Eça de Queiroz
A Illustre
Casa de Ramires
PORTO
LIVRARIA CHARDRON
De Lello & Irmão, editores
1900
Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao
cidadão Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro,
que, para a garantia que lhe offerece a lei n.º 496 de 1
d'Agosto de
1898, fez o competente deposito na Bibliotheca nacional, segundo a
determinação do art. 13.º da mesma Lei.
Porto―Imprensa
Moderna
A ILLUSTRE
CASA DE RAMIRES
Obras do mesmo auctor:
| Revista de Portugal. 4 grossos
volumes |
12$000 |
| As Minas de Salomão, 1
volume |
600 |
| Os Maias. 2 grossos
volumes |
2$000 |
| O Crime do Padre Amaro. Terceira
edição
inteiramente refundida, recomposta, e differente na fórma e
na
acção da edição primitiva,
1 grosso
volume |
600 |
| O Primo Bazilio. Terceira
edição, 1 grosso
volume. |
1$000 |
| A Reliquia, 1 grosso
volume |
1$000 |
| O Mandarim. Quarta
edição, 1
volume |
500 |
| Correspondencia de Fradique Mendes,
1
volume |
600 |
No prelo:
A ILLUSTRE
CASA DE RAMIRES
I
Desde as quatro horas da tarde, no calor e silencio do domingo de
Junho, o Fidalgo da Torre, em chinellos, com uma quinzena de linho
envergada sobre a camisa de chita côr de rosa, trabalhava.
Gonçalo Mendes Ramires (que n'aquella sua velha
aldêa de Santa Ireneia, e na villa
visinha, a aceada e vistosa Villa-Clara, e mesmo na cidade, em
Oliveira, todos conheciam pelo «Fidalgo da Torre»)
trabalhava n'uma
Novella Historica,
A Torre de D. Ramires,
destinada ao primeiro
numero dos
Annaes de Litteratura e de Historia,
Revista nova, fundada por
José
Lucio Castanheiro, seu antigo camarada de Coimbra, nos tempos do
Cenaculo Patriotico, em casa das Severinas.
[2] A livraria, clara e
larga, escaiolada d'azul, com pesadas estantes de
pau preto onde repousavam, no pó e na gravidade das lombadas
de carneira, grossos folios de convento e de fôro, respirava
para o pomar por duas janellas, uma de peitoril e poiaes de pedra
almofadados de velludo, outra mais rasgada, de varanda, frescamente
perfumada pela madresilva que se enroscava nas grades. Deante d'essa
varanda, na claridade forte, pousava a mesa―mesa immensa de
pés
torneados, coberta com uma colcha desbotada de damasco vermelho, e
atravancada n'essa tarde pelos rijos volumes da
Historia
Genealogica, todo
o
Vocabulario de Bluteau, tomos soltos do
Panorama,
e ao canto, em
pilha, as obras de Walter Scott sustentando um copo cheio de cravos
amarellos. E d'ahi, da sua cadeira de couro, Gonçalo Mendes
Ramires, pensativo
deante das tiras de papel almaço, roçando pela
testa a rama da
penna de pato, avistava sempre a inspiradora da sua Novella,―a Torre,
a antiquissima Torre, quadrada e negra sobre os limoeiros do pomar que
em redor crescera, com uma pouca d'hera no cunhal rachado, as fundas
frestas gradeadas de ferro, as ameias e a miradoira bem cortadas no
azul
de Junho, robusta sobrevivencia do Paço acastellado, da
fallada Honra de Santa
Ireneia, solar dos Mendes Ramires desde os meiados do seculo X.
Gonçalo Mendes Ramires (como confessava esse
[3] severo
genealogista, o morgado de Cidadelhe) era certamente o mais genuino e
antigo fidalgo de Portugal. Raras familias, mesmo coevas, poderiam
traçar a sua ascendencia, por linha varonil e sempre pura,
até aos vagos
Senhores que entre Douro e Minho mantinham castello e terra murada
quando os
barões francos desceram, com pendão e caldeira,
na hoste do
Borguinhão. E os Ramires entroncavam limpidamente a sua
casa, por linha pura e sempre varonil, no filho do Conde Nuno Mendes,
aquelle agigantado Ordonho Mendes, senhor de Treixedo e de Santa
Ireneia, que casou em 967 com Dona Elduara, Condessa de Carrion, filha
de Bermudo o
Gottoso,
Rei de
Leão.
Mais antigo na Hespanha que o Condado Portucalense, rijamente, como
elle, crescera e se afamára o Solar de Santa
Ireneia―resistente como elle ás fortunas e aos tempos. E
depois, em cada lance forte
da Historia de Portugal, sempre um Mendes Ramires avultou
grandiosamente pelo heroismo, pela lealdade, pelos nobres espiritos. Um
dos mais
esforçados da linhagem, Lourenço, por alcunha o
Cortador,
collaço de Affonso Henriques (com quem na mesma noite, para
receber a pranchada de cavalleiro, vellára as armas na
Sé de Zamora),
apparece logo na batalha d'Ourique, onde tambem avista Jesus-Christo
sobre finas nuvens d'ouro, pregado n'uma cruz de dez covados.
[4] No cerco
de Tavira, Martim Ramires, freire de San-Thiago, arromba a golpes de
acha um postigo da
Couraça, rompe por entre as cimitarras que lhe decepam as
duas mãos,
e surde na quadrella da torre albarran, com os dous pulsos a esguichar
sangue, bradando alegremente ao Mestre:―«D. Payo Peres,
Tavira
é nossa! Real, Real por Portugal!» O velho Egas
Ramires, fechado na sua
Torre, com a levadiça erguida, as barbacans
erriçadas de
frecheiros, nega acolhida a El-Rei D. Fernando e Leonor Telles que
corriam o Norte em folgares e caçadas―para que a
presença da
adultera
não macule a pureza extreme do seu solar! Em Aljubarrota,
Diogo Ramires o
Trovador
desbarata um troço de bésteiros, mata o
Adiantado-mór de Galliza, e por elle, não por
outro, cahe derribado o pendão real de Castella, em que ao
fim da lide seu irmão d'armas, D. Antão d'Almada,
se
embrulhou para o levar, dançando e cantando, ao Mestre
d'Aviz. Sob os muros
d'Arzilla combatem magnificamente dois Ramires, o edoso Sueiro e seu
neto
Fernão, e deante do cadaver do velho, trespassado por quatro
virotes, estirado no pateo da Alcaçova ao lado do corpo do
Conde de Marialva―Affonso V
arma juntamente cavalleiros o Principe seu filho e Fernão
Ramires, murmurando entre lagrimas: «Deus vos queira
tão bons como
esses que ahi jazem!...» Mas eis que Portugal se faz aos
mares! E
[5] raras
são
então as armadas e os combates de Oriente em que se
não esforce um
Ramires―ficando na lenda tragico-maritima aquelle nobre
capitão do Golpho Persico,
Balthazar Ramires, que, no naufragio da
Santa Barbara,
reveste a sua pesada armadura, e no castello de prôa, hirto,
se afunda em silencio
com a náu que se afunda, encostado á sua grande
espada. Em
Alcacer-Kebir, onde dous Ramires sempre ao lado d'El-Rei encontram
morte soberba, o mais novo, Paulo Ramires, pagem do Guião,
nem lezo nem ferido,
mas não querendo mais vida pois que El-Rei não
vivia, colhe um
ginete solto, apanha uma acha d'armas, e gritando:―«Vai-te,
alma, que
já tardas, servir a de teu senhor!»―entra na
chusma mourisca e para
sempre desapparece. Sob os Philippes, os Ramires, amuados, bebem e
caçam nas suas terras. Reapparecendo com os
Braganças, um Ramires,
Vicente, Governador das Armas d'Entre-Douro e Minho por D.
João IV,
mette a Castella, destroça os Hespanhoes do Conde, de
Venavente, e
toma Fuente-Guiñal, a cujo furioso saque preside da varanda
d'um
Convento de Franciscanos, em mangas de camisa, comendo talhadas de
melancia.
Já, porém, como a nação,
degenera a nobre
raça... Alvaro Ramires, valido de D. Pedro II,
brigão façanhudo, atordôa
Lisboa com arruaças, furta a mulher d'um Védor da
Fazenda que mandára matar a
pauladas
[6] por
pretos, incendeia em Sevilha depois de perder cem dobrões
uma casa
de tavolagem, e termina por commandar uma urca de piratas na frota de
Murad o
Maltrapilho. No reinado do Sr. D.
João
V Nuno Ramires
brilha na Côrte, ferra as suas mulas de prata, e arruina a
casa celebrando sumptuosas festes de Egreja, em que canta no
côro vestido com o habito
de Irmão Terceiro de S. Francisco. Outro Ramires,
Christovam, Presidente da Mesa de Consciencia e Ordem, alcovita os
amores d'el-rei D. José
I com a filha do prior de Sacavem. Pedro Ramires, Provedor e
Feitor-mór das Alfandegas, ganha fama em todo o Reino pela
sua obesidade, a sua chalaça, as suas proezas de
glutão no
Paço da Bemposta com o arcebispo de Thessalonica. Ignacio
Ramires acompanha D. João VI ao
Brazil como Reposteiro-Mór, negoceia em negros, volta com um
bahú carregado de peças d'ouro que lhe rouba um
administrador, antigo frade capuchinho, e morre no seu solar da cornada
de um boi. O avô de
Gonçalo, Damião, doutor liberal dado
ás Musas, desembarca com D. Pedro no Mindello,
compõe as empoladas proclamações do
Partido, funda um
jornal, o
Anti-Frade, e depois das Guerras Civis
arrasta uma existencia rheumatica em Santa Ireneia, embrulhado no seu
capotão de briche, traduzindo
para vernaculo, com um lexicon e um pacote de simonte, as obras de
Valerius
[7] Flaccus. O pae de
Gonçalo, ora Regenerador, ora Historico,
vivia em
Lisboa no Hotel Universal, gastando as solas pelas escadarias do Banco
Hypothecario e pelo lagedo da Arcada, até que um Ministro do
Reino, cuja
concubina, corista de S. Carlos, elle fascinára, o nomeou,
(para o
afastar da Capital) Governador Civil de Oliveira. Gonçalo,
esse, era
bacharel formado com um R no terceiro anno.
