada durante seculos, até que emfim raiou a aurora da regeneração social, renascendo as letras e as artes. Foi então que surgiram os primeiros ensaios da archeologia. Dante e Petrarca, os illustres iniciadores da litteratura moderna, foram tambem os creadores da sciencia archeologica, precedendo a todos os sabios na investigação dos manuscriptos antigos, no descobrimento e decifração de velhas inscripções, e no estudo das moedas, em que o segundo se occupou. Não tardaram a ter imitadores que procurassem desvendar, sob o pó dos seculos, os mysterios da historia. A descoberta de algumas pinturas antigas, em excavações casuaes, quando os espiritos já começavam a raciocinar sobre a theoria da arte, e quando já se principiava a apreciar os monumentos da antiguidade como annaes do viver das gerações passadas, foi um novo incentivo para os estudiosos, e um raio de luz nos escurissimos caminhos da nova sciencia. Uma coincidencia feliz veio dar maior impulso e mais auctoridade aos estudos archeologicos. Miguel Angelo Buounarotti e Raphael Sanzio d'Urbino assombravam Roma e a Europa culta com os explendores do seu talento na pintura, na esculptura e na architectura, quando Felix de Fredi descobriu n'aquella cidade, em 1506, entre as ruinas das Thermas de Tito, o famoso grupo de Laocoonte e seus dois filhos envolvidos pelas serpentes. Enlevados n'este grande primor da esculptura antiga, aquelles dois eximios artistas procuraram com desvelada applicacão descobrir o nome do auctor d'esta maravilha da arte, e a era em que foi executada. Caminhando de investigação em investigação visitaram e estudaram attentamente as grandes ruinas da architectura grega e romana, os restos preciosos da sua admiravel esculptura e as inscripções lapidares. Estes estudos foram tão applaudidos, e tão reconhecidas as suas vantagens, que não tardou a fundar-se em Florença, sob o governo dos Médicis, a primeira escola publica d'antiguidades. Tal foi o começo da archeologia. II O exemplo de Miguel Angelo e de Raphael, teve imitadores pouco depois em França, Allemanha, e outras nações, onde alguns homens estudiosos, não cultores das artes, mas apreciadores das suas obras, se occuparam de investigações archeologicas, posto que em geral restrictas á numismatica e á epigraphia. Este segundo periodo da nova sciencia, que é denominado dos _antiquarios_, abrange os fins do seculo XVI, todo o XVII e a primeira metade do XVIII. Portugal não foi indifferente a este progresso. Poderia dizer que n'este passo, como em muitos outros, se antecipou ás mais nações, pois que no principio da segunda metade do século XV, D. Affonso, marquez de Valença, filho primogenito de D. Affonso I, duque de Bragança, indo acompanhar a Italia e Allemanha a imperatriz D. Leonor, filha d'el-rei D. Duarte, e esposa do imperador d'Allemanha Frederico III, comprou e reuniu durante a sua longa viagem muitos objectos d'antiguidade e de historia natural, com os quaes, na sua volta á patria, organisou um museu, que seu pae augmentou com varios cippos, lapidas e fragmentos d'archeologia romana, descobertos no Alemtejo. Foi este o primeiro museu, que se creou n'este reino, e creio que precedeu a todos os que se crearam na Europa. Todavia, apezar d'este estimulo, o estudo d'antiguidades só teve principio entre nós passado um seculo; e foi de fóra que então nos veio o incentivo. Graças ás intimas relações do nosso paiz com as principaes potencias maritimas da Europa, desde a entrada do seculo XVI, estabelecidas pelos descobrimentos e conquistas dos portuguezes, que fizeram de Lisboa o emporio das mercadorias do Oriente, o movimento scientifico, que lavrava n'aquellas nações, não se demorava muito em se fazer sentir entre nós. Porém no caso de que trato abreviou esse periodo, sem duvida, a viagem de um nosso compatriota, que alcançou nas letras nome illustre. André de Rezende, depois de ter cursado a universidade de Salamanca, e de ter tomado capello em theologia, levado do desejo de se instruir, percorreu a França e os Paizes Baixos, demorando-se em Paris e em Bruxellas. O trato que teve n'estas cidades com alguns sabios, suscitou-lhe o amor dos estudos archeologicos. Regressando á patria entregou-se com ardor e perseverança a esses estudos, colligindo alguns cippos e outras lapidas com inscripções romanas, que collocou no jardim da casa em que habitava na cidade d'Evora, investigando e decifrando um grande numero de monumentos epigraphicos do nosso paiz, e compondo por fim varias obras, em que dava conta d'essas locubrações predilectas. Duas viram a luz da imprensa, com o titulo de: _Historia das antiguidades d'Evora_, publicada em 1553; e _Libri quatuor de antiquitatibus Lusitàniæ_, impressa em 1593, vinte annos depois da sua morte. D'entre as que deixou manuscriptas sobre o mesmo genero d'assumptos, citarei: _Monumenta, romanorum in Lusitanis urbibus_. Assim começaram estes estudos em Portugal; e do mesmo modo continuaram n'esse seculo e no seguinte, restrictos todavia á época do dominio romano. As nações que percorriam as vias do progresso com passo firme e resoluto mostraram-se empenhadas no desenvolvimento dos estudos archeologicos, desde o meiado do seculo XVII, fundando academias ou escolas, onde se ensinava ou discursava sobre antiguidades. Então os adeptos da nova sciencia, sequiosos de emoções e buscando alargar a área dos seus estudos, visitam a Grecia, exploram o solo, desenterram soberbos monumentos, escrevem e publicam em muitos livros os resultados das suas investigações. Illustraram-se n'esta cruzada scientifica, principalmente, Jacob Span, e Bernardo de Montfaucon, francezes, e Wheler, João Augusto Ernesti, João Jorge Groevinus, Gronovius, allemães. Todavia nos seus vastos repositorios de memorias e dissertações, posto que tratem mais particularmente das antiguidades gregas e romanas, já se occupam de todas as partes da archeologia. III Este impulso fez-se sentir em o nosso paiz nos fins do primeiro quartel do seculo XVIII. Fundando-se em Lisboa no anno de 1720, a academia real de Historia Portugueza, foi-lhe commettido, juntamente com a tarefa de escrever a historia de Portugal, o encargo de velar pela conservação dos monumentos nacionaes, obstando a que se destruissem, ou fossem levados para fóra do reino, os objectos d'antiguidade, já descobertos, ou que viessem a descobrir-se. Fundaram-se em Lisboa alguns museus de antiguidades, sendo um no proprio edificio da academia (o palacio dos duques de Bragança, na rua do Thesouro Velho), e os outros particulares. Entre as muitas obras volumosas, escriptas pelos academicos, e impressas por ordem da academia, contam-se algumas consagradas exclusivamente a antiguidades nacionaes. Em geral os espiritos, que se dedicavam a este genero de litteratura, continuavam a concentrar todas as suas attenções nos monumentos romanos, de que havia então bastante copia no reino, e que estavam por conseguinte muito ligados com a nossa historia. Entretanto houve academicos que, saindo fóra d'esse apertado circulo, encetaram estudos inteiramente novos no paiz. Martinho de Mendonça e Pina, em 1733, leu em uma sessão d'aquella academia uma memoria sobre os _rudes altares_ a que chamam _antas_ em Portugal. Este estudo publicado nas _Memorias da Academia_, foi o primeiro trabalho litterario, que se fez entre nós relativamente a monumentos prehistoricos. IV Na segunda metade d'esse mesmo seculo teve começo o terceiro periodo da archeologia, no qual obteve os fóros de verdadeira sciencia. Abriu esse periodo um dos mais talentosos e perseverantes filhos da Allemanha. João Joaquim Winckelmann, nascido em 1717, e fallecido em 1768, que se elevou pelo seu saber, de uma posição social muito humilde, a vice-reitor da universidade de Halle, e a bibliothecario do Vaticano, foi o fundador da esthetica moderna, e o creador do estudo philosophico e consciencioso da arte antiga. Entre muitas obras, que lhe grangearam subida honra, sobresae a _Historia da Arte_, que immortalisou o seu nome. N'esta obra magistral, que dividiu em 6 livros, estabeleceu e sellou de um modo incontroverso a alliança das artes com a archeologia, marcando a esta, como norma e alvo a que deve mirar, seguir escrupulomente sob todos os aspectos, pela apreciação do trabalho humano nas artes e na industria, o desenvolvimento da civilisação nos seculos passados; e estabelecendo ao mesmo tempo o methodo racional e claro para alcançar esse fim. Teve grande importancia esta obra, não só por dilatar os horisontes da nova sciencia, e abrir amplas vias aos seus cultores; mas tambem por diffundir o gosto dos estudos archeologicos, graças á elegancia do seu estylo, á lucidez dos seus argumentos, e sobretudo ao enthusiasmo com que falla dos grandes primores da arte antiga, e dos evplendores da civilisação grega e romana. D'essa benefica influencia originaram-se alguns dos mais ricos museus de antiguidades, que hoje existem, e muitas collecções partiticulares valiosas, que promoveram e facilitaram o estudo. Seguindo ousadamente os passos do erudito auctor da _Historia da Arte_, assignalaram-se após elle outros archeologos por distinctos serviços prestados á sciencia. O conde de Caylus classifica por ordem chronologica os monumentos das differentes edades, e penetra o segredo que produziu a maior parte das artes. O archeologo italiano Morcelli cria um systema regular para a classificação das inscripções, conforme o assumpto de que tratam, e para o estudo d'ellas, segundo o seu estylo. O celebre numismata padre Eckhel, jesuita allemão, coordena methodicamente a sciencia das medalhas; á qual o douto dinamarquez Rask accrescentou a ordem alphabetica. O sabio philologo e antiquario padre Passeri, italiano, que organisou o rico museu do grã-duque de Toscana, explica a um numeroso auditorio sob o portico de Lanzi, em Florença, com mais proficiencia do que o fizera Demspter, no seculo antecedente, os idiomas e os monumentos da Italia, anteriores á fundação de Roma. O descobrimento das ruinas de Herculanum deixára ajuizar de alguns usos e costumes dos romanos ainda mal conhecidos. Porém quando em 1755 se começou a levantar a espessa mortalha, que envolveu Pompeia em seu leito de morte durante 17 seculos, fazendo surgir do sepulchro uma cidade romana com as suas praças, ruas e casas guarnecidas e adereçadas interiormente, como na hora fatal em que as cinzas do Vesuvio a sepultaram no anno 79 da era christã, revelou-se aos olhos absortos dos antiquarios a vida publica e privada do povo romano com todos os seus usos e costumes, pois que só então foi bem conhecida uma infinidade de coisas e circumstancias, que eram inteiramente ignoradas. Accentuando-se cada vez mais os progressos da archeologia, o abbade Barthelemy, francez, reedifica a Grecia de Pericles, e Jorge Zoega, antiquario dinamarquez, começa a erguer o veu que occultava á sciencia o antigo Egypto. Napoleão Bonaparte emprehende a conquista d'este paiz, e as aguias francezas triumphantes abrem ignotos caminhos á archeologia, e patenteiam-lhe um immenso thesouro de preciosas reliquias da mais remota antiguidade. Vivant-Denon reproduz com o seu lapis habil e delicado, os soberbos monumentos do imperio dos Pharaós, e copía com escrupulosa exactidão, dos muros ennegrecidos pelo embate de tantos seculos, esses mysteriosos caracteres, que encerram, sob mil fórmas emblematicas, senão os annaes, a vida intellectual do antigo povo egypcio. D'entre um grande numero de sabios, que illustram a archeologia com os seus escriptos, Champolion descobre o alphabeto dos hieroglyphicos, e assim preenche uma lacuna de seculos, que a historia tinha deixado no esquecimento. Millin funda em 1792 o jornal _Magasin Encyclopedique_, por meio do qual derrama e popularisa os estudos archeologicos; publíca varias obras importantes sobre esta sciencia, e um _Diccionario de Bellas Artes_. Raoul-Rochette enriquece a litteratura franceza com o seu excellente _Curso d'Archeologia_, e entre outras publicações não menos interessantes, que fazem conhecidos e devidamente apreciados alguns sabios inglezes, italianos e allemães, Mr. A. du Caumont facilita e popularisa o estudo d'esta sciencia com seu precioso _Abecedario ou rudimentos da archeologia_. Os livros d'estes homens, de espirito elevado, dão um grande incitamento ás investigações archeologicas; e as descobertas dos testemunhos authenticos da existencia do homem na remotissima época quaternaria, trouxeram ao campo das discussões scientificas a origem da especie humana, e o seu viver nos tempos prehistoricos. Colleccionaram-se e patentearam-se ao publico os utensilios e instrumentos de que usaram os homens na sua idade primitiva, e que se iam descobrindo em excavacões casuaes ou feitas expressamente com esse intuito. E não tardou a reconhecer-se a conveniencia de se reunirem em congresso os homens que nos differentes paizes se dedicavam a estes estudos, para que da exposição das suas investigações, e das discussões de uma assembléa tão competente e auctorisada, se projectasse luz nas trevas d'esse remoto passado. Coube a mr. Desor, distincto naturalista, a honra de ser o primeiro a apresentar a idéa de um congresso internacional de archeologia prehistorica. Este pensamento enunciado em Paris, foi abraçado com enthusiasmo; porém antes que podésse ser realisado na terra, onde tivera origem, antecipou-se a Italia a encetar estas controversias. No outono de 1865 a sociedade das sciencias naturaes, reunida em Spezzia, occupou-se dos tempos prehistoricos. No anno seguinte reunem-se os archeologos de differentes paizes em Neufchatel, na Suissa, celebram o primeiro congresso internacional de archeologia prehistorica; tratam largamente do assumpto; ajustam e lançam as bases para a convocação do segundo congresso, que dá principio ás suas sessões em Paris, no anno de 1867, ao mesmo tempo que se abre n'essa cidade a grande exposição universal, com uma secção intitulada _Historia do trabalho humano_, onde figuram productos variadissimos da industria humana de todos os paizes do globo, e de todas as épocas até ás primitivas da humanidade. Desde então entrou a archeologia em um periodo de verdadeira actividade scientifica, protegida pelos governos das nações mais cultas, reconhecida a sua importancia e justamente apreciada por todas as pessoas illustradas, qualquer que seja o rumo dos seus conhecimentos. V Portugal não tem tomado a parte activa, que lhe cumpria tomar, como paiz civilisado, e a quem tanto deve a moderna civilisação, n'aquelle movimento scientifico. Todavia, não se póde dizer que lhe tenha ficado estranho. Varias memorias, publicadas pela academia real das sciencias de Lisboa, provam