The Project Gutenberg EBook of Os Bravos do Mindello, by Faustino da Fonseca
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Title: Os Bravos do Mindello
Romance Histórico
Author: Faustino da Fonseca
Release Date: May 4, 2007 [EBook #21290]
Language: Portuguese
Character set encoding: ISO-8859-1
*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS BRAVOS DO MINDELLO ***
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[Nota do transcritor: Esta obra apresenta algumas inconsistências
ortográficas.]
Lyra da Mocidade (primeiros versos) 1892. Exgotado 1 vol.
Tres mezes no Limoeiro, 1896, 1.a edição com illustrações de Leal da Camara. Exgotado 1 vol.
Segunda edição (popular) 1 vol.
O descobrimento do caminho maritimo para a India 1 vol.
A descoberta da India (Drama historico em 5 actos) 1898 1 vol.
O escandalo dos dramas do concurso do centenario da India, 1898 1 vol.
Regresso ao Lar, romance, 1896, com illustrações de Roque Gameiro (folhetim em O Seculo.)
A descoberta do Brasil, 1900, com illustrações de Roque Gameiro, cartas, mappas, fac-similes de documentos. Exgotado 1 vol.
Pedro Alvares Cabral, 1900 1 vol.
Ignez de Castro romance historico, 1900. 1.a edição com illustrações de D. Virginia da Fonseca, Augusto Pina, Bemvindo Ceia. Exgotado 4 vol.
Segunda edição (popular) com illustrações de Alfredo de Moraes 2 vol.
Escravos, romance, 1901 (folhetim em A Folha do Povo.)
Padeira de Aljubarrota, romance historico, 1901, com illustrações de Bemvindo Ceia 2 vol.
As mulheres portuguêsas na Restauração de Portugal, romance historico, 1902, com illustrações de Roque Gameiro 3 vol.
El-rei D. Miguel (chronica popular do absolutismo) 1905. Illustrado com retratos e monumentos 1 vol.
Os filhos de Ignez de Castro, romance historico, em collaboração com Joaquim Leitão, 1905 1 vol.
Anedoctas de reis, principes e outras personagens portuguêsas e estrangeiras, extrahidas, traduzidas, compiladas e prefaciadas, 1905 1 vol.
Bons ditos de reis, principes e outras personagens portuguêsas e estrangeiras, extrahidas, traduzidas, compiladas e prefaciadas, 1906 1 vol.
Beijos por lagrimas, romance historico. 1906 (folhetim em A Lucta).
Ao tiro de peça acordou João de um inquieto somno de namorado e, apoiando o cotovelo no grande leito de alta cabeceira de tarja, prestou attenção.
Seria salva do castello, ou vinha navio de Lisboa confirmar as aprehensões dos sonhos agitados em que Maria se esquivava sempre ao caloroso enlace dos seus braços, e um subito quebranto o impossibilitava de perseguil-a, e um sobresalto, como que a queda do ideal, interrompia o laborioso despertar da sua estuante virilidade?
Não se repetiram detonações que o tranquilisassem e, no brando rumor cantante e alegre, reconheceu o (p. 006) romper d'alva. Deitou pelos hombros um capote azul de cabeção, e fechos de prata, apagou a candeia de ferro cujo espelho areado reluzia e tirou a tranqueta que especava, desde a cunha ao encaixe da parede, o postigo das pesadas portas de cedro da janella de peitoril.
Pelo pequeno caixilho de minguados vidros azulados percebeu a confusa luz da manhan.
Então destrancou vigorosamente as portadas, retirando o grosso cilindro ao longo da cava da cantaria e, depondo-o contra o poial, puchou para si os dois pesados batentes e debruçou-se com avidez.
—Muito madrugaste hoje—disse-lhe debaixo a tia Pulcheria, ajoujada á celha das lavagens, avental de barras amarellas, ainda com a rede de dormir apanhando os cabellos brancos.
Deu-lhe os bons dias e viu-a, por entre os claros da parreira de Alicante, dirigir-se ao curral onde grunhia o porco alegremente, o focinho bronco farejando por cima da cancella.
—Não ouviu uma peça, tia?
—Ha de ser navio de Lisboa.
Em passo miudinho, muito activa, a arregaçada cheia de milho, acudia ao tumulto da capoeira, onde o gallo repenicava, em desafio com os visinhos, emquanto da (p. 007) pocilga rompia um grunhido satisfeito, misturado ao chapinhar na agua de semeas.
Rompeu no castello o toque da alvorada, o echo vibrante do clarim dando o signal do batalhão, e o terno de cornetas atacou as notas baixas, até se casarem n'um hymno ao triumphal raiar da aurora.
Passavam chocalhos de machos carregados de trigo para os moinhos do Pisão.
Apregoavam leite homens do monte, vindos da Ribeirinha, barba ruiva, pé descalço, vestidos de linho branco alvo de neve, a camisola presa no pescoço por botões de oiro, carapucinha preta com orelhas vermelhas, pequena como a palma da mão, posta á banda n'um elegante equilibrio, batendo o bordão com rendilhados na ponteira; rolhas de pasto no bico negro das cabaças defumadas, com pontos a cordel em fendas, por onde o leite gotejava, aos solavancos do pau posto ao hombro esquerdo.
Apregoavam rapa, vergando a grandes molhos, apressados pastores, anciosos por se livrarem da carga, trazida desde noite do matto.
Chiavam carros n'uma orgulhosa competencia, irritando em furiosos latidos os cães das quintas.
Soaram trindades em Santa Luzia, vibrou na alegria da madrugada esse toque de sino, impregnado ao (p. 008) pôr do sol pela melancholia da tarde; seguiu-se-lhe o repique annunciando festa; tocaram na Sé á missa das almas.
Cessou o bater da roupa no lavadoiro da pia, persignaram-se devotamente e benzeram-se de hombro a hombro a creada e a tia Pulcheria.
Veiu de dentro benzendo-se tambem a tia Dorotheia, mais pesada, mais gorda, encher a talha no perenne jorro d'agua gorgolejando no tanque, onde os peixes vermelhos mostravam o amplo e fundo d'essa abundancia de agua, trasbordando para a grande pia de lavar, dando viço aos cravos, rosas, secias e perpetuas dos canteiros, á madresilva da janella, á abobora do telhado do forno, ao pé de vinha nascido de encontro á pedra do fundo, desenvolvendo-se em ramadas junto da arquinha onde se espetava a bica de ferro.
Recolheu-se, para o não verem faltar á oração matinal e, assim de pé, varejava-lhe o olhar o braço d'agua que dera o nome d'Angra á sua cidade.
Mas não avistava esse navio todos os dias receiado, cujo tiro alarmante vinha findar-lhe os devaneios.
Saíam á pesca barcos á vela, avivando o azul n'um recorte de garça; vogavam outros em cadencia, como buzios (p. 009) deitando por banda as curvas pernas a fugirem no calhau.
Latinos inclinados, bordejava um cahique por dobrar a ponta de Santo Antonio e entrar no porto onde soprava o vento carpinteiro, lenhador de navios, dos ilheus ao caes da Figueirinha.
Illuminava o nascer do sol a humida neblina, desenrolando altas montanhas, picos azulados, sinuosidades como largas muralhas flanqueadas por torres, das que vira em registos dos logares santos, cidades, extensas bahias, arvoredos polvilhados d'oiro, reflexos da Antillia submergida, que havia de irromper das ondas quando voltasse el-rei D. Sebastião no cavallo branco; miragem da propria ilha, como a que arrastára os descobridores a aproarem ao mysterio dos horizontes sem fim, até ao desengano do gelo do Labrador e da Terra Nova, á inextricavel vegetação de sargaços d'esse mar de inferno.
Tambem sentia a ancia do desconhecido, herdada dos primeiros povoadores da ilha Terceira, base das arremettidas a esse mysterioso oriente, que pretendiam tomar por occidente, dando por fim rumo a Colombo; tambem queria saber o que haveria para álem da curva do mar largo, essas terras onde tudo (p. 010) se decidia: a França, mãe da liberdade, regressada ao antigo regimen, invadindo a Hespanha constitucional, o que animara D. Miguel a derrubar na Villafrancada as instituições de Vinte; a Hespanha, de Cadiz, a cujo exemplo estalára a revolução de 24 de agosto de 1820, tentando agora restabelecer a inquisição; a Inglaterra, que apoiára a carta constitucional doada por D. Pedro, e decerto auxiliaria a revolução de 18 de maio contra a usurpação de D. Miguel, secundada na ilha em 22 de junho, ainda não havia um mez; o Brasil de onde vinha dinheiro; Portugal para onde iam tributos; Lisboa, de onde uma embarcação traria um primo para lhe arrebatar a mulher amada, ou viria buscal-a e levar-lha.
Annullado na absorpção do mar largo e das terras aonde conduzia, surgiu-lhe de repente, a pannos largos, guinando n'uma bordada, saindo detraz do Monte Brasil, a fragata Princesa Real, mostrando no balanço a bateria rasa, cintada de peças negras em carretas vermelhas abocadas ás portinholas.
Colheu o velame dos tres mastros, soltou a ancora, e o golpe rapido da antena, fazendo respingar a agua, foi o signal para o saltearem lanchas e escaleres.
Sentia-se ligado áquelle navio, dependente da sua rota, do porto de onde vinha, do ancoradouro para onde havia de largar, das cartas que trazia no forte bojo, e espicaçava-o o impeto de sair d'essa dependencia, á mercê do que vinha de fóra, elle como a terra; de reagir dentro do seu meio, do seu circulo, dos seus desejos, das suas esperanças, por fórma a terem que contar com elle.
Havia de ficar áquella mesma janella, vendo-o perder-se na bruma, adivinhando, no palpitar de um lenço, a noiva perdida para sempre?
Voltou-se e olhou ao longo da grande bahia do Fanal, a oeste do Monte Brasil, desde a encosta da serra de Santa Barbara, até ás recortadas negruras de S. Matheus da Calheta, aonde a espuma arrebentava.
Sem uma incerteza, por entre a mancha escura dos pomares de S. Carlos e do Pico da Urze; em meio do xadrez de cerrados amarellos de trigo, verdes de milharaes, negros da ceifa; fitava o mirante da quinta onde ella o vinha esperar, o caramanchel em que passavam tardes, o casarão onde um pae lha defendia.
Como que via já o pateo cheio, carros de bois carregando (p. 012) os grandes bahus, ha mezes atulhados de rouparia, empachando a casa de entrada; e o carroção de coiro bolorento, baloiçando-se nas grossas correias, de largas fivellas areiadas, arrastado á força da aguilhada por duas juntas, de guiseiras, levando Maria ao embarque, chocalhando ferrugentas ferragens.
Ficou por muito tempo sentado no poial de pedra da janella, a fronte apoiada na mão esquerda, os dedos entre o cabello castanho anelado, anediando o ligeiro buço, os olhos pregados na quinta dos Folhadaes, pensando no que devia fazer.
Ao tocarem matinas na Sé, começou a preparar-se para saír.
Do quintal bateu palmas a tia Dorotheia.
Estava prompto o almoço, e elle decidido a seguir Maria, se a levassem para Lisboa.
Reconquistou-o ao descer da torre a sentimentalidade do lar, no cheiro do comer, no arrastado dos chinelos das tias, no tinir da louça da India, no tlintar dos talheres de prata, no ranger do trabalhado armario de madeira do Brasil, com guarnições tremidas e remates arrendados.
Deu-lhes os bons dias, ellas beijaram-o e afagaram-o, e quando se sentou na cadeira de espaldar, de (p. 013) onde o pae e o avô presidiam á grande meza oval, de pés torneados e parafusos de prata, cujas abas se fechavam para sempre á medida que a familia se reduzia, esmoreceram-lhe os impetos, esvaíu-se-lhe a energia.
Amolentara-o a educação mulherenga, creado entre rabos de saias, adormecido com pavorosos contos de lobishomens e almas do outro mundo.
Pobres velhas! Morreriam de dôr se lhes faltasse.
E as ambições de viajar, de seguir uma carreira, de ser alguem, iam-se no resignado aniquilamento, na tendencia para a meditação, de que o haviam adoecido os dias abafadiços e humidos.
—Já saes?—perguntou Pulcheria, mirando-o atravez dos oculos de tartaruga.
Dorotheia accrescentou que não era dia de lição, e o dominio das velhas impoz-se-lhe, como sempre, tomando-lhe conta de todos os passos, vigiando-lhe as saídas e entradas, fazendo-lhe scenas de lagrimas quando voltava tarde «do caminho da perdição!»
Não resistia, não se insurgia, não protestava, mas nem por isso deixava de sair e entrar quando lhe parecia, embriagando-se de liberdade, sem pae que o (p. 014) derrancasse nas sovas que humilhavam outros da sua edade, ao recolherem fóra d'horas.
—Nem que fosse dia de lição irias hoje ao padre Jeronymo.
Pulcheria, magra e sêcca, nervosa, solteirona, alludia á chegada do navio de Lisboa, sublinhando com intenção.
E Dorotheia, viuva, mais prompta á lagrima, supplicou-lhe:
—Não te vás meter em trabalhos.
—Não se fala senão de vinganças, de prisões, credo!—apoiou Pulcheria.
Dorotheia, no instincto de dona de casa, abrangeu logo o lado economico das perturbações:
—Tudo mais caro. Os ovos já estão a quatro por um vintem, e querem uma serrilha por uma gallinha. Os homens do monte fingem ter medo de entrar na cidade, e não passam do Desterro onde açambarcam a manteiga, os ovos e as gallinhas os revendilhões, que põem tudo pela hora da morte, desculpando-se que lhes pediram um horror de dinheiro. A cada má noticia que vem de Lisboa, os lojistas enchem-se augmentando os preços. Assim tem hoje casas e quintas essa orgulhosa caixeirada que veiu para ahi de tamancos! Já não se pagam fóros, (p. 015) ha que tempos não entram aqui os cestinhos de ovos que nos trazia o capitão Toledo das Doze, nem os casaes de frangos da Fonte do Bastardo. Para que não se acabe a capoeira, a mana tem deitado ovos em chôco, mas logo na noite da revolta, com os tiros dos soldados do Lobão contra os milicianos, foi-se uma ninhada inteira, dezasete ovos de gallinhas das Flores que põem duas vezes por dia! É o que se ganha com essas façanhas dos constitucionaes.
—Ó tia!...—interveiu sorrindo.
—Se não has-de defendel-os, não fosses todo do Juvencio!—commentou Pulcheria, mais directamente ferida pelo gôro.
Dorotheia censurou, muito sentida:
—Estás sempre metido na botica a lêr as gazetas, e decerto lá vaes encafuar-te a saber o que veiu de Lisboa, essa Babilonia, Sodoma e Ghomorra, a corrupta e devassa Lisboa, como préga, acceso em santas iras, fr. Angelico da Immaculada Conceição de Maria.
—Quando o vinho do morgado lhe sobe á cabeça.
Pulcheria reprimiu João n'um olhar.