E n'esse anno justamente se estreou nas Lettras Gonçalo
Mendes Ramires. Um seu companheiro de casa, José Lucio
Castanheiro, algarvio
muito magro, muito macilento, de enormes oculos azues, a quem
Simão Craveiro chamava o «Castanheiro
Patriotinheiro»,
fundára um Semanario, a
Patria―«com
o alevantado intento
(affirmava sonoramente o
Prospecto) de despertar, não só na mocidade
Academica, mas
em todo o paiz, do cabo Silleiro ao cabo de Santa Maria, o amor
tão arrefecido das
bellezas, das grandezas e das glorias de Portugal!» Devorado
por essa
idéa, «a sua Idéa», sentindo
n'ella uma carreira, quasi uma
missão, Castanheiro incessantemente, com ardor teimoso de
Apostolo, clamava pelos botequins da Sophia, pelos claustros da
Universidade, pelos quartos dos amigos entre a fumaça dos
cigarros,―«a necessidade,
caramba, de reatar a tradição! de desatulhar,
caramba, Portugal da
alluvião do estrangeirismo!»―Como o Semanario
appareceu
[8]
regularmente
durante tres Domingos, e publicou realmente estudos recheiados de
griphos e
citações sobre as
Capellas da Batalha,
a
Tomada
d'Ormuz, a
Embaixada de Tristão da
Cunha, começou logo a ser
considerado
uma aurora, ainda pallida mas segura, de Renascimento Nacional. E
alguns bons espiritos da Academia, sobretudo os companheiros de casa do
Castanheiro, os tres que se occupavam das cousas do saber e da
intelligencia (porque dos tres restantes um era homem de cacete e
forças, o outro
guitarrista, e o outro «premiado»), passaram,
aquecidos por aquella
chamma patriotica, a esquadrinhar na Bibliotheca, nos grossos tomos
nunca d'antes visitados de Fernam Lopes, de Ruy de Pina, d'Azurara,
proezas e
lendas―«só portuguezas, só nossas
(como supplicava o Castanheiro), que
refizessem á nação abatida uma
consciencia da sua
heroicidade!» Assim crescia o Cenaculo Patriotico da casa das
Severinas. E foi então que
Gonçalo Mendes Ramires, moço muito affavel,
esvelto e loiro, d'uma
brancura sã de porcelana, com uns finos e risonhos olhos que
facilmente se
enterneciam, sempre elegante e apurado na batina e no verniz dos
sapatos―apresentou ao Castanheiro, n'um domingo depois do
almoço, onze
tiras de papel intituladas
D. Guiomar. N'ellas se
contava a velhissima
historia da castellã, que, emquanto longe nas guerras do
Ultra-mar o castellão barbudo
[9]
e
cingido de ferro atira a acha-d'armas
ás portas de Jerusalem, recebe ella na sua camara, com os
braços
nús, por noite de Maio e de lua, o pagem de annellados
cabellos... Depois ruge o inverno, o castellão volta, mais
barbudo, com um bordão de
romeiro. Pelo villico do Castello, homem espreitador e de amargos
sorrisos, conhece a
traição, a macula no seu nome tão
puro, honrado em todas as
Hespanhas! E ai do pagem! ai da dama! Logo os sinos tangem a finados.
Já no
patim da Alcaçova o verdugo, de capuz escarlate, espera,
encostado ao
machado, entre dous cepos cobertos de pannos de dó... E no
final
choroso da
D. Guiomar, como em todas essas
historias do Romanceiro d'Amor,
tambem brotavam rente ás duas sepulturas, escavadas no
êrmo, duas roseiras brancas a que o vento enlaçava
os aromas e as rosas. De
sorte que (como notou José Lucio Castanheiro,
coçando
pensativamente o queixo) não resaltava n'esta
D.
Guiomar nada que fosse
«só
portuguez, só nosso, abrolhando do sólo e da
raça!» Mas
esses amores lamentosos passavam n'um solar de Riba-Côa: os
nomes dos cavalleiros, Remarigues,
Ordonho, Froylas, Gutierres, tinham um delicioso sabor godo: em cada
tira resoavam bravamente os genuinos: «
Bofé!...
Mentes
pela gorja!... Pagem, o meu murzello!...»: e
através de toda
esta vernaculidade circulava uma sufficiente turba de
cavallariços com saios
alvadios, beguinos
[10]
sumidos
na sombra das cugulas, ovençaes
sopezando
fartas bolsas de couro, uchões espostejando nedios lombos de
cêrdo... A Novella portanto marcava um salutar retrocesso ao
sentimento nacional.
―E depois (accrescentava o Castanheiro) este velhaco do
Gonçalinho surde com um estylo terso, masculo, de boa
côr archaica...
D'optima côr archaica! Lembra até o
Bobo,
o
Monge
de Cister!... A
Guiomar, realmente, é uma castellã vaga, da
Bretanha ou da
Aquitania. Mas no villico, mesmo no castellão, já
transparecem
portuguezes, bons portuguezes de fibra e d'alma, d'entre Douro e
Cavado... Sim senhor! Quando o Gonçalinho se enfronhar
dentro do nosso passado,
das nossas chronicas, temos emfim nas Lettras um homem que sente bem o
torrão, sente bem a raça!
D. Guiomar encheu tres paginas da
Patria.
N'esse Domingo, para celebrar a sua entrada na Litteratura,
Gonçalo Mendes
Ramires pagou aos camaradas do Cenaculo e a outros amigos uma
ceia―onde foi acclamado, logo depois do frango com ervilhas, quando os
moços do
Camolino, esbaforidos, renovavam as garrafas de Collares, como
«o nosso
Walter Scott!» Elle, de resto, annunciára
já
com simplicidade um Romance em dois volumes, fundado nos annaes da sua
Casa, n'um rude feito de sublime orgulho de Tructesindo Mendes Ramires,
o amigo e
[11]
Alferes-mór
de D. Sancho I. Por temperamento, por aquelle saber especial de trajes
e alfaias que revelára na
D. Guiomar,
até pela
antiguidade da sua linhagem, Gonçalinho parecia
gloriosamente votado a
restaurar em Portugal o Romance Historico. Possuia uma
missão―e
começou logo a passear pela Calçada, pensativo,
com o gorro sobre os olhos,
como quem anda reconstruindo um mundo. No acto d'esse anno levou o R.
Quando regressou das ferias para o Quarto-Anno já
não refervia na rua da Mathematica o Cenaculo ardente dos
Patriotas. O Castanheiro, formado, vegetava em Villa Real de Santo
Antonio: com elle desapparecera a
Patria:
e os
moços zelosos que na
Bibliotheca
esquadrinhavam as Chronicas de Fernam Lopes e de Azurara, desamparados
por aquelle Apostolo que os levantava, recahiram nos romances de
Georges Ohnet e retomaram á noite o taco nos bilhares da
Sophia.
Gonçalo voltava tambem mudado, de luto pelo pae que morrera
em Agosto, com a barba crescida, sempre affavel e suave,
porém mais grave, averso a ceias e a
noites errantes. Tomou um quarto no Hotel Mondego, onde o servia, de
gravata branca, um velho creado de Santa Ireneia, o Bento:―e os seus
companheiros preferidos foram tres ou quatro rapazes que se preparavam
para a Politica, folheavam attentamente o
Diario das Camaras,
conheciam
[12] alguns
enredos da Côrte, proclamavam a necessidade
d'uma «Orientação positiva» e
d'um
«largo fomento rural», consideravam como leviandade
reles e jacobina a irreverencia da Academia pelos Dogmas, e, mesmo
passeando ao luar no Choupal ou no Penedo da Saudade, discorriam com
ardor sobre os dous Chefes de Partido―o Braz Victorino, o homem novo
dos Regeneradores, e o velho Barão de S. Fulgencio,
chefe classico dos Historicos. Inclinado para os Regeneradores, por que
a
Regeneração lhe representava tradicionalmente
idéas de conservantismo,
de elegancia culta e de generosidade, Gonçalo frequentou
então
o Centro Regenerador da Couraça, onde aconselhava
á noite, tomando
chá preto, «o fortalecimento da auctoridade da
Corôa», e
«uma forte expansão colonial!» Depois,
logo na Primavera, desmanchou alegremente
esta gravidade politica: e ainda tresnoitou, na taberna do Camolino, em
bacalhoadas festivas, entre o estridor das guitarras. Mas
não alludio mais ao seu grande Romance em dous volumes: e ou
recuára ou
se esquecera da sua missão d'Arte Historica. Realmente
só na
Paschoa do Quinto-Anno retomou a penna―para lançar, na
Gazeta
do Porto,
contra
um seu patricio, o Dr. André Cavalleiro, que o Ministerio do
S.
Fulgencio nomeára Governador civil de Oliveira, duas
correspondencias
muito acerbas, d'um rancor intenso e pessoal, (a ponto de chasquear
«a feroz
[13]
bigodeira
negra de S. Ex.
a»). Assignara
Juvenal, como
outr'ora o pae, quando publicava communicados politicos d'Oliveira
n'essa mesma
Gazeta do Porto,
jornal amigo, onde um
Villar Mendes, seu remoto
parente, redigia a
Revista Estrangeira. Mas
lêra
aos amigos no
Centro―«os dous botes decisivos que atirariam o Sr.
Cavalleiro abaixo do seu
Cavallo!» E um d'esses moços serios, sobrinho do
Bispo de Oliveira,
não disfarçou o seu assombro:
―Oh Gonçalo, eu sempre pensei que você e o
Cavalleiro eram intimos! Se bem me lembro quando você chegou
a Coimbra, para os
Preparatorios, viveu na casa do Cavalleiro, na rua de S.
João... Pois
não ha uma amizade tradicional, quasi historica, entre
Ramires e Cavalleiros?... Eu pouco conheço Oliveira, nunca
andei para os vossos sitios; mas
até creio que Corinde, a quinta do Cavalleiro, pega com
Santa Ireneia!
E Gonçalo enrugou a face, a sua risonha e lisa face, para
declarar seccamente que Corinde não pegava com Santa
Ireneia: que
entre as duas terras corria muito justificadamente a ribeira do
Coice:
e que o Sr. André Cavalleiro, e sobre tudo
Cavallo, era um animal
detestavel que pastava na outra margem!―O sobrinho do Bispo saudou e
exclamou:
―Sim senhor, boa piada!