que esta corporação se occupou, desde a sua instituição, de assumptos archeologicos, relativos á historia do paiz. Além disso n'estes últimos annos tem havido entre nós não poucos escriptores que se tem dedicado aos estudos archeologicos, e d'entre estes, alguns zelosos investigadores do que diz respeito aos tempos prehistoricos. Temos sido muito descuidados na formação de museus archeologicos, e é uma vergonha que não tenhamos um unico estabelecimento d'este genero, digno de ser exposto aos olhos dos estrangeiros illustrados que visitam o nosso paiz. E maior vergonha é que não exista, podendo e devendo existir, independentemente do recurso ás excavacões muito dispendiosas. Era bastante para constituir um museu de objectos archeologicos e artisticos, muito rico e variado, os milhares de objectos, producto do trabalho humano, em diffrentes edades, de remotas eras, em oiro, prata, bronze, vidro, barro e pedra, descobertos nas provincias do reino, sobretudo na Estremadura, Alemtejo e Algarve, desde o seculo XV, em excavacões casuaes, e muitos objectos preciosos e alfaias dos extinctos conventos. Por iniciativa, e póde dizer-se por unico esforço do sr. J. Possidonio Narciso da Silva, fundador e presidente da real associação dos architectos e archeologos portuguezes, deu começo esta associação no edificio da egreja gothica e arruinada do extincto convento do Carmo, onde se acha estabelecida, a um museu archeologico. Carece, porém, de muitas condições para preencher os fins a que são destinadas similhantes collecções, sendo uma das principaes, a organisação scientifica e chronologica, e conveniente collocação dos objectos alli reunidos. Devo accrescentar, porém, que achando-se alli todos os objectos accumulados e apertados por falta absoluta d'espaço; aquella organisação e conveniente collocação estão dependentes de uma obra importante e despendiosa; a cobertura das naves da egreja. Guardam-se em differentes estabelecimentos publicos de Lisboa, Porto e Evora, diversidade de objectos archeologicos e artisticos, que se estivessem reunidos formariam uma collecção mui curiosa, e de certa importancia. Tambem são dignas de menção as collecções de fosseis, instrumentos e utensilios prehistoricos da secção geologica, no edificio do extincto convento de Jesus. * * * * * Pois que fui mais prolixo do que desejava no quadro historico, que fica traçado, procurarei ser conciso nas noções geraes da sciencia archeologica, noções que mr. Du Caumont julgou desnecessario explicar n'este livro. A archeologia é a sciencia que tendo por fim, como o indica o seu nome, o estudo da antiguidade, nos ensina a conhecer o viver dos povos antigos por meio do exame e apreciação dos monumentos, que nos deixaram, e de todos os objectos, que d'elles nos restam como manifestação do seu engenho e do seu trabalho. A historia narra os successos, indica-lhes as causas, e aponta-lhes as consequencias. Julga do caracter e indole dos povos, e dos individuos que mais se assignalaram; e trata dos monumentos, como provas que mostram o seu desenvolvimento intellectual e industrial, e tambem como testemunha d'aquelles successos. A archeologia examina attentamente todos os productos materiaes, que os antigos povos nos legaram, e d'esse estudo minucioso, comparativo e philosophico, faz resaltar o conhecimento das idéas, da religião, dos usos e costumes, do desenvolvimento industrial e artistico, emfim do viver dos povos, aos quaes esses productos pertenciam. Portanto a archeologia faz importantes serviços á historia, não só esclarecendo-a, com a luz que derrama onde tudo é trevas, mas tambem completando-a com uma infinidade de noções e de objectos reaes, que nos apresentam um quadro verdadeiro da vida intima dos povos da antiguidade, que sem os esforços dos archeologos seriam ignorados ou apenas conhecidos superficialmente. A archeologia divide-se em tres partes, que a seu turno se subdividem: 1.^a _litteraria_--2.^a _artistica_--3.^a _usual_. Comprehende a primeira toda a sorte de monumentos em que ha inscripções, quaesquer que sejam os seus caracteres e a materia que os contenha. Subdivide-se em _paleographia_, _diplomatica_ e _epigraphia_. A _paleographia_ ensina a decifrar as antigas escripturas em pergaminho ou em outra substancia com caracteres alphabeticos, ou ediographicos, ou signaes emblematicos, como os hyeroglyphicos dos egypcios, ou outros convencionaes. A _diplomatica_ indica o modo de conhecer, pelos caracteres internos e externos, a authenticidade dos documentos. A _epigraphia_ trata da interpretação das inscripções gravadas em pedra, em metal, ou em qualquer outra materia. A _archeologia artistica_ trata de todos os monumentos da antiguidade, taes como edificios religiosos, civis e militares, e todos os generos de obras d'arte. Subdivide-se em _archeologia monumental_, que diz respeito ás obras d'architectura, d'esculptura e de pintura; em _iconographia_, que é o estudo dos bustos e dos retratos dos personagens historicos; em _numismatica_, ramo consagrado ao exame das moedas e medalhas; em _glyptographia_, que trata das pedras gravadas, representando quaesquer figuras; e, finalmente, em _archeologia usual_, que abrange toda a qualidade de alfaias, utensilios e instrumentos sagrados, domesticos, militares, funerarios, etc. São estas as divisões scientificas da archeologia. Porém, considerada relativamente ás grandes épocas da vida da humanidade, póde dividir-se em _archeologia prehistorica_, dedicada ao estudo das edades primitivas do homem, das quaes não restam memorias escriptas, nem gravadas, nem tradicionaes, existindo por unicos vestigios da sua passagem na terra alguns rudes monumentos, e utensilios e instrumentos não menos toscos e grosseiros, encontrados em escavações: em _archeologia dos antigos imperios orientaes_; em _archeologia classica_, ou _greco-romana_; e em _archeologia christã_, que comprehende o periodo desde o nascimento de Christo até á renascença das artes e letras. Emfim a archeologia é uma sciencia tão lata e complexa, que ainda precisa, para satisfazer cabalmente a sua importante missão, soccorrer-se a outras sciencias accessorias como são a _linguistica_, a _paleontologia_, a _geologia_, a _anthropologia_, e a _ethnologia_. J. DE VILHENA BARBOSA. PROLOGO N'este seculo, em que a civilisação tem caminhado progressivamente nas principaes nações, não podia esquecer por mais tempo um estudo que consiste em investigar o modo como começára a existencia da raça humana desde o berço até o seu simultaneo desenvolvimento, não só dos objectos necessarios para a defeza exterior, como em relação aos usos domesticos e habitações: conseguindo-se por este curioso estudo formar juizo seguro ácerca da existencia interior do viver e dos costumes dos primitivos habitantes da terra. Depois do cataclismo que passou o planeta em que existiram, e das lutas encarniçadas e continuas das differentes raças, as quaes se disputavam tenazmente a posse do territorio mais fertil e mais ameno, tendo muitas d'essas raças já desapparecido do mundo por inteiramente destruidas, e em outros se tenham confundido os elementos das suas respectivas nacionalidades, pois que nenhum d'elles nos deixou a historia escripta d'esses tempos remotos; a sua existencia rude e aventurosa não lhes proporcionavam o poderem cultivar a intelligencia, nem suavisar os costumes, para se dedicarem ao aperfeiçoamento intellectual: portanto, só pelos vestigios da sua imperfeita industria, os quaes se acham encerrados entre as camadas successivas da terra, só por diversos fragmentos, elles nos poderam revelar a sua vida social, e nos mostraram o grau de sua nascente civilisação. Assim formulâmos a historia, ainda que incompleta nos primitivos tempos da terra habitada, e descobrindo os segredos d'essa existencia, saberemos quaes foram os esforços da intelligencia humana desde o seu alvorecer. Quando os romanos se impozeram aos outros povos, e em repetidas conquistas ampliaram o seu dominio no antigo mundo, invadiram o territorio d'essas raças indigenas, e depois de renhidas batalhas o povo-rei subjugou-as, hasteando entre ellas a aguia romana; porém n'essas épocas já havia historiadores que nos deixaram as narrações de taes feitos: assim o estudo d'esses acontecimentos, não é tão difficil, porque não precisâmos de ir inteiramente á crusta terraquea pedir-lhe os seus segredos. A invasão dos barbaros do Norte veiu depois desapossar os romanos de suas conquistas, e a destruição que ella causou foi total, e de tal modo, que aos actos do elemento da parte mais feroz d'essas hordas se ficou chamando _vandalismo_. Se um cataclismo terrestre havia, pois, feito desapparecer antes os vestigios dos povos mais antigos do mundo, os barbaros do Norte não foram menos prejudiciaes por aniquilarem a civilisacão que os romanos haviam plantado na Europa. Todos conhecem a decadencia do Baixo-Imperio: as guerras continuas; o desprezo e o esquecimento da instrucção; até que appareceu um homem de animo forte e de intelligencia superior, que, apoderando-se do poder, formou um novo imperio, e pela sua sabedoria e por suas victorias alcançou a gloria de haver feito reviver o explendor da civilisação na Europa. A idade media foi fecunda em acontecimentos, que prepararam os povos para aguardarem uma era, em que os seus direitos e a sua civilisação triumphassem das arbitrariedades e dos vexames que soffriam; depois surgiu o renascimento das lettras e das artes, que foi o prenuncio da nova civilisação. Fica, portanto, reconhecida a necessidade de um estudo especial dos fragmentos e das ruinas dos antigos para formarmos, como já dissemos, justa idéa dos usos, costumes e crenças dos primeiros habitantes do mundo, e principalmente dos que existiram na Europa, muito mais interessante para nós, por vivermos no territorio occupado por elles. Poderemos d'este modo dirigir os nossos especiaes estudos para a Lusitania, e entrar nas mais minuciosas investigações com respeito aos tumulos, ás fortificações, aos templos, aos ornatos, ás habitações, a tudo emfim que determina e constitue a sciencia da archeologia, com a qual supprimos a falta da historia escripta. Foram os allemães, os inglezes e os francezes os primeiros que trataram d'essas curiosas investigações; e os sabios que se dedicaram a taes e tão uteis estudos, principalmente Mr. de Caumont, e outros, que publicaram obras de grande merito, são dignos da nossa admiração e do nosso reconhecimento, porque, procurando as origens da industria humana, nos revelaram interessantes conhecimentos, que não só serviram para coordenar a historia das épocas mais remotas, mas tambem para estimular o desejo de conservar as antiguidades que estavam dispersas e desprezadas, attestando ignorancia e incuria. Em Portugal nunca se pensara n'este ramo de instrucção, posto que em alvará de 14 de agosto de 1721 se ordenasse que se fossem colligindo as informações indispensaveis e se adquirissem objectos antigos, que facilitassem o estudo da archeologia, porém ficou em letra morta; e tanto assim que só em 1864 se organisou o primeiro museu archeologico, por iniciativa da pessoa que escreve estas linhas, fazendo o governo para esse fim a concessão das ruinas da monumental egreja gothica do Carmo, de Lisboa, onde tambem depois estabelecemos em annos successivos um curso ácerca da historia geral da architectura. Como quer que seja, a sciencia da archeologia não fôra cultivada entre nós methodicamente, e por isso não deve estranhar-se que não apparecesse até hoje, em Portugal, alguma obra elementar que auxiliasse o seu estudo. Para supprir tal falta, ousamos nós mandar imprimir um resumido trabalho, que comprehende a descripção dos objectos antigos, desde a edade de pedra até ao seculo XVII, tomando para norma a notavel obra do sr. de Caumont, o qual, além de distinguir-nos com a sua apreciavel amisade, nos auctorisou a servirmo-nos dos seus admiraveis trabalhos; e já que nos é licito honrar-lhe aqui a memoria gloriosa, sejam estas paginas consagradas ao illustre fundador da sciencia archeologica em França, como levantado a um dos testemunhos da nossa veneração. No volume, que vamos publicar, e cujos fundamentos lançámos haverá sete annos, estão illustrados corn gravuras numerosas, mais de 300 no texto, as passagens em que se tornava indispensavel esse meio de observação; seguindo, quanto possivel, a obra do sr. de Caumont, como já indicámos, procuramos ao mesmo tempo amplial-a com as explicações das antiguidades encontradas em Portugal, interessando assim ainda mais os nossos compatriotas. Suppomos que este livro poderá ser tambem de proveito nas nossas escolas, onde é tão geralmente reconhecida a necessidade de livros especiaes, que fallem aos alumnos de assumptos que são hoje do dominio de uma educação liberal; assim se tornarão adeptos do estudo e da sciencia archeologica, que lhe fornece as primeiras bases, para que sejam outros tantos propagandistas da conservação da nossa arte e das nossas preciosidades archeologicas. Apezar de ser trabalho complexo e difficil, não só para a nossa limitada intelligencia, mas tambem pelos escassos recursos de que podemos dispor para uma publicação d'esta ordem, o nosso vivo desejo de divulgar o gosto pela archeologia, de satisfazer ao constante empenho em estimular o estudo d'esta sciencia indispensavel para bem avaliar a historia da arte em Portugal, sirva comtudo de attenuante ás faltas que houvessemos de commetter. E tambem, digamol-o, ficam aqui os cimentos de obra mais perfeita e de maior tomo para os que possam lançar-lhe hombros mais robustos e intelligencia mais apurada. Os que prezam o trabalho e amem o estudo relevem a nossa ousadia, e deitem-a á conta da boa vontade e da sinceridade com que sempre tentámos bem servir a patria. 