—Não te fica bem o que fazes, nem o que dizes. Fr. (p. 016) Angelico é muito de casa do senhor morgado dos Folhadaes, o nosso protector. Elles são do senhor D. Miguel.
—Estão no seu direito.
Dorotheia acudiu com a questão do dinheiro:
—Lembra-te que elle te dá quatro patacas por mez pela escripturação dos rendeiros; e pelas festas, pelo Espirito Santo, e pelas matanças manda sempre os seus presentes em salva de prata, com sua toalha de damasco. Teu pae e teu avô foram muito d'aquella casa, e tu mesmo és tratado como amigo.
E reparando na distracção d'elle:
—Não comes nada? Grande coisa tens hoje!
Pulcheria observou-o tambem:
—Naturalmente os pedreiros livres estão falados para a chegada do navio de Lisboa.
Retumbou na cosinha um penoso suspiro, como das almas penadas dos contos, e João surprehendeu a creada, a velha Maria da Assumpção do Corpo Santo, que lhos contava, movendo os seccos braços inchados de veias, os dedos ossudos em esgares de esconjuro, depois ungindo a testa encarquilhada, o nariz acavallado, os beiços pendentes, mascando a sua maneira especial de se benzer:
Eu (p. 017) me benzo c'os tres cravos
Abraçados n'uma cruz
Para que possa dizer
Santo nome de Jesus:
A cruz desça do ceu
E se deite sobre mim
O Deus que n'ella padeceu
Elle responda por mim.
Por fim o dedo pollegar da mão direita, tornado bento pela tarefa redemptora, foi beijado devotamente, e só depois a serva se virou para o lar.
Dorotheia commentou, compadecida:
—Dão com ella em doida as innovações dos constitucionaes. Demora-se toda a manhan nas compras, porque vae para a Sé pôr-se de empada, a rezar, a rezar, em desaggravo ás heresias, aos desacatos.
Pulcheria insistiu teimosa, devorando o sobrinho com os olhos:
—É para o que servem os pedreiros livres!
Elle riu n'uma explosão juvenil.
—Pedreiros livres? Julga-me talvez? Tem graça!
—A senhora Joaquinina do Ó vê-te sempre no falatorio da botica, e toda a gente sabe que é ali o coio dos que beijam o diabo á meia noite.
—Admiro-me que uma mulher de tanta virtude, que anda sempre com o cordão de São Francisco á cinta, não diga que tambem lá vê, a jogarem o gamão, os meus mestres, o senhor conego Penedo, o senhor padre Jeronymo Emiliano d'Andrade e o senhor conego Ferraz, governador do bispado.
—Esses são pedreirões dos grandes!
—Pois tia, antes me quero com elles do que com fr. Angelico da Immaculada e as suas confessadas, como a senhora Joaquinina do Ó.
Comera os figos lampos do quintal, as postas de moreia frita a que escolhia a pelle torriscada, o affonso de lapas em que o marisco guisado e o longo musgo das conchas conservavam o acre sabôr do mar; e tomára, já levantado, o café com leite, esse delicioso café vindo directamente do Brasil, em paga das saias bordadas em que se entretinham as tias.
De olhos no tecto e mãos postas, repetiam tres vezes as velhas, junto da meza «Bemdito seja Deus, que me deu de comer sem eu lh'o merecer», notando desgostosas que João se esquivava ultimamente á (p. 019) acção de graças, o que para Pulcheria era um signal certo de pacto com o Demonio.
Despediu-se, saiu, passou ás Monicas lançando um olhar irritado ao convento, cujas grades a liberdade havia de arrancar, desceu a ingreme Myragaia, notou grande movimento no palacio do governo, mas, evitando comprometter-se para com o morgado, não entrou a perguntar novidades de Lisboa.
Voltou á rua do Convento da Esperança, e passou por diante do collegio dos jesuitas, tendo em frente a farta cerca dos franciscanos, a frontaria do convento esburacada de janellinhas como um pombal, a fachada com dois grandes braços cruzando-se de punhos fechados contra a cidade—as armas de S. Francisco.
Virando a esquina entrou na praça, e foi direito á botica, ao canto do Passo onde parava a procissão e se cantavam motetes.
Para ir ali tinha a justificação de falar ao mestre, e trazia-a engatilhada para alguma pergunta do morgado.
Esbravejava o boticario, tornando a loja em club:
—Aqui não se recebem ordens do Miguel! Isto não é terra de burros nem de corcundas. Bem se quer fazer fino, mettendo-nos á cara o decreto, o (p. 020) capitão general, mas para cá vem de carrinho! O presidente da camara convocou uma reunião extraordinaria, a que concorreram as principaes pessoas dos tres estados, clero, nobreza e povo, e resolveram não cumprir as cartas regias por falta das formulas da carta constitucional. E a fragata ha de sair immediatamente, ou não sae mais, que se lhe ferram dois balasios, e era uma vez uma Princesa Real!
Não iria n'aquelle navio! E respirava desafogado. Agora nada mais lhe importava.
Dissipava-se-lhe o terror, mas aproveitaria a lição, e não ficaria sujeito ao risco de a ver partir sem que nada tentasse para impedil-o. Sentia-se bem, tinha vontade de correr, de saltar, como ao sair da lição de latim do conego Penedo, um alto vermelhaço, de cabello branco com laivos do passado loiro, olhos azues escarnecendo atravez dos occulos de aros d'oiro, que tratava uns discipulos por Ciceros e outros por bêstas, e na rua correspondia aos cumprimentos com a mão fechada, murmurando uma grossa obscenidade dita por entre os dentes brancos e largos, onde se arrastavam ruidosamente os érres.
Como no momento de libertação em que a garrida chamava (p. 021) os conegos á Sé, e Penedo, bufando, contrariado, repoltreava-se na grande cadeira do côro, cabeceando, a remoer o ripanço em voz roufenha, ia João na doidice do mar que, antes de enamorado, era o seu encanto.
Sentia-se tão livre de cuidados como se tornasse annos atraz, quando corria pela praia, emquanto espaireciam os conegos, pausadamante, rua da Sé acima, até ao Passeio do Alto das Covas, onde ficavam cavaqueando, pitadeando-se, ou deitavam, a desenferrujar as pernas, portões de S. Pedro em fóra, até ás quintas do Caminho do Meio, a admirarem as vinhas, n'um culto pagão mais sincero do que aquelle em que ganhavam a vida a dentro do grande templo frio e escuro.
Tinha o desejo infantil de vêr, com os proprios olhos, sair o navio, para ficar com a certeza de que podia dedicar-se a resolver a sua situação para com Maria, antes que surgisse outra ameaça.
Evitou o movimento do pateo da alfandega onde se accalorava a questão politica, seguiu pelo areal da Prainha, junto a destroços de naufragios, pranchões crivados pelo furo do gusano, chapas de cobre onde cracas e lapas, toda a riqueza organica das aguas, punham colonias de pequenos seres; depois abandonou (p. 022) o carreiro do areal batido pelo constante perpassar, onde já plantas desafiavam o beijo da resaca, e aproveitava a descida da onda para saltar de pedra em pedra.
Passou o Portinho Novo e foi até aos penedos do caes da Figueirinha, onde pescadores, perna pendente, pescavam á canna, aproveitando a fundura da rocha viva.
Via-se limpidamente a agua escurecida pelo monte, até aos pedregulhos do fundo, onde a isca de trapo procurava o polvo. Passavam pequenas sombras fugidias, sumia-se uma lagosta n'uma fenda, vibrava uma moreia coleante, relampejavam cardumes de sardinha, corriam laivos azues e vermelhos de peixes-reis e bodeões. Acudiam engodados, vinham em cardume á çaga de um barco que recolhia, andavam á babugem dos navios arrastada pelo mar para o recanto da angra.
Á picada no anzol correspondia a saccada lesta do caniço; saltava um peixe, debatendo-se, enrolando-se na linha; estrangulava-o o pescador adentanhando a guelra; lançava-o ao cesto, onde a frescura dos mais emprestava um resto de vida ao estrebuchar da sua agonia.
Mas o cação voltava para o mar degolado, com um (p. 023) escarro de desprezo no bico; e seguia-o o sargo, repugnado por sugar os olhos d'afogados.
Subiu a Rocha até ao Relvão.
Ouvia o batucar dos cutellos picando o engodo no castello de prôa dos barcos de pesca apoitados ao longe; sentia guinchar o cabrestante a bordo da fragata, alando os ferros.
Abrigado do sol contra a muralha do castello de S. João Baptista, encostado ao granito, as pernas estendidas na relva, viu-a largar os pannos mal rizados, afastar-se em bordos, a montar os Ilheus, em rumo da ilha de S. Miguel, e quando ella se sumiu de todo sentiu-se como protegido pela poderosa fortaleza que a obrigára a retirar, por esse castello que fôra o symbolo da oppressão hespanhola e se tornára a unica esperança da liberdade portuguesa!
Com alegre surpreza das tias, João entrou á hora do jantar, ao meio dia em ponto; mas em breve lhes tirou toda a illusão de que não o interessassem os acontecimentos cujo echo já chegava á Pereira.
Comeu á pressa, foi aperaltar-se para vêr Maria, e saiu logo, de chapeo alto de aba direita, casaca de briche nacional côr de castanha de quatro botões nas abas, collete de grande gola, alta gravata em volta ao collarinho, calça branca e botas altas de canhão amarello.
Merendaria na quinta, não contassem com elle.
E d'ahi a pouco estava na botica, sabendo os ultimos boatos, occultando-se da Joaquinina do Ó e (p. 026) de outras beatas bisbilhoteiras, que rondavam o Juvencio, embiocadas no manto negro dos pés á cabeça, saia de merino preto, o capuz envolvendo-as do taboleiro de cartão até á cintura, onde passava pregueando-se, estreitamente cingido; os braços apanhando os extremos do involucro e rebuçando-o na frente, por fórma a só ficar aberto um pequeno oculo, no extremo do canudo de cartão, que se movia como um bico de passaro, apontando-se sinistramente no faro da curiosidade, permittindo-lhes verem sem serem vistas, para irem delatar no confessionario.
D'ahi a pouco caminhava pelo campo, ao longo de muros de pedra solta, evitando a poeirada, contrariando n'uma marcha de automato o seu incorrigivel acanhamento.
Lembrava saudoso a infancia em que, fugindo á escola de primeiras lettras, saltava paredes á cata de ninhos, de gafanhotos, de cigarras; revolvia os restolhos á procura de grillos, que levava no lenço para casa, para os ter a cantar dentro de um copo.
Puzera termo a essas esturdias a preoccupação absorvente de Maria.
Ao principio, quando de tarde ia trabalhar na escripta, por ter presa a manhan pelos estudos, lamentava essa (p. 027) prisão, impedido de retoiçar no areal, deitar-se á agua, nadar, apanhar conchas, enxugar-se rebolando na areia quente, e ir depois, noite fechada, para a praia das mulheres, no recanto do Castellinho, vel-as metterem-se na agua aos gritinhos, compondo as saias enfunadas pelo mar.
Despertára-lhe novas impressões a intimidade de Maria, e os passeios com ella sob as arvores substituiram d'ahi em diante todos os entretimentos de rapaz.
Escutava-a encantado, admirava-lhe os movimentos, esquecia-se a contemplal-a e, quando retirava ao pôr do sol, voltava-se para traz a vêr se ainda a descobria.
Ia já perto da quinta, mas sempre na mesma indecisão, ora desejando não chegar nunca, ora querendo precipitar o termo da anciedade que o torturava.
Avistou por fim a vivenda dos Folhadaes, os altos telhados em pyramide, a fachada ennegrecida pelo tempo, as janellas com grades de convento, o escudo de armas por cima do grande portão de carro, o extenso muro torreádo por mirantes e caramanchões.
Entrou pelo postigo aberto no grande portão de cedro, (p. 028) pesado de trancas e tranquetas, ferrolhos, corrediças e argolões, e o coração batia-lhe descompassado.
Saccudiu o pó na banqueta de pedra, de onde subiam as senhoras para as andilhas, e trepou a escada exterior, que começava na parede do fundo e cortava em angulo para a da esquerda, receiando uma vertigem, sentindo fugir-lhe a luz dos olhos.
Sentou-se no poial do alpendre, a descançar um momento, a dominar o tremor nervoso, e descobriu Maria ao fim da cerca, com a prima D. Josepha da Esperança e o primo Jorge.
Inclinou-se, descobriu-se, ella correspondeu n'uma venia exagerada, curvando-se muito, no que foi imitada pelos primos, e depois arrancando o chapeu de palha, rustico, de grandes abas, enfeitado de espigas, papoilas e malmequeres colhidos pela quinta, imitou-o cumprimentando como um homem.
Repetiram as raparigas as zumbaias, e o primo deitava-lhes as tranças para a frente, ao que, irritadas, respondiam com palmadas e beliscões.
E quando a creada, de dentro da casa, o convidou a entrar, elle tornou a saudal-as, e as raparigas responderam rindo ás gargalhadas, fazendo-lhe figas.
Transpoz humilhado a porta de imponentes almofadas; nunca (p. 029) lhe parecera tão triste o casarão onde passava horas enfadonhas, junto de um frade tresandando a vinho.
Sabendo os cantos á casa ia encafuar-se no escriptorio, quando a creada lhe disse que o senhor ainda estava á meza, e o guiou á casa de jantar.
—Entra, entra, pequeno—convidou em voz entaramelada o morgado—tu és como se fosses da familia, aqui como o mestre Jacintho, por parte de teu avô. Aquillo é que era um homem, o capitão Silveira! Gente de outro tempo! Hoje só ha fedelhos como tu.
Ergueu pesadamente o corpanzil obeso, cambaleando nas grossas pernas a estoirarem os calções de ganga amarella, copiados de D. João VI, que usava com meia branca e sapatos de fivella de prata.
Já pelos bofes da camisa, pelo collete e pela casaca, nodoas de vinho affirmavam o abuso da bebida, e a mão tremula derramou-lhe o copo, que empunhava de pé, virado para João.
—Á tua, em memoria de teu avô!
Bebeu e tornou a sentar-se, pesadamente, apoiando-se á borda da meza e á grande cadeira de braços, de coiro negro e pregaria amarella, em que presidia (p. 030) á cabeceira, na velha tradição senhorial.
—Grande homem que elle era!—apoiou mestre Jacintho—sem desfazer em quem está presente.
Endireitou o corpo alquebrado, illuminou-se-lhe o olhar, e o velho soldado denunciou-se no cabello á escovinha, na colleira de coiro negro que no pescoço escanzelado saia da camisola de linho de pastor, na marca das bexigas que lhe favava a cara encorreada, como passada ao lustre das mochilas.
Tomou com toda a confiança um copo, bebeu e, sempre de pé, disciplinado até a escravidão, voltou-se para Martinho Vasques:
—O que nós fizemos n'aquelle Russillão!