Um anno depois da Formatura, Gonçalo foi a
[14] Lisboa por causa
da hypotheca da sua quinta de Praga, junto a Lamego, que certo
fôro annual
de dez réis e meia gallinha, devido ao Abbade de Praga,
andava
empecendo terrivelmente nos Conselhos do Banco Hypothecario;―e tambem
para conhecer mais estreitamente o seu Chefe, o Braz Victorino, mostrar
lealdade e submissão partidaria, colher algum fino conselho
de conducta Politica. Ora uma noite, voltando de jantar em casa da
velha Marqueza de Louredo, a «tia Louredo», que
morava a Santa Clara,
esbarrou no Rocio com José Lucio Castanheiro;
então empregado no
Ministerio da Fazenda, na repartição dos Proprios
Nacionaes. Mais defecado,
mais macilento, com
uns oculos mais largos e mais tenebrosos, o Castanheiro ardia todo,
como em Coimbra, na chamma da sua Idéa―«a
resurreição do sentimento portuguez!» E
agora, alargando a
proporções condignas da Capital o plano
da
Patria, labutava
devoradoramente na
creação
d'uma Revista quinzenal de setenta paginas, com capa azul, os
Annaes
de Litteratura e
de Historia. Era uma noite de Maio, macia e
quente. E, passeando
ambos em torno das fontes seccas do Rocio, Castanheiro, que
sobraçava
um rolo de papel e um gordo folio encadernado em bezerro, depois de
recordar as cavaqueiras geniaes da rua da Misericordia, de maldizer a
falta de intellectualidade de Villa Real de Santo Antonio―voltou
[15] soffregamente
á sua Idéa, e supplicou a Gonçalo
Mendes Ramires
que lhe cedesse para os
Annaes
esse Romance que
elle annunciára
em Coimbra, sobre
o seu avoengo Tructesindo Ramires, Alferes-mór de Sancho I.
Gonçalo, rindo, confessou que ainda não
começára essa grande obra!
―Ah! murmurou o Castanheiro, estacando, com os negros oculos sobre
elle, duros e desconsolados. Então você
não persistio?... Não permaneceu fiel
á Idéa?...
Encolheu os hombros, resignadamente, já acostumado, atravez
da sua missão, a estes desfallecimentos do Patriotismo. Nem
consentio que Gonçalo, humilhado perante aquella
Fé que se
mantivera tão pura e servidôra―alludisse, como
desculpa, ao inventario laborioso
da Casa, depois da morte do papá...
―Bem, bem! Acabou!
Proscratinare luzitanum est.
Trabalha agora no verão... Para Portuguezes, menino, o
verão
é o tempo das bellas fortunas e dos rijos feitos. No
verão nasce Nun'Alvares no Bomjardim!
No verão se vence em Aljubarrota! No verão chega
o Gama á
India!... E no verão vae o nosso Gonçalo escrever
uma novellasinha sublime!... De resto
os
Annaes só
apparecem em Dezembro, caracteristicamente no Primeiro de
Dezembro. E você em tres mezes resuscita um mundo. Serio,
Gonçalo Mendes!...
[16]
É
um dever, um santo dever, sobretudo para os novos, collaborar nos
Annaes.
Portugal, menino, morre por falta de sentimento nacional!
Nós estamos immundamente morrendo do mal de não
ser Portuguezes!
Parou―ondeou o braço magro, como a correia d'um latego,
n'um gesto que açoutava o Rocio, a Cidade, toda a
Nação. Sabia o amigo Gonçalinho o
segredo d'esta borracheira sinistra? É que, dos Portuguezes,
os peores despresavam a Patria―e os melhores ignoravam a Patria. O
remedio?... Revelar Portugal, vulgarisar Portugal. Sim, amiguinho!
Organizar, com estrondo, o reclamo de Portugal, de modo que todos o
conheçam―ao menos como se conhece o Xarope Peitoral de
James, hein? E que todos o adoptem―ao menos como se adoptou o
sabão do Congo, hein? E
conhecido, adoptado, que todos o amem emfim, nos seus
heróes, nos seus
feitos, mesmo nos seus defeitos, em todos os seus padrões, e
até nas veras pedrinhas das suas calçadas! Para
esse fim, o maior a
emprehender n'este apagado seculo da nossa Historia, fundava elle os
Annaes.
Para berrar! Para atroar Portugal, aos bramidos sobre os telhados, com
a noticia inesperada da sua grandeza! E aos descendentes dos que
outr'ora fizeram o Reino incumbia, mais que aos outros, o cuidado
piedoso de o refazer... Como? Reatando a
tradição, caramba!
[17]―Assim,
vocês! Por essa historia de Portugal
fóra, vocês são uma enfiada de Ramires
de toda a belleza. Mesmo o desembargador, o que comeu n'uma ceia de
Natal dois leitões!... É apenas uma
barriga. Mas que barriga! Ha n'ella uma pujança heroica que
prova
raça, a raça mais forte
do que
promette a força humana, como
diz
Camões. Dois leitões, caramba! Até
enternece!... E os outros Ramires, o de Silves,
o de Aljubarrota, os de Arzilla, os da India! E os cinco valentes, de
quem você talvez nem saiba, que morreram no Salado! Pois bem,
resuscitar estes varões, e mostrar n'elles a alma
façanhuda,
o querer sublime que nada verga, é uma soberba
lição aos
novos... Tonifica, caramba! Pela consciencia que renova de termos sido
tão grandes sacode
este chocho consentimento nosso em permanecermos pequenos! É
o que eu
chamo reatar a tradição... E depois feito por
você
proprio, Ramires, que
chic! Caramba, que
chic!
É um fidalgo, o
maior fidalgo de
Portugal, que, para mostrar a heroicidade da Patria, abre simplesmente,
sem sahir do seu solar, os archivos da sua Casa, velha de mais de mil
annos.
É de rachar!... E você não precisa
fazer um grosso
romance... Nem um romance muito desenvolvido está na indole
militante da Revista.
Basta um conto, de vinte ou trinta paginas... Está claro, os
Annaes
por
ora não podem pagar. Tambem, você não
precisa!
[18] E que
diabo!
não se trata de pecunia, mas d'uma grande
renovação social... E depois,
menino, a litteratura leva a tudo em Portugal. Eu sei que o
Gonçalo em Coimbra,
ultimamente, frequentava o Centro Regenerador. Pois, amigo, de folhetim
em folhetim, se chega a S. Bento! A penna agora, como a espada
outr'ora, edifica reinos... Pense você n'isto! E adeus! que
ainda hoje tenho de
copiar, para lettra christã, este estudo do Henriques sobre
Ceylão... Você não conhece o
Henriques?... Não conhece. Ninguem conhece. Pois
quando na Europa, n'essas grandes Academias da Europa, ha uma duvida
sobre a Historia ou a Litteratura cingaleza, gritam para cá,
para o
Henriques!
Abalou, agarrado ao seu rolo e ao seu tomo―e Gonçalo ainda
o avistou, na porta e claridade da tabacaria Nunes, agitando o
braço
esguio d'Apostolo deante d'um sujeito obeso, de vasto collete branco,
que recuava, com espanto, assim perturbado no quieto gozo do seu grosso
charuto e da doce noite de Maio.
O Fidalgo da Torre recolheu para o Bragança, impressionado,
ruminando a
idéa do Patriota. Tudo n'ella o seduzia―e lhe convinha: a
sua collaboração n'uma Revista consideravel, de
setenta paginas,
em companhia de Escriptores doutos, lentes das Escolas, antigos
Ministros, até Conselheiros d'Estado:
[19] a antiguidade da sua
raça, mais antiga que o Reino, popularisada por uma historia
d'heroica belleza, em que com tanto fulgor resaltavam a bravura e a
soberba d'alma dos Ramires; e emfim a seriedade academica do seu
espirito, o seu nobre gosto pelas investigações
eruditas, apparecendo no momento em
que tentava a carreira do Parlamento e da Politica!... E o trabalho, a
composição moral dos vetustos Ramires, a
resurreição archeologica do
viver Affonsino, as cem tiras de almaço a atulhar de prosa
forte―não o
assustavam... Não! porque felizmente já possuia a
«sua
obra»―e cortada em bom panno, alinhavada com linha habil.
Seu tio Duarte, irmão de sua
mãe (uma senhora de Guimarães, da casa das
Balsas), nos seus annos de
ociosidade e imaginação, de 1845 a 1850, entre a
sua carta
de Bacharel e o seu Alvará de Delegado, fôra
poeta―e
publicára no
Bardo,
semanario de Guimarães, um Poemeto em verso solto, o
Castello
de Santa
Ireneia, que assignára com duas iniciaes D.B.
esse castello era o seu, o
Paço antiquissimo de que restava a negra torre entre os
limoeiros da horta. E o Poemeto cantava, com romantico garbo, um lance
de altivez feudal em que se sublimára Tructesindo Ramires,
Alferes-mór
de Sancho I, durante as contendas de Affonso II e das senhoras
Infantas. Esse volume do
Bardo,
encadernado em marroquim, com o
brazão dos Ramires,
o açor negro
[20]
em
campo escarlate, ficára no Archivo da Casa como um
trecho da Chronica heroica dos Ramires. E muitas vezes em pequeno
Goncalo recitára, ensinados pela mamã, os
primeiros
versos do Poema, de tão harmoniosa melancolia:
Na pallidez da tarde, entre a folhagem
Que o outomno amarellece...
Era com esse sombrio feito do seu vago avoengo que Gonçalo
Mendes Ramires decidira em Coimbra, quando os camaradas da
Patria
e das ceias o acclamavam «o nosso Walter Scott»,
compôr um Romance moderno, d'um realismo épico, em
dous robustos volumes, formando um estudo
ricamente colorido da Meia-Edade Portugueza... E agora lhe servia, e
com deliciosa facilidade, para essa Novella curta e sobria, de trinta
paginas, que
convinha aos
Annaes.
No seu quarto do Bragança abrio a varanda. E
debruçado, acabando o charuto, na dormente suavidade da
noite de Maio, ante a magestade silenciosa do rio e da lua, pensava
regaladamente que nem teria a canceira d'esmiuçar as
chronicas e os folios massudos... Com
effeito! toda a reconstruccão Historica a
realisára, e
solidamente, com um saber destro, o tio Duarte. O Paço
acastellado de Santa Ireneia,
com as fundas carcovas, a torre albarran,
[21]
a alcaçova, a masmorra, o pharol
e o balsão: o velho Tructesindo, enorme, e os seus flocos de
cabellos e barbas ancestraes derramados sobre a loriga de malha; os
servos mouriscos, de surrões de couro, cavando os regueiros
da horta; os oblatos
resmungando á lareira as
Vidas dos Santos;
os
pagens jogando no campo
do tavolado―tudo resurgia, com veridico realce, no Poemeto do tio
Duarte! Ainda recordava mesmo certos lances: o truão
açoutado; o festim e os uchões que arrombavam as
cubas de cerveja; a jornada de
Violante Ramires para o Mosteiro de Lorvão...
Junto à fonte mourisca,
entre
os ulmeiros,
A cavalgada pára...