17 de Maio de 1877. NOÇÕES ELEMENTARES DE ARCHEOLOGIA * * * * * CAPITULO I *Tempos prehistoricos* Chamaram _prehistoricos_ aos tempos antigos de que não existe historia escripta. Desde os tempos mais remotos, apparece um longo periodo sem historia escripta, nem elementos positivos, durante o qual tentamos encontrar o progresso e o desenvolvimento da humanidade, unicamente por vestigios mais ou menos incompletos. O archeologo tem que tomar a penna do historiador e procurar deduzir algumas _probabilidades historicas_, com observação escrupulosa dos factos averiguados. Os antiquarios modernos têem-se dedicado com entranhado amor a este genero de investigações. Estabeleceram na historia pertencente á existencia do homem, _anterior ás épocas conhecidas_, tres grandes phases, ou estancias, a saber: Idade de Pedra Idade de Bronze Idade de Ferro A fundição, ou reducção dos metaes, é uma operação difficil, que foi de certo por muito tempo desconhecida: os povos atrazados na civilisação deviam fabricar os objectos de que tivessem necessidade para a propria defensa e para a caça, assim como para os usos communs da vida, empregando pedras rijas, como é o silex (pedreneira), os ossos dos animaes, ou a madeira. O extraordinario numero de descobrimentos feitos nos diversos paizes, principalmente em França, na Suissa, na Inglaterra, e na Dinamarca, confirmou esta supposição. As collecções dos museus contém quantidade consideravel de pontas de frechas, facas, machados, feitas com pedreneira e em rocha rija: grande numero de instrumentos de osso, ou de pedra, se tem achado em differentes partes, e esses instrumentos conservam-se quasi intactos dentro do solo, onde estavam occultos. O periodo secular em que os metaes não estavam ainda em uso recebeu, pois, a denominação de _idade de pedra_. As melhores qualidades de rochas para fabricar os instrumentos cortantes, eram o silex (pedreneira), _felds-pathicas_, o _petrosilex_ verde, e algumas variedades de _porphyro_; porém o silex tem sido, como parece, a pedra mais constantemente empregada, e talvez a mais facil de preparar a forma requerida. Seguramente, se dermos com certa precaução uma martellada sobre um fragmento de silex, de forma alongada, esse silex estalará, e a pedra que se desligue tomará logo a forma conoidal; ficará chata de um dos lados, mostrando do outro uma aresta viva. Podiam-se fazer por este modo facas de pederneira, de que em diversas localidades se tem encontrado centenares de modelos. [Figura 1] Fazendo-se estalar esta qualidade de pedra repetidas vezes com certa habilidade, podem-se fabricar machados, pontas para flechas e outros instrumentos do genero d'aquelles de que apresentamos os desenhos n'esta pagina. Os objectos pertencentes á _idade de pedra_ e á _idade de bronze_ tem sido encontrados, principalmente nos _tumulos_, nas cidades _lacustres_, em algumas _cavernas_, antigamente habitadas. Examinemos os depósitos que indicamos, porque nos offerecerão, segundo recentes explorações, matéria variada e curiosa para o nosso estudo. *Tumulos* Os tumulos ou sepulchros, compõem-se d'um recinto central formado de pedras de rocha de grande dimensão, no qual se entra geralmente por um corredor de egual construcção, estando tudo encerrado em immenso montão de pedras e terra. Quer fosse porque estivesse com imperfeição o recinto central encerrado no meio do outeirinho factício; quer, o que parece mais natural, porque se servissem _da terra_ ou _das pedras dos tumulos_ em época posterior, muitas vezes foram encontrados os pedregulhos que formam a parte central sem a terra que os cobria e quasi completamente separados; então n'este caso chamavam-se Antas (dolmen).[1] [Figura 2: Vista exterior de um tumulo] Os defuntos eram depositados com os seus corpos inteiros e em geral apresentavam-os _sentados_ e encostados nas paredes do recinto central, tendo junto de si os machados e outras armas de pederneira; algumas vezes vasos de barro toscamente fabricados, e outros objectos de uso commum. Veja-se o desenho n.^o 2, de um tumulo completo; o n.^o 3, um tumulo aberto com dolmen; o n.^o 4, um dolmen completamente desguarnecido; e o n.^o 5, a perfeita Anta de Guitamães, em Vianna do Castello. [Figura 3: Vista interior de um tumulo] [Figura 4: Dolmen central de um tumulo] Varios antiquarios tinham tomado os dolmens desguarnecidos de tumulos por _altares druidicos_, porém ao presente esta ideia está quasi desprezada, por falta de provas positivas. O cobre com liga que lhe dá maior rijeza, foi empregado depois da pederneira, ou conjunctamente com ella, quando os nossos antepassados aperfeiçoaram esta industria e conheceram o modo de derreter os metaes. [Figura 5: Anta de Guitamães (Minho)] Os principaes objectos de bronze, foram os _machados_, as _pontas das lanças_, as _espadas_, os _punhaes_, as _facas_, os _anzoes_, as _fouces_, os _alfinetes_, os _anneis_, os _braceletes;_ estes objectos fundidos, muitas vezes com formas elegantes, apresentavam em todos os paizes o mesmo feitio, tanto na Dinamarca como em França, e na Inglaterra; e isso nos convence de que os typos tradicionaes, talvez imitados do mundo antigo pelas nações civilisadas, e trazidos para a Europa occidental em época que não se pode fixar, foram reproduzidos sem alteração, em moldes apropriados. [Figura 6: Fachada do Dolmen de Bournan] [Figura 7: Plano do Dolmen de Bournan] Esta época importante da historia dos progressos da humanidade rasgou bom horisonte no prolongado periodo prehistorico: d'ahi proveio a denominação de _idade de bronze_. O difficil era saber-se, por inducção, quando e como o bronze apparecera nos paizes septentrionaes. Ha annos, o sr. Worsaæ e os antiquarios dinamarquezes publicaram que os tumulos da idade de pedra continham compartimentos centraes, conforme descrevemos; nos quaes se depositavam os cadaveres sentados, com os joelhos juntos á barba e os braços cruzados no peito; em quanto os tumulos da idade de bronze não apresentavam esse compartimento reservado, sendo construidos com grandes pedras e os outeirinhos, compostos de terra e de pequenas pedras, não encerravam cadaveres, mas tamsomente as cinzas dos finados, depositadas em vasos de barro; muitas vezes appareciam acompanhados de objectos de bronze e ás vezes de ouro. Inferia-se d'estas differenças, que os instrumentos de bronze haviam sido trazidos por uma raça que invadira, absorvera e talvez aniquillara a indigena; raça que teria costumes diversos, armas superiores e civilisação mais adiantada que a subjugada. Acceitando-se este facto, a idade de bronze seria inaugurada na Europa occidental por um povo conquistador em época desconhecida. Os objectos de barro não nos guiam suficientemente n'esta exploração. Os que foram achados com os instrumentos de bronze são de fabrico grosseiro, mal cosidos, e por seu feitio, ornatos e as substancias que os compõem, simelham-se muito com os vasos de barro achados nos sepulchros que encerravam unicamente objectos de pedra. N'esses diversos tumulos raramente se viam vasos com azas; á forma dos gargalos parecia não ser conhecida, nem o seu uso; consistindo apenas a ornamentação em linhas em direcções diversas; ou ponteado concavo, ou emmoldurado em xadrez. Além d'isso, a pederneira era ainda de uso geral na idade de bronze, e muitas vezes se tem encontrado objectos de pedra e instrumentos de bronze nos mesmos tumulos; facto que poderia explicar-se admittindo-se que servira successivamente para sepultura em differentes povos. Acharem-se cinzas no logar dos cadaveres sentados, pareceu sufficiente caracteristico da idade de bronze, pois que nos tumulos, que encerravam objectos de metal, havia poucos exemplos de se fazer enterramento na posição _sentado_, e essa pratica caracterisa a idade de pedra. Tem-se, comtudo, encontrado na mesma sepultura esqueletos sentados na proporção de 20 por cento, talvez como demonstração, segundo o sr. Lubbock, dos ultimos representantes das gerações passadas que tivessem apego aos antigos usos. *Habitações lacustres* Precisamos de expôr, em primeiro logar, o que se entende por cidades _lacustres_. Ha annos notava-se em muitos lagos da Suissa, abaixo do nivel natural das aguas, estacarias em grupos consideraveis; o dr. Keller, de Zurich, socio da sociedade de archeologia franceza, estudou com attenção esses vestigios, que por grandissima diminuição das aguas ficaram visiveis; e declarou depois, que os primeiros habitantes da Suissa estabeleciam por vezes as suas casas em cima da agua, como praticavam algumas tribus da antiguidade, e até como fazem ainda alguns povos modernos. Tal descobrimento causou sensação entre os antiquarios; muitos observadores se dedicaram depois com grande solicitude a explorar o fundo dos lagos, nos logares das cidades lacustres indicadas pela presença da estacaria. Estas investigações foram proficuas. Poderam-se tirar, servindo-se de dragas, grande numero de fragmentos de objectos de barro, e outros utensilios, os quaes, comparados com os que foram encontrados nos tumulos, reconheceu-se pertencerem tambem a identica civilisação. Varias outras estancias lacustres foram depois descobertas na Suissa; contaram-se até 32 no lago de Constance; 46 no de Neufchâtel; além das que se viram nos de Genebra, de Inkwill, de Pffikon, de Luissel etc., etc. Ainda que nem todas pertençam á idade de bronze ou de pedra, e que muitas pareçam ser do tempo da idade de _ferro_, e do periodo romano, todavia o maior numero é das idades de pedra e de bronze. Os museus de Lausanna, de Genebra, de Neufchâtel e outros, tem collecções completas dos objectos chamados _lacustraes_, por causa de terem sido conservados por séculos debaixo das aguas. Os habitantes das cidades lacustraes achavam sem duvida recursos alimentícios na pesca, mas estabeleceram as suas habitações sobre a agua para se collocarem ao abrigo dos ataques das feras, ou dos roubos das tribus visinhas. Era facil separar inteiramente essas povoações fluviaes levantando para isso as pontes, que lhes serviam para communicarem com as margens. Segundo o estudo das ossadas dos animaes recolhidos pela draga, e de diversos fragmentos, conheceu-se que então já havia seis especies de animaes domesticados que deviam servir para o alimento dos habitantes; e entre essas, encontraram-se restos de veados, bois, de duas formas, porcos, cães, cabras e cavallos, notando-se porém que havia poucos vestigios do cavallo e da cabra. *Cavernas* As excavações dirigidas por varios geologos em diversas localidades, deram em resultado encontrar-se nas cavernas consideravel numero de objectos devidos á industria das raças primitivas, incluindo as da época do diluvio, assim como os machados de pederneira, toscamente fabricados, e outros instrumentos de silex e osso, e em parte envolvidos com ossadas de animaes giganteos, que já hoje não se encontram. Os objectos de silex e osso, pela maior parte, parece pertencerem á idade de pedra, e provirem das epocas mais remotas da humanidade. Mas deve notar-se que sempre apparecem misturados com esses utensilios do homem, restos de animaes, que se não encontram hoje, e que pertencem á formação do terreno _quaternario_, considerado até então como anterior ao apparecimento do homem. O descobrimento de uma queixada humana no saibro do Moulin-Quignon, proximo de Abbeville, na França, veio estratigraphicamente confirmar taes conjecturas e indicações. Embora isto seja do dominio da geologia e da paleontologia, os factos novamente averiguados são de summo interesse, pois que comprehendem a idéa de indeterminada e espantosa antiguidade em que o homem vivia no estado quasi selvagem: não é difficil acreditar que assim acontecesse, quando pensarmos na situação actual dos povos de Africa central, dos naturaes da America, quando foi descoberta, e dos habitantes das ilhas da Oceania. O homem que vive isolado, sem communicação com os povos mais adiantados que elle, poderá ficar muito tempo no mesmo grau de civilisação; como aconteceu em o nosso continente antigo, em quanto os romanos levavam o luxo até o extremo, havia então em o Norte, onde já chegam hoje os caminhos de ferro, povos semi-selvagens que não tinham participado em cousa alguma dos progressos do povo rei; e comtudo deviam depois repartir entre si os seus despojos e gosar da sua civilisação. Podemos, portanto, admittir que houve por longos annos na Europa, nas margens dos rios, uma raça de caçadores e pescadores, e que nos bosques existiam o _mammouth_, _o rhinoceronte_, animaes que podiam resistir á baixa temperatura que n'essa época era propria em nossa região. Julga-se, com fundamento, que tal raça de homens vivia como succede hoje entre alguns esquimaus, e como os laponios viveram seculos antes. Acrescentaremos que a flora fossil parece mostrar que as modificações occorridas na forma por effeito das mudanças climatericas, tiveram os seus equivalentes no mundo vegetal antigo. Os principaes monumentos dos tempos prehistoricos são, conjuntamente com os tumulos, dos quaes já tratamos: Os _peulvans_ ou pedras cravadas na terra; Os monumentos compostos com pedras similhantes, taes como os _alinhamentos_; Os circulos formados de pedras, e os recintos simplesmente de terra. As pedras oscillantes são pedras de extraordinario peso sobrepostas a outras e collocadas em equilibrio, mas que ao menor impulso se fazem mover: existem algumas em França, porém na Inglaterra o maior numero. No Alemtejo, proximo de Alter do Chão, ha uma d'esta qualidade. *Pedras erguidas* [Figura 8: Pedras Erguidas] As pedras erguidas[2] que se designam egualmente com os nomes de _Menhirs_, _Peulvans_, _Pedras cravadas_, etc., são pedras toscas de forma esguia ou conica implantadas verticalmente na terra, como se collocam os marcos. A sua altura varia desde 2 a 6 metros, ou mais; ás vezes estão cravadas de maneira que a extremidade menos grossa fica para baixo, e a mais volumosa para cima, como se estivessem sustentadas n'um pião. Outras estão simplesmente postas no solo, em logar de serem cravadas na terra, porém, é preciso não confundir estas pedras com vários pedregulhos _erraticos_, ou que se encontram em posição vertical e podem estar assim naturalmente collocados. [Figura 9: Alinhamentos de pedra era Ardeven] _Alinhamentos_.--Os alinhamentos são formados de pedras esguias. As pedras, alinhadas com mais ou menos regularidade, mais ou menos intervallos entre si, formam algumas vezes uma única fileira. Umas tambem se encontram postas em duas, tres, quatro ou maior numero, conservando-se em linhas parallelas. Estas especies de avenidas pedregosas são delineadas commummente na direcção de Leste a Oeste, ou do Norte a Sul. Outras vezes as pedras são substituidas por trincheiras ou fossos de terra. Tem-se encontrado em algumas partes, posto que raramente, terrados parallelos na direcção de Leste a Oeste, e do Norte a Sul, que apresentam, em quanto á disposição, muita analogia com os alinhamentos de pedras e parece terem tido o mesmo destino. Os alinhamentos de pedras mais notaveis e mais vastos que se conhecem em França, são os de _Karnac_, de _Ardeven_, e de _Penmarch_. Compõem-se de mais de 1:200 pedras toscas em 11 filas parallelas com 763 toezas de comprimento, e 47 de largura. As mais elevadas tem 18 a 20 pés, e as mais pequenas 4 a 5. Ha entre ellas algumas de volume tão extraordinario que lhes avaliam o pezo em 70 a 80 milheiros. Os alinhamentos de _Ardeven_ estão dispostos regularmente em filas parallelas, tambem na direcção do Norte para o Sul, e no espaço de 3 kilometros de extensão. *Circulos* Outra combinação de pedras erguidas toma a forma de circulos, que têem sido designados pelo nome de _cromlecks_.