Attingia a phase piegas a embriaguez do morgado, tremia-lhe o beiço inferior, descahido e inchado, tornavam-se-lhe muito pequeninos os olhos duros, de um azul frio, raiados de vermelho, e o nariz destacava-se-lhe rubro, da côr de telha do rosto apopletico, onde as sobrancelhas asperas, espessas, unindo-se carrancudas, os longos pellos das ventas e dos ouvidos, punham em occasiões normaes a marca da rudeza, da selvageria.
—Se não fosse teu avô não estava eu aqui! Se não me tivesse deitado a mão quando eu caí ferido na (p. 031) retirada da Montanha Negra! Devo-lhe a vida a elle e a este velho!
Mas a lingua emperrava-se-lhe, a sensibilidade engasgava-o de todo.
Ancioso sempre de contar façanhas, no orgulho profissional, o ex-soldado do Roussillon ergueu as mãos á altura dos ouvidos, como a pedir que o escutassem, e começou n'um bom ar de velhinho, tremendo-lhe o bigode branco em escova:
—Quando aquelles malditos franceses caíram sobre nós, eu, mais o meu capitão e mais vossa excellencia, senhor morgado, fomos para cima d'elles como leões, e eram cutilladas de alto a baixo, golpes de rachar de meio a meio...
Ganhava-o pouco a pouco a furia de assassino profissional: passavam-lhe no olhar relampagos sinistros; arregaçavam-se-lhe os beiços, mostrando os dentes pôdres ainda promptos a morder; crispava-se-lhe a mão esquerda em fórma de garra, o pollegar muito desenvolvido, erguido acima dos outros dedos, na ameaça de premir a guela do inimigo; e na mão direita brilhava-lhe uma faca de meza, brandida com furôr, como nos assaltos á arma branca, em que, com as mãos a escorrer em sangue, degolava soldados agarrados ás peças, apertados uns contra (p. 032) os outros, sem espaço para se defenderem no recanto de uma trincheira. Tinham ás vezes que abrir-lhe a mão á força para lhe tirarem a podôa de jardineiro, a que se soldavam os dedos quando brigava com os cavadores, e renovava-se a lição do mal; ou quando o vinho lhe obliterava a consciencia de homem grato, generoso, humilde até á servidão.
Sobresaltado frei Angelico na languidez da digestão, arrotando empanturrado, flatulento, ergueu-se, arredou o habito pardo de franciscano n'um meneio feminil, adquirido em menino do côro; o que ainda parecia, apezar dos quarenta annos, pelo effeminado dos ademanes de aprendiz de clerigo, pelo tom rosado da face gorda e oleosa, a que a larga tonsura dava uma frescura de novo; e desapertando o cordão de nós, clamou na voz de canna rachada, em que outr'ora cantava de falsete, limpando o suor ao lenço de Alcobaça sujo de rapé:
—Veja e aprenda, Joãosinho, como se pratíca a verdadeira egualdade, não a d'esses malditos clubs, mas a que é agradavel ao ceu! Aprenda, que está em edade. N'esta velha casa fidalga fraternisam, libando o vinho de Deus, dando graças ao Altissimo pelas suas obras, a nobreza representada no excellentissimo senhor (p. 033) Martinho Vasques de Linhares Soeiro, morgado dos Folhadaes, o clero n'este humilde servo do Senhor, e o povo n'esse villão, esse ninguem, esse bicho da terra, esse pó da estrada!—e apontava mestre Jacintho.—Exemplos d'estes, só na educação religiosa se encontram. E para isto não é preciso ser jacobino, nem republicano, nem pedreiro livre, nem cuspir na hostia consagrada!
Benzeu-se horrorisado e, sem transição, desceu do tom de prégador:
—Mas o Joãosinho não bebeu nada. Vá lá. Um só não faz mal.
Encheu-lhe um copo, derramando vinho pela toalha, e deitou outro para si.
—Beba á saude do senhor morgado, e vamos para o terraço, que se abafa de calôr.
Habituado áquellas scenas, bebeu satisfeito João. Talvez lhe désse o vinho o animo preciso.
Saíram, o morgado á frente, equilibrando-se ao bordão de marmeleiro polido, no apparato de uma vara de juiz, em gravidade processional; depois o frade, arrastando as sandalias, conchegando a proeminente barriga, levando no regaço o cordão e o rosario, que desapertara; João pisando respeitoso, ao de (p. 034) leve; e por fim o mestre Jacintho, muito curvado, rindo e falando comsigo mesmo.
Assentaram-se a nobreza e o clero na banqueta de azulejo, que corria ao longo da empêna da casa, no terraço voltado para S. Matheus. Sentou-se João sem esperar convite, por direito proprio, considerando-se tanto ou quanto nobre, pelos fóros de fidalguia da espada do avô; e n'essa decisão já reconhecia o effeito do vinho fazendo-lhe perder a usual timidez, e já acariciava a proxima entrevista com Maria. Disciplinado como soldado, e tão firme quanto lhe era possivel, conservava-se mestre Jacintho de pé ante os seus superiores hierarchicos, chalaceando, contando historias de caserna, as mãos perto dos ouvidos, o rosto expandindo-se n'um sorriso de bom velhote.
Depois saíu Martinho Vasques com o jardineiro, a vêrem os trabalhos da quinta, e frei Angelico e João foram para o escriptorio.
Dobrado para a meza de saia de baeta vermelha, limpando no cabello a penna de pato, olhava a furto, pela janella fronteira, a varanda de pedra do fundo da quinta, onde passeavam á sombra da parreira, Maria, a prima que ia jantar com ella e passar a tarde, e Jorge da Feteira, namorado de D. Josepha da (p. 035) Esperança, que apparecia para a merenda.
Tinha ciumes do fidalgote que levava a confiança de primo a beijar Maria á entrada e á saída, e invejava-lhe a liberdade em que andava com as duas raparigas ao fresco da tarde, pela recatada vastidão do pomar.
Afastavam-se, mas elle espionava o quadro recortado pela janella na parede nua, e tornava a vêl-os notando a impaciencia com que o observavam.
Orgulhava-o esse interesse. Sabia que o estimavam, que o esperavam para a merenda, mas não deixava de reconhecer, por parte dos primos reunidos para falarem, o motivo d'essa espectativa, poderem afastar-se deixando Maria entretida com elle.
Deitado em cima da papeleira encetára o frade diversas folhas de papel, mas a penna de pato, rangendo muito, fazia-lhe uma lettra incerta, incomprehensivel, e a mão tremula deixava cair borrões que impossibilitavam a continuação. Deitava-lhe areia, encanudava a folha e despejava-a no recipiente de chumbo, mas os pingos de tinta lá ficavam. E na atarantação de poupar meia folha de garatujas despejou-lhe por cima o proprio tinteiro, borrando o lenço, as mãos, todos os papeis do alçapão.
Rendeu-se (p. 036) então á evidencia, reconheceu-se incapaz de escrever, e lançando-se para o hirto canapé de palhinha, tomou rascunhos de cartas e poz-se a ditar a João.
Entretido com a janella, elle escrevia machinalmente, repetia distrahido, errando o ditado; e fr. Angelico, sentindo a cabeça pesada, crendo seu o engano, envergonhou-se do rapaz e deu por findo esse tão pouco proveitoso trabalho.
Ia emfim desabafar!
Mas o acanhamento assaltava-o de novo, e ainda pensava adiar para mais tarde essa urgente expansão.
Desceu ao pateo de entrada, abriu a cancella que dava para as trazeiras da casa, onde as gallinhas debicavam montes de estrume, e os filhos do quinteiro pulavam nos picos de matto roçado para o lume; passou por entre os chiqueiros, atravessou o jardim, rodeiou o repucho, contornou os taboleiros de onde vinha o cheiro penetrante dos cravos; e ao fim das ruas de buxo, abriu outro portal, e internou-se na quinta, por debaixo da latada que em pilares de pedra a dividia ao meio, deixava dois grandes rectangulos destinados a alfobres e á horta, e continuava (p. 037) contra os altos muros negros de pedra solta ensombrando os passeios lateraes.
Reuniam-se todas as tardes no pomar, ao fim das larangeiras, das nespereiras, por baixo das quaes nascia silvestre a hortense, e conversavam até ao escurecer.
Só encontrou D. Josepha da Esperança e Jorge da Feteira sentados muito juntos, de mãos dadas, indolentemente reclinados no grande banco de pedra, com recosto de azulejos onde caçadores, de chapeo tricorne, perseguiam lebres, acompanhados de cães, quasi de pé como pessoas.
A falta d'ella permittiu-lhe serenar, confirmar-se no proposito de dizer-lhe tudo, de sair por uma vez do equivoco em que vivia.
N'uma aspereza que a tornava mais apetecivel, entrou Maria, saltando irrequieta, o chapeo deliciosamente deitado para os olhos, n'um simples vestido vermelho inteiro, de cintura alta, o collo a descoberto, de tres folhos na saia um tanto curta, deixando vêr o sapato branco, atado por fitas brancas, sobre a meia branca, no tornozêlo.
A sua simplicidade contrastava com o requinte de secia de Josepha, a opulenta juventude trasbordando de um rico vestido verde, de cinco folhos, com (p. 038) capoteira de renda em bicos, sapatos de duraque preto, cabello penteado atraz em cuia, apartado ao meio na frente, grandes tufos nas fontes, um fio de perolas na testa, desvelos de toucador destinados ao primo Jorge, que por sua parte caprichava em vestir grosseiramente á D. Miguel, jaqueta de alamares, cinta, calção, botas de prateleira, bóné azul, cabello puchado para as fontes, cara rapada, porque o bigode denotava á legua constitucional.
Andava pela edade de João, mas parecia mais nova. As doenças da meninice, as convulsões com que a dotára o alcoolismo paterno, as impurezas do sangue azul dos casamentos consanguineos tinham-lhe dado a fragilidade ainda transparente na pallidez, nas fundas olheiras, no descorado dos labios. Por volta dos onze reagira, ganhára forças, mercê do longo tratamento com que o pae gastára muito, na teima de assegurar emfim um herdeiro á casa, depois de tantos morgados e morgadas, cheios de pustulasinhas, mortos no berço.
Eram d'elle os olhos azues, desmaiados, o cabello castanho, e a expressão de aspereza que as sobrancelhas, contrahindo-se, ás vezes denotavam. Mas na boca pairava-lhe a terna brandura com que (p. 039) a mãe outrora se resignava aos beijos roubados por infindaveis legiões de primos.
Afogueada pela pressa com que viera, Maria falou a João, e sentaram-se todos, encruzados, na relva, a comerem maçãs e marmelos assados no forno, trespassados de assucar, que ella trouxera no regaço.
Falou-se da imprevista partida do navio, dos actos do governo da ilha, dando elle noticias com simulada indifferença.
Finda a merenda foram beber agua á pequena cascata do recanto da quinta onde se abrigavam a estufa de ananazes, e as largas folhas das bananeiras; amadureciam maracujás do tamanho de ovos côr de chocolate; desenrolavam-se fetos de entre as pedras negras e vermelhas, fundidas pela lava em filigranas, em lagrimas; abriam em guarda sol as largas folhas ovaes do inhame por cima da valla onde escoava o regueiro, empoçado em nodoas de agrião.
Satisfeita a gulodice, que já lhe ameaçava de pontos negros os dentes miudos e mal implantados, Maria lançou-se para a rêde, que pendia indolente da ramada dos castanheiros, e juntando as mãos sob a cabeça, fez d'ellas e dos braços, a sairem nús (p. 040) da manga arregaçada, o travesseiro em que se reclinou indolente, cerrando os olhos, sorrindo a João.
Elle puchou uma cadeira de vimes e poz-se a baloiçal-a brandamente.
Ganhava-os o odôr estonteante das magnolias, o morno perfume adocicado recendente da estufa.
De mãos dadas afastavam-se pouco a pouco, os primos namorados até, como de costume, desapparecerem de todo.
Correspondia João ao infantil sorriso de Maria, e ha dois annos que não passavam d'ahi.
Estiveram muito tempo sem falar, no prazer mudo de se contemplarem, até que João estremeceu á ideia de a perder.
—Teve noticias do primo?—perguntou-lhe de repente, indo direito ao assumpto, sem preparação.
Ella respondeu indifferente, transportada no brando oscillar da rede:
—Sim. Está bem.
Apparentou desinteresse, mas insistiu:
—Sempre casam?
N'um movimento de contrariedade, que o animou a ir mais longe, disse Maria:
Ficaria outra vez interrompida a conversação, se elle, animado pelo que crêra adivinhar, não se arriscasse mais:
—E gosta?
—De quê?
—De casar.
N'um visivel enfado murmurou:
—Sei lá!
Muito nervoso, repetiu:
—Quero dizer se gosta de casar com elle.
Tirou-se da rede que, preoccupado, João deixára parar e n'um encolher de hombros:
—Se nunca o vi.
Foi lançar-se descontente no banco de pedra, a fronte ensombrada, no gesto do pae.
Ficou João um momento indeciso, e depois approximou-se vagaroso, offendido:
—Vejo que não é minha amiga.
—Porquê?
—Fala-me com mau modo...
—Eu?
—Com frieza, com indifferença...
—Para o que te havia de dar hoje!
E como elle se sentasse, succumbido, soltou uma risada, (p. 042) n'um impeto de volubilidade, e beliscou-o, no seu agreste feitio infantil.
—Isto então é mau modo?
Ergueu-se elle corando, e supplicou:
—Por amor de Deus não brinque commigo!
—Estás amuado?
—Pelo menos agora não graceje, e diga-me só: Gostava de ir para Lisboa?
Abrangeu n'um olhar a casa, o campo, a vida que levava enclausurada, e respondeu:
—Isso gostava.
Retorquiu João em voz estrangulada:
—Não se importava então de me deixar?
Irritada pelo interrogatorio, Maria exclamou, sem o fitar:
—Que pergunta essa!
Elle approximou-se, muito commovido:
—Era uma separação para sempre! para sempre!
—Sim, talvez!
E d'olhos no chão encarava agora as consequencias.
Vendo-a impressionada, João aqueceu:
—E não levava pena nenhuma?
N'um repente de sinceridade, Maria accudiu ingenuamente:
—De (p. 043) me separar de ti, sim.
—Mas não tinha ainda pensado em mim!—queixou-se elle, muito sentido.
—Realmente ainda não pensára.
Começava a sentir-se compromettida, olhava em torno a procurar os primos.
João deixara-se arrastar pela arrebatadora emoção d'esse momento tanta vez sonhado, e tanta vez crido impossivel:
—É porque nunca me quiz bem!
Ella via embaciarem-se-lhe os olhos, tremerem-lhe os labios.
Desculpou-se para não o affligir mais:
—Como querias que pensasse em ti, se isto tem sido uma coisa no ar?
—Mas estão preparados para o embarque...
—É certo que o pae anda com isso ha muito. Mas elle faz e diz tantas coisas sem fundamento, que eu nunca o tive por decidido.
—Nem mesmo o casamento?
—Não pensei a serio em coisa alguma.