O enrêdo todo com a sua paixão de grandeza
barbara, os recontros bravios
em que se saciam a punhal os rancores de raça, o heroico
fallar despedido de labios de ferro―lá estavam nos versos
do titi,
sonoros e bem balançados...
Monge, escuta! O solar de D. Ramires
Por si, e pedra a pedra se aluira,
Se jámais um bastardo lhe
pisasse,
Com sapato aviltado, as lages puras!
[22] Na realidade
só lhe restava transpôr as formas
fluidas do Romantismo de1846 para a sua prosa tersa e mascula (como
confessava o Castanheiro),
de optima côr archaica, lembrando o
Bobo.
E era um plagio?
Não! A quem, com mais seguro direito do que a elle, Ramires,
pertencia a memoria dos Ramires historicos? A
resurreição do
velho Portugal, tão bella no
Castello de Santa
Ireneia,
não era obra
individual do tio Duarte―mas dos Herculanos, dos Rebellos, das
Academias, da
erudição esparsa. E, de resto, quem conhecia hoje
esse Poemeto, e mesmo o
Bardo,
delgado semanario que perpassára,
durante cinco
mezes, ha cincoenta annos, n'uma villa de Provincia?...! Não
hesitou
mais, seduzido. E em quanto se despia, depois de beber aos goles um
copo d'agua com bicarbonato de soda, já martellava a
primeira
linha do conto, á maneira lapidaria da
Salammbô:―«Era
nos Paços de Santa Ireneia, por uma noite d'inverno, na sala
alta da Alcaçova...»
Ao outro dia, procurou José Lucio Castanheiro na
repartição dos Proprios Nacionaes, á
pressa,―por que, depois d'uma conferencia no
Banco Hypothecario, ainda promettera acompanhar as primas Chellas a uma
Exposição de Bordados na livraria Gomes. E
annunciou ao Patriota que, positivamente, lhe assegurava para o
primeiro numero dos
Annaes
a Novella,
[23] a que
já decidira o titulo―a
Torre de
D. Ramires:
―Que lhe parece?
Deslumbrado, José Castanheiro atirou os magrissimos
braços, resguardados pelas mangas d'alpaca, até
á abobada do esguio
corredor em que o recebera:
―Sublime!...
A Torre de D. Ramires!... O grande
feito de Tructesindo Mendes Ramires contado por Gonçalo
Mendes Ramires!... E tudo
na mesma
Torre! Na Torre o velho Tructesindo pratica o feito; e setecentos annos
depois, na mesma Torre, o nosso Gonçalo conta o feito!
Caramba, menino, carambissima! isso é que é
reatar a
tradição!
Duas semanas depois, de volta a Santa Ireneia, Gonçalo
mandou um creado
da quinta, com uma carroça, a Oliveira, a casa de seu
cunhado José Barrôlo, casado com Gracinha Ramires,
para lhe trazer da rica
livraria classica que o Barrôlo herdára do tio
Deão da Sé todos os volumes da
Historia
Genealogica―«e (accrescentava
n'uma carta) todos
os cartapacios que por lá encontrares com o titulo de
«Chronicas do Rei Fulano...» Depois, do
pó das suas estantes,
desenterrou as obras de Walter Scott, volumes desirmanados do
Panorama,
a
Historia de Herculano, o
Bobo,
o
Monge de
Cistér. E assim
[24] abastecido, com
uma farta rêsma de tiras d'almaço sobre a banca,
começou a repassar o Poemeto do tio Duarte, inclinado ainda
a transpôr para a
aspereza d'uma manhã de Dezembro, como mais congenere com a
rudeza feudal
dos seus avós, aquella lusida cavalgada de donas, monges e
homens
d'armas que o tio Duarte estendera, atravez d'uma suave melancolia
outomnal, pelas veigas do Mondêgo...
Na pallidez da tarde, entre a folhagem
Que o outomno amarellece...
Mas, como era então Junho e a lua crescia,
Gonçalo determinou por fim aproveitar as
sensações de calor, luar e
arvoredos, que lhe fornecia a aldeia―para levantar, logo á
entrada da sua Novella, o
negro e immenso Paço de Santa Ireneia, no silencio d'uma
noite d'Agosto, sob
o resplendor da lua cheia.
E já enchera desembaraçadamente, ajudado pelo
Bardo, duas tiras, quando uma
desavença com o seu caseiro, o Manoel Relho, que
amanhava a quinta por oitocentos mil reis de renda, veio perturbar, na
fresca e noviça inspiração do seu
trabalho, o
Fidalgo da Torre. Desde o Natal o Relho, que durante annos de
compostura e ordem se emborrachava sempre aos domingos com alegria e
com pachorra, começára
a tomar, tres e quatro vezes por semana, bebedeiras
[25]
desabridas, escandalosas, em que espancava a mulher, atroava a quinta
de berros, e saltava para a estrada, esguedelhado, de
varapáu, desafiando a quieta aldeia. Por
fim, uma noite em que Gonçalo, á banca, depois do
chá, laboriosamente escavava os fossos do Paço de
Santa Ireneia―de repente a Rosa
cozinheira rompeu a gritar «Aqui d'El-rei contra o
Relho!» E, atravez
dos seus brados e dos latidos dos cães, uma pedra, depois
outra, bateram na
varanda veneravel da livraria! Enfiado, Gonçalo Mendes
Ramires pensou no
revólver... Mas justamente n'essa tarde o creado, o Bento,
descêra aquella
sua velha e unica arma á cozinha para a desenferrujar e
arear!
Então, atarantado, correu ao quarto, que fechou á
chave, empurrando contra a
porta a commoda com tão desesperada anciedade que frascos de
crystal, um cofre de tartaruga, até um crucifixo, tombaram e
se partiram.
Depois gritos e latidos findaram no pateo―mas Gonçalo
não se
arredou n'essa noite d'aquelle refugio bem defendido, fumando cigarros,
ruminando um furor sentimental contra o Relho, a quem tanto
perdoára, sempre
tão affavelmente tratára, e que apedrejava as
vidraças da Torre! Cêdo, de manhã
convocou o Regedor; a Rosa, ainda tremula, mostrou no
braço as marcas roxas dos dedos do Relho; e o homem, cujo
arrendamento findava em Outubro, foi despedido da quinta com a mulher,
[26] a arca e o catre.
Immediatamente appareceu um lavrador dos Bravaes, o José
Casco, respeitado em toda a freguezia pela sua seriedade e
força
espantosa, propondo ao fidalgo arrendar a Torre. Gonçalo
Mendes Ramires
porém, já desde a morte do pae, decidira elevar a
renda a novecentos e cincoenta mil réis:―e o Casco desceu
as escadas, de cabeça
descahida. Voltou logo ao outro dia, repercorreu miudamente toda a
quinta, esfarellou a terra entre os dedos, esquadrinhou o curral e a
adega, contou as oliveiras e as cêpas: e n'um
esforço, em que lhe arfaram todas
as costellas, offereceu novecentos e dez mil réis!
Gonçalo
não cedia, certo da sua equidade. O José Casco
voltou ainda com a mulher; depois,
n'um domingo, com a mulher e um compadre,―e era um coçar
lento do queixo
rapado, umas voltas desconfiadas em torno da eira e da horta, umas
demoras sumidas dentro da tulha, que tornavam aquella manhã
de Junho
intoleravelmente longa ao Fidalgo, sentado n'um banco de pedra do
jardim, debaixo d'uma mimosa, com a
Gazeta do Porto.
Quando o Casco,
pallido, lhe veio offerecer novecentos e trinta mil
réis―Gonçalo
Mendes Ramires arremessou o jornal, declarou que ia elle, por sua
conta, amanhar a propriedade, mostrar o que era um torrão
rico, tratado pelo
saber moderno, com phosphatos, com machinas! O homem de Bravaes,
[27] então,
arrancou um fundo suspiro, acceitou os novecentos e cincoenta mil reis.
Á maneira antiga o Fidalgo apertou a mão ao
lavrador―que entrou na cozinha a enxugar um largo copo de vinho,
esponjando na testa, nas cordoveias rijas do pescoço, o suor
anciado que o alagava.
Mas, como entulhada por estes cuidados, a veia abundante de
Gonçalo estancou―não foi mais que um fio
arrastado e turvo. Quando
n'essa tarde se accomodou á banca, para contar a sala
d'armas do
Paço de Santa Ireneia por uma noite de lua―só
conseguiu converter
servilmente n'uma prosa aguada os versos lisos do tio Duarte, sem
relêvo que os modernisasse, désse magestade
senhorial ou bellesa saudosa
áquelles macissos muros onde o luar, deslisando atravez das
rexas, salpicava scentelhas pelas pontas das lanças altas, e
pela cimeira dos
morriões... E desde as quatro horas, no calor e silencio do
domingo de Junho, labutava, empurrando a penna como lento arado em
chão
pedregoso, riscando logo rancorosamente a linha que sentia deselegante
e molle, ora n'um reboliço, a sacudir e reenfiar sob a mesa
os chinellos
de marroquim, ora immovel e abandonado á esterilidade que o
travava, com os olhos esquecidos na Torre, na sua difficillima Torre,
negra entre os limoeiros e o azul, toda envolta no piar e
esvoaçar das
andorinhas.
[28] Por fim,
descorçoado, arrojou a penna que tão
desastrosamente emperrára. E fechando na gavêta,
com uma pancada, o volume precioso do
Bardo:
―Irra! Estou perfeitamente entupido! É este calor! E depois
aquelle animal do Casco, toda a manhã!...
Ainda releu, coçando sombriamente a nuca, a derradeira linha
rabiscada e suja:
―«...Na sala altaneira e larga, onde os largos e pallidos
raios da lua...» Larga, largos!... E os pallidos raios, os
eternos
pallidos raios!... Tambem este maldito castello,
tão
complicado!...
E este D. Tructesindo, que eu não apanho, tão
antigo!...
Emfim, um horror!
Atirou, n'um repellão, a cadeira de couro; cravou, com
furor, um charuto nos dentes;―e abalou da livraria, batendo
desesperadamente a porta, n'um tedio immenso da sua obra, d'aquelles
confusos e enredados
Paços de Santa Ireneia, e dos seus avós, enormes,
resoantes,
chapeados de ferro, e mais vagos que fumos.