[3] [Figura 10: Circulo de pedras] Os maiores d'estes circulos existem em Inglaterra; um d'elles, o vasto circulo de Avebury, em Wiltshire, está totalmente destruido; porém ainda houve quem o visse quasi completo por 1713; compunha-se de 660 pedras, e achava-se situado no meio de uma planicie, ficando-lhe o terreno em declive de todos os lados, como pode vêr-se na gravura junta. [Figura 11: Restauração do monumento d'Avebury.] O circulo exterior era formado de 100 pedras de 15 a 16 pés de altura, collocadas a 27 pés umas das outras; tinha perto de 1:300 pés de diametro, e via-se cercado de profundo fôsso, contornado exteriormente por larga trincheira de terra. Este grande circulo continha dois circulos mais pequenos, compostos cada um de dois renques concentricos de _peulvans_, do qual um tinha 30 pedras, apresentando um diametro de 466 pés; e o outro 12 pedras, com o diâmetro de 186 pés. O monumento de Stone-Henge[4] está situado a 6 milhas de Salisbury, em uma eminencia, na proximidade da qual se encontram muitos _tumulos_; é composto de 4 circulos concentricos, dos quaes os dois maiores são circulares, em quanto os outros dois mostram a forma um tanto elliptica. [Figura 12: Vista de Stone-Henge, proximo de Salisbury] O circulo exterior tinha quasi 97 pés de diâmetro; e compunha-se primitivamente de 30 pedras erguidas com altura de 10 a 12 pés, collocadas a 1 metro de distancia umas das outras; estas 30 pedras sustentavam egual numero de impostas ou pedras collocadas horizontalmente que se ligavam nas extremidades e formavam d'este modo uma especie de balustrada tosca. O segundo circulo ficava a 9 pés do precedente, era formado de 29 pedras esguias sem impostas, e por metade da grandeza das do circulo exterior: apenas 19 estavam erguidas haverá 38 annos. O terceiro circulo, a 13 pés do precedente, apresentava uma illipse tendo o pequeno eixo 52 pés, e o maior quasi 55; formado por _trilithos_[5] de grande dimensão, o mais elevado, dos quaes tinha 22 pés de altura. Finalmente, o circulo central tambem um pouco elliptico, compunha-se de 20 _peulvans_ com a altura de quasi 6 pés. [Figura 13: Disposição dos renques de pedras em Stone-Henge] Na extremidade oriental do oval, dentro do ultimo circulo, havia uma pedra medindo 16 pés de comprimento e 4 de largura, posta em plano na terra, e que se suppõe serviria de altar. As pedras esguias que compunham estes quatro circulos eram quasi todas mais largas na base que no vertice; tinham sido cravadas em cavidades abertas em rocha de natureza graphite, e havia o cuidado de as consolidarem calcando-as com fragmentos de pederneira em volta das cavidades. Um largo fôsso de 30 pés, collocado entre duas trincheiras, formava o quinto recinto circular á roda das pedras do circulo exterior. A Dinamarca, a Noruega e a Suecia, conteem certo numero de _cromlecks_, quasi todos circulares ou ellipticos, apresentando geralmente uma pedra no centro, que se suppõe ter servido de altar.[6] Acredita-se que estes monumentos nem sempre foram usados nas ceremonias religiosas.[7] Na infancia dos povos, os logares consagrados ao culto deviam servir tambem para tribunal de justiça, assim como para ponto de reunião dos conselhos patriarchaes ou de notaveis, que tratavam dos interesses da nação, das eleições, das inaugurações, etc. Em o Norte, os nobres reuniam-se antigamente dentro de recintos circulares formados de pedras, para elegerem os seus principes, até a promulgação da Bulla de Ouro pelo imperador Carlos IV, em 1356. O circulo de pedras, no qual Eric foi proclamado rei da Suecia, existe ainda proximo de Upsal; uma grande pedra toma o centro, como em outros recintos d'aquelle paiz. Outrotanto se praticava na Irlanda e na Escossia. Taes são os principaes monumentos de pedra dos tempos prehistoricos. Accrescentemos que o vulgo lhes attribue origens fabulosas, como obra de um ente colossal chamado _Gargantua_; que a tradicção os tem indicado como encerrando preciosos thesouros; abrigos de fadas, de almas do outro mundo, e dos espiritos que as acompanham! *Recintos formados com terra* Estes recintos consistem em um _vallum_ de terra, ás vezes misturada de seixos, circumdando extensões mais ou menos consideraveis e cujas formas são mui variadas. Poder-se-hia attribuir essa especie de claustros á outra época do que a que corresponde aos tempos prehistoricos, se não houvesse tumulos encerrados no _vallum_, ou levantados proximo d'elles, o que faz suppôr que serão contemporaneos. *Architectura dos tempos prehistoricos* Pouco sabemos acerca de qual seria a architectura anterior ao dominio dos romanos. Presume-se porém que nas primitivas construcções empregariam a madeira e o barro. As habitações eram circulares, construidas com madeiras e vimes enlaçados. No interior faziam as divisões com terra; o telhado formavam-n'o de ripas de carvalho ligadas com massa de argila e palha cortada, conforme os vestigios encontrados na Gallia, na Bretanha, na Germania, em Hespanha e Portugal. De investigações feitas em França e na Inglaterra, conheceu-se que muitas habitações dos celtas tinham antes a forma oval do que redonda, e algumas vezes rectangular; mostravam alicerces de pedra secca, e muitas eram construidas em nivel inferior ao solo que as circumdavam, quer fosse para se resguardarem dos rigores do clima, ou quer para não darem ás paredes altura consideravel. Estas casas estavam em relação com a simplicidade dos costumes; deviam ter um só andar, e apresentavam uma só abertura, que servia de porta e janella. Em todas a forma era egual, mas as dimensões divergiam. O numero e a grandeza das casas deviam corresponder á cathegoria e opulencia dos possuidores. Os gaulezes abastados tinham sempre junto de si séquito para o qual necessitavam de grandes habitações. Escolhiam portanto o terreno para ellas nos bosques e perto dos rios, ou em eminencias, afim de servirem egualmente de fortalezas para a propria defensa. *Utensilios e instrumentos diversos* Em época, que não podemos determinar, os nossos antepassados souberam, que o estanho combinado com o cobre produzia uma liga mais rija e mais pesada que estes dois metaes separados; as analyses que o celebre mineralogista Clarke repetidas vezes fez em Inglaterra, e aquellas que se fizeram em França, demonstraram que sobre 100 partes quasi todos os bronzes antigos contem 12 de estanho e 88 de cobre; porém que esta proporção não é constante, e que a quantidade de estanho ou de chumbo combinada com o cobre, varia ás vezes desde 4 até 15 por 100. Mr. Clarke verificou que os antigos bronzes descobertos na Grecia, no Egypto e em algumas partes da Asia,[8] continham a mesma quantidade de estanho (88 e 12): sendo esta a proporção necessaria para se obter o _maximum_ de densidade resultante d'estes dois metaes. Os machados de bronze, que tem sido encontrados em grandissimo numero em toda a parte e que se vêem em quasi todas as collecções,[9] apresentam entre si differenças notaveis; os typos que damos são os mais conhecidos. Estes machados teem um olhal nos lados, e existem de diversos tamanhos; as faces lateraes são de feitio de uma folha lanceolada sobre o comprido, na qual se vê o vestigio da juncção das duas peças do molde em que o instrumento foi vasado. Em Portugal descobriu-se um muito singular, não só por suas grandes dimensões, mas por ter _dois olhaes_, o que o torna raro no seu genero. [Figura 14a] [Figura 14b] [Figura 14c] [Figura 14d] Estes machados deviam encavar-se de duas maneiras: n'uns, o cabo entrava de espiga n'uma cavidade central _a_, _b_; n'outros, dar-se-lhe-hia a forma de palmeta para entrar nos dois lados do instrumento no logar preparado _c_; algumas vezes as bordas delgadas e salientes que formavam a parte ôcca ficavam reviradas sobre si, por modo a formar uma especie de calha _d_, apropriada para conservar a parte encavada. *Moldes para machados* Os machados de bronze foram sem duvida fundidos em moldes compostos de duas peças symetricas, pouco mais ou menos como os que ainda hoje são empregados na fundição das colheres de estanho. [Figura 15: Molde aberto] [Figura 16: Molde fechado] É provavel que alguns d'estes moldes fossem de terra ou de pedra; porém o maior numero dos que se conservam nos museus são de bronze, fundidos egualmente como os machados. O primeiro molde para machados celticos que chamou a attenção dos sabios foi descoberto na Inglaterra em 1779. Encontraram-se depois em muitas partes da França, principalmente na Normandia. Estes moldes compôem-se de duas peças ôccas, que se podem juntar e unir sem se desconcertar, por meio de uma parte saliente chamada _macho_ que está na virola do molde de uma das peças, e se encaixa na fenda praticada na virola da outra peça. _Espadas de bronze_.--As espadas de bronze compõem-se de lamina e cabo (punho). São de folhas direitas, chatas, mas reforçadas no centro da lamina, e ás vezes ainda com bojo no espaço comprehendido nos dois terços da folha. Cortam dos dois lados e tem ponta aguda. A largura de lamina quasi sempre é de pollegada e meia ou duas pollegadas na parte mais larga, sendo a sua maior grossura de um quarto de pollegada. No punho ainda algumas tem os pregos de bronze que haviam servido para segurar a guarnição. As espadas eram tambem fundidas, e o metal identico ao empregado nos machados. [Figura 17] _Punhaes de bronze_.--Estas armas parecem-se com as espadas, exceptuando a lamina que é mais curta. O comprimento de alguns é de 10 a 14 pollegadas, e a largura da folha de 2 a 21/2 pollegadas na base. _Pontas de lança_.--Juntamente com as armas que descrevemos, encontram-se de vez em quando pontas de lanças e objectos que foram considerados como especies de virolas ou ferragens para guarnecer a parte inferior da hastea. _Rodeias ou collares (torques)_.--Affirmam alguns historiadores que os gaulezes traziam collares ou _torques_, como tambem braceletes e argolas nos braços. [Figura 18] O collar era egualmente usado pelos gregos e romanos, e outros povos; talvez não haja outro ornamento de uso mais antigo, nem mais geral. Deve-se distinguir entre os _torques_; em primeiro logar, os que são formados de muitas peças encadeadas e enfiadas em especie de rosarios de perolas grossas de ambar, de azeviche, de vidro colorido, etc., como se encontraram dentro de alguns _tumulos_; e depois as cadeias, cujos elos são de ouro ou bronze. Em segundo logar, os _torques_, compostos de uma unica peça de metal (ouro, bronze, etc.) arqueada de maneira a formar circulo do diametro mais ou menos consideravel, e muitas vezes com lavores. Em muitos _torques_ as duas extremidades da peça metalica não estão soldadas, porém o metal offerece bastante flexibilidade para facilitar mettel-as nos punhos, podendo-se unir ou abrir, independentemente do fecho; outros _torques_ não apresentam nenhuma d'estas formas. [Figura 19] Appareceram tambem chapas de ouro bastante delgadas com feitio de meias-luas, porém cujas pontas estavam arqueadas de modo a formarem circulo quasi perfeito. Vêem-se, aos lados e nas extremidades de algumas d'estas peças, festões e molduras. [Figura 20] O pequeno intervallo que separa as duas pontas do crescente não nos faz suppôr que este enfeite servisse para se trazer em volta do collo; provavelmente ficava suspenso por uma corrente. Alguns instrumentos achados por varias vezes nos sepulchros, ou junto dos dolmens, em França e mais frequentemente na Irlanda, consistiam em hastea de ouro arqueada tendo nas duas extremidades um disco, em alguns chato, em outros levemente concavo. [Figura 21] Ignora-se absolutamente para que uso seriam destinados. Finalmente, o objecto seguinte, uma especie de _gargantilha_ formada de uma folha de ouro mui delgada, foi achado em França em diversas localidades. [Figura 22: Collar de ouro descoberto em França] As _moedas_ chamadas _celticas_ são provavelmente em parte contemporaneas dos ornamentos ou enfeites que descrevemos acima. *Objectos de barro* São tanto mais difficeis de se distinguirem os _objectos de barro celticos_, com excepção dos que se tem encontrado nos _tumulos_, quanto em algumas partes estão muitas vezes misturados com outros similhantes aos do tempo dos romanos; visto que os mesmos sitios foram habitados antes e depois da conquista de Cezar na Peninsula. [Figura 23] Os objectos de barro descobertos nos _tumulos_, são formados de terra preta, mal preparada e com pequenos seixos, o que produziu massa pouco solida. Os seus fragmentos são frageis, e não foram cozidos sufficientemente; a parte quebrada não mostra arestas vivas, mas sempre cheias de cavidades. As superficies d'essas peças, tanto na parte interna, como na externa, tem côr quasi egual á do ferro ferrugento; porém na parte interna é de negro carregado. Expostas á acção do lume tomam exteriormente a côr avermelhada do tijolo; em quanto no interior ficam negras, e mais frageis depois d'esta operação. [Figura 24: Vasos achados nos tumulos de Inglaterra, Hollanda e outros paizes] Esses vasos não parece terem sido feitos com auxilio do torno, e não apresentam nenhum moldado ou borda; foram unicamente alisados na parte exterior com um objecto qualquer, que lhes deu lustro irregularmente, de maneira que mostram na superficie altos e baixos, mais ou menos lisos, conforme vai indicado na gravura junta. Os que foram encontrados nas cidades _lacustras_, mostram inteira similhança e caracter no fabrico. A massa não está solidamente ligada, por ter algumas partes de pederneira; a côr é preta ou cinzento escuro. Esta massa tem pouca consistencia; quando está secca quebra-se facilmente, e pode-se desfazer entre os dedos; se a molharmos, dar-nos-ha a apparencia de bocados de cortiça velha que estivesse por muito tempo exposta á chuva. As suas formas indicam a infancia da arte, excepto os fragmentos onde se descobre o uso do torno; os demais pertenceram a objectos que parece foram vasados em moldes e polidos á mão, ou lavrados com algum instrumento. Reconhece-se na superficie exterior de alguns fragmentos o trabalho de uma especie de plaina. Os ornamentos compôem-se de filetes imperfeitos, e em pequenos riscos junto á borda do orificio. [Figura 25: Outros vasos achados nos tumulos] Entre os objectos de arte que enumeramos, só vemos os instrumentos cuja materia unicamente podia resistir á acção do tempo; os moveis de madeira que teriam as habitações gaulezas não conseguiram chegar até os nossos dias. Os lagos de certo conservaram-nos muitos objectos, e até pedaços de tecidos que recentemente nos esclareceram alguns pontos relativos á industria d'esses povos, antes da occupação do territorio da Gallia pelos romanos, porém são ainda dados incompletos para se formar cabal idéa do estado da industria. Terminamos este rapido esboço, apresentando o quadro synoptico das antiguidades que servem de assumpto ao primeiro capitulo. *MAPPA SYNOPTICO DAS ANTIGUIDADES PREHISTORICAS* +-----------------------------------+---------------------------------------+ | | | | *Nomes especificos* | *Caracteres* | | | | | | | | {conicos |Outeirinhos artificiaes de forma, e | |_Tumulos_ { |de dimensões differentes, compostos de | | {ovaes |pedra e de terra, com _dolmens_ no | | |centro. | | | | | {erguidas |De forma esguia. Firmadas verticalmente| | { |na terra como se fossem marcos. | |_Pedras_ { | | | {assentes |De forma indeterminada. Simplesmente | | { |collocadas sobre o solo sem estarem | | |cravadas no chão. | | | | |_Trilithos_ |Duas pedras verticaes sustendo outra | | |horisontalmente. | | { | | | {simples |Uma mesa de pedra collocada sobre | | { |pedras postas de cutello, em numero | | { |de 3, 4 ou 6. | |_Dolmens_ { | | | {compostos |Grande mesa de pedra composta de | | { |muitos pedaços, sendo, pelo menos, 6 o | | { |numero dos pontos de apoio. | | | | | |_Nota_. Os mais collossaes d'estes | | |dolmens formam galeria ficando abertos | | |n'uma das extremidades; costumam ser | | |designados de _avenidas cobertas_. | | | | | {simples |Um ou dois renques de pedras em linha | | { |recta. | |_Alinhamentos_ { | | | {compostos |Quatro, cinco e algumas vezes até onze | | { |ou doze renques de pedras formando | | { |avenidas parallelas. | | | | |_Pedras postas em grupo_ |Accumulação de pedras, sem ordem, | | |mais ou menos consideravel. | | | | | {simples |Composto d'um só renque de pedras | |_Circulos formados { |cravadas ou assentes. | |com pedras_ {compostos | | | { |Formados de muitos renques de pedras. | | | | |_Recintos cercados de terra, ou de |De diversas formas. | |pedras_. | | | | | | H { | | | A { Vestigios de casas |Logar de cabanas redondas, ovaes, | |L B { |algumas vezes rectangulares, indicadas | |O I { |por alicerces de pedra tosca sem | |G D T { |argamassa ou tão sómente pelo | |A E A { |abaixamento do solo. | |R Ç { | | |E Õ { Subterraneas |Galerias e casas cortadas na rocha. | |S E { |Excavações diversas. | | S { | | | | | | { { Punhaes e facas |Um pedaço de silex cortado de maneira | | { { |a apresentar uma folha aguda, com dois | | { { |gumes, e armado d'um cabo. | | { { |Folha de silex sem cabo. | | { { | | | { { { para frechas|Pequenos dardos, dos quaes o | | { { { |comprimento varia desde meia pollegada | | { E { _Pontas_ { |até duas | | { { { | | | I { M { {para rojões |Dardos quasi similhantes aos | | N { { { |precedentes, porem mais sobre o | | S { { { |comprido. | | T { { | | | R { P { Martellos |Peça quer redonda dos dois lados, quer | | U { E { |d'um lado sómente. | | M { D { | | | E { R { Pedras para fundas |Redondas ou ovoides, de 2 a 3 polegadas| | N { A { |de diametro. | | T { { | | | O { { Machados |Convexos para o centro, cortados em | | S { { |aresta viva nos bordos, acabando de um | | { { |lado em ponta romba, e de outro em | | { { |gume, o qual descreve uma porção de | | { { |ellipse. | | D { | | | I { { Machados |De formas diversas similhando-se mais | | V { { |ou menos a uma cunha. | | E { { | | | R { E { Fôrmas para machados |São duas peças symetricas, que depois | | S { M { |de reunidas a parte ôcca mostra o | | O { { |feitio do machado. | | S { { | | | { B { Espadas |Folhas direitas, chatas, de dois gumes,| | { R { |acabando em ponta. | | { O { | | | { N { Punhaes |Quasi similhante ás espadas na forma, | | { Z { |porém com menor comprimento. | | { E { | | | { { Cabeças de rojões |De forma lanceolada tendo um | | { { |engrossamento no meio. | | | | | { compostas de peças |Correntes metallicas.--Perolas de pedra| | { |de côr-alambre, formando rosario. | |_Torques_{ | | | { de uma só peça |Argolas metallicas mais ou menos | | { |grossas muitas vezes com | | { |lavrados.--Chapas do feitio de meia | | { |lua. | | | | |Ornamentos diversos |Em bronze e em ouro, com lavrados. | | | | |Louça de barro |Muito fragil, mal cozida, composta de | | |terra preta mal preparada e cheia de | | |pequeninos seixos. | | | | |Moedas |Em ouro, em prata e em bronze. | +-----------------------------------+---------------------------------------+ CAPITULO II *Era gallo-romana* Entreapparece-nos um dos mais amplos horisontes da historia dos povos occidentaes na conquista do imperador romano Cesar. Nos _Commentarios_ d'este grande general temos perfeita idéa do estado da Gallia na época da conquista; conhecem-se tanto os grandes factos que consumou, quanto se inferem as consequencias que d'elles advieram á civilisação. Cesar encontrou a Gallia dividida em tres nações principaes: os Belgas, os Celtas e os Aquitanios. O imperador Augusto, que pretendeu organisar o governo regular nos paizes conquistados, formou tres novas provincias d'essas tres regiões. Segundo esta divisão, foram desannexados e encorporados na Aquitania 14 povos da Celtica; além de dois que passaram do Norte para a Belgica. Assim ficou modificado o territorio dos primitivos povos d'esta parte da Europa. *Vias de communicação* Começaremos a nossa revista dos monumentos da grande época romana, descrevendo as vias publicas ou as grandes estradas; tanto mais que foram as primeiras obras que o povo rei executou e de que nos deixou vestigios. As cidades e as estancias eram accessiveis por meio de estradas solidas, ou calçadas. Nos intervallos que separavam estes estabelecimentos uns dos outros, é que principalmente se encontravam vestigios das vias romanas. Seguiam em geral linhas rectas, excepto quando obstaculos naturaes, como as montanhas, os barrancos profundos, as lagôas, se oppunham a isso, e prolongavam-se tanto quanto possivel nas planicies, afim de evitar os terrenos pantanosos. Além das estradas principaes, que communicavam uma cidade com outra, havia os caminhos vicinaes, _viae vicinales_, que conduziam ás aldeias, e estabeleciam relações entre estas e as cidades. Não eram alinhados como as primeiras, nem feitos com egual esmero. Nas estradas mais bem executadas, a primeira camada, ou a mais funda, compunha-se de pedras collocadas em raso, ás vezes assentes com argamassa, mas em geral postas simplesmente umas sobre as outras: era o que chamavam _statumen_. Em algumas vias, as pedras do _statumen_ eram postas de cutello e com inclinação, como explicaremos quando fallarmos das paredes construidas em espinha de peixe. A largura ordinaria das vias romanas era de 15 a 20 pés. As bordas das partes alteadas não se conservam em muitas localidades; arruinaram-se por modo que não apresentam hoje sufficiente largura para um carro poder passar; e em certos pontos aproximam-se mais de um fôsso, que de uma estrada. Os caminhos romanos atravessavam os rios sobre pontes, e vaus calçados. Em grande numero de localidades, encontram-se os alicerces das pontes, ou dos vaus, debaixo da agua, seguindo a directriz das antigas vias. Em certos casos o trilho era estabelecido sobre travessas de madeira. _Columnas itinerarias_.--Os caminhos romanos eram divididos por marcos situados em espaços regulares, e com inscripções que indicavam o numero de leguas ou de milhas, comprehendido entre as diversas povoações. As capitaes serviam de ponto central para marcar as distancias em todo o territorio. _Os marcos milliares_ tinham 5 a 6 pés de altura; eram de fórma cylindrica; chamavam-se milliares, _milliaria_, ou simplesmente _lapidas_. D'aqui provem as phrases tão frequentes nos auctores antigos, _ad primum_, _secundum_, _tertium lapidem_, a primeira, a segunda e a terceira pedra, ou só _ad primum_, _secundum_, _tertium_, etc. ficando subentendido _lapidem_ ou _milliarium_. A segunda camada, chamada _ruderatio_, era formada de pedras britadas de dimensão menor que as anteriores. A terceira camada, _nucleus_, compunha-se, ora de cal misturada com fragmentos de telha pisados, ora de areia misturada com argila. [Figura 26: Columna milliar que existe em França] Seixos inteiros, apertados uns contra os outros, ou postos simplesmente em leito de areia grossa, _glarea_, formavam a quarta e ultima camada, chamada _summa crusta_. Era excepcionalmente nas cidades, aldeias ou nos paizes pantanosos, que formavam a _summa crusta_ com calçada de pedras cubicas ou polygonaes irregulares. Em geral, serviam-se para estes trabalhos dos materiaes que encontravam na localidade, ou a pequena distancia; sómente os mandavam buscar mais longe quando eram de má qualidade no terreno das obras. Em muitas partes, as vias antigas foram alteadas do solo, e um _agger_ servia de base á calçada. Estes _caminhos alteados_ conservam ainda o seu nivel superior em espaços muito extensos, e são faceis de reconhecer. As estradas antigas eram tambem cavadas, como se as preparassem para o leito de um rio. As excavações em algumas partes podiam ser consequencia do uso prolongado de viandantes e vechiculos; porém, em outras, foi visivelmente praticado com o fim de tornar mais suaves as subidas muito ingremes. [Figura 27: Torre de Pirelonge] O uso das columnas milliares data do anno 183 antes da era christã. Foi determinado em lei proposta por C.S. Graccho, e depois ampliada ás provincias do imperio. As inscripções collocadas n'estas columnas foram primitivamente laconicas; indicavam apenas o numero de milhas comprehendidas de uma a outra localidade. Augusto foi o primeiro que mandou gravar os seus nomes e qualificações nos marcos levantados por sua ordem, e os successores seguiram-lhe o exemplo. _Pyramides_.--As vias romanas não eram sómente guarnecidas pelas columnas itinerarias; aos seus lados viam-se tambem torres massiças, ou pyramides, ora circulares, ora quadradas.[10] Consideravam-se essas pyramides como tumulos; mas a maior parte parecia terem sido levantadas para ornar os caminhos, ou antes dedicadas a Mercurio, como deus protector das estradas, das artes, e do commercio. Em algumas d'ellas abriam especies de nichos que deviam receber a estatua de Deus. Formavam-se taes construcções de bases quadradas de alvenaria, que sustentavam uma serie de grandes pedras de cantaria; o remate apresentava a configuração conica, tendo a superficie coberta de entalhos sobrepostos, representando folhas de arvores em camadas. A torre de Pirelonge, em França, de 74 pés de altura, é um especimen d'este genero. _Mansão_.--Encontravam-se nas estradas mansões, ou pousadas, mais especialmente destinadas para o serviço dos correios, e para os que viajavam com auctorisação do imperador. Eram administradas por uns funccionarios chamados _mancipes_, cathegoria pouco mais ou menos egual á dos nossos directores do correio. Os logares das mudas de menor importancia e situadas com pequenos intervallos, chamavam-se _mutações_. Denominavam-se emfim _diversoria_ as casas construidas ao longo das estradas, quer pertencessem a proprietarios que hospedavam ahi os seus amigos, quer recebessem viajantes como os nossos hospedeiros. As principaes estradas romanas tinham a classificação de _publicas_ ou _militares_, _consulares_ ou _pretorianas_, e os caminhos menos frequentados designavam-se com os nomes de _particulares_, _agrarios_ ou _vicinaes_. *Architectura* Os romanos imitavam na sua architectura os Etruscos e os Gregos, porém foram menos cuidadosos na pureza das formas, do que no aspecto grandioso; e preferiram á formosura monumental o effeito da apparencia e da utilidade; portanto, procuravam sempre adpotar um systema que lhes desse logar a utilisar nas obras publicas o trabalho dos soldados, e dos escravos, dirigidos sómente por limitado numero de architectos ou engenheiros. Comprehendiam que era poderoso meio de dominação dotar o paiz vencido com os monumentos que não possuissem, introduzir em toda a parte a civilisação, transmittindo aos subordinados as vantagens, as instituições e os estabelecimentos uteis, dos quaes estavam até então privados. [Figura 28: Pequeno aparelho, e de espinha como está construido o monumento romano de Theséo] Em logar, pois, de empregar, como os Gregos, materiaes de extraordinaria dimensão, e por consequencia difficies de se ajustarem, preferiam, salvo em casos excepcionaes, pôr em obra materiaes de pequena dimensão, alvenaria, tijolos reunidos entre si por abundante argamassa. Um grande facto architectonico, como foi a adopção da abobada cylindrica composta de peças em forma de cunhas, fez com que pudessem afastar-se do systema da edificação grega, no qual dominavam as architraves e os apoios verticaes. Com a abobada e as arcadas de volta perfeita, de que os romanos tiravam tão vantajoso resultado, effectuaram-se notaveis construcções, que não se deveram nunca ao genio dos gregos. _Pequeno apparelho_.--As paredes de pequeno apparelho, o modo de construir mais habitualmente empregado, tem as faces formadas de pedras symetricas, quasi quadradas, e cuja face não tem mais de 3 a 4 pollegadas e raras vezes de 5 a 6. O centro da parede mostra um massiço de alvenaria irregular feito com pedra miuda imbebido de cimento. Notam-se em varias construcções, de pequeno apparelho, zonas horisontaes e continuas de grandes tijolos, destinados a sustentar o nivel das pedras pequenas do refôrço da alvenaria. Estas zonas compôem-se geralmente de dois ou tres, e tambem de cinco, seis ou sete fileiras de tijolos separados por camadas de cimento, cuja espessura é quasi egual á dos tijolos. Os romanos dispozeram tambem as pedras com o feitio de folhas de fetos, ou em espinhas, como se vê na gravura da pagina anterior. A argamassa era sempre applicada com grande espessura entre as pedras e nenhuma das quaes estava em contacto immediato, mas de certo modo imbebidas no cimento. As dimensões dos tijolos variavam muito para poder indicar-se absolutamente a mais usual; comtudo era entre 14 a 15 pollegadas de comprimento por 8 a 10 de largura; mas havia maiores, e até alguns mui pequenos. _Apparelho reticular_.--Os architectos romanos empregavam egualmente a _obra articulada_, ou alvenaria em forma de malhas, differente do pequeno apparelho ordinario, por que as pedras do revestimento eram cortadas com esmero, de tamanhos eguaes, e collocadas de modo que as juntas apresentavam linhas diagonaes, simelhando uma rede. Este genero de reforço de alvenaria empregavam-no geralmente como ornamento, pois não se encontra applicado exclusivamente, mas quasi sempre combinado e intercalado com o pequeno apparelho. [Figura 29] As paredes do grande apparelho encontram-se nos mais importantes e grandiosos edificios, como os templos, os arcos de triumpho, os theatros, etc. _Argamassa e cimento_.--As argamassas dos romanos compunham-se de cal viva e de areia, e frequentemente de tijolo pizado, em proporções variaveis, e que seria difficil determinar. A presença do tijolo pisado distingue-se de quasi todas as que depois foram empregadas. Todavia encontram-se tambem argamassas romanas que não contem nenhuma parcella de tijolo, assim como não apresenta nenhum caracter particular. _Ordens_.--chama-se _Ordem_ a combinação de diversas partes salientes dispostas, com proporções fixas, para compôr um conjuncto regular e harmonico de ornamentação das fachadas dos edificios importantes. Divide-se uma ordem de architectura em tres partes, ou membros, que são pedestal--columna--e um entablamento. Cada membro divide-se em tres partes d'este modo: { Base. Primeiro membro ou pedestal { Soco. { Cornija. { Base. Segundo membro ou columna { Fuste. { Capitel. { Architrave. Terceiro membro ou entablamento { Friso. { Cornija. Os romanos empregavam cinco ordens: A Toscana. A Dorica. A Jonica. A Corinthia. A Composita. A Dorica, a Jonica e a Corinthia, eram de origem grega. A Toscana e a Composita nasceram na Italia. É por isso que se designam algumas vezes as tres primeiras sob a denominação _ordens gregas_, e as duas outras sob a de _ordem latina_. Nas ordens Toscana, Dorica, Jonica e Corinthia, a columna tem proporções differentes; as da Corinthia e Composita são eguaes. Eis o quadro d'estas proporções conforme o architecto Vignola, que é o auctor mais seguido pela simplicidade das subdivisões: A altura da { Toscana, de 7 vezes. } Do diametro columna vem a { Dorica, de 8 idem. } inferior, isto é ser para a { Jonica, de 9 idem. } a grossura tomada ordem: { Corinthia, de 10 idem. } no fuste junto da { Composita, de 10 idem. } base. Portanto, as quatro primeiras ordens differem nas proporções; a da quinta ordem são eguaes ás da quarta. Os pedestaes e os entablamentos differem tambem nas quatro primeiras ordens. Em geral, o pedestal tem o _terço_ da altura da columna, e o entablamento a _quarta_ parte, conforme o auctor citado. O modulo é medida convencional que serve de escala para desenhar as ordens; é sempre a metade do diametro inferior do fuste da columna, o qual se divide em 12 partes para as tres primeiras ordens, e em 18 partes para as duas ultimas. { A menos elevada e a mais simples das cinco Toscana { ordens. { Cornija sem modilhões, nem denticulos. { Modilhões, denticulos ou mutulos na cornija, { triglyphos no friso, gottas na architrave. Dorica { Capitel da mesma forma que o da Toscana, porém { um pouco mais ornado, caneluras ou estrias { no fuste. { Capitel com volutas, cornija ornada de Jonica { denticulos. { Architrave dividida em três platebandas ou faixas. [Figura 30: Fachada d'um templo Dorico] [Figura 31: Dorico] [Figura 32: Jonico] [Figura 33: Corinthio] { Capitel ornado de dois renques de folhas de { acantho e dezeseis volutas.--Dois renques de Corinthia { denticulos e um de modilhões na cornija.--Architrave { dividida em tres platebandas ou faixas { por baguetas ornadas de molduras. { Capitel imitando o das Ordens Corinthia e Composita { Jonica.--Cornija com denticulos.--Duas platebandas { ou faixas na architrave. [Figura 34: Portico da Ordem Toscana] As columnas não são sempre applicadas para decoração dos edificios; substituem-se ás vezes por pilastras, que, sem ter o aspecto gracioso das columnas, produzem não obstante um effeito agradavel á vista. As _pilastras_ tem em geral pouca saliencia, não excedendo a mais da metade da largura; e não se lhes diminue o diametro da parte superior do fuste, como acontece ás columnas. Eis a disposição de um _portico_ da ordem Toscana: quando se collocam muitas ordens de columnas ou pilastras em um edificio, é preciso que as Ordens mais delicadas fiquem sobrepostas ás mais solidas: portanto, não se collocam nunca as columnas Toscanas sobre as columnas Jonicas, e se o architecto empregar a Jonica, ou a Corinthia, seguirá a regra de sobrepôr a segunda á primeira. Não julguemos que a architectura antiga está representada pelas _cinco ordens_ classificadas e regularisadas pelos insignes architectos italianos do _Renascimento das artes_. Ficaremos muito surprehendidos quando, examinando os restos da architectura romana existentes nas antigas cidades, particularmente na Italia, e n'este paiz em especial Roma, virmos que não differem, quasi em parte alguma, na _rigorosa similhança_, as cinco celebres Ordens desenhadas e medidas por Vignola, Palladio, Serlio, Scamozzi e outros architectos illustres. Pelo contrario, os typos principaes da architectura antiga apresentam infinita variedade, que augmenta nos edificios cuja data se aproxima dos ultimos tempos do imperio, a tal ponto que vem a ser realmente mui difficil determinar a Ordem a que pertencem taes ou taes entablamentos, capiteis, bases, columnas, etc. Os capiteis, principalmente, apresentam diversidade de formas e ornamentações, que será baldada a classificação rigorosa; mostram todavia na composição riqueza e delicadeza de cinzel, sobejamente notaveis; observando-se pelo conhecimento dos effeitos pittorescos, produzidos no claro-escuro, o esmero do trabalho. As partes em relevo são conservadas com acerto e habilmente executadas. Os architectos modernos, creando typos unicos sob a denominação de cada uma das Ordens; desejando subordinar tudo a esses typos, privaram-se de produzir combinações graciosas, em quanto os artistas do estylo romano, engenhosos e fecundos, tiravam partido da liberdade de composição, enriquecendo a architectura em que reproduziam as formas, não punham peias á imaginação, e evitavam executar obras monotonas, pobres e sem attractivos, como succede em muitas presentemente levantadas. Os edificios publicos e muitas casas particulares eram durante a dominação romana, revestidas de marmore, ou de cimento e cal; e algumas tinham mosaicos, e aqueciam-n'as por meio dos hypocaustos. Os _mosaicos_[11] antigos, dos quaes se tem encontrado repetidamente fragmentos em localidades hoje inhabitaveis, compõem-se de pequeninas peças cubicas imbebidas em especie de massa e assentes em cimento misturado com tijolo moido. [Figura 35] Estas pequenas peças de diversas cores eram combinadas de maneira que formavam differentes desenhos. Alguns mosaicos representavam combates de animaes e outras scenas. A mais importante descoberta feita em Portugal foi a que fizemos perto de Leiria, em 1874, de um mosaico de cinco côres e com difficeis combinações de linhas geometricas, pertencente a uma _villa rustica romana_. _Hypocaustos_.--Os hypocaustos, estabelecidos no pavimento terreo das habitações romanas, eram empregados como os caloriferos modernos. Para formarmos idéa exacta do hypocausto, é preciso figurarmos um sobrado levantado quasi a 2 pés acima do solo, e sustentado sobre pequenos pilares A de egual altura, distantes uns dos outros 1 pé, por meio dos quaes o calor circulava e aquecia por egual o piso que cobria esta especie de subterraneo. Os pilares dos hypocaustos eram geralmente quadrados, compostos de tijolos de 7, e 8 ou 10 pollegadas de comprimento, uns sobre os outros, com o intervallo de uma camada de argamassa. [Figura 36] Os pilares do hypocausto recebiam grandes tijolos de 18 a 20 pollegadas em quadrado B, formando a base do pavimento das habitações. Em muitas localidades, os tijolos eram sobrepostos de modo que apresentavam o cimo menos largo que a base. O calorico não ficava concentrado no subterraneo onde estava o hypocausto: circulava nos pontos mais elevados, e entrava egualmente em todas as partes da atmosphera das salas, passando dor tubos quadrados de barro cozido 4 e 5, introduzidos na grossura da parede, 3 e 3, gravura de pag. 46 [fig. 37], um dos quaes, em posição vertical, penetrava no hypocausto, emquanto outros, collocados horisontalmente, circumdavam os aposentos. O lume que aquecia o hypocausto era acêso n'um forno posto em pequenos pateos ou vestibulos proximos do hypocausto. _Embutidos e ornamentos_.--O marmore foi frequentemente empregado para a decoração das paredes. Em geral, os architectos romanos souberam tirar grande partido dos materiaes que fornecia o paiz em que se faziam as obras. Não era raro vêr entrar em combinação os materiaes indigenas com os exoticos mais preciosos, taes como o porphyro, os marmores cipolino, os ophitos, etc., etc. O uso de pintar as paredes era tão geral que as simples construcções em taipa e os tectos revestidos de barro tambem recebiam essa ornamentação. A pintura era applicada sobre delgado guarnecimento de cal. Os methodos usados pelos romanos para a pintura das paredes são-nos imperfeitamente conhecidos. Comtudo, um d'elles consistia em applicar com a broxa cera colorida e derretida, estendendo-se ainda quente nas paredes. [Figura 37: Tubos verticaes (4 e 5) para circular o calor, mettidos nas paredes] A cêra não era empregada só, mas misturavam-n'a com azeite para a tornar mais liquida: todavia, a maior parte d'essas pinturas parece ter sido assente a frio, e a sua adherencia seria produzida, talvez, por uma especie de colla que lhe ajuntavam. As paredes e os tectos eram tambem em algumas habitações revestidos de mosaicos de vidro preto, azul, branco, verde escuro, etc., decorações que se encontravam em muitas salas de banhos. Plinio diz-nos que empregavam o vidro nos mosaicos das abobadas e das paredes, advertindo que este uso era recente, comparativamente com o dos mosaicos de pedra ou barro cozido. Achâmos na _villa rustica romana_, descoberta por nós em Leiria, duas casas com mosaicos d'este ultimo modo, e outra de argila cozida. _Telhas e telhados_.--Os telhados das casas romanas eram formados de telhas chatas de grande dimensão, mais compridas que largas com um resalto sobre os dois lados: assim como havia telhas curvas similhantes ás dos telhados modernos.[12] As primeiras adaptavam-se umas ás outras pelas extremidades que não tinham resalto; as segundas ligavam-se entre si no sentido da inclinação do telhado, ficando em fiadas parallelas as telhas chatas e para cobrir as juntas e evitar a infiltração das aguas da chuva. Os fragmentos das telhas com resalto tem resistido quatorze seculos á acção destruidora dos elementos, e das pancadas do arado; encontram-se espalhados e enterrados em grande quantidade em quasi todos os logares onde existiram construcções romanas. Em fim, estes restos são o melhor indicio para o reconhecimento das regiões antigamente occupadas pelos romanos. *Pontes* As pontes, obra de tamanha utilidade, tornam-se mui notaveis pelas suas ousadas dimensões. Existem presentemente poucos vestigios d'ellas: o maior numero ficou destruido, pela força das correntes, ou reconstruido em diversas épocas e alterado na primitiva construcção. Podemos apenas citar poucas das compostas na época romana. Nas pontes, como em outros monumentos gallo-romanos e luso-romanos, empregou-se o grande apparelho, e muitas vezes de alvenaria com argamassa (_empleton_) revestido de pequenas pedras symetricas (_opus incertum_). [Figura 38: A ponte de S. Chamas, e as suas duas portas monumentaes] Quando usavam os materiaes de grande dimensão, as pedras ficavam prezas umas ás outras com os cancros de ferro ou de bronze, e algumas vezes com malhetes de madeira de oliveira, previamente secca no forno. Nas pontes construidas com pequeno apparelho a boa qualidade da argamassa dava-lhes tal solidez, que os pegões que sustentavam os arcos não soffreram depois nenhuma alteração. Os pegões apresentavam algumas vezes, do lado da corrente, uma parte saliente triangular, para cortar assim a força da agua; e se o rio tinha demasiada extensão, acontecia então dividil-o em muitos braços, afim de construir a ponte em secções. D'este modo corrigia-se a rapidez dos rios pela divisão das aguas, e tornava-se menos difficil a construcção das pontes. Na idade media foram imitadas. As pontes construidas com mais esmero e regularidade eram ás vezes verdadeiros monumentos, que serviam tambem para aformoseamento. Algumas tinham portas monumentaes ou arcos de triumpho. _Pontes de madeira_.--Tratámos das pontes de pedra, porque só estas poderiam subsistir até os nossos dias; mas, durante o dominio dos romanos, tinham elles egualmente grande numero de pontes construidas de madeira. Passava-se tambem os rios servindo-se de barcos de passagem, com jangadas sustentadas em odres ou tonneis vazios, como é usado ainda hoje em casos urgentes. Havia tambem pontes firmadas em barcos, como se vê figurado na columna de Trajano em Roma. _Muralhas e caes_.--Os caes ou as grandes muralhas de supporte, construidas nas margens dos rios, vinham ligar-se ás pontes, quando estas existiam nas cidades. *Aqueductos* Os aqueductos, pela sua consideravel extensão e a importancia das ruinas que se conhecem em differentes pontos, offerecem interesse especial. Os romanos, como todas as nações civilisadas, gastavam grande quantidade de agua para os usos domesticos; sendo muito escrupulosos na boa qualidade da agua, embora a fossem buscar a grandes distancias para os centros da povoação, empregando para esse fim canaes ou aqueductos. [Figura 39: Restauração de um aqueduto em siphão] Os aqueductos antigos que ainda existem, como os que possue a Italia, e os vêmos em outras partes, apresentam os canos de alvenaria feitos com mais ou menos solidez, e mais ou menos cuidadosamente betumados. Serviam-se geralmente das pedras de pequenas dimensões, embebidas na argamassa. Os canos, sendo proporcionados ao volume de agua que deviam levar, eram formados com abobada em volta perfeita, se ás vezes cobertos com grandes lageas assentes e sobrepostas sem cimento. Para se obter o nivel das encostas que se encontravam na juncção dos encanamentos, faziam-n'os passar então sobre arcos mais ou menos elevados, que reuniam os dois lados do valle; outras vezes sobrepunham-se dois ou tres renques de arcos, com receio de que a demasiada altura dos pilares lhes diminuisse a solidez. Quando o valle era muito profundo, para por este meio poder firmar-se o encanamento do aqueducto em nivel conveniente, conduziam a agua em tubos de chumbo que subiam até o cume da collina opposta, onde a agua pudesse seguir a sua corrente natural, conforme Vitruvio descreve mui claramente no seu 8.^o livro de architectura. [Figura 40: Canal subterraneo do aqueducto] [Figura 41: Canal de aqueducto sustentado sobre arcadas] [Figura 42: Vista geral da ponte do Gard] Para evitar trabalhos sempre difficies e dispendiosos, faziam seguir aos encanamentos subterrâneos, rodeios, ou sinuosidades, e por esta maneira as aguas podiam transpôr grandes espaços sem encontrarem encostas, e sem ficarem impedidas pelos obstáculos das montanhas. Os aqueductos eram todavia mais communs soterrados, e só apparentes nos valles, onde necessariamente os canos passavam sobre paredões ou arcarias. Os encanamentos que distribuiam as aguas nas fontes para os banhos e para outros estabelecimentos publicos e particulares das cidades gallo-romanas, eram feitos de chumbo ou barro. Saiam de um reservatório commum, ou castello de agua, _castellum_, como se vê um em Évora, do tempo de Sertorio. A primeira gravura da pag. 51 [fig. 40], mostra o encanamento do aqueducto de Fréjo, um dos mais extensos que subsistem, tal qual se apresenta á vista quando se mantém subterraneo, ou collocado nas encostas das collinas, fig. 41. Este exemplo explica todo o systema empregado pelos engenheiros romanos. Os aqueductos seguem a construcção egual das obras de arte executadas nos caminhos de ferro, transpôem como ellas os valles sobre viaductos, e atravessam as montanhas por meio de vallas ou tUneis. Pontes e aqueductos serviam para transpôr os valles, e alguns tinham 90 arcos. A ponte do Gard, em França, era formada de três renques de arcadas sobrepostas, servia para o transito e o ultimo conduzia a agua á cidade, correndo na extensão de 41:000 metros. Indica a gravura da pagina anterior a sua construcção. O numero dos aqueductos era extraordinario; não só se encontravam nas proximidades das grandes povoações, mas tambem das pequenas, e até junto das casas de campo de limitada apparencia. *Cloacas* As _cloacas_ constituiam outra especie de aqueductos subterraneos para receber as aguas inuteis, ou para as aguas da chuva e immundicies. Em Roma, estendiam-n'as por toda a cidade, e subdividiam-n'as em muitos ramaes que vinham desaguar no Tibre. O principal cano de despejo, com o qual os outros communicavam era chamado _cloaca maxima_. Tinha abobadas elevadas construidas com grande solidez, por debaixo das quaes se passava em barcos[13]. *Praças publicas* _O forum_ era geralmente uma praça onde se reuniam as assembléas do povo, onde se administrava a justiça e onde se tratavam os negocios publicos. Estava em certas partes rodeado de _porticos_, edificios e lojas. Nas cidades de importancia secundaria, onde os porticos não eram repetidos como em Roma, achavam-se principalmente perto dos monumentos publicos, taes como os theatros, as thermas, os palacios, os templos, etc. etc.; collocavam muitas vezes os porticos do _forum_, por detraz da scena dos theatros, afim de que, conforme diz Vitruvio, quando inopinadamente chovesse durante o espectaculo, o povo pudesse abrigar-se ali. A forma das praças, ou _fora_, era a do quadrilongo. Vitruvio affirma que devia ter um terço em comprimento, a mais de um lado que de outro. *Basilicas* A palavra _basilica_, significa _casa real_: designava em Roma um edificio sumptuoso dentro do qual os magistrados faziam justiça, por isso a distinguiam do _forum_, onde as sessões eram celebradas ao ar livre. As basilicas tinham tambem a fórma de um quadrilongo. Parte dos porticos, interiormente decorados, ficava occupada pelos commerciantes: portanto, estes edificios eram ao mesmo tempo destinados aos negocios forenses, e uma especie de praça de commercio. Em quanto á disposição das basilicas as primitivas egrejas christãs transmittiram-nos a imitação, e conservaram o nome. As basilicas consistiam pois em vasto recinto, tres vezes mais comprido que largo, dividido em renques de columnas formando muitas naves. Não ha a certeza de que as basilicas fossem rodeadas de paredes por todos os lados; julga-se que algumas eram abertas, pelo menos de um lado, para dar mais facil accesso ao povo, e para que as galerias communicassem melhor com a praça publica. Não se pode duvidar de que não tivessem existido basilicas nas cidades gallo-romanas; porém seria difficil indicar o sitio que occupariam, porque desappareceram completamente os vestigios. *Arcos de triumpho e portas monumentaes* Os _arcos de triumpho_, porticos levantados á entrada das cidades, no logar da passagem publica, perto dos _forums_, diante dos templos, e na cabeça das pontes, etc. etc.; afim de indicar a memoria de uma victoria, de um grande serviço prestado ao imperio, e algumas vezes sem outro intuito mais que o de aformosear as cidades onde se erigiam. [Figura 43: Arco de triumpho] Dá-se tambem esta denominação ás portas das cidades antigas, que apresentavam uma disposição quasi similhante á dos arcos de triumpho. Estes, porém, eram monumentos isolados, formando um só corpo, e não se ligavam ás construções das trincheiras ou muralhas. Era o contrario do que succedia nas _portas da cidade_, as quaes não obstante patentearem por vezes nas fachadas grande magnificencia, todavia as extremidades lateraes ficavam encravadas nas muralhas dos recintos fortificados, formando-lhes assim o accessorio ou a ornamentação. [Figura 44: Portas de Santo André em Autun] Entre as portas, a disposição mais seguida era a que a gravura apresenta, copiada da de Santo André de _Autun_, em França. *Templos* Duas formas eram consagradas para estes edificios religiosos, a quadrilonga e a circular. Seguiam mais geralmente a primeira. Os _templos_ receberam differentes denominações, conforme a disposição das columnas que os decoravam; distinguindo-se pela seguinte maneira: Os templos com pilastras--Os _prostylos_, fig. 45.--Os _amphiprostylos_, fig. 46.--Os_ peripteros_, fig. 47.--O _monoptero_, fig. 48.--Os _pseudo-peripterios_, fig. 49.--Os _hypetheros_, fig. 50.--Os _monopteros_. [Figura 47: Periptero quadrado] [Figura 48: Periptero redondo] [Figura 45: Prostylos] [Figura 49: Pseudo-Periptero] [Figura 50: Hypethreos] [Figura 46: Amphiprostylos] Os primeiros não tinham senão pilastras nos cunhaes da frente, e só uma columna de cada lado da porta. Os templos _prostylos_ apresentavam quatro columnas na face exterior, e não tinham nenhuma aos lados, nem na parte posterior. Nos templos _peripteros_, as columnas rodeavam completamente o edificio; sendo em o numero de seis nas fachadas anterior e posterior. Nos templos _pseudo-peripteros_ differençavam-se dos antecedentes em que as columnas estavam embebidas nas paredes lateraes e na parede do fundo, em logar de ficarem separadas. Duplo renque de columnas rodeava os templos dipteros, oito das quaes ornavam a fachada. Finalmente, o templo _monoptero_ apresentava simplesmente a cupula sustentada sobre columnas dispostas em circumferencia; e o santuario não era fechado. Resulta pois, do que fica exposto, que em todos os templos, excepto nos monopteros, havia uma parte fechada que era o santuario; em muitos templos, corriam em roda d'esse santuario galerias abertas, como especie de porticos para a ornamentação externa do edificio. A parte encerrada era designada sob o nome de _cella_ ou _nau_. Ahi collocavam a estatua da divindade, em honra da qual o templo fôra erigido. Na frente da _cella_, e por detraz das columnas da fachada, estava o _pronaus_ ou vestibulo, no qual abriam a porta da entrada; á extremidade opposta do templo dava-se-lhe o nome de _posticum_. Algumas vezes reservavam, na parte posterior da _cella_, um quarto A destinado a guardar o thesouro do templo, e que se designava sob o nome de _opisthodomos_. As columnas eram sempre em numero par nas fachadas dos templos; e conforme que se contava quatro, seis, oito ou dez, os templos tomavam a denominação de _tetrastylos_ (4 columnas), _hexastylos_ (6 columnas), _octostylos_ (8 columnas), ou _decastylos_ (10 columnas). Finalmente, certos templos eram rodeados de uma cerca _peribobos_ ou antecedidos de pateo fechado, e ornados com portico, á roda do qual estavam os aposentos dos sacerdotes. A estatua da divindade, feita de bronze, marmore, ou pedra, collocava-se no fundo da _cella_, em pedestal um pouco mais elevado que o altar, e fazia face á porta da entrada. Em geral, os templos ficavam voltados para o oriente. [Figura 51: Fachada da Casa Quadrada de Nimes] Não se deve julgar que os templos fossem muito vastos; alguns d'elles tinham até pequenissimas dimensões, e isso explica-se facilmente pelo conhecimento dos usos religiosos antigos, porque o exercicio do culto era individual; cada um tinha dias proprios para o sacrificio, em quanto, no christianismo, o exercicio do culto é collectivo. O templo _pseudo-periptero_ hexastylo ha em Nimes (França), da ordem corinthia, o qual serve actualmente para museu de archeologia. A gravura mostra as suas bellas proporções e belleza. As dimensões e a disposição do _templo de Diana_, em Evora, apresenta-nos outro exemplo d'esta ordem de edificios do antigo paganismo, que felizmente se conserva em Portugal nas suas magestosas ruinas, como se vê na presente gravura. [Figura 52: Templo de Diana, em Evora] Os templos rectangulares ficavam dispostos como indica a gravura da pag. 60 [fig. 53], rodeados de porticos; no meio d'elles havia o logar da cella e dentro o pedestal para a divindade. Os templos circulares dividiam-se em duas classes: a primeira chamada _monoptero_, compunha-se sómente de recinto formado por columnas collocadas em pedestal commum, _stylobato_; o segundo _periptero_, apresentava uma _cella_ á roda da qual havia columnas, pousada egualmente sobre um _stylobato_, com degraus para ganhar a altura do pedestal, e dar entrada para o templo. Fragmentos achados dos templos antigos, fizeram vêr que as suas esculpturas tinham sido pintadas de branco e amarello com traços encarnados, para dar mais relevo aos contornos. Não só havia templos nas cidades, mas tambem nos campos. Alguns d'estes eram de grande veneração, pois que serviam de deposito aos mais ricos thesouros, principalmente os dedicados a Mercurio. [Figura 53: Plano do templo rectangular de Izernore (França)] _Altares_.--Já dissemos em que parte do templo se collocavam as estatuas das divindades; agora nos occuparemos da forma dos _altares_. Havia entre elles differença de forma e de materia, proporções e usos. A maior parte dos que se conservaram até hoje mostra a construcção de marmore ou cantaria simples; havia-os tambem de madeira; mas em menor numero. Os altares de metal apresentavam o feitio de tripode; os altares de marmore ou madeira eram quadrados, redondos, e ás vezes triangulares. Os ornatos mais usados nos altares antigos eram os que representavam as cabeças das victimas, taças, e outros vasos e instrumentos para os sacrifícios, entrelaçados de grinaldas de flores e folhas[14]. Liam-se em alguns altares inscripções indicando a data da consagração, o nome do fundador, e as razões da devoção. Os mais bellos e custosos tinham ornamentações em baixo-relevo representando a divindade que se queria venerar e os seus attributos. [Figura 54] Costumavam fazer em cima dos altares e no meio d'elles, uma cavidade para receber as _libações_ ou o sangue das victimas. Alguns altares eram fundados nas encruzilhadas, junto das estradas mais frequentadas, onde depois se ergueram cruzeiros, nos tempos modernos, para memoria. *Edificios destinados aos jogos publicos* Tinham os povos antigos tres especies de edificios destinados aos jogos publicos: o _circo_, o _theatro_, e o _amphitheatro_. Muitas vezes teem confundido os três sob a mesma denominação, de _circos_; porém a forma, as dimensões, e o destino estabelecem entre elles diferenças notaveis. Os _circos_ eram mais bem considerados que os amphitheatros e os theatros; a forma d'aquelles edificios era de um parallelogrammo prolongado, circular em um dos topos, e quadrado ou levemente convexo do lado opposto. Os dois lados maiores apresentavam exteriormente duas ordens de architectura sobrepostas, limitadas por uma attica e cobertas com terraço. _Lojas_ e _passagens cobertas_ conduziam ao interior do circo, e occupavam o primeiro renque das arcadas. _Seis torres quadradas_, quatro d'estas nos pontos de juncção dos grandes e pequenos lados do circo, e duas nas extremidades, sobresaiam aos terraços; as quaes torres eram ornadas de quadrigos, ou grupos de andarilhos. [Figura 55: Circo Maximo de Roma] A entrada para os carros destinados ás corridas era pela extremidade convexa do circo; doze arcadas, não comprehendida a que se achava debaixo da torre, fechadas por grades de ferro, serviam de cocheiras, _carceres_, onde os cavallos eram guardados antes do começo das corridas. É fácil comprehender a disposição dos assentos postos no interior de um circo: sobre os dois grandes lados e no hemiscyclo opposto aos _carceres_, levantavam-se os palanques, tendo acima a galeria ornada de columnas correspondentes ás paredes que separavam as arcadas exteriores da _segunda ordem_, e por meio das quaes podiam circular os espectadores. Havia tambem, por cima dos carceres, outros palanques, e era ahi, superior á entrada principal na torre collocada ao centro das cocheiras, que estava a tribuna reservada para o imperador ou para o magistrado que presidia aos jogos. [Figura 56: Tribuna de um circo] Entre os assentos dos espectadores e o espaço destinado para os jogos (_area_), havia, em alguns circos, um canal, de largura de 10 pés, cheio de agua (_euripus_), resguardado por engradamento do lado da _area_. Porém os circos não eram rodeados de tal fosso: ainda não se encontrou nenhum vestigio no de Caracalla em Roma, embora fosse um dos principaes, assim como em outros explorados depois. O _euripus_ não se abria nunca do lado dos _carceres_, para não interromper a entrada para o circo. No centro da _area_ dos circos levantavam uma parede de 4 pés de altura e 12 de largura, prolongando-se em quasi todo o comprimento do recinto. A esta construcção, que dividia o circo longitudinalmente, davam o nome de _spina_. O imperador Augusto foi o primeiro que fez levantar sobre a _spina_ um obelisco dedicado ao Sol. Havia também sobre a _spina_ dos circos pequenos templos, altares, estatuas e sete bolas, _ova_, sustentadas em eixos, que serviam para indicar o numero de voltas executadas pelos carros, _ova ad metas curriculis numerandis_, e sete delphins postos em pedestaes, ou em architrave sustentada por columnas. Os delphins tinham sido escolhidos em veneração de Neptuno, porque se suppunha serem estes os animaes mais ageis do mar. Nas duas extremidades, e na parte exterior da _spina_, havia sempre tres pyramides firmadas na mesma base, e servindo de ponto de limite. Era junto d'estes marcos (_metoe_) que os carros deviam voltar para as extremidades do circo, evitando tocar no marco. O ponto de partida era collocado de modo que os concorrentes tinham sempre á esquerda a _spina_ e os marcos. Os conductores de carros (_aurigæ_) traziam um vestuario como especie de librés de côres differentes e formavam partidos ou facções. Primeiramente houve quatro librés: a branca, _alba_; a encarnada, _russea_; a azul, _veneta_, e a verde, _prasina_. O imperador Domiciano juntou a estas mais duas: a purpura, _purpurala_; e dourada, _aurata_. Quando os espectadores se enthusiasmavam faziam apostas para que alcançasse triumpho outra facção, ou côr. Tempos depois, as côres usadas nos circos deram logar a formarem-se verdadeiras facções politicas, a que pertenciam milhares de cidadãos.[15] _Naumachia_.--Suppõem-se que os _circos_ serviam ás vezes de _naumachia_. A _naumachia_ era para a simulação de combates navaes, que se davam em grandes caldeiras cheias de agua, rodeadas de construcções análogas ás dos circos; todavia, concebe-se difficilmente como um circo podia estar apropriado para este genero de divertimentos sem grandes inconvenientes e sem obras preparatorias. A transformação da _area_ dos circos em lagos devia acontecer raras vezes, porque em algumas cidades mandavam abrir lagos apropriados para os combates navaes. *Theatros* Quasi todas as cidades importantes da Gallia possuiam theatros edificados no reinado de Adriano e Antonio, o _Piedoso;_ esses monumentos eram encostados ás collinas sobre o declive das quaes se dispunham os assentos de cantaria em semi-circulo. Na parte inferior d'estas bancadas estava a orchestra, que correspondia ao que chamâmos platéa nos actuaes theatros, e que ficava sobre um terreno plano, assim como a scena. [Figura 57: Plano de um theatro antigo] Esta ultima disposição do theatro dividia-se em tres partes, a saber: o _proscenium_, ou _pulpitum_, o palco em que representavam os dramas; a _scena_, grande fachada muitas vezes ornada com as diversas ordens de architectura, e o _post cenium_, onde os actores se preparavam para entrar em scena. _A scena_ apresentava tres portas no fundo: a do centro, mais alta e ornada que as outras, chamava-se _porta real_; entrava por ali o personagem principal da peça, que representasse o dono do palacio; as figuras secundarias entravam pelas outras portas que se designavam _hospitalia_, porque de certo representavam os hospedes ou familiares do dono do palacio. A parede do fundo da scena formava dois lados ou alas (_versuræ_,) onde havia outras duas portas, uma á direita e outra á esquerda, as quaes faziam suppôr darem saida para o campo e para a praça publica. A configuração de um theatro apresentava pois de um lado a forma semi-circular, do outro a de quadrado. Para chegar ao logar dos espectadores havia muitas escadas partindo do circuito e dirigindo-se da circumferencia para o centro, afim de estabelecer muitas divisões que, pela rasão de sua forma de cunha, eram designadas com o nome de _cunei_. Havia, além d'isso, na elevação do amphitheatro (_cavea_) que cercava a orchestra, duas ou tres divisões principaes, indicadas por separações chamadas _præcinctions_ e ficavam parallelas ás filas dos assentos.[16] Estas divisões tinham o nome de _cavea prima_, _cavea media_, _cavea maxima_ ou ultima, conforme estivessem mais ou menos proximas da orchestra.[17] Havia tambem, em muitos theatros, aberturas quadradas, correspondentes a corredores abobadados dispostos sob os degraus do theatro, e por onde cada qual podia passar para occupar o seu logar, sem ser obrigado a subir da orchestra ou a descer da summa, _summa cavea_. Estas aberturas chamavam-se vomitorios (_vomitoria_,) porque parecia que lançavam fóra os espectadores, quando estes entravam em multidão para os seus logares. Tinham os antigos tres especies de scenas, a scena tragica, a scena comica e a scena satyrica. As vistas do theatro eram diversas, conforme o genero das peças que se representavam. As mudanças da decoração praticavam-se por varios systemas. Chamava-se aos bastidores _ductiles_, quando giravam em corrediças; _versatiles_, quando se viravam sobre pião. Muitas machinas fraccionavam na scena e coadjuvavam os papeis dos actores. Como os theatros não eram cobertos, estendia-se acima das paredes um grande toldo para dar sombra aos espectadores. Este _velarium_[18] estava fixo ou suspenso em mastros cravados no alto das paredes. Vitruvio recommenda que não exponham os theatros do lado do sul, para evitar que os raios do sol aqueçam demasiadamente o ar. [Figura 58: Plano do theatro de Champlieu] O theatro de Orange, em França, é uma ruina digna de ser contemplada, e poucas ainda ha que se lhe possam comparar. As suas columnas tinham 18 pés de altura e 2 pés e 4 pollegadas de diametro; a altura das paredes era de 108 pés com tres ordens de columnas. A fachada exterior era decorada por duas fileiras de arcadas sobre as quaes havia um attico. O theatro fôra construido com cantaria de extraordinarias dimensões; notando-se n'estas pedras vestigios de incendio violento. [Figura 59: Exterior da scena do theatro de Orange] *Amphitheatros* De todos os monumentos romanos existentes são os _amphitheatros_ os que offerecem ainda as ruinas mais collossaes e magestosas. Eram, como indica a etymologia da palavra _amphitheatro_, dous theatros collocados em frente um do outro, e separados por um espaço livre de forma oval destinado para os combates dos gladiadores e animaes ferozes. A este espaço davam o nome de arena _arena_, por causa da areia que espalhavam pelo chão, afim de fazer desapparecer o sangue dos homens e dos animaes derramado durante a luta. [Figura 60: Plano de um amphitheatro] Os palanques eram dispostos á roda da _arena_, de maneira que de todos os lados os espectadores podessem gosar o espectaculo. Nos amphitheatros, como nos theatros, esses logares eram divididos horisontalmente por cintas curvas ou _baltei_; e verticalmente pelas escadas em subdivisões cuneiformes, como explicamos acima. Os degraus apoiavam-se nas abobadas, que iam estreitando para o lado da _arena_, alargando-se e elevando-se á medida que se aproximavam do portico ou galeria, contornando o edificio. Estas abobadas, inclinadas para o centro e alargando para o exterior, eram sobrepostas umas ás outras, e formavam muitas ordens, onde havia muitas cintas curvas. [Figura 61] A vista do corte de um grande amphitheatro mostra claramente esta disposição, com as cintas e o effeito produzido no meio dos palanques pelos _vomitorios da cavea_. Outro corte apresenta parte do amphitheatro de Aries, mostrando como as grandes escadas, partindo das galerias, conduziam ao interior da _cavea_. [Figura 62: Corte do amphitheatro de Aries] Na _arena_ havia combates de gladiadores,[19] de homens e animaes, e só de animaes. Nos dias de combate eram os gladiadores conduzidos processionalmente em volta da _arena_; depois punham-n'os aos pares, juntando os de força egual. O signal do combate era dado por uma banda de trombetas. [Figura 63: Fachada exterior do amphitheatro de Arles (França)] Havia diversas classes de gladiadores, conforme as armas que empregavam no ataque e na defeza. O amphitheatro de Arles, ruina das mais pittorescas que existem n'este genero em França, tinha de comprimento do grande eixo 420 pés de Norte ao Sul; e do pequeno eixo 309 de Leste a Oeste. A arena tinha no grande diametro 209 pés, e no pequeno diametro 119: gravura da pag. 71 [fig. 63]. [Figura 64: Uma das principaes entradas do amphitheatro de Bordeos] Uma cousa particular, que não existe nos outros amphitheatros, é que as galerias subterraneas giravam por baixo e á roda do _podium_. O _podium_ estava a 14 pés acima do solo da arena. A parede do sucalco que o levantava a esta altura, era furada na parte inferior, com oito passagens, conduzindo das galerias subterraneas para a arena, passagens que saiam da galeria exterior. [Figura 65: Plano do amphitheatro de Chenevières (Loiret)] O amphitheatro era construido com boa cantaria de grande apparelho, posta sem cimento algum, e era tal a grandeza das pedras que, apesar de tantos seculos decorridos, ainda se conservam solidas nos seus leitos. O plano da gravura da pag. 73 [fig. 64] mostra a disposição de outro amphitheatro, que pelo seu genero custava muito menos a construir, que outros compostos de dois lados, porque sendo marcada a inclinação para a encosta, bastava edificar o _podium_ do lado aberto. Podia-se também facilmente transformar os amphitheatros em theatros com outras disposições para o scenario e então constituíam monumentos mixtos, que foram numerosos durante a dominação romana. *Banhos publicos* Os romanos tinham muitas especies d'estes estabelecimentos, que se conheciam com os nomes de _thermæ_, _lavacra_ e _balnea_. As _thermas_[20] eram vastos edificios que continham não só os banhos, mas tambem porticos e passeios arborisados, salas onde os philosophos e os rhetoricos davam lições publicas e liam as suas obras; onde se exercitavam na luta: chamavam-lhes _gymnasios_. Citavam, entre as mais sumptuosas de Roma, as de Agrippa, Nero, Tito, Caracalla,[21] Antonino e Diocleciano, das quaes existiam ainda consideraveis vestigios. Não se deve suppôr comtudo que haveria similhantes estabelecimentos em todas as cidades onde os romanos dominaram. O mais geral era construir _lavacra_ ou _balnea_, de limitada dimensão, á qual estavam ás vezes reunidas algumas dependencias dos _gymnasios_. Taes edificios eram mais ou menos espaçosos conforme deviam ser francos ao publico de uma cidade bastante povoada, ou simplesmente destinados ao uso de pequena localidade, ou de uma unica familia. O _apodyterium_ era a sala de vestir, ou em que ficavam depositados os fatos antes do banho. O _aquarium_ continha os reservatorios, nos quaes a agua era recebida e podia clarificar-se antes de distribuida no edificio. O _vasarium_, tirava este nome de tres grandes vasos, ou depositos cheios de agua quente, de agua tepida e de agua fria. O _laconicum_, estufa aquecida por um _hypocausto_, tinha ás vezes uma das extremidades em semicirculo, onde havia um _disco de bronze_, pelo movimento do qual, abaixando-se ou levantando-se, podia augmentar-se a intensidade do calor, ou diminuir a temperatura. O _tepidarium_ era, segundo Vitruvio, a estufa menos quente que a antecedente, e em contacto com ella. Havia outra casa destinada para o banho de agua quente, que se tomava n'uma especie de tina, _labra_. O pequeno pateo ou vestibulo que precedia o forno do hypocausto chamava-se o _propnigeum_ ou o _proefurnium_. A parte destinada ao banho frio era o _frigidarium_, ou sala não aquecida, onde os banhistas descançavam alguns instantes antes de sairem para a rua, afim de evitarem o perigo da mudança rapida da temperatura. A _piscina natatilis_ ou _frigida lavatio_, reservatorio de agua fria em que as pessoas robustas podiam banhar-se depois do banho quente, e de que se fazia uso principalmente no verão. O _eleothesium_, onde os banhistas podiam esfregar o corpo com oleo ou perfumes[22]. Uma curiosa pintura a fresco, copiada das thermas de Tito, em Roma, e que representava o interior de uma casa de banhos, faz comprehender muito bem a disposição geral de taes estabelecimentos, como se vê na gravura da pag. 76 [fig. 66]. Distinguem-se, no primeiro plano, duas salas sob as quaes arde o fogo do hypocausto. [Figura 66: Vista de uma pintura a fresco tirada dos banhos de Tito.] Uma d'estas salas devia ser a _concamerata sudatio_, ou a estufa abobadada para fazer transpiração. Ha n'esta sala um pequeno forno, cuja abobada fecha em escudo de bronze que se movia por meio de corrente, afim de deixar sair mais ou menos o vapor da agua quente. Junto do _laconicum_ está a sala do banho, separada por um corredor. Vêem-se muitas pessoas n'uma grande tina _labrum_, em volta da qual estão assentos encostados á parede. Mais afastado apparece representado o _vasarium_, com os tres grandes vasos collocados em diversos niveis: o primeiro menos elevado contem agua a ferver; o segundo agua tepida, e o terceiro agua fria. No segundo plano, e por detraz da estufa para suar, vê-se a sala chamada _tepidarium_. Passado o _tepidarium_, distingue-se a sala fria, _frigidarium_, que em alguns banhos servia tambem ao _apoditerium_. Em ultimo plano está o _eleothesium_, ou sala dos perfumes. Para se formar idéa exacta d'estes monumentos, convem examinar e comparar entre elles que se têem descoberto em differentes partes; para o que apresentamos as gravuras dos banhos de Verdes e de Landunum. *Explicações crestas casas de banhos* Entrava-se por dois pateos sobre o comprido ou corredores G, K, nos banhos de Verdes, para os salões P, S, os quaes tem ainda no chão mosaicos. D'estes dois salões passava-se para o vestibulo B, e d'ahi para a sala D, cujo piso estava sobre hypocausto. A sala imediata C, devia ser de temperatura mais elevada á antecedente; pois o forno collocado em F, no pequeno pateo proximo, recebia d'elle o calor que circulava primeiro debaixo do piso da referida sala C. Havia outras casas que não eram aquecidas pelo hypocausto, especie de saletas pelas quaes se entrava e saía P, A, B, S. [Figura 67: Banhos de Verdes (França), vistos de alto.] [Figura 68: Plano dos banhos de Landunum (França).] Duas bandeiras muito notáveis que serviriam para banhos frios ML, tinham communicação por uma passagem com a sala D; cada uma d'ellas tinha em S e em R um reservatorio para agua. Os pateos H e I serviam de deposito para o combustivel. Em cada uma das salas O e P havia um nicho para uma estatua. Nos banhos de Laudunum (pag. 79 [fig. 68]), no vestibulo D, o chão tinha mosaicos. D'aqui passava-se á bella sala (n.^o 8), tambem com mosaico. Seguiam-se outras casas com o solo suspenso e aquecido pelo hypocausto; em uma (n.^o 7) de um lado tem um nicho circular, e do outro, quadrado _d c_, que serviam para as banheiras. A sala n.^o 6 seria a reservada para conservar maior gráo de calor, porque o forno do hypocausto tinha a boca d'elle no centro d'esta casa. O forno tinha serventia pelo pequeno pateo n.^o 4. Antes de atravessar a sala n.^o 6 aquecia tres reservatorios revestidos de cimento _f. f._ As salas E, e os n.^{os} 9, 10, 11 eram casas para depositos do estabelecimento. *Palacios* Quasi todas as cidades de pequena importancia tinham palacio destinado para os aposentos dos imperadores, quando as visitavam; porem antes serviam para os seus representantes, os intendentes ou funccionarios encarregados da administração do paiz. Os palacios que deviam offerecer as disposições analogas ás das casas nobres dos particulares, differençavam-se principalmente pela extensão, pelos peristylos, pateos e diversas dependencias. Os de maiores dimensões, como o de Trajano, eram ligados ao _forum_, junto do qual havia basilica, onde se julgava