E n'um arremesso de creança que os mimos tornaram voluntariosa:
—Mesmo isso do casamento com o primo ha de ser se me agradar.
João (p. 044) estremeceu, desiludido:
—Ah! Então ainda é possivel?
—Só Deus o sabe. Mas se não sympathisar com elle, não ha forças humanas que me obriguem.
—Quer dizer que ainda póde vir a agradar-se?
—Quem sabe!
Cria-o então possivel? É que nunca sentira por elle nenhuma affeição? E a custo João comprimiu um soluço, que não lhe passou despercebido.
—Que tens tu?
Bailando-lhe lagrimas nas pestanas, desabafou:
—Ando como um doido! Perco as noites a pensar que não nos tornamos mais a vêr. Toda a minha vida hei de chorar esta casa...
—Coitado! Faz-te falta o que o pae te dá a ganhar.
Magoou-o a apreciação. Pois não presentia n'elle outro sentimento? Não interpretára nunca o verdadeiro culto que lhe votava, olhando-a absorto, como ás imagens.
Pensou ainda em manter-se incomprehendido, em calar essa revelação. Vinha muito tarde! Não o comprehendera em dois annos de intimidade, não ia agora corresponder-lhe de repente. Mas revoltou-o vêr accentuada a situação de dependente.
—Não (p. 045) ia ali por interesse—protestou.—Os seus deixaram-lhe alguma coisa. Tinha com quê. Era só por ella, para estar ao seu lado, que acceitava o sacrificio do escriptorio.
Impressionou-a a paixão com que falava.
Ainda em tom de gracejo, mas com a voz um tanto abafada, disse sem o fitar:
—Querem ver que te deu para me namorares?
Ficou olhando para a areia vermelha. E como elle permanecesse calado, insistiu, evitando-o sempre:
—Não respondes?
—Fica zangada commigo?—perguntou a medo.
—Não.
—Isso é que fica.
Ella virou-se de repente, e fitou-o com franqueza:
—Zangada porquê?
Intimidou-o essa expressão, que não comprehendia; mas era tarde para recuar. Muito envergonhado, rendeu-se:
—Pois é verdade.
Maria ergueu-se n'um riso forçado:
—Tu, namorado de mim? Tu, meu fedelho! Ora! Não sabes o que dizes.
Ia afastar-se, mas João supplicou:
—Já (p. 046) que me não ama, diga ao menos que me perdôa!
—Tens medo? Descança, não faço queixa ao pae?
—Não se ria de mim, quero-lhe muito, muito!—soluçou elle.—E quando soube que a pretendiam casar em Lisboa, chorei de desespero, porque me costumára a pensar que havia de ser minha mulher.
Ella encarou-o, franzindo as sobrancelhas, como irritada pelo atrevimento do plebeu, do insignificante, irrespeitoso para com o idolo que para todos julgava ser.
—Estás brincando! É lá possivel!
Elle enxugou as lagrimas, conteve se:
—Sinto-o agora, pelo desdem com que me trata.
—É uma creancice.
—Sim. Mas que me perdeu para sempre.
Irritada procurou convencel-o:
—Pois tu não vês que o pae nem quer que eu fale com o primo Antonio, nem com o primo Sebastião desde que se lhes metteu em cabeça pretenderem-me, porque são pobres? E que és tu ao pé d'elles, quasi tão fidalgos como nós? O que diria o pae se soubesse d'isto!
—Que digo? Não me estás ouvindo?
—Se me estima.
—Bem sabes que sim.
—Muito?
—Vê lá se me entretenho com mais alguem do que comtigo e com a prima Josepha da Esperança.
—E agora, depois do que lhe disse?
Animava-se momentaneamente, olhava-a transportado, n'um lampejo de esperança.
Ella sorriu, bondosa, infantil:
—Já me viste por ventura algum namorado? Todas as raparigas os têm, aos dois e aos tres, e eu nunca achei graça a essas tolices. São brincadeiras estupidas. Mas se gostasse de um homem, muito cá de dentro...
Transfigurou-se, dominou-a uma expressão de alegria, mas conteve-se e exclamou abruptamente:
—Olha, falemos de outra coisa.
Comprehendeu que era preciso acabar:
—Vejo que não quer saber de mim.
—És doido. Então não temos sido tão amigos?
—Oh! Como eu esperava ... não!
—Sabes que mais? És um doido, é o que te digo!
E (p. 048) afastou-se com mau modo.
—Um momento, senhora D. Maria, esqueça esta falta de respeito, antes que me retire para nunca mais voltar.
—O quê? Não estás bom de cabeça rapaz. Então é que o pae desconfia. E o que serás tu nas suas mãos, meu franganito!
—Virei despedir-me com qualquer pretexto ... e nunca mais me tornará a vêr!
Ia seguindo Maria, que se esquivava a novas lagrimas, procurando os primos, aninhados n'algum caramanchão.
Ao descobrirem-os, disse João precipitadamente:
—Obrigado pela feliz illusão em que tanto tempo me manteve, e adeus para sempre!
—Vae com Deus—redarguiu ella, muito saccudida—e pede a Santa Catharina que te dê juizo.
Despediu-se João cerimoniosamente de Jorge da Feteira, de D. Josepha, e retirou-se corrido.
Não se atreveu a sair pela porta principal, á vista de todos.
Atravessou o cannavial, passou ás terras lavradias, saíu pelo portão de ferro que abria para o cerrado, e seguiu ao longo do muro da quinta, encoberto pelas faias e caniçados.
Ao (p. 049) passar debaixo do mirante onde a deixara, surprehendeu pedaços de conversação a seu respeito.
Josepha da Esperança reprehendia a prima:
—Não o devias ter deixado tomar tanta confiança, desde que não o querias. Vocês pareciam mesmo dois namorados, e sempre os tive por isso. Andastes muito mal.
Indignou-se Maria:
—E tu, e as outras? Vocês teem licença para tudo? E se me desse para o namorar? Que tens que vêr com isso? Olha, talvez venha a gostar do entretenimento.
—Com este?
—Com este ou com outro. Parece que é tudo o mesmo, á maneira como vejo variar.
—Isso é commigo, prima?
—É com todas.
—Deu-lhe volta ao miolo! Pois veja se tem mais juizo.
—Olhe, prima, não a chamei para mestra, e não me venha dar lições sem que a tome ao meu serviço.
Voltou-lhe as costas e afastou-se.
Josepha da Esperança ameaçou, despeitada:
—O que tu merecias era que eu fosse contar tudo ao tio.
—Pois (p. 050) experimenta, e verás que te pico os olhos com uma agulha.
Ao perceber o tom das referencias, João apressava o passo, corrido, humilhado, occultando se com os silvados, para que nunca mais o vissem.
Passára João interminaveis dias de angustia, e agora apenas ia á lição de latim, ficando a estudar noite e dia para poder entrar mais depressa na universidade.
Manter-se-ia em Coimbra com a pequena legitima paterna que, para se formar, conservava intacta, sustentado pelas tias, a quem auxiliava com os ganhos de escrevente.
Para supprir as quatro patacas pedira ao Juvencio, e ao doutor Ferraz, que o apreciava das conversas politicas da botica, alguns trabalhos de expediente da junta provisoria, que podesse fazer de tarde e á noite.
Mas (p. 052) a subitas abandonava o buffete, chegava á janella, e sentava-se a contemplar a quinta dos Folhadaes, evocando a derradeira visita.
Resentia-se da frieza de Maria, do desdem transparente nas censuras de D. Josepha da Esperança, do olhar sobranceiro de Jorge da Feteira ao corresponder friamente ao seu cumprimento.
E avaliava que tal devia ser o primo de Lisboa a quem a destinavam, por esse arrogante analphabeto, cheirando a estrebaria, orgulhoso de pegar toiros á unha á saída do curro, de picar a pé á vara larga, de farpear de dentro do caixão a meio da praça, falando com desprezo da liberdade que não comprehendia, odiando a letra redonda que nem soletrava, copiando D. Miguel por fóra e por dentro, dizendo-se, por bravata, capaz de defender de armas na mão o passado, que lhe dava direito de primasia sobre a parte intellectual da nação.
Como fôra ridiculo no seu acanhamento!
Porque não rompera n'um rasgo soberbo, lançando-lhes em rosto alguma dura phrase ouvida na botica, predizendo-lhes a aniquilação fatal da fidalguia, despojada do direito de explorar o povo, annulada pelo plebeu trabalhador, instruido e saudavel, ella, a casta analphabeta, indolente, corroida no (p. 053) sangue por heranças de miserias e de vicios?
Precisava desafrontar-se, lançar-lh'o em cara, citar-lhes os artigos da Carta que confirmavam a Constituição na extincção dos privilegios, no estabelecimento da egualdade.
Mas teria offendido gravemente Maria...
Fôra melhor assim!
Ella não podia pensar como o pae, como o primo.
Tratara-o sempre como um egual e, se manifestára aquella grande estranheza, fôra decerto por ter ouvido de chofre o seu audacioso proposito, sem que uma gradual preparação a habilitasse a encarar aquelle amor como a natural consequencia da intimidade em que viviam.
Maria amava-o, sem duvida; e assim que lhe importariam os preconceitos?
Vibrava na revolta sentimental dos poetas que, em relampagos de genio, previam a declaração da egualdade, queixando-se de que Deus fizesse deseguaes os homens, e lhes desse, impiedoso, olhos e sentidos para escolherem o melhor, e um coração para estalar de dôr; e se fosse poeta glosaria n'um sentimento vivido, para os enviar a Maria como um formidavel protesto, os versos de Gil Vicente:
«Que (p. 054) el amor que aqui me trajo
Aunque yo fuese villano,
El no lo es.»
Já não havia porém villões e fidalgos; perante a lei eram todos cidadãos!
Maria agora sabia tudo e, n'esses longos dias em que se não viam, tinha tempo de meditar.
Julgal-o-ia no seu intimo, evocaria, talvez saudosamente, a jovialidade d'essas tardes!
Que pensaria o fidalgo em não o vendo?
Era forçoso ir lá dar-lhe qualquer desculpa. Não podia desapparecer como um criminoso.
Precisava mesmo mostrar-lhe, e a todos, que não tinha medo.
N'esse dia despedir-se-hia d'ella cerimoniosamente.
Já não era dependente e, se o acolhesse, tratar-se-iam de egual para egual.
Voltaria como visita, ou falar-lhe-ia da canada, e havia de inspirar-lhe confiança, fazendo-lhe vêr como as medidas liberaes, extinguindo distincções, lhe permittiam elevar-se até aspirar á sua mão.
E assim caía de novo na preoccupação politica, sentindo ainda mal seguro esse estado de coisas que (p. 055) provocava um desdenhoso riso a Martinho Vasques, e avinhados raptos oratorios ao frade.
Como sempre que o intimidavam a tranquilla segurança dos adversarios, as más noticias que por toda a parte espalhavam, decidiu ir á botica avigorar a fé na convicção enthusiastica do velho clubista.
Fôra tão forte o abalo soffrido que adiou de dia para dia a visita ao Juvencio e, sem saír mais que para a aula do padre Jeronymo, continuou agarrado aos livros, vendo n'elles, no curso para que o preparavam, a sua melhor desforra.
Alarmou-o uma manhã o boato trazido de fóra pela creada, quando estavam almoçando, de que se ia embora o batalhão, e voltava a ilha á obediencia do senhor D. Miguel. A junta reunia gente armada para impedir o embarque, mas todos diziam que os caçadores eram levados do demonio, e nenhum caso fariam da paisanada.
Não poude encobrir o desgosto, mas não respondeu ás tias, não lhes contestou os commentarios.
D'ahi a pouco saía, muito enfiado, disposto a tudo.
—Que ha de novo, senhor Fulgencio?
Veiu (p. 056) do interior da loja o boticario, um velho alto, secco, ainda robusto, só divergindo dos constitucionaes na cara rapada, olhar inquieto, ardente, bocca energicamente accentuada, expressão decidida, barretinho de clerigo tapando-lhe a calva, muito correcto n'um velho traje de gala, repassado aqui e ali, casaca de seda preta, calção e meia, chinelos em vez dos sapatos de fivela, por causa dos callos.
Aproximou-se n'um ar mysterioso, occultando-se das beatas que iam vigial-o de manto, e disse-lhe baixinho:
—Está reunido o conselho militar. A coisa não ha de ir assim, estejam descançados.
E retirou-se, muito activo, n'um passo miudo.
Seguiu-o João, angustiado.
—Vieram más novas?
Voltou Fulgencio a falar-lhe entre portas:
—Não vieram das melhores, não. Olha, ahi tens gazetas fresquinhas, chegadas hontem, n'um navio da laranja. Vae-te entretendo, emquanto eu avio a gente do monte, para ficar com as mãos livres, se tivermos dança.
Era domingo e, conforme o uso, viera ás compras muito povo do campo. Estava a botica cheia de (p. 057) cabaças, de alforges, de sacos de estopa. Em cima de mezas alinhavam-se tijelas onde Fulgencio, de espatula em punho, ia despejando boiões de unguento.
Devorava João as pequenas folhas, de um palmo de largo, por palmo e terça de alto, a duas columnas, encimada pela corôa portugueza, entre Gazeta e de Lisboa, do titulo.
Vinham cheias de saudações a D. Miguel pela «exaltação ao throno dos seus maiores»; da lista dos «donativos voluntarios», extorquidos pela policia e pelos caceteiros sob a ameaça da denuncia por liberal; de congratulações officiaes pela victoria das tropas fieis contra as rebeldes.
Na ultima pagina do n.o 184, de 4 de agosto, figurava o annuncio do retrato de D. Miguel, em ponto grande; para medalha e caixa de rapé a 40 réis a duzia, em preto, a 240 illuminado; para medalhas mais pequenas respectivamente a 30 e 160 réis; para anneis e alfinetes a 20 e 120 réis.
Publicava a Gazeta n.o 182, de 2 de agosto, o «Assento dos tres estados», em que se declarava D. Miguel rei absoluto, absolvendo-o de haver jurado falso com essa interpretação do juramento, que João lia assombrado: «irrito ou nullo quando cae sobre materia (p. 058) illicita, quando é extorquido pela violencia, quando da sua observancia resultaria necessariamente violação de direitos das pessoas e dos povos, e sobretudo a completa ruina da nação.»
E os jornaes continuavam a bater a nota das felicitações a D. Miguel e ás tropas.
Que significava aquillo?
Não podia deprehendel-o das Gazetas, alheio como estava ha muitos dias ao movimento politico.
Mais aliviado de freguezes, veiu Fulgencio esclarecel-o:
—Sim, foi-se tudo por agua abaixo. Já o sabiamos desde o dia 5, mas a cara era a mesma, para que esses patifes dos miguelistas não se nos rissem nas barbas...
—E as noticias que o doutor Antonio da Silveira foi procurar ao Porto...
—Já nos deram a divisão liberal em retirada para a Galliza ... mas nós: moita, carrasco!
—Pois não poderam manter-se todas essas tropas da junta do Porto?
—Perdeu-os a sua ingenuidade! Tu bem sabes que nós não queremos sangue, nem alçadas, nem perseguições, nem confiscos. Paz e egualdade para todos! (p. 059) Eis como foram até cerca de Condeixa tres mil soldados liberaes, por assim dizer como chamariz a deserções. Mandaram-se proclamações para o campo inimigo, e ao alarme pela aproximação de uma força adversa romperam as bandas o hymno constitucional, para a arrastarem á adhesão. Contava-se vencer sem disparar um tiro, sem derramar o sangue de irmãos!
—Como em Vinte!—exclamou João enthusiasmado.
—Eram os principios! Mas as forças do Miguel, seis a oito mil homens, não quizeram «abraçar os irmãos d'armas», e atacaram na Cruz dos Moroiços, no momento em que todos os chefes, de major para cima, tinham ido assistir ao conselho militar em Coimbra. Foi a «acção dos capitães» e, como tal, as forças sem commando que reunisse os seus esforços, defenderam com valentia as posições occupadas, mas não limparam de inimigos o caminho de Lisboa. Depois o nosso general Refoios, receando que Povoas passasse o Mondego, ordenou a retirada para o Porto.
—E ahi?
—Não se poderam manter. Quando chegaram de Inglaterra os chefes emigrados já era tarde, e voltaram no (p. 060) mesmo vapor que os levára, emquanto a divisão retirava para a Galliza.
—Que desgraça!
—Ou antes, que inepcia. Essa fuga dos chefes no Belfast não me passa d'aqui!
E levou a mão á garganta n'um gesto nervoso.
Sentiu João as lagrimas nos olhos, e fez exforços para não chorar.
Assim ruia n'um momento o futuro em que tanto confiára.
—Então acabou-se tudo?—exclamou em voz estrangulada.
—Qual! Outros virão! Ha de estalar nova revolta, e o Miguel não levará a melhor! E agora que aprendemos á nossa custa, nada de hymnos nem de proclamações. Ha de ser á má cara!
Dava grandes pernadas pela botica, olhando inquieto a praça, onde se juntava muito povo defronte da camara.
Continuou para João, que ficára aturdido:
—Assim o querem, assim o tenham! O exemplo do sangue veiu d'elles. Já começou a trabalhar a forca, mas os estudantes de Coimbra, longe de se intimidarem com o assassinio dos collegas condemnados pela morte dos lentes em Condeixa...
Olhou (p. 061) João fixamente, crendo que a sua pallidez provinha da referencia ao attentado e ás execuções.
—Ouve lá. Tu que te fazes tão liberal, se te coubesse em sorte executares um tyranno, um inimigo de liberdade...
—Não me tremia a mão, tenha a certeza!
E João ergueu-se, vibrando de enthusiasmo, na esperança de poder tomar parte na lucta contra a casta dominante cuja oppressão tanto o magoára.
Parecia-lhe ha muito que o experimentavam os frequentadores da botica, e sentia-se attrahido pelo maravilhoso, pelo mysterio do subterraneo onde constava funccionar uma associação secreta.
Mostrava agora uma firmeza de homem feito, sentindo-se honrado por esse convite indirecto a entrar em acção.
Juvencio fitava n'elle o olhar prescrutador.
—Todos serão precisos!—disse-lhe por fim—e os rapazes mais do que os velhos. São vocês que teem a lucrar com a liberdade. Eu não chegarei a gosal-a em paz.
Commoveu-se n'uma saudade do periodo constitucional, das humanitarias illusões em que tinham considerado a nação livre e feliz para sempre.
Mas (p. 062) o gesto de amargura cedeu ante a impulsão do inquebrantavel espirito de combatividade, e proseguiu:
—Como te ia dizendo, a estudantada não se intimidou, e adheriu á revolução, formando o batalhão academico, que lá retirou com os emigrados.
Eram um novo contratempo para João as perturbações da universidade.
E na obsecação do projecto que por esses dias o absorvera, perguntou:
—Então assim, talvez não possa matricular-me este anno?
Sorriu da ingenuidade o boticario.
—És um creançola! Pois não vês que não torna a haver paz sem que elles nos enforquem até ao ultimo, ou nós os desarmemos e ponhamos o Miguel pela barra fóra?
—Não sou tão inexperiente como julga. Mas pelo que vejo na Gazeta, D. Miguel foi proclamado rei, e tudo são felicitações e offertas...
—Isso não quer dizer nada. É a gente d'elle, só a d'elle, porque os nossos estão presos ou emigrados. Mas olha que os embaixadores cortaram todas as relações diplomaticas, em protesto contra a infamia dos (p. 063) juramentos falsos com que nos illudiu, com que enganou as nações estrangeiras.
Puxou triunfante d'uma carta:
—Aqui sabe-se tudo, quer eles queiram quer não. Os tres estados, como tu já ahi lêstes, absolvem-o a seu modo, adoptando a moral jesuitica do juramento condiccional; mas ainda o desculpam de outra fórma, dizendo que elle, ante o parlamento, não jurou com a mão nos evangelhos, mas em cima dos Burros d'esse bandalho do José Agostinho de Macedo. Tu sabes as minhas opiniões, para mim tanto vale um como o outro, é tudo palavreado de frades. O crime está na má fé de bandido com que abusou da confiança attribuida á palavra de honra de qualquer homem de bem, quanto mais de um principe!
João indicou-lhe o artigo da Gazeta.
—Dizem que elle foi coagido a jurar.
—Patife! Estava coacto, sim, é a desculpa d'esses homens que para vergonha nossa ainda governam cidadãos livres como rebanhos de carneiros. Na Villafrancada e na Abrilada, D. João sexto e D. Miguel declararam-se mutuamente coactos e illudidos, para justificarem as traições e as perfidias em que se digladiava a real familia. A sua «sciencia certa (p. 064) e o seu poder absoluto» guardam-os esses ungidos do Senhor para pôrem os gatafunhos nas medidas uteis dos seus ministros.
Amarrotou a Gazeta furioso, batendo com as costas da mão no artigo dos «tres estados», emquanto passeiava, declamando:
—Isto que ele fez agora, deitar a mão á corôa, já o tentou por duas vezes em vida d'esse pobre diabo de D. João VI, combinado com a porca da mãe. Correu-lhe mal a coisa, teve que submetter-se na Villafrancada, e da Abrilada foi rebolindo de castigo para o extrangeiro. Da Austria, mal se viu livre do pae, escreveu ao senhor D. Pedro, reconhecendo-o e aceitando-o como herdeiro do throno portugues. Quando o grande rei liberal usou do poder para abdicar d'elle no povo, doando nos a Carta Constitucional, e para ceder a corôa á nossa joven rainha D. Maria da Gloria, sob a condição de D. Miguel casar com ella e acatar a Carta, jurou-a solemnemente, e até enviou ao irmão regente um manifesto negando a authoridade do seu nome a quem impugnasse o novo codigo da liberdade. Escreveu ao rei de Inglaterra garantindo-lhe o proposito de fazer respeitar as novas instituições, mantendo por meio d'ellas a paz em Portugal. Ao chegar (p. 065) a Lisboa, em triumpho, entre meio de partidarios, sem que um só liberal se lhe podesse aproximar, ratificou, em grande ceremonial, os juramentos, e ainda cumpriu, a seu modo, a Carta, assignando decretos em que a applicava. E quando pôz o exercito da sua mão, mudou a officialidade, augmentou a policia, quando se considerou absolutamente seguro, desmascarou-se, fez-se proclamar rei absoluto, inventou a questão da legitimidade, que nunca até hoje fôra apresentada, e fez trabalhar o cacete e a fôrca.
—E está realmente acclamado rei em todo o reino, como diz a Gazeta?—perguntou João intimidado.
Mediu-o Juvencio de alto a baixo, e respondeu n'um aprumo soberbo:
—Mas não o está na ilha Terceira!
Elle retorquiu, receioso, mostrando o jornal:
—Fala-se aqui de uma expedição em que vem a nau D. João VI, e mais dez navios, contra a Madeira e as outras possessões revoltadas...
—Bem sei. E já fizeram exercicio de desembarque diante do «seu anjo». Pois que venham cá, e verão a lição que levam!
Deslumbrava-o (p. 066) o orgulho patriotico:
—Tinha melhores dentes o Demonio do Meio-Dia, e por duas vezes lhe corremos com a sorte. O que a nossa terra fez então, póde repetil-o agora. Até os toiros dos nossos mattos se lhe deitaram na Salga, e Vadez fugiu, apezar dos seus dois mil soldados cobertos de ferro! Para se metterem cá tiveram os hespanhoes que mandar oitenta navios e dezaseis mil homens. Onde tem o Miguel gente para isso? Pois tomára eu que mandasse muita, para que, livres d'ella, o puzessem os liberaes mais rasos do que um chinelo.
Ardia João na impaciencia de saber toda a verdade:
—Por têr mêdo da esquadra o batalhão quer saír, como corre?
—Com mêdo, dizes bem. Eis o que valem fanfarronadas de caserna! Lingua têm elles para se darem como autores de tudo, dadores da liberdade, mantenedores da independencia. Mas vê lá se alguem os viu quando entraram os francezes! Nem raça de um. Foram as guerrilhas, paisanada como eu e como tu, que lhes puzeram as uvas em pisa. E quando mataram o grande general Gomes Freire? Se foram elles proprios que o fuzilaram! Havia officiaes (p. 067) inglezes n'esse tempo, mas só meia duzia. A soldadesca e os agaloados eram todos de cá. Que prendas! Em Vinte sahiu tudo para a rua, que duvida, se a coisa não cheirava a esturro. Apenas vivas e palmas! Quando se conspirava contra a Constituição, ainda juraram defendel-a até á ultima gota do seu sangue. Mas assim que os franceses entraram por Hespanha, e o Miguel se levantou, puzeram-se no seguro, e trahiram todos os juramentos, choramingando que a liberdade era má porque lhes deixava os soldos em atrazo, quer dizer, porque não lhes dava em promoções e augmentos de soldo tudo o que pagava o pobre povo. Lá conheceram para que serviam ao atrelarem-se ao carro de D. João VI, que puxaram como bêstas, organisando até a relação dos nomes, e disputando aos fidalgos a honra da preferencia!
—É então certo que retira?
—O major José Quintino Dias apenou os navios da laranja para o levarem a Inglaterra, onde devem ir ter os emigrados. Queria embarcar hoje mesmo, 24 de agosto! Escolheu bem a data, não haja duvida, quando faz oito annos que rebentou a revolução constitucional no Porto!
Considerou tristemente:
—Oito (p. 068) annos! Como o tempo corre! E estamos peior do que ao começo.
Nada porém abatia a sua fé inabalavel:
—Mas havemos de restaurar a liberdade, embora só vocês gosem d'ella!
João commentou ainda:
—Mas caçadores cinco foi sempre um corpo liberal!
—Pois é isso mesmo o que mais me doe. O bravo cinco! Um batalhão degredado para aqui pela sua firmeza, quando até o famoso dezoito de infanteria, unico que não fôra á Villafrancada, se bandeou, depois de ter recebido, n'essa hora tragica, um exemplar da constituição confiado á sua guarda, e de ter jurado morrer pela liberdade! O cinco, o bravo cinco!
E reconsiderando:
—Mas ouve lá, rapaz, se em geral a tropa não merece confiança, e só pensa no venha a nós, tem tido verdadeiros heroes liberaes, embora por excepção! Esses que emigraram, sem acceitarem as concessões do Miguel, são portugueses de antes quebrar que torcer! Bem viste como se portou o nosso «cinco» em vinte e dois de junho. Agora é que lhe deu (p. 069) para desmanchar-se ... Ainda tenho para mim que ha de reconsiderar.
—Tambem creio que se não vae.
Juvencio exclamou exaltado:
—Lá isso é que não vae, podes ter a certeza! Ha de ficar, ao bem ou ao mal. Não é só meterem-se nas coisas. Quem as arma que as desarme. Vae por ahi uma gritaria, um desespero que é de cortar o coração. Bem se sabe o que o Miguel fará se entrar aqui. São mortes, confiscos, donzellas violentadas, creanças insultadas nos seus lindos olhos azues, a maldita côr constitucional. A elles póde não importar isso, mas nós não queremos a desgraça na nossa querida terra. Se teimarem em fugir, abandonando ao carrasco mulheres e creanças, ensinar-lhe-emos á força o seu dever!
Como sempre, fôra avassallado João pela fé do velho liberal:
—Sim! Sim! Diz muito bem.
E no rosto lia-se-lhe uma formal decisão.
Agora Juvencio approximava-se, commovido, os olhos rasos de agua:
—Quando fôres pae, Joãosinho, comprehenderás a minha dôr. Tenho aqui em cima tres filhas, e já um neto, cujos cabellos loiros são o meu encanto! A (p. 070) minha familia é a minha religião. Tudo quanto sou, me tornei por causa d'elles! A minha alegria é o reflexo da sua alegria, a minha vida é o trasbordar da sua vida, a mesma que em mim se definha e n'elles se perpetúa. A mulher é tão velha como eu, mas ellas são novas e lindas. Queres saber o que os padres prégam do pulpito abaixo? Que é preciso matar as malhadas, as filhas de liberaes como as minhas, de preferencia as gravidas, porque as creanças já trazem no ventre o ferrete da malhadice! A minha filha casada está para dar-me outro neto. Calcula agora as minhas queridas filhas, e os olhos azues do meu lindo neto, pasto de soldados e de frades! Não! Não ha de ser assim!
—Na nossa terra não entram esses barbaros!
Mais calmo, limpando as lagrimas, aliviado pelo desabafo, Juvencio continuou:
—É preciso que não entrem! Toda a esperança da liberdade portuguesa depende de nós. Se fossemos vencidos reinaria o Miguel por toda a parte. É o que agora dirão no conselho ao major Quintino. O futuro de Portugal está-se jogando, n'este instante, ali! A ilha Terceira póde defender-se, e ha-de defender-se! É tão bravia a costa do mar, que faz por si só uma muralha, e se n'ella nos vencerem, temos (p. 071) as do castello. A nossa terra é tão insignificante, estará dizendo Quintino, que n'um dia se corre toda em volta a pé. Pois quanto mais pequena fôr, maior o exemplo! Ha-de acabar-se a dependencia. Tornaram isto um degredo, um escoadouro de tudo quanto tem de mau. Mandam para cá o refugo dos funccionarios, o que lhes não serve de nada. Pois se o mal vem de lá, ha-de ir-lhe de cá a lição! Aqui foi o reino do Prior do Crato; aqui viveu ainda por dois annos o Portugal independente, vendido pela fidalguia ao rei de Hespanha; ha-de ser aqui o sacrario da liberdade, que depois reviverá em Portugal!
Observou a praça, e ficou descontente:
—Ein? Tudo na mesma. Mau signal. Já tiveram tempo de decidir qualquer coisa. Pois vamos até lá a vêr se espertam.
Desappareceu no interior da loja.
Estremecia João n'um fremito de independencia.
Sim, resistir aos de fóra, acabar com essa escravidão, o navio cujas noticias o ameaçavam, o primo do continente a quem estava destinada a mulher amada. Queria-a para si, e havia de defendel-a com o ardor com que Juvencio pretendia bater-se pela familia.
E (p. 072) assim como para o velho constitucional se identificavam os dois amores, tornando-se um a ampliação do outro, sendo o lar o mais sentido representante do maior, assim Maria se lhe tornava o symbolo da sua terra, ameaçada pelos de longe, dominada, como parte da sua população, pelo preconceito, pelo fanatismo.
Percorria-o um fremito de bravura, manifestava-se-lhe, ao influxo da occasião, a hereditariedade guerreira; e sentia-se prompto a combater por ella e pela liberdade, já sem o triste acanhamento em que se humilhára ante a frieza do seu olhar altivo, ante o desdem de um boçal marialva.
Veiu de dentro Juvencio, de chapeu alto, vendo-se-lhe o barretinho por baixo, emquanto, de costas, pretendia fechar a porta interior; trazia o capote preso nos fechos de prata, e debaixo d'elle um volume que lhe tolhia os movimentos.
Voltou-se, sorriu ao encarar com João, e pediu-lhe que encostasse a porta da rua.
Desembaraçou-se, poz em cima da meza uma espingarda de pederneira e o cinto de cartuchos.
Fechou então a porta, metteu a grande chave n'uma gaveta, foi depois verificar a escorva, e por fim desembainhando a espada posta á cinta, mostrou a (p. 073) João, que assistia n'uma impassivel gravidade de homem feito, a lamina onde se lia: «Constituição ou Morte».
Tivera-a muito bem escondida como uma reliquia, e nem as perseguições do maldito Stokler lh'a poderam arrancar.
Cingiu o cinto da polvora, enfiou no hombro a bandoleira da espingarda e deitou por cima o capote azul, encobrindo as armas.
N'uma ternura paternal poz a mão no hombro do rapaz, ao despedir-se:
—Adeus, e mette-te em casa, Joãosinho. Temol-a tramada!
—Em casa, eu?—protestou quasi offendido pelo conselho.—Olhe tambem para isto, senhor Juvencio.
E da alta bengala de madeira preta e castão de marfim, arrancou um agudo estoque, e sacou das amplas algibeiras do casaco duas pistolas de pederneira.
—Estão carregadas!
Enternecera-se o velho:
—Pois tambem tu, pequeno! Oh! Com rapazes assim a victoria é nossa.
Muito orgulhoso, João gracejava:
—Então (p. 074) o senhor, sósinho, é que havia de defender esta terra toda, lá por ella ser tão pequena? Eu tambem sou terceirense, tambem tenho direito ao meu pedaço!
Saíram para a praça, repleta de gente.
Não queriam voltar para as freguesias ruraes, sem saberem a decisão, os homens do monte, as mulheres com o cabello de risca ao meio a luzir de unto, saia pela cabeça, entufadas de saias sobre saias, os pés metidos em galochas de cedro, com pálas de coiro verde, avivadas a vermelho, luzentes de ilhós, cravejadas de pregos de aço.
Nos grupos da gente da cidade graves artistas independentes, carpinteiros, ferreiros, ourives, sapateiros, marceneiros, alfaiates, trabalhando na propria casa, e para si, auxiliados pelos filhos, ou (p. 076) por apprendizes e officiaes, que sentavam á sua meza.
Esperavam n'um grande ar de solemnidade, orgulhosos dos capotes de bom panno azul ou castanho, presos por fechos trabalhados de latão ou de prata.
Commerciantes de chapeu alto, grande casaca, no rigor do trajo constitucional, ostentando bigodes, afadigavam-se por entre os grupos de artifices e camponezes, achando todo o apoio n'aquelles, e n'estes uma desconfiança hostil.
Sentia nas novas leis o seu advento a burguesia liberal, e defrontava por toda a parte o fidalgo e o convento, senhores da terra, parasitas do trabalho, e queria oppor aos monopolios a liberdade commercial.
Mulheres do povo, de capote berneo, n'uma explosão de escarlate; burguesas e fidalgas de manto negro, reunidas em pequenos grupos, parentas, amigas; viravam incessantes os biôcos mal saía uma pessoa da camara, e atravessava a praça illaqueada pela anciedade da decisão.
A dentro dos capotes e dos mantos, por sob as pregas apparentemente uniformes, adivinhavam-se no esguio, no flexivel da cintura, no irrequieto do bico de passaro, no adejar de vôo dos largos pannos, as noivas (p. 077) do batalhão, as apaixonadas d'essa juventude que, no prestigio da farda, na vivacidade de lisboetas, no seu falar cantado, endoidecia as raparigas, com grave ciume dos patricios offuscados.
Reconhecia-se o abandono das quarentonas sem futuro, gordanchudas, afogadas em seios já inuteis, semeadas por entre os grupos como escolhos, em torno dos quaes esvoaçavam os bandos de garças.
Havia vendedeiras de capello deitado para traz, suffocadas pelo calor e pelo medo de perderem o rosario de dividas deixadas pelas tropas ao levantarem campo.
Tapavam rebuços os rostos lacrimosos das namoradas e amantes dos soldados, dos officiaes e dos sargentos; mas carpiam-se, por todas as saudosas, as mulheres da Rocha, lenço de seda na cuia, chaile terçado, rosetas de vermelhão nas faces, labios pintados, arrepelando-se, bradando contra a saída d'esses divertidos rapazes, cujas guitarras trinavam melhor que as enfadonhas violas de arame da terra, d'esses bons fregueses, tão generosos e tão pandegos.
Capitaneado pela Joaquinina do Ó, estava o rancho das beatas encoberto com o canto da rua da Sé.
De (p. 078) atalaya á botica, destacava alviçareiras para o convento dos franciscanos; era um constante borboletear de mantos pela ladeira de São Francisco, e as que voltavam falavam ás que iam, encostando n'um tremelicar nervoso os biôcos, como antenas de formigas.
Traziam medalhas com o retrato de D. Miguel, bentas pelos frades, e que elles proprios lhes tinham posto ao peito, para ostentarem victoriosamente, mal houvesse a certeza de que retiravam os caçadores.
Á apparição do boticario, afadigou-se nova emissaria ladeira acima, e foi adejando o enxame atraz do velho e de João, seguindo-os por entre os grupos até junto da escada de pedra, que subia exteriormente á fachada do edificio, encimado pela torre do sino onde se tocava a recolher.
Para os lados da rua do Gallo reunia-se o grupo dos mais influentes constitucionaes, que não tinham assento no conselho.
Por vezes distrahia a espectativa o borborinho, gritos, risadas, vindas dos arcos da cadeia.
Davam para as arcadas que sustentavam a varanda de pedra da fachada, as janellas das enxovias, onde havia (p. 079) cestos arvorados em canas, como apparelhos de pesca armados á compaixão.
Ia a gente do monte agarrar-se ás grades, uns a comprarem pentes e grosas de botões de chifre, enfiados em agulhas de feno; outros a mirarem com olhos compassivos a nudez da prisão, a bilha de agua, o immundo boião dos dejectos, a tarimba de madeira onde se mantinha acocorado o Marmanjão, meditabundo, envolto em pedaços de colcha esfarrapada, offendido por essa profanadora curiosidade, elle, o santinho, como lhe chamavam os frades que o tinham de olho para carrasco; muito temente a Deus, notavel pela frequencia com que se confessava e commungava, e indigitado para a nobre missão de executor pela limpeza com que em S. Bartholomeu demolira com uma só paulada o homemzarrão de um vizinho.
Regateava em voz fanhosa gaiolas de cana com melros pretos de bico amarelo, grandes cantores, o Mujinha, baixo, olhinhos de bisnau, pondo um traço de intrigante na cara rugosa; gatuno, fachina da cadeia e afilhado de chrisma do carcereiro que lhe levava caridosamente á porta as gaiolas, em ademanes de sacristão.
Com a pronunciada queda commercial d'esse, contrastava (p. 080) a do seu visinho de janela, o Zica, muito correcto e limpo, cantarolando á moda da ilha de S. Miguel, vendendo pentes de baleia, cumprindo resignado a pena imposta por uma desforra tirada á má cara, n'uma noitada de vinho.
Este era constitucional, e arvoráva sempre, provocadoramente, as guias do grande bigode, sem sequer as deitar abaixo, apesar das denuncias do santarrão pretendente a carrasco, e das intrigas do gaioleiro, durante o tempo em que a ilha acatára a usurpação.
Logo na grade contigua outro miguelista, o Roseiro, um velhinho sem dentes, deprimido como uma fava escoada, alegrava os curiosos com inexgotaveis historias de toiradas, em que era uma auctoridade, e recebia em troca pedaços de pão de milho, e algum grande pataco com a effigie do senhor D. João VI, em premio á fidelidade e á coragem com que descrevia o «senhor D. Miguel» rejoneando toiros desembolados, e o seu confessor, fr. José da Rocha, saltando á praça e pegando á unha.
Apoiado aos fortes varões que de seculos de afflictivas despedidas tinham as quinas amolgadas, como que derretidas pela ardencia em que se lhes crispavam as mãos dos desgraçados, falava com a familia e (p. 081) os visinhos do Raminho, um camponez alto, magro, rosto ossudo, enorme nariz, gago, dentes pôdres, grandes pés descalços espalmados, por alcunha o Lindinho, condemnado por morte d'homem ás Pedras Negras.
Contava com esse a fradaria para ajudante de carrasco, pois a faina promettia, e só lamentava que não houvesse n'elle a necessaria uncção do Marmanjão, e que ambos, apesar de já afeitos, não tivessem a comprovada pericia de carrasco de officio, nem o aspecto, que só por si fazia chorar as creanças, obrigadas por lei a presencearem as execuções, de um celebre preto a quem fôra commutada em prisão perpetua a pena de morte, para fazer pernear condemnados na forca, de saco pela cabeça, ante a bandeira da misericordia.
Que falta lhes fazia ali, para a restauração do governo do throno e do altar, um patriota como o Cambaças, que se offerecera para enforcar os liberaes; ou um preso como o Fitas, ladrão celebre, grande partidista de D. Miguel; que até os ladrões eram por el-rei contra a immunda canalha jacobina!
Sentado de lado, contra a grade, sem encarar os ouvintes, o Ferrabrás, faquista, contava historias, que (p. 082) não provocavam gargalhadas como as do Roseiro. Eram de bruxas, de almas do outro mundo, e o olhar em extasis, e a barba inculta na cara descarnada, impressionavam, tornando mais horrorosas as apparições de phantasmas de incorrigiveis constitucionaes, como o illustre general Araujo, o diabo, assassinado pelos reaccionarios, com repiques e illuminações das freiras de S. Gonçalo, e que ao bater da ultima badalada da meia noite arrastava correntes pelo Caminho Novo, vendo-se-lhe pelas costas abertas o fogo do inferno que o consummia.
Abaladas pelos medonhos pavores caiam mulheres com faniquitos, e então descia uma ordenança tinindo ferros, a prohibir os choros de uns e as berratas torreiras de outros.
Puxava o carcereiro os presos para dentro, n'um ar compungido, mas severo; obediente ás ordens, mas doendo-se da sua execução; injuriando os renitentes entre abundancias de «valha-me Deus»; e só não levava o seu rigor ao ponto de fechar as janelas, porque não tinham portas, bastando á justiça o gradeamento para que não fugissem os presos, e convindo-lhe que a chuva molhasse o lagedo, afim de que ao saírem os condemnados, expiada a pena, se (p. 083) tornasse mais salutar o seu exemplo por irem tolhidos para o trabalho.
Cumprida a ordem, ia entregar-se Benicio ao formal desempenho da sua missão de chaveiro, vigiar a porta chapeada de ferro; e sentava-se junto d'ella a untar de azeite as chaves do postigo, dos cadeados, do segredo, do alçapão por onde se despejava cal para aplacar as desordens, fechando por calculo os olhos ao negocio e os ouvidos ao falatorio, para que «os pobres de Christo», coitados, podessem fazer o seu vintem, tanta gente juntára o Senhor n'aquella praça; que elles afinal não eram maus rapazes no seu fadario, «valha-os Deus», são sortes, e até no fundo eram generosos, recompensando-lhe a caridade com que os deixava fazer pela vida.
Voltavam os presos pouco a pouco ás grades, metia-se á formiga o povoleu pelas arcarias, e recomeçava a cantilena do «eu te requeiro da parte de Deus e da Virgem Maria», efficaz para desembruxar almas penadas; o pittoresco do «e vae o senhor D. Miguel ferra-lhe com o rojão mesmo no sitio»; a «Chamarrita, chamarrita, chamarrita, chama Rosa» das cantigas do baleeiro; e a giria commercial do Mujinha «Ó meu rico freguez, perco n'esta gaiola metade do que dei ao homem que me foi apanhar os (p. 084) caniços», o chamariz com que ganhava perdendo sempre.
N'aquella mesma praça, com essa mesma gente, recordava João, fôra celebrado ha dois mezes, em 22 de junho, o triumpho da liberdade e da Carta, a revolução liberal do Porto de 18 de maio.
Agora, em vez da alegria d'essa manifestação, o receio de que tudo se desfizesse n'um momento. Estremeceu ao lembrar-se como então, de subito, ficára o chão regado de sangue do povo, no tumulto provocado pela malvadez de um padre, e em que a cobardia da soldadesca, disparando para intimidar, matara quatro indefesos homens.
Mas tranquilisou-se observando melhor. Não se via nem padres nem soldados: não havia perigo.
Fez a impaciencia de Juvencio extravasar a dos mais.
Se por si só o conselho não tinha força para demover o commandante, era tempo de intervirem.
Acharam-lhe razão, e do grupo separou-se logo, sem dizer palavra, Cypriano da Costa Pessoa, um negociante alquebrado pela doença e pela edade.
Subiu alguns degraus da escada de pedra, amparou-se ao corrimão, e voltando-se para o povo descobriu a cabeça embranqueçida e dispoz-se a falar:
Custou a fazer silencio e, apesar de restabelecida a ordem nos grupos mais proximos, ainda da arcada dos carceres, de onde se não via o orador, vinham echos desencontrados, provocando um sussurro de protesto.
«Concidadãos!»
E a voz cava de Cypriano repetiu a invocação, procurando o volume preciso para se fazer ouvir até ao extremo.
Que queria ali aquelle homem?
Cravavam-lhe olhos esbugalhados os camponezes, pasmados de que alguem se atrevesse a levantar a voz em publico, sem ser um clerigo, sem ter que contar milagres de santos.
N'um grande esforço, conseguira o orador fazer retumbar até ao canto da praça, onde costumavam juntar-se os mariólas, como um grito de alarme:
«Nas actuaes circumstancias mais vale morrer com as armas na mão do que soffrer os insultos dos satélites do usurpador!»
A convicção das suas palavras fez estremecer os proprios que estranhavam esse secular imitando padres, fazendo pulpito da escadaria municipal.
Continuava trovejando a voz de Cypriano, modelada pela (p. 086) entoação dos prégadores, pois não tivera a lição civica da oratoria constitucional.
N'um fremito de terror echoava aos ouvintes a ameaça, correspondente á absoluta verdade:
«Não tardará o massacre de quantos liberaes elles puderem colher ás mãos!»
Ante os olhos apavorados dos que se viam, d'um momento para o outro, sob a alçada do carrasco, passava o rosario de crimes absolutistas, as perseguições de Stokler ali na ilha, a prisão e deportação dos deputados ás côrtes constitucionaes, a captura em massa operada pessoalmente por D. Miguel, de aguilhada em punho, os nove estudantes enforcados no Caes do Tojo, as covas abertas em Portalegre á porta dos liberaes, a tortura de Renduffe, o envenenamento de D. João VI, o assassinio de Loulé.
Iam ficar sujeitos a taes horrores se caçadores 5 abandonasse a ilha.
E nas faces consternadas reappareceram as lagrimas.
Mas nem Cypriano da Costa, nem os liberaes do seu grupo se mostravam desanimados.
Cheios de fé, queriam luctar e appellavam para o auxilio de todos.
Por (p. 087) essa praça, tão divertida em tardes de toiros e cavalhadas, resoava a mesma voz grave, sentida:
«Para desviar este mal tão imminente, poupar a nós e a nossas familias, amigos e parentes, convém que já, já, os amantes da patria e da boa ordem vão offerecer-se ao governo, alistando-se voluntariamente para servirem debaixo das armas!»
Ficou abalada a concorrencia, e a ideia emittida do alto agitou por camadas a turba, enthusiasmou os liberaes mais proximos, perturbou os mestres de officios, entonteceu as cabecinhas de capuz escarlate, revoluteiou as dos amplos capellos, e por fim saccudiu em tardas negativas os barretinhos de borla, de malha amarela e vermelha, e as carapucinhas de panno preto, em forma de tijela, talhadas em quartos como barretes de clerigo, dos camponios.
Insistiu no convite:
«N'esse momento, e desde já, não cuidava mais de outros negocios, nem entendia haver occasião mais conveniente de prestar melhor serviço á sua patria e a tantas familias,»—e aqui a voz vibrava vergastadas—«sob pena de serem considerados como pusilanimes e ingratos!»
Só lhe restavam forças para offerecer o exemplo do seu sacrificio:
«Emfim, (p. 088) não ha tempo a perder! Todos os que quizerem seguir tão brioso partido que me sigam a mim!»
Agitando o chapeu, abrangendo a praça n'um olhar de convite, subiu com firmeza as escadas, até ao alto da varanda de pedra.
Foi Juvencio o primeiro a seguil-o, agitando o chapeu alto e erguendo vivas á Carta e a D. Pedro.
Responderam acclamações, agitou-se a praça inteira, e á medida que se aplacou o vozear, perceberam-se gritos, brados de afflicção.
Das janelas por cima da botica, adivinhando-lhe a intenção, gritavam as filhas de Juvencio, mas elle, na embriaguez do rasgo, continuava a subir.
Arrancando-se aos braços de mulheres que se estorcem, debatem-se homens enthusiasmados, olhos fitos nos voluntarios que, do alto da varanda, agradecem as palmas e saudações.
E correm por fim, vencendo a resistencia das que choram desgrenhadas, indo sacrificar-se para lhes pouparem mais amargas lagrimas.
São já quarenta, dos mais distinctos, os voluntarios, mal cabendo na varanda de pedra, e João encontra-se entre elles, sem ter raciocinado, sem se lembrar das velhas, do estudo, nem da ida para Coimbra, (p. 089) na impulsão geral, na ancia de defender a liberdade, na ambição de apparecer aos olhos de Maria como um homem, aos de Jorge e do frade como um altivo adversario, aos do morgado como um convicto de que é egual a elle, e de que vae affirmar, com risco da propria vida, o direito a erguer os olhos para as pompas do seu brazão.
No impeto em que se haviam manifestado, logo outro negociante, João Antonio Bacellar, entrou á frente dos companheiros na sala do conselho e, offerecendo o serviço voluntario de todos, falou em termos taes que obrigou o governo a declarar mantidos os principios de legalidade contra a usurpação de D. Miguel.
Manifestaram-se no mesmo sentido o secretario da junta Manuel Joaquim Nogueira, o tenente Lobão, o doutor Antonio da Silveira e Theotonio de Ornellas que, no enthusiasmo pela obra de 22 de junho, para que tanto concorrera, chegou a precipitar-se de espada em punho contra o juiz Calheiros, contrario ao movimento.
Accede por fim a correr a sorte da ilha o commandante do batalhão, e na emoção d'essa boa nova o ajudante de ordens vem agradecer e acceitar, em nome do governo, a offerta dos terceirenses, que ficam (p. 090) constituindo a companhia de voluntarios reaes, sob o commando do capitão de milicianos Theotonio de Ornellas, devendo eleger entre si os outros officiaes.
Então saem todos para, como em 22 de junho, irem ao castello. No desafogo do perigo afastado sauda o povo o governo e os voluntarios. O velho dr. João José da Cunha Ferraz, provisor do bispado, thesoureiro-mór da Sé, e presidente do cabido, o melhor advogado da ilha, palpita, apesar dos setenta e tantos, no delirio da juventude, e vae atirando o barrete ao ar e correspondendo aos vivas na voz tremula, emperrada pela gaguez.
Arrebanham-se as beatas, corridas, pela ladeira de S. Francisco, atravancando-a, alastram pela escadaria do adro, e somem-se pelas tres grandes portas da egreja do convento, ávidas de consolarem as almas tão opprimidas, com os exercicios espirituaes dos santos frades, que não deixarão, decerto, de dar-lhes o prazer de um retumbante sermão de desabafo, de protesto ao ceu, e de algum desaggravo lithurgico á affronta feita áquella hora ao seu querido rei, essa encarnação do archanjo S. Miguel.
E ali dentro, na protecção do templo, poderiam ostentar as medalhas dos retratos, em que o rosto do (p. 091) rei apparecia córado, n'uma vermelhidão de sangue, ostentando-o sem medo nos abundantes peitos de amas de clerigos.
Seguiam triumphantes o cortejo as que choravam pelos militares, mas tanta gente corria ás adufas e acudia ás portas, que o novo bando, escarlate e negro, escoava-se pela rua de S. João, para se adiantar pela rua da Rosa, Quatro Cantos e Bôa Nova, indo esperal-o ás alturas do Relvão, aonde já a curiosidade não macularia de suspeitas o seu enthusiasmo.
Assentadas no muro do campo de manobras da fortaleza, entre esse mar de relva requeimado do sol, onde a primavera semeia papoulas, borboletas e malmequeres; em face á viçosa explanada que, com as baterias e banquetas, mascara os caminhos cobertos e os fossos; deitaram para traz os capellos, offegantes da correria, n'uma exposição de lindas caras que confirmava aos militares o credito de invenciveis nas mais frequentes das suas campanhas.
Transfundira-se na mais pura raça portuguesa do seculo XV o sangue flamengo que dera o typo esbelto, a frescura de tez, a transparencia do olhar ás delicadas louras; dotára-a o Brasil da exhuberancia dolente (p. 092) das creoulas, cabello de azeviche, dentes miudinhos, fundas olheiras; trouxera-lhe a dominação hespanhola o galante requebro da andaluza e o preto dos seus olhos seductores; e o dos hebreus fugidos déra, á sadia carnação das morenas, olhos apaixonados de judia onde esvoaça a nuvem da saudade.
Amando-as olvidaram emigrados penas do exilio, e finda a guerra voltaram, a tornar definitiva a patria em que os adoptara a meiga ternura.
Ouvia-se já perto o vivorio; vinha passando o cortejo por baixo das gelosias do convento de S. Gonçalo, de onde as freiras constitucionaes acenavam com lenços, gritando no falsete do côro: «Ou Constituição ou morte!», transportadas pelo fremito de liberdade, acclamando os que haviam de arrancal-as a essas grades, profanadoras da sua virgindade, asphyxiantes da sua juventude, e restituil-as á vida, ao amor a que tinham sido sequestradas.
Mal as raparigas casadoiras avistaram lenços de côres de mulheres do fado voejando entre o povo, escabrearam ladeira acima, para entrarem pelo portão dos carros, seguidas a custo pelas mães e tias que as pastoreavam, lingua de fóra.
Já dominavam a praça do castello, da rua que dá para (p. 093) as baterias, quando resoou na tropeada a ponte de pedra, por sobre o fosso.
Sentiu-se ranger a ponte levadiça, nos seus engenhos de correntes e contrapesos de pedra, ao echoarem as passadas na madeira; retiniu n'uma brilhante extensão de voz um alegre brado de «ás armas»; e sob o abobadado das portas bateram as pancadas seccas das bandoleiras ao apresentar armas.
Nos quarteis vibravam toques de corneta, vozes de commando: Caçadores cinco que reunia na sua parada, e avançou depois até á praça do castello.
Atraz das companhias vinha de dentro, com ranchadas de filhos, outro grupo de mulheres que as lindas raparigas e as gastas rameiras olhavam com respeito e compaixão.
Ficaram-se entre a egreja e o palacio as companheiras do batalhão, fieis como cães, inconscientes no perigo como os soldados, firmes como se as sujeitasse a mesma disciplina; lavadeiras das esquadras, mulheres ou amantes de soldados, seguindo como vivandeiras a tropa; lisboetas baixinhas, pescoço curto, sombras de buço, de uma viva petulancia no lenço engomado, em pontas, que usavam na cabeça, com o capote, com grave offensa dos capellos ilheus; airosas varinas, leves, saia curta, pé descalço, (p. 094) collete affirmando-lhe o busto e erguendo-lhe o seio, chapeu de velludo, coração de ouro e grandes argolas.
Tinham atada a minguada roupa, promptas a partirem, como as escunas inglezas que por baixo das muralhas se baloiçavam nas ancoras, sem um protesto, como ao virem por mar com os seus degredados; na mesma firmeza de outras bravas mulheres, que de trouxa á cabeça acompanharam pela Galliza a divisão emigrada, e de lá seguiram com ella para as miserias de Inglaterra.
Desembrulhavam os trapos ao tempo em que os navios, desimpedidos, se abarrotavam de caixas de laranja, e agora desabafavam contra «o Miguel», em gestos de regateiras, em palavradas de tarimba.
Formára Theotonio d'Ornellas a companhia de voluntarios á esquerda dos caçadores, e João, que ficara entre Juvencio e o seu professor de latinidade, aprumava-se como um verdadeiro soldado.
Da escadaria do palacio do governador do castello, que servira de prisão a Affonso VI, discursou o secretario do governo affirmando a deliberação de se manter a causa.
Respondeu-lhe o major Quintino Dias declarando-se, elle (p. 095) e todo o batalhão, dispostos a «derramarem a ultima gota de sangue».
Avançou a bandeira até á frente dos Reaes Voluntarios, e estes, estendendo a mão direita, juraram «guardar e fazer guardar a constituição politica da monarchia portugueza».
Tocou a banda o hymno constitucional composto pelo imperador em 21, ergueram-se os vivas da praxe á Santa Religião, á Carta, e a D. Pedro, e n'essa fraternisação de povo e tropa, gente da terra e de fóra, viu João estabelecer-se a unidade do sentimento nacional na aspiração de liberdade, e sentiu-se para sempre ligado ao destino da causa, até ao triumpho da nova ideia, ou até á morte pelo ideal.
Dissipara-se-lhe, como a todos, o terror de pela manhã.
Tinham trepidado alguns, mas eram bem melhores do que os fugidos no Belfast.
Havia uma consciente decisão n'aquelles dos militares que sempre tinham querido ficar, communicando-se agora aos que a fraqueza dominára por um momento.
Só a aspiração liberal reunia todas as classes da nação.
Estavam ali, ao abrigo das muralhas, ligando-se nos (p. 096) mesmos protestos, a nobreza, o clero, a burguezia, o operariado; profissionaes da guerra como os officiaes, os sargentos e os velhos soldados readmittidos; populares trazidos á força para a fileira pelo «Joaquim agarrador»; antigos voluntarios alistados em 23, ao perigar a causa liberal; os que se offereciam agora; e todos, fardados e á paisana, e os proprios que ainda não se tinham deixado arrastar, formavam uma phalange, invencivel porque era realmente a nação armada, e offereciam-se ao sacrificio no momento em que bordejava contra elles uma forte esquadra, com o bojo cheio de juizes, de carrascos e de forcas!
Já reconciliadas do arrufo, debruçaram-se as primas no mirante da quinta dos Folhadaes, devorando com os olhos o caminho da cidade.
—E nunca mais cá veiu?—perguntava Josepha da Esperança.
—Nunca mais. Como se tornou esse rapaz! Tão orgulhoso como se fosse fidalgo, tão brioso como nós!
—É o que elles dizem, que valem tanto como os nobres, que somos todos eguaes. Que te parece, prima?
—Não percebo nem quero perceber d'isso. É bom para as caturreiras de fr. Angelico e do pae.
—Que (p. 098) elle é melhor que o primo Jorge, lá isso é que é.
—Achas?
—Está feito um homem. Diz coisas graves como nenhum dos nossos primos seria capaz.
—Deu-lhe para tomar a serio o que não devia passar de uma brincadeira.
—Mas tu não desgostavas d'elle.
—Não desgostava, não.
—É muito sympathico.
—É um bonito rapaz, confesso.
—Aquelle lindo buçosinho... E a covinha do queixo, e as das faces, quando se ri. É um amôr!
—Engraças muito com elle.
—Não fiques com ciumes.
—Eu? Toma-o para ti, que t'o agradeço.
—Isso agradecias tu. Não gosto de sobejos, mas lá por falta de mulher não deixa elle de casar.
—Como tu és! E o primo?
—Não lhe chega aos calcanhares.
—Olha, o teu genio é que eu nunca hei de comprehender.
—Então, filha, são feitios. Cada um é como Nosso Senhor o fez. Mas ao menos eu confesso a minha fraqueza, gosto muito, muito, de um bonito rapaz, e (p. 099) não quero meter-me a freira. E as que dizem que lhe atiram com pedras, estão pregadas nos mirantes a vigial-os...
—Já lhe disse, prima, que não quero o João para namorado.
—Mas para que passa agora todas as tardes aqui, de alcateia...
—É que me irrita o procedimento d'elle. Dito e feito! Que nunca mais vinha, e nunca mais appareceu.
—E isso dá-lhe pena?
—Não. Mas exaspera-me pelo seu atrevimento. Queria vêl-o mais uma vez, descompol-o muito, dar-lhe muita bofetada, muita bofetada, puchar-lhe pelas orelhas, e depois dizer-lhe: «Põe-te fóra, fedelho, e vê lá para quem te atreves a levantar os olhos».
—Pois caiste, prima, e não foi sem tempo. Já não pódes passar sem elle.
—Não me diga isso, que até me mete raiva.
—Essas furias já passaram por mim.
—A prima é muito experiente.
—Pois sou, e por isso sinto que lhe estás nas mãos, ou nunca mais pensavas nas suas palavras.
Maria não lhe respondeu, e continuou a observar a (p. 100) estrada, na irritação em que ficára desde a saída de João.
N'uma crise nervosa passára os primeiros dias fechada no quarto, sem vêr ninguem, depois fatigara-se em pertinazes passeios ao longo das varandas de pedra, para cá e para lá, olhos fitos na direcção que elle costumava trazer.
Abandonada pelo pae, sem intimidade com a mãe, que passava o tempo na cozinha fazendo doces, ou em exercicios espirituaes com fr. Angelico, vira-se forçada a mandar chamar a prima Josepha, para ter com quem desabafar.
E apezar do que ella lhe dizia, não cuidava amar João. Nutria contra elle, ao contrario, um sentimento de hostilidade, de revolta. Sentia uma insurreição de todo o seu ser contra essa creança que de repente, sem lh'o ter deixado suspeitar, entendera dispôr absolutamente do seu futuro, querendo-a para sua mulher.
Continuava Maria amuada, ria á socapa Josepha da Esperança, quando passou o jardineiro, com um braçado de flores e a podôa na mão.
—Ora tenham muito bôas tardes, minhas meninas. Então já sabem a grande novidade? Vem cá hoje o nosso homensinho.
—Quem, (p. 101) tio Jacintho?—perguntou Josepha, para acirrar Maria.
—Quem ha de ser? O senhor Joãosinho.
—Ouves? Temol-o por ahi.
—Que me importa!—protestou Maria, muito córada.
—Vi-o hontem na cidade, já anda fardado de voluntario, e a farda fica-lhe a matar. Está uma flôr! Até se parece com o avô, o capitão Silveira, que eu vi assentar praça da mesma edade. E ha de ir longe como elle, ha de ir longe!
—Não lhe disse nada?—perguntou a prima.
—Não sejas inconveniente, Josepha, ou ficamos de mal.
E para impedir alguma inconfidencia do velho:
—Vá com Deus, tio Jacintho, e obrigada.
Mas a prima ainda o deteve:
—Diga-me cá, elle agora póde chegar a official?
—Até a brigadeiro, que é muito capaz d'isso, e as meninas ainda o hão de vêr a cavallo a commandar batalhões e regimentos. Eu já hei de estar debaixo da terra, mas vou consolado por deixal-o bem encaminhado, que lhe quero como se fosse meu filho.
Muito maldosa, Josepha virou-se para Maria:
—Casarás (p. 102) quando elle fôr brigadeiro, muito velhote como o tio Vicente.
—Quando deixarás de meter-te na minha vida, prima?
—Quando tu m'a contares como bôa amiga. Começa lá, e confessa que te péllas pelo João.
—Se assim fosse não fazia mysterio, não tinha de quê. Mas não é verdade, não é verdade!
E sentou-se pensativa na banqueta, fronte apoiada á mão, a olhar ao longe.
Retiraram-se porém subitamente, e foram ambas esconder-se no jardim, ao avistarem fr. Angelico. Enfadava-as a sua apologia da vida conventual, no interesse de obter para a ordem os dotes e os bens que, como ricas herdeiras, lhe trariam; repugnavam-lhes as pretendidas caricias paternaes em que o seu instinto de mulheres adivinhava desejos lubricos.
O frade, que reparara na subita desapparição, passou rosnando ameaças por debaixo do mirante, e entrou, mesmo sem bater.
Bufando, limpando o suor, afrontado da caminhada, só deu com Martinho Vasques na adega, desabotoado, sentado em cima de um barril, observando o alambique, e provando a aguardente de vinho que mandára queimar.
Offereceu-lhe (p. 103) logo uma caneca cheia, que fr. Angelico esvasiou, limpando a bocca á manga do habito, e explodindo logo na sentença que viera preparando pelo caminho.
—Malditos tempos, senhor morgado, malditos tempos!
Martinho escorropichou gulosamente, e concordou:
—Não sei como tanta impiedade não provocou já um tremendo castigo! Deus porém compadeceu-se de nós, e as vinhas continuam, como nos dias de fé, a dar este saboroso nectar ... Outro, fr. Angelico, outro copinho...
Offereceu-lhe, na ancia de propaganda dos alcoolicos.
Saboreou o frade aos goles, defendendo-se:
—Senhor, preciso forças para falar.
Acabando de beber, tornou a bradar em tom de sermão:
—Tempo de desgraça! Tempo perverso!
Mirou-o o morgado, surprehendido por essa gravidade, só usada quando havia gente de fóra.
—Você tem coisa, ó Angelico!
—E grave, meu senhor.
—Pois desembuche.
—Tenha (p. 104) V. Ex.a a bondade de subir ao escriptorio...
—Homem, subir ... essa agora!
E olhava apavorado a escada de mão, encostada ao alçapão que da casa de jantar dava para a adega.
—Não póde abrir o bico ahi mesmo?
—Trata-se de um assumpto tão grave ... tão grave...
Pelo ar mysterioso, ficou Martinho desconfiado:
—Se é mais dinheiro para guerrilhas acabou-se ... Quero dizer, os tempos vão maus, os rendeiros pouco pagam ... E você bem sabe que a estas horas não estou em casa para taes coisas...
Indo da meza para a adega, saindo da adega para a meza, reconhecera ha muito o morgado que de tarde não fazia bons negocios, e antes de jantar fechava as gavetas do dinheiro e saía sem cinco réis, para que não lh'o extorquissem, com intimidações do inferno, para missas; para que não lh'o arrancassem, com lagrimas, antigas jovens das redondezas, invocando as complacencias de solteiras em favôr dos maridos, dos filhos, dos netos.
—Não se trata de dinheiro, meu senhor, embora saiba (p. 105) que a sua generosa bolsa está sempre aberta para a defeza da bôa causa.
E falando-lhe ao ouvido, insinuou:
—Trata-se da sua honra, senhor Martinho Vasques de Linhares Soeiro!
Ergueu-se, aprumou-se o morgado, e os musculos do rosto, distendidos na bonhomia de ebrio, contrahiram-se n'uma inesperada expressão de gravidade. A normalidade da embriaguez permittia-lhe a consciencia das situações extremas, ao contrario da absoluta perda de conhecimento dos que não bebem por habito, e só excepcionalmente se transtornam.
—Siga-me!—ordenou ao frade, que se humilhava hypocritamente, n'um ar compungido.
Encaminhou-se para a escada de mão, segurou-se-lhe, poz o pé no primeiro degrau, mas ao querer subir cambaleou, em risco de cair.
Offegante do exforço, accentuou se-lhe na fronte uma ruga, e pairou-lhe nos labios uma contracção de vergonha, de nojo de si mesmo. Ia occupar-se da sua honra a cair de bebedo!
Tinha de dar a volta, e entrar pela escada principal.
Então abotoou o collete, compoz a casaca, puchou os (p. 106) punhos, arranjou as pregas dos bofes, e apoiando-se ao marmeleiro que deixára contra as pipas, caminhou n'um ar magestoso, seguido pelo frade cabisbaixo, rastejante.
Pesadamente, no mesmo aprumo, entrou no escriptorio, foi sentar-se na solida cadeira negra, de alto espaldar, encimada pelo folhado de uma concha, e agora parecia-se com os retratos dos antepassados da sala nobre, a grave cabeça apoiada nos hombros largos; a meza, as pennas de pato de que nem sabia usar, a gravidade do conjuncto dando lhe o ar de um ministro, de um desembargador.
—Explique-se!—ordenou-lhe, como um juiz a um reu.
De pé, nos gestos dos grandes dias, começou fr. Angelico:
—Senhor, esta casa acaba de ser duplamente enxovalhada. Sentou praça de voluntario, em reforço ao infame batalhão que é a vergonha e o grilhão d'esta terra, esse rapaz que V. Ex.a protegeu, e que recebia em sua casa como a um filho...
—O João? Já tinha reparado na sua falta.
—Hão de dizer que são os nossos exemplos!
—Meteram-lhe isso em cabeça, patifes! A culpa é (p. 107) de quem perverte a juventude, e a arrasta para os abysmos da impiedade.
—Talvez V. Ex.a não leve a sua generosidade a ponto de perdoar-lhe, quando o vir logo entrar fardado aqui.
—Aqui?
—Sim senhor, a titulo de pedir desculpa de não poder continuar com a escripturação, mas para nos afrontar com o maldito uniforme constitucional, porque bem sabe quaes são as opiniões de V. Ex.a e minhas.
—Bom é que venha, que lhe quero dizer algumas verdades, e dar-lhe puxões de orelhas, que é o que merece.
—Perdôe-me V. Ex.a mas nem devia consentir que viesse...
—Isso é commigo.
E dirigindo ao frade um olhar severo:
—Mas que tem que vêr isso com a minha honra, a que você se atreveu a alludir?
Curvou-se mais o frade, e respondeu na voz lagrimejante dos sermões quaresmaes:
—Já lá vamos, senhor morgado, já lá vamos, embora o que me pesa ... só Deus o saiba!
Aproximou-se (p. 108) da meza, e quasi ao ouvido de Martinho:
—Perdôe V. Ex.a, mas diz-se á bôcca pequena que o miseravel ousa levantar os olhos para a senhora D. Maria.
—Para minha filha?
Ergueu-se apopletico o morgado, o sangue a rebentar do cachaço rubro, abaixando a fronte, n'um gesto de investida. Zumbia-lhe nos ouvidos um turbilhão de sangue exasperado, passavam-lhe no olhar relampagos de vingança, e os labios mexiam-se-lhe convulsos.
Mas tornou a sentar-se, e disse com certa compostura:
—Isso póde não passar de uma brincadeira. Comtudo fez bem em me avisar.
—Desculpe V. Ex.a—insistiu o frade—mas não se trata da infantilidade que julga. São os conselhos da botica, é a lição da liberdade! Esses infames querem afundar tudo na anarchia, e lançar mão das grandes casas fidalgas, em nome da egualdade que apregoam!
Meditou o morgado, a cabeça apoiada entre as mãos, e depois disse gravemente, em phrase arrastada:
—Basta, (p. 109) fr. Angelico. Isso póde ser um calculo d'elle, mas não alcança minha filha, nem attinge a minha honra, entenda-o bem. Podem fazer as leis que quizerem sobre egualdades. Quem é do nosso sangue não desce! Vença quem vencer, nós continuaremos a ser o que sômos, e elles o que são. Vossa reverendissima não póde comprehender isto, porque é plebeu. Mas eu sinto-o no sangue, como minha filha o deve sentir.
Conteve n'um gesto o frade, que ia a falar.
—Póde retirar-se. O que tenho a fazer é commigo, juiz e executor em minha casa, na minha familia e na minha raça, como chefe de linhagem que sou!
E correspondendo ás subservientes reverencias de fr. Angelico:
—De caminho mande-me o quinteiro, faça favôr.
Saíu pouco satisfeito o franciscano, procurou o quinteiro, mandou o á presença do fidalgo; depois chegou ao portão da quinta, observou para fóra antes de o transpôr, e em seguida, muito cosido com o muro, partiu para os lados de S. Carlos, para voltar á cidade sem se encontrar com João.
Notaram-lhe (p. 110) as manobras Maria e Josepha da Esperança, que tinham voltado ao mirante mal elle entrara.
Satisfeitas, por se verem livres d'elle, continuaram a observar impacientes o caminho da cidade.
Distinguiram por fim ao longe uma figurinha de militar.
Era João, vestido de guarda nacional, farda curta de saragoça portugueza, com botões brancos, golla azul claro, laço azul e branco no chapéu redondo.
Do ponto onde estava, o mirante sobranceiro ao pateo, em face ao alpendre da escada, ia vêl-o entrar e, talvez como antigamente, elle viesse falar-lhe, arrependido da imprudencia.
Pensando assim, seguia-o Maria n'um olhar de anciedade, encobrindo-se com as trepadeiras do caniçado, para não lhe dar a confiança de mostrar que o esperava.
Vinha já perto, quando notaram dentro movimento desusado.
Corria o quinteiro, e meia duzia de cavadores de enxada, batendo os pés descalços na terra endurecida pelo calôr, varapaus ao hombro, falando alto.
Desacorrentára o creado dois grandes cães de fila, amarelos, rabo cortado, focinho negro, fauces ameaçadoras, (p. 111) que de noite rondavam ganindo e uivando.
Ao chegarem ao pateo, occultaram-se na cocheira homens e cães, e o quinteiro foi esconder-se por traz do postigo, como se quizesse fechal-o mal entrasse João.
—Que é isto, José?—perguntou Maria, suspeitando uma violencia.
—Ordens do senhor morgado—respondeu elle, rindo alvarmente—não quero saber!
Mas Josepha da Esperança, muito nervosa, nem lhe dera tempo á resposta, e ao vêr João em frente do mirante, avisou-o:
—Não entre, que lhe querem bater!
Maria, correndo ao muro, bradou-lhe tambem:
—Foge, foge!
N'uma grande excitação, gritava a prima:
—Aqui d'el-rei! Aqui d'el-rei!
Elle recuára ao ouvir os gritos e, vendo apparecer ao postigo a cabeça lanzuda, comprehendeu que lhe faziam uma espera.
Desembainhou a baioneta, aprumou-se garboso, e avançou muito pallido para a porta, que de dentro fecharam com estrondo.
Sentiu então Maria que o amava, vendo-o encarnar o (p. 112) typo glorioso, cavalheiresco, da imaginação das raparigas, geralmente fixado nos que teem por ferramenta a espada e a lança do cavalleiro andante de outras eras.
Dirigia-se-lhe com o coração nas mãos, como elle no pomar, n'um rubor de sangue, lavada em lagrimas, pondo as mãos:
—João, João, não te percas por minha causa!
Sem a attender, batia exasperado no portão com o punho da baioneta, bradando querer falar ao senhor Martinho Vasques.
Ouvindo ladrar ameaçadores os cães de guarda, virou-se Maria para o pateo.
Aos gritos de soccorro de D. Josepha, correra de dentro o jardineiro com um grosso varapau cruzado como a espingarda, a ponta á altura dos olhos, fortemente cingido ao corpo.
—Querem bater no Joãosinho!—explicou-lhe ao vêl-o.
Correu o veterano ao postigo, aferrolhou-o, e berrou aos caceteiros que se fossem embora.
—Quem manda aqui é o fidalgo!—respingou o quinteiro, fazendo-se forte á frente do bando.
Mas os camponeses, receiando as furias do velho, mantinham-se (p. 113) indifferentes, apoiados aos bordões, n'um riso estupido.
—Deixe-me abrir a porta!—insistia o José da Quinta, querendo deitar os cães, segundo as ordens do amo.
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