II
Bocejando, apertando os cordões das largas pantalonas de
seda que lhe escorregavam da cinta, Gonçalo, que durante
todo o dia
preguiçára, estirado no divan de damasco azul,
com uma vaga dôr nos rins,
atravessou languidamente o quarto para espreitar, no corredor, o antigo
relogio de charão. Cinco horas e meia!... Para desannuviar,
pensou
n'uma caminhada pela fresca estrada dos Bravaes. Depois n'uma visita
(devida
já desde a Paschoa!) ao velho Sanches Lucena, eleito
novamente deputado, nas Eleições Geraes de Abril,
pelo circulo de Villa
Clara. Mas a jornada á
Feitosa,
á quinta do Sanches Lucena,
demandava uma hora a
cavallo, desagradavel com aquella teimosa dôr nos rins que o
filára na vespera á noite, depois do
chá, na Assembleia da Villa. E, indeciso,
arrastava os passos no corredor,
[30]
para
gritar ao Bento ou á Rosa que lhe
subissem uma limonada, quando, atravez das varandas abertas, resoou um
vozeirão de grosso metal, que gracejando mais se engrossava,
rolava pelo pateo, n'uma cadencia cava de malho malhando:
―Oh sô Gonçalo! Oh sô
Gonçalão! Oh sô Gonçalissimo
Mendes Ramires!...
Reconheceu logo o
Titó, o Antonio
Villalobos, seu vago
parente, e seu companheiro de Villa Clara, onde aquelle
homenzarrão
excellente, de velha raça Alemtejana, se estabelecera sem
motivo,
só por affeição bucolica á
villa. E havia onze annos que a atulhava com os
seus possantes membros, o lento rebombo do seu vozeirão, e a
sua
ociosidade espalhada pelos bancos, pelas esquinas, pelas ombreiras das
lojas, pelos balcões das tabernas, pelas sachristias a
caturrar com os
padres, até pelo cemiterio a philosophar com o coveiro. Era
um irmão do
velho morgado de Cidadelhe (o genealogista), que lhe
estabelecêra
uma mesada de oito moedas para o conservar longe de Cidadelhe―e do seu
sujo serralho de moças do campo, e da obra tenebrosa a que
agora
se atrellára, a
Veridica
Inquirição,
uma Inquirição sobre as bastardias, crimes e
titulos illegitimos das familias fidalgas de Portugal. E
Gonçalo, desde estudante, amára sempre aquelle
Hercules bonacheirão, que o seduzia pela prodigiosa
força, a incomparavel
[31]
potencia
em beber todo um pipo e em comer todo um anho, e sobretudo pela
independencia, uma suprema independencia, que, apoiada ao
bengalão terrifico e
com as suas oito moedas dentro da algibeira, nada temia e nada desejava
nem da Terra nem do Céo.―Logo debruçado na
varanda, gritou:
―Oh Titó, sóbe!... Sóbe emquanto eu
me visto. Tomas um calice de genebra... Vamos depois passear
até aos Bravaes...
Sentado no rebordo do tanque redondo e sem agua que ornava o pateo,
erguendo para o casarão a sua franca e larga face
requeimada, cheia de barba ruiva, o Titó movia lentamente
como um leque um velho
chapéo de palha:
―Não posso... Ouve lá! Tu queres hoje
á noite cear no Gago, commigo e com o João
Gouveia? Vae tambem o Videirinha e o
violão. Temos uma tainha assada, uma famosa. E enorme, que
eu comprei esta manhã a
uma mulher da Costa por cinco tostões. Assada pelo Gago!...
Entendido,
hein? O Gago abre pipa nova de vinho, do Abbade de Chandim. Eu
conheço o
vinho. É d'aqui, da ponta fina.
E Titó, com dous dedos, delicadamente, sacudio a ponta molle
da orelha. Mas Gonçalo, repuxando as pantalonas, hesitava:
―Homem, eu ando com o estomago arrazado... E desde hontem á
noite uma
dôr nos rins, ou no
[32]
figado,
ou no baço, não sei bem, n'uma d'essas
entranhas!... Até hoje, para o jantar, só caldo
de gallinha e gallinha cosida... Emfim! vá! Mas,
á cautela, recommenda
ao Gago que me prepare para mim um franguinho assado... Onde nos
encontramos? Na
Assembléa? O Titó despegára logo do
tanque, pousando na nuca
o chapéo de palha:
―Hoje não me gasto pela Assembléa. Tenho
senhora. Das dez para as dez e meia, no Chafariz... Vae tambem o
Videirinha com a viola. Viva!... Das dez para as dez e meia!
Entendido... E franguinho assado para S. Ex.
a,
que se queixa do rim!
E atravessou o pateo, com lentidão bovina, parando a colher
n'uma roseira, junto ao portão, uma rosa com que florio a
quinzena
de velludilho côr d'azeitona.
Immediatamente Gonçalo decidira não jantar, certo
dos beneficios d'aquelle jejum até ás dez horas,
depois de um
passeio pelos Bravaes e pelo valle da Riosa. E, antes de entrar no
quarto para se vestir, empurrou a porta envidraçada sobre a
escura escada da
cozinha, gritou pela Rosa cozinheira. Mas nem a boa velha, nem o Bento
por quem tambem berrou furiosamente, responderam, no pesado silencio em
que jaziam, como abandonados, esses sombrios fundos de grande lage e de
grande abobada
[33]
que
restavam do antigo Palacio, restaurado por Vicente Ramires depois da
sua campanha em Castella, incendiado no tempo de El-Rei D.
José I. Então Gonçalo desceu dous
degráos da gasta escadaria de
pedra e atirou outro dos longos brados com que atroava a Torre―desde
que as campainhas andavam desmanchadas. E descia ainda para invadir a
cozinha quando a Rosa acudio. Sahira para o pateo da horta com a filha
da Crispola!
não sentira o Snr. Doutor!...
―Pois estou a berrar ha uma hora! E nem você nem Bento!...
É por que não janto. Vou cear a Villa Clara com
os amigos.
A Rosa, do sonoro fundo do corredor, protestou, desolada. Pois o Sr.
Doutor ficava assim em jejum até horas da noite?―Filha d'um
antigo hortelão da Torre, crescida na Torre, já
cozinheira da Torre quando Gonçalo nascêra, sempre
o tratára por
«menino», e mesmo por «seu
riquinho» até que elle partio para Coimbra e
começou a ser, para ella e para o Bento, o «Sr.
Doutor».―E o Sr. Doutor, ao
menos, devia tomar o caldinho de gallinha, que apurára desde
o meio dia, cheirava
que nem feito no céo!
Gonçalo, que nunca discordava da Rosa ou do Bento,
consentio―e já subia, quando reclamou ainda a Rosa para se
informar da Crispola, uma desgraçada
[34] viuva
que, com um rancho
faminto de
crianças, adoecera pela Paschoa de febres perniciosas.
―A Crispola vae melhor, Sr. Doutor. Já se levanta. Diz a
pequena que já se levanta... Mas muito derreadinha...
Gonçalo desceu logo outro degráo,
debruçado na escada, para mergulhar mais confidencialmente
n'aquellas tristezas:
―Olhe, oh Rosa, então se a pequena ahi está,
coitada, que leve para casa á mãe a gallinha que
eu tinha para jantar. E
o caldo... Que leve a panella! Eu tomo uma chavena de chá
com biscoitos. E olhe!
Mande tambem dez tostões á Crispola... Mande dois
mil
réis. Escute! Mas não lhe mande a gallinha e o
dinheiro assim seccamente... Diga que estimo as melhoras, e que
lá passarei por casa para saber. E esse animal do
Bento que me suba agua quente!
No quarto, em mangas de camisa, deante do espelho, um immenso espelho
rolando entre columnas douradas, estudou a lingua que lhe parecia
saburrosa, depois o branco dos olhos, receiando a
amarellidão de bilis solta. E terminou por se contemplar na
sua feição
nova, agora que rapára a barba em Lisboa, conservando o
bigodinho castanho, frisado e leve, e uma môsca um pouco
longa, que lhe alongava mais a face
aquilina e fina, sempre d'uma brancura de nata. O seu desconsolo era o
cabello,
[35] bem
ondeado, mas tenue e fraco, e, apezar de todas as aguas e pomadas,
necessitando já risca mais elevada, quasi ao meio da testa
clara.
―É infernal! Aos trinta annos estou calvo...
E todavia não se despegava do espelho, n'uma
contemplação agradada, recordando mesmo a
recommendação da tia Louredo,
em Lisboa:―«Oh sobrinho! o menino, assim galante e esperto,
não se enterre
na provincia! Lisboa está sem rapazes. Precisamos
cá
um bom Ramires!»―Não! não se
enterraria na provincia, immovel sob a hera e a poeira melancolica das
cousas immoveis, como a sua Torre!... Mas vida elegante em Lisboa,
entre a sua parentella historica, como a aguentaria com o conto e
oitocentos mil reis de renda que lhe restava, pagas as dividas do
papá? E depois realmente vida em Lisboa só a
desejava com uma posição politica,―cadeira em S.
Bento, influencia intellectual no seu Partido, lentas e seguras
avançadas para o Poder. E essa,
tão docemente sonhada em Coimbra, nas faceis cavaqueiras do
Hotel Mondego,―muito remota a entrevia! Quasi inconquistavel, para
além de um muro alto e
aspero, sem porta e sem fenda!... Deputado―como? Agora, com o horrendo
S. Fulgencio e os Historicos no Ministerio durante tres gordos annos,
não
voltariam Eleições Geraes. E mesmo n'alguma
Eleição Supplementar que possibilidade lograria
[36]elle,
que, desde Coimbra, bem levianamente, arrastado por uma elegancia de
tradições, se manifestára
sempre Regenerador, no «Centro» da
Couraça, nas correspondencias para a
Gazeta
do
Porto,
nas verrinas ardentes contra o chefe do Districto, o Cavalleiro
detestavel?... Agora só lhe restava esperar. Esperar,
trabalhando; ganhando em
consistencia social; edificando com sagacidade, sobre a base do seu
immenso nome historico, uma pequenina nomeada politica; tecendo e
estendendo a malha preciosa das amizades partidarias desde Santa
Ireneia até ao
Terreiro do Paço... Sim! eis a theoria explendida:―mas
consistencia,
nomeada, affeições politicas, como se conquistam?
«Advogue, escreva nos jornaes!» fôra o
conselho distrahido e risonho do seu chefe, o Braz
Victorino. Advogar em Oliveira, mesmo em Lisboa? Não podia,
com aquelle
seu horror ingenito, quasi physiologico, a autos e papelada forense.
Fundar um jornal em Lisboa como o Ernesto Rangel, seu companheiro de
Coimbra no Hotel Mondego? Era façanha facil para o neto
adorado da
Snr.
a D. Joaquina Rangel que armazenava dez mil
pipas de vinho nos
barracões de Gaia. Batalhar n'um jornal de Lisboa? N'essas
semanas de Capital, sempre pelo Banco Hypothecario, sempre com as
«primas»,
nem formára relações duraveis e uteis
nos dous grandes Diarios Regeneradores, a
Manhã e a
Verdade...
De sorte que, realmente,
[37]
n'esse
muro
que o separava da fortuna só descobria um buraquinho, bem
apertado mas
serviçal―os
Annaes de Litteratura e
d'Historia,
com a sua
collaboração de Professores, de Politicos,
até d'um Ministro, até
de um Almirante, o Guerreiro Araujo, esse tocante massador. Appareceria
pois nos
Annaes com a sua
Torre,
revelando
imaginação e um
saber rico. Depois, trepando da Invenção para o
terreno mais
respeitavel da Erudição, daria um estudo (que
até lhe lembrára no comboio, ao
voltar de Lisboa!) sobre as «Origens Visigothicas do Direito
Publico em
Portugal...» Oh, nada conhecia, é certo, d'essas
Origens, d'esses Visigodos. Mas,
com a bella historia da
Administração
Publica em
Portugal
que lhe emprestára o Castanheiro, comporia corrediamente um
resumo elegante... Depois, saltando da Erudição
ás Sciencias
Sociaes e Pedagogicas―por que não amassaria uma boa
«Reforma do Ensino Juridico em
Portugal» em dous artigos massudos, de Homem d'Estado?...
Assim avançava, bem
chegado aos Regeneradores, construindo e cinzelando o seu pedestal
litterario,
até que os Regeneradores voltassem ao Ministerio, e no muro
se escancarasse a desejada porta triumphal.―E no meio do quarto, em
ceroulas, com as mãos nas ilhargas, Gonçalo
Mendes Ramires
concluio pela necessidade de apressar a sua Novella.
―Mas, quando acabarei eu essa
Torre? assim
emperrado, sem veia, com o figado combalido?...
[38] O Bento, velho de
face rapada e morena, com um lindo cabello branco todo encarapinhado,
muito limpo, muito fresco na sua jaqueta de ganga, entrára
vagarosamente, segurando a infusa d'agua quente.
―Oh Bento, ouve lá! Tu não encontraste na mala
que eu trouxe de Lisboa, ou no caixote, um frasco de vidro com um
pó branco?
É um remedio inglez que me deu o Sr. Dr. Mattos... Tem um
rotulo em inglez, com um nome inglez, não sei quê,
fruit salt...
Quer dizer
sal de fructas...
O Bento cravou no soalho os olhos, que depois cerrou, meditando. Sim,
no quarto de lavar, em cima do bahú vermelho,
ficára
um frasco com pó, embrulhado num pergaminho antigo como os
do Archivo.
―É esse! declarou Gonçalo. Eu precisava em
Lisboa uns documentos por causa d'aquelle malvado fôro de
Praga. E por engano, na
balburdia, levo do Archivo um pergaminho perfeitamente inutil! Vae
buscar o rolo... Mas tem cuidado com o frasco!
O Bento, cuidadoso, sempre lento, ainda enfiou os botões
d'agatha nos punhos da camisa do Sr. Doutor, e desdobrou sobre a cama,
para elle vestir, a quinzena, as calças bem vincadas, de
cheviote
leve. E Gonçalo, retomado pela idéa de artigos
para os
Annaes,
folheava,
rente á janella, a
Historia da
Administração
Publica em
Portugal, quando Bento
[39]
voltou com um rolo
de pergaminho, d'onde pendia, por fitas roidas, um sello de chumbo.
―Esse mesmo! exclamou o Fidalgo atirando o volume para o poial da
janella. É esse mesmo que eu enrolei no pergaminho para se
não quebrar. Desembrulha, deixa em cima da commoda... O Sr.
Dr. Mattos aconselhou que o tomasse com agua tepida, em jejum. Parece
que ferve. E limpa o sangue, desannuvia a cabeça... Pois eu
muito necessitado ando de
desannuviar a cabeça!... Toma tu tambem, Bento. E dize
á Rosa
que tome. Todos tomam agora, até o Papa!
Com cuidado, o Bento desenrolára o frasco, estendendo sobre
o marmore da commoda o pergaminho duro, onde a lettra do seculo XVI se
encarquilhava amarella e morta. E Gonçalo, abotoando o
colarinho:
―Ora ahi está o que eu levo preciosamente para deslindar o
fôro de Praga! Um pergaminho do tempo de D.
Sebastião... E
só percebo mesmo a data, mil quatrocentos... Não,
mil quinhentos e setenta e
sete. Nas vesperas da jornada d'Africa... Emfim! serviu para embrulhar
o frasco.
O Bento, que escolhera no gavetão um collete branco,
relanceou de lado o pergaminho veneravel:
―Naturalmente foi carta que El-rei D. Sebastião escreveu a
algum avosinho do Sr. Doutor...
―Naturalmente, murmurava o Fidalgo, deante
[40]do
espelho. E para lhe dar alguma cousa boa, alguma cousa gorda...
Antigamente ter rei era ter renda. Agora... Não apertes
tanto essa fivella, homem! Trago
ha dias o estomago inchado... Agora, com effeito, esta
instituição de Rei anda muito safada, Bento!
―Parece que anda, observou gravemente o Bento. Tambem, o
Seculo
affiança que os Reis estão a acabar, e por dias.
Ainda hontem affiançava. E o
Seculo
é
jornal bem
informado... No de hoje, não sei se o Sr. Doutor leu,
lá vem a grande festa dos annos do Sr.
Sanches Lucena, e o fogo de vistas, e o brodio que deram na
Feitosa...
Enterrado no divan de damasco, Gonçalo estendera os
pés ao Bento que lhe
laçava as botas brancas:
―Esse Sanches Lucena é um idiota! Ora que arranjo
fará a esse homem, aos sessenta annos, ser deputado, passar
mezes em Lisboa no Francfort, abandonar as propriedades, deixar aquella
linda quinta... E para
quê? Para rosnar de vez em quando
«apoiado!» Antes elle
me cedesse a cadeira, a mim, que sou mais esperto, não
possuo grandes terras, e
gosto do Hotel Bragança. E por Sanches Lucena... O Joaquim
amanhã que me tenha a egoa prompta, a esta hora, para eu ir
á
Feitosa
visitar esse
animal... E ponho então o fato novo de montar que trouxe de
Lisboa, com
as polainas altas... Ha mais de
[41]
dois annos que não vejo a D. Anna
Lucena. É uma linda mulher!
―Pois quando o Sr. Doutor estava em Lisboa elles passaram ahi, na
caleche. Até pararam, e o Sr. Sanches Lucena apontou para a
Torre, a mostrar á senhora... Mulher muito perfeita! E traz
uma
grande luneta, com um grande cabo, e um grande grilhão, tudo
d'oiro...
―Bravo!... Encharca bem esse lenço com agoa de Colonia, que
tenho a cabeça tão pesada!... Essa D. Anna era
uma
jornaleira, uma moça do campo, de Corinde?
Bento protestou, com o frasco suspenso, espantado para o Fidalgo:
―Não senhor! A Snr.
a D. Anna Lucena
é de gente
muito baixa! Filha d'um carniceiro d'Ovar... E o irmão andou
a monte por ter morto o
ferrador d'Ilhavo.
―Emfim, resumiu Gonçalo, filha de carniceiro,
irmão a monte, bella mulher, luneta d'oiro... Merece fato
novo!
Em Villa-Clara, ás dez horas, sentado n'um dos bancos de
pedra do Chafariz, sob as olaias, o Titó esperava com o
amigo
João Gouveia―que era o Administrador do Concelho da Villa.
Ambos se abanavam
[42]
com os chapeus, em silencio, gozando a frescura e o sussurro da agua
lenta na sombra. E a «meia» batia no relogio da
Camara,
quando Gonçalo, que se retardára na
Assembléa n'um voltarete
enremissado, appareceu annunciando uma fome terrivel, «a fome
historica dos Ramires»,
e apressando a marcha para o Gago―sem mesmo consentir que o
Titó descesse
á tabacaria do Brito, a buscar uma garrafa de aguardente de
canna da Madeira, velha e «da ponta fina...»
―Não ha tempo! Ao Gago! Ao Gago!... Senão devoro
um de Vocês, com esta
furiosa fome Ramirica!
Mas, logo ao subirem a Calçadinha, parou elle cruzando os
braços, interpellando divertidamente o Sr. Aministrador do
Concelho pelo estupendo feito do
seu Governo...
Então o
seu Governo,
os
seus amigos Historicos, o
seu
honradissimo S.
Fulgencio―nomeavam, para Governador Civil de Monforte, o Antonio
Moreno! O Antonio Moreno,
tão justamente chamado em Coimbra Antoninha Morena!
Não,
realmente, era a derradeira degradação a que
podia rolar um paiz!
Depois d'esta, para harmonia perfeita dos serviços,
só outra
nomeação, e urgente―a da Joanna Salgadeira,
Procuradora Geral da Corôa!
E o João Gouveia, um homem pequeno, muito escuro, muito
secco, de bigode mais duro que piassaba,
[43]esticado
n'uma sobrecasaca curta, com o chapeu de coco atirado para a orelha,
não discordava. Empregado
imparcial, servindo os Historicos como servira os Regeneradores, sempre
acolhia com imparcial ironia as nomeações de
bachareis novos,
Historicos ou Regeneradores, para os gordos logares Administrativos.
Mas, n'este caso, sinceramente, quasi vomitára, rapazes!
Governador Civil, e
de Monforte, o Antonio Moreno, que elle tantas vezes
encontrára no
quarto, em Coimbra, vestido de mulher, de roupão aberto, e a
carinha
bonita coberta de pó de arroz!...―E, travando do
braço do
Fidalgo, recordava a noite em que o José Gorjão,
muito bebedo, de cartola e
com um revólver, exigia furiosamente que o padre Justino,
tambem bebedo, o casasse com o Antoninho deante d'um nicho da Senhora
da Boa Morte! Mas o
Titó, que esperava, floreando o bengalão,
declarou áquelles
senhores que se o tempo sobejava para arrastarem assim na rua, a
conversar de Politica e d'indecencias―então voltava elle ao
Brito, buscar a
aguardentesinha... Immediatamente o Fidalgo da Torre, sempre
brincalhão,
sacudiu o braço do Administrador, e galgou pela
Calçadinha, aos corcovos, com
as mãos fortemente juntas, como colhendo uma redea, contendo
um cavallo que se desboca.
E na sala alta do Gago, ao cimo da escada esguia e ingreme que subia da
taberna, a um canto
[44]da
comprida mesa allumiada por dois candieiros de petroleo, a ceia foi
muito alegre, muito saboreada. Gonçalo,
que se declarava miraculosamente curado pelo passeio até aos
Bravaes e pelas emoções do voltarete em que
ganhára
desenove tostões ao Manoel Duarte―começou por
uma pratada d'ovos com
chouriço, devorou metade da tainha, devastou o seu
«frango de doente», clareou
o prato da salada de pepino, findou por um montão de
ladrilhos de marmellada: e
atravez d'este nobre trabalho, sem que a fina brancura da sua pelle se
afogueasse, esvasiou uma caneca vidrada de Alvaralhão,
porque logo ao primeiro trago, e com desgosto do Titó,
amaldiçoára o vinho novo do Abbade. Á
sobremesa appareceu o Videirinha, «o
Videirinha do violão», tocador afamado de Villa
Clara, ajudante da Pharmacia, e poeta com versos de amor e de
patriotismo já impressos no
Independente
d'Oliveira. Jantára n'essa tarde, com o
violão,
em casa do commendador Barros, que celebrava o anniversario da sua
commenda: e só
acceitou um copo d'Alvaralhão, em que esmagou um ladrilho de
marmellada
«para adocicar a goella». Depois, á meia
noite,
Gonçalo obrigou o Gago a espertar o lume, ferver um
café «muito forte, um
café terrivel, Gago amigo! um café capaz de abrir
talento no Sr. Commendador
Barros!» Era essa a hora divina do violão e do
«fadinho». E já o Videirinha
[45]recuára
para a sombra da sala, pigarreando, affinando os bordões,
pousado com melancolia á borda d'um banco alto.
―A
Soledad, Videirinha! pediu o bom
Titó, pensativo,
enrolando um grosso cigarro.
Videirinha gemeu deliciosamente a
Soledad:
Quando fôres ao cemiterio
Ai Soledad, Soledad!...
Depois, apenas elle findou, acclamado, e emquanto acertava as
cravelhas, o Fidalgo da Torre e João Gouveia, com os
cotovellos na
mesa, os charutos fumegando, conversaram sobre essa venda de
Lourenço
Marques aos Inglezes, preparada surrateiramente (conforme clamavam,
arripiados de horror, os jornaes da Opposição)
pelo Governo do
S. Fulgencio. E Gonçalo tambem se arripiava! Não
com a
alienação da Colonia―mas com a impudencia do S.
Fulgencio! Que aquelle careca obeso, filho sacrilego d'um frade que
depois se fizera mercieiro em Cabecelhos, trocasse a libras, para se
manter mais dois annos no Poder, um pedaço
de Portugal, torrão augusto, trilhado heroicamente pelos
Gamas, os
Athaydes, os Castros, os seus proprios avós―era para elle
uma
abominação que justificava todas as violencias,
mesmo uma revolta, e a casa de
Bragança enterrada
[46]no
lodo
do Tejo! Trincando, sem parar, amendoas torradas,
João Gouveia observou:
―Sejamos justos, Gonçalo Mendes! Olhe que os
Regeneradores...
O Fidalgo sorrio superiormente. Ah! se os Regeneradores realisassem
essa grandiosa operação―bem! Esses,
primeiramente,
nunca commetteriam a indecencia de vender a Inglezes terra de
Portuguezes! Negociariam com Francezes, com Italianos, povos latinos,
raças fraternas...
E depois os bons milhões soantes seriam applicados ao
fomento do Paiz,
com saber, com probidade, com experiencia. Mas esse horrendo careca do
S. Fulgencio!...―E no seu furor, engasgado, gritou por genebra, por
que realmente aquelle cognac do Gago era uma peçonha torpe!
O Titó encolheu os hombros, resignado:
―Não me deixaste ir buscar a aguardentesinha, agora
aguenta... E a genebra é ainda mais peçonhenta.
Nem para os
negros d'esse Lourenço Marques que tu queres vender...
Portuguezes indecentes, a vender Portugal! Até o Sr.
Administrador do Concelho devia prohibir
estas conversas...
Mas o Sr. Administrador do Concelho affirmou que as consentia, e
rasgadamente... Por que tambem elle, como Governo, venderia
Lourenço Marques, e Moçambique, e toda a Costa
Oriental! E
ás
[47]talhadas!
Em leilão! Alli, toda a Africa, posta em praça,
apregoada no Terreiro do Paço! E sabiam os amigos
porquê? Pelo
são principio de forte
administração―(estendia o braço, meio
alçado do banco, como n'um Parlamento)... Pelo
são principio de que todo o proprietario
de terras distantes, que não póde valorisar por
falta de
dinheiro ou gente, as deve vender para concertar o seu telhado,
estrumar a sua horta, povoar o seu curral, fomentar todo o bom
torrão que pisa com os
pés... Ora a Portugal restava toda uma riquissima provincia
a amanhar, a regar, a lavrar, a semear―o Alemtejo!
O Titó lançou o vozeirão, desdenhando
o Alemtéjo como uma pellicula de terra de má
qualidade, que, fóra umas legoas de
campos em torno de Beja e de Serpa, por um grão
só dava dois, e, apenas
esgaravetada, logo mostrava o granito...
―O mano João tem lá uma herdade immensa,
immensissima, que rende trezentos mil réis!
O Administrador, que advogára em Mertola, protestou,
encristado. O Alemtejo! Provincia abandonada, sim! Abandonada
miseravelmente, desde seculos, pela imbecilidade dos governos... Mas
riquissima, fertilissima!
―Pois então os Arabes... E qual Arabes! Ainda ha dias o
Freitas Galvão me contava...
Mas Gonçalo Mendes, que cuspira tambem a
[48]genebra com uma
carantonha, acudiu, n'um resumo varredor, condemnando todo o Alemtejo
como uma desgraçada illusão!
Estirado por sobre a mesa, o Administrador gritava:
―Você já esteve no Alemtejo?
―Tambem nunca estive na China, e...
―Então não falle! Só a vinha
espantosa que plantou o João Maria...
―Quê! Umas cem pipas de zurrapa! Mas, n'outros sitios,
legoas e legoas sem...
―Um celleiro!
―Uma charneca!
E atravez do tumulto o Videirinha, repenicando com solitario ardor,
levado na torrente d'ais do «fado» da Ariosa,
soluçava contra uns olhos negros, donos do seu
coração:
Ai! que dos teus negros olhos
Me vem hoje a
perdição...
O petroleo dos candieiros findava: e o Gago, reclamado para trazer
castiçaes, surdio em mangas de camisa, detraz d'uma cortina
de chita, com a sua esperta humildade banhada em riso, lembrando a suas
Excellencias que passava da uma horasinha da noite... O Administrador,
que detestava noitadas,
[49]nocivas
á sua garganta (de amygdalas
loucamente inflammaveis), puxou o relogio com terror. E rapidamente
reabotoado na sobrecasa, de chapéo côco mais
tombado
á banda, apressou o lento Titó, por que ambos
moravam no alto da Villa―elle defronte do Correio, o outro na viella
das Therezas, n'uma casa onde outr'ora
habitára e apparecera apunhalado o antigo carrasco do Porto.
O Titó porém não se aviava. Com o
bengalão debaixo do braço, ainda chamou o Gago ao
fundo sombrio da sala estreita, para cochichar sobre o embrulhado
negocio d'uma compra de espingarda, soberba espingarda Winchester,
empenhada ao Gago pelo filho do tabellião Guedes
d'Oliveira. E, quando desceu a escadaria, encontrou á porta
da taberna,
no estendido luar que orlava a rua adormecida, o Fidalgo da Torre e o
João Gouveia bruscamente engalfinhados na costumada contenda
sobre o Governador Civil de Oliveira―o André Cavalleiro!
Era sempre a mesma briga, pessoal, furiosa e vaga. Gonçalo
clamando que não alludissem deante d'elle, pelas cinco
chagas de Christo,
a esse bandido, esse Snr. Cavalleiro e sobretudo Cavallo,
mandão
burlesco que desorganizava o Districto! E João Gouveia muito
teso, muito
secco, com o côco mais cahido na orelha, assegurando a
inteligencia
superior do amigo Cavalleiro, que estabelecera limpeza e
[50] ordem, como Hercules, nas
cavallariças d'Oliveira! O Fidalgo rugia. E Videirinha, com
o violão resguardado atraz das costas, supplicava aos amigos
que recolhessem
á taberna, para não alvorotar a rua...
―Tanto mais que defronte, coitada, a sogra do Dr. Venancio
está desde hontem com a pontada!
―Pois então, berrou Gonçalo, não
venham com disparates que revoltam! Dizer você, Gouveia, que
Oliveira nunca teve Governador Civil
como o Cavalleiro!... Não é por meu pae! O
papá já lá vae ha trez annos,
infelizmente. E concordo que não fosse boa auctoridade. Era
frouxo, andava doente... Mas depois tivemos o Visconde de Freixomil.
Tivemos o Bernardino. Você serviu com elles. Eram dois
homens!... Mas
este cavallo d'este Cavalleiro! A primeira
condição para a
auctoridade superior d'um Districto é não ser
burlesca. E o Cavalleiro
é d'entremez! Aquella guedelha de trovador, e a horrenda
bigodeira negra, e o olho languinhento a pingar namoro, e o papo
empinado, e o
pó-pó-poh! É
d'entremez! E estupido, d'uma estupidez fundamental, que lhe
começa nas patas, vem subindo, vem crescendo. Oh senhores,
que animal!... Sem contar que é malandro.
Teso na sombra do immenso Titó, como uma estaca junto d'uma
torre, o Administrador mordia o charuto. Depois, de dedo espetado, com
uma serenidade cortante:
[51]―Você
acabou?... Pois, Gonçalinho, agora escute!
Em todo o districto d'Oliveira, note bem, em todo elle! não
ha ninguem,
absolutamente ninguem, que de longe, muito de longe, se compare ao
Cavalleiro em intelligencia, caracter, maneiras, saber, e finura
politica!
O Fidalgo da Torre emmudeceu, varado. Por fim sacudindo o
braço, n'um desabrido, arrogante desprezo:
―Isso são as opiniões d'um subalterno!
―E isso são as expressões d'um malcreado! uivou
o outro, crescendo todo, com os olhinhos esbugalhados a fuzilar.
Immediatamente entre os dois, mais grosso que um barrote,
avançou o braço do Titó, estendendo
uma sombra na
calçada:
―Olá! Oh rapazes! Que desconchavo é este?
Vocês estão borrachos?... Pois tu,
Gonçalo...
Mas já Gonçalo, n'um d'esses seus impulsos
generosos e amoraveis que tão finamente seduziam, se
humilhava, confessava a sua brutalidade, sensibilisado:
―Perdoe você, João Gouveia! Sei perfeitamente que
você defende o Cavalleiro por amizade, não por
dependencia... Mas que quer,
homem? Quando me fallam n'esse Cavallo... Não sei,
é por
contagio da besta, orneio, atiro coice!
[52]
O Gouveia, sem rancor, logo reconciliado (porque admirava
carinhosamente o Fidalgo da Torre), deu um puxão forte
á
sobrecasaca e apenas observou «que o Gonçalinho
era uma flôr, mas
picava...» Depois, aproveitando a
emoção submissa de Gonçalo,
recomeçou a glorificação do
Cavalleiro, mais sobria. Reconhecia certas fraquezas. Sim, com effeito,
aquelle modo impertigado... Mas que coração!―E o
Gonçalinho devia considerar...
O Fidalgo, de novo revoltado, recuou, espalmando as mãos:
―Escute você, oh João Gouveia! Por que
é que você lá em cima, á
ceia, não comeu a salada de pepino? Estava divina,
até
o Videirinha a appeteceu! Eu repeti, acabei a travessa... Por que foi?
Por que
você tem horror physiologico, horror visceral ao pepino. A
sua natureza e o pepino são incompativeis. Não ha
raciocinios,
não ha subtilezas, que o persuadam a admittir lá
dentro o pepino. Você
não duvida que elle seja excellente, desde que tanta gente
de bem o adora: mas você
não póde... Pois eu estou para o Cavalleiro como
você para o pepino.
Não posso! Não ha molhos, nem razões,
que m'o disfarcem. Para mim
é ascoroso. Não vae! Vomito!... E agora
ouça...
Então Titó, que bocejava, interveio,
já farto:
―Bem! Parece-me que apanhamos a nossa dóse
[53]de Cavalleiro, e
valente! Somos todos muito boas pessoas e só nos resta
debandar. Eu
tive senhora, tive tainha... Estou derreado. E não tarda a
madrugada, que
vergonha!
O Administrador pulou. Oh Diabo! E elle, ás nove horas da
manhã, com commissão de recenseamento!... Para
esmagar bem o
amúo, cingiu Gonçalo n'um rijo abraço.
E, quando o Fidalgo descia para o Chafariz
com o Videirinha (que n'estas noites festivas de Villa Clara o
acompanhava sempre pela estrada até ao portão da
Torre),
João Gouveia ainda se voltou, pendurado do braço
do Titó no meio da
Calçadinha, para lhe lembrar um preceito moral «de
não sei que
philosopho»:
―«Não vale a pena estragar boa ceia por causa de
má politica...» Creio que é
d'Aristoteles!
E até Videirinha, que de novo afinava a viola, se preparava
para um solto descante ao luar, murmurou respeitosamente por entre
abafados harpejos:
―Não vale a pena, Sr. Doutor... Realmente não
vale a pena, por que em Politica hoje é branco,
ámanhã
é negro, e depois, zás, tudo é nada!
O fidalgo encolhera os hombros. A Politica! Como se elle pensasse na
Auctoridade, no Sr. Governador civil d'Oliveira―quando injuriava o Sr.
André Cavalleiro, de Corinde! Não! o que
detestava era o
[54]homem―o
falso homem d'olho langoroso! Por que entre elles existia um d'esses
fundos aggravos que outr'ora, no tempo dos Tructesindos, armavam um
contra o outro, em dura arrancada de lanças, dois bandos
senhoriaes...―E pela estrada, com a lua no alto dos oiteiros de
Valverde, em quanto no
violão do Videirinha tremia o choro lento do fado do
Vimioso,
Gonçalo Mendes recordava, aos pedaços, aquella
historia que tanto enchera a
sua alma desoccupada. Ramires e Cavalleiros eram familias vizinhas, uma
com a velha torre em Santa Ireneia, mais velha que o Reino―a outra com
quinta bem tratada e rendosa em Corinde. E quando elle, rapaz de
dezoito annos, enfiava enfastiadamente os preparatorios do Lyceu,
André
Cavalleiro, então estudante do Terceiro-Anno, já
o tratava
como um amigo serio. Durante as férias, como a
mãe lhe dera um
cavallo, apparecia todas as tardes na Torre; e muitas vezes, sob os
arvoredos da quinta ou passeando pelos arredores de Bravaes e Valverde,
lhe confiava, como a um espirito maduro, as suas
ambições politicas, as suas
idéas de vida que desejava grave e toda votada ao Estado.
Gracinha Ramires desabrochava na
flôr dos
seus dezeseis annos; e mesmo em Oliveira lhe chamavam a
«flôr da Torre».
Ainda então vivia a governante ingleza de Gracinha, a boa
Miss Rhodes―que, como todos na Torre, admirava com enthusiasmo
André
[55]
Cavalleiro pela sua amabilidade, a sua ondeada cabelleira romantica, a
doçura quebrada dos seus olhos largos, a maneira ardente de
recitar Victor Hugo e João de Deus. E, com essa fraqueza que
lhe
amollecia a alma e os principios perante a soberania do Amor,
favorecera demoradas conversas de André com Maria da
Graça sob as
olaias do Mirante e mesmo cartinhas trocadas ao escurecer por sobre o
muro baixo da
Mãe d'Agua. Todos os domingos o Cavalleiro jantava na
Torre:―e o velho procurador Rebello já
preparára, com esforço e
resmungando, um conto de reis para o enxoval da
«menina». O pae de Gonçalo,
Governador Civil de Oliveira, sempre atarefado, enredado em Politica e
em dividas, amanhecendo
só na Torre aos Domingos, approvava esta
collocação de
Gracinha, que, meiga e romanesca, sem mãe que a velasse,
creava na sua vida,
já difficil, um tropeço e um cuidado. Sem
representar como elle uma familia
de immensa Chronica, anterior ao Reino, do mais rico sangue de Reis
godos,
André Cavalleiro era um moço bem nascido, filho
de general, neto de desembargador, com brasão legitimo na
sua casa
apalaçada de Corinde, e terras fartas em redor, de boa
semeadura, limpas de hypothecas... Depois, sobrinho de Reis Gomes, um
dos Chefes Historicos, já
filiado no Partido Historico (desde o Segundo Anno da Universidade), a
sua carreira
[56]
andava marcada com segurança e brilho na Politica e na
Administração. E emfim Maria da Graça
amava enlevadamente aquelles reluzentes
bigodes, os hombros fortes de Hercules bem educado, o porte ufano que
lhe encouraçava o peitilho e que impressionava. Ella, em
contraste, era pequenina e fragil, com uns olhos timidos e esverdeados
que o sorriso humedecia e enlanguescia, uma transparente pelle de
porcellana fina, e cabellos magnificos, mais lustrosos e negros que a
cauda d'um corcel de guerra, que lhe rolavam até aos
pés, em que se
podia embrulhar toda, assim macia e pequenina. Quando desciam ambos as
alamedas da quinta, miss Rhodes (que o pae, professor de Litteratura
Grega em Manchester, recheára de Mithologia) pensava sempre
em «Marte
cheio de força amando Psyché cheia de
graça.» E mesmo os
criados da Torre se maravilhavam do «lindo par!»
Só a Snr.
a D. Joaquina
Cavalleiro, a mãe de André, senhora obesa e
rabugenta, detestava aquella terna assiduidade do filho na Torre, sem
motivo pesado, só por «desconfiar da
pinta da menina e desejar nóra mais comesinha...»
Felizmente, quando
André Cavalleiro se matriculava no Quinto Anno, a
desagradavel matrona morreu d'uma anasarca. O pae de Gonçalo
recebeu a chave do
caixão: Gracinha tomou luto: e Gonçalo,
companheiro de casa do Cavalleiro na rua de
S. João, em Coimbra, enrolou um fumo na manga
[57]da batina. Logo em Santa
Ireneia se pensou que o explendido André, libertado da
pêca
opposição da mamã, pediria a
«Flôr da Torre» depois do Acto
de Formatura. Mas, findo esse desejado Acto, Cavalleiro abalou para
Lisboa―por que se preparavam Eleições em
Outubro, e elle recebera do tio Reis
Gomes, então Ministro da Justiça, a promessa de
«ser deputado»
por Bragança.
E todo esse verão o passou na Capital; depois em Cintra,
onde o negro langor dos seus olhos humidos amollecia
corações;
depois n'uma jornada quasi triumphal a Bragança com foguetes
e «vivas
ao sobrinho do Sr. conselheiro Reis Gomes!» Em Outubro
Bragança
«confiou ao dr. André Cavalleiro (como escreveu o
Echo
de Traz-os-Montes)
o direito de a representar em Côrtes com os seus brilhantes
conhecimentos
litterarios e a sua formosissima presença de
orador...» Recolheu
então a Corinde; mas nas suas visitas á Torre,
onde o pae de Gonçalo
convalescia d'uma febre gastrica que exacerbára a sua antiga
diabetes,
André já não arrastava sofregamente
Gracinha, como outr'ora, para as silenciosas sombras da quinta,
permanecendo de preferencia na sala azul, a conversar sobre Politica
com Vicente Ramires, que se não movia da poltrona,
embrulhado n'uma manta. E Gracinha, nas suas cartas para Coimbra a
Gonçalo, já se carpia de não correrem
tão doces nem
tão intimas
[58]as
visitas do André á Torre, «occupado,
como andava sempre agora, a estudar para
deputado...»
Depois do Natal o Cavalleiro voltou para Lisboa, para a abertura das
Côrtes, muito apetrechado, com o seu creado Matheus, uma
linda egua que comprára em Villa Clara ao Manoel Duarte, e
dous caixotes de
livros. E a boa Miss Rhodes sustentava que Marte, como convinha a um
heróe, só reclamaria Psyché depois
d'um nobre feito, uma estreia nas
Camaras, «n'um discurso lindo, todo
flôres...»
Quando Gonçalo, nas férias de Paschoa,
appareçeu na Torre, encontrou Gracinha inquieta e
descorada. As
cartas do seu André, que se estreára «e
n'um discurso lindo, todo flôres...», eram cada
semana mais curtas, mais
calmas. E a ultima (que ella lhe mostrou em segredo), datada da Camara,
contava em tres linhas mal rabiscadas «que tivera muito que
trabalhar em
commissões, que o tempo se pozera lindo, que n'essa noite
era o baile dos condes de Villaverde, e que elle continuava com muitas
saudades o seu fiel André...» Gonçalo
Mendes Ramires, logo
n'essa tarde, desabafou com o pae, que definhava na sua poltrona:
―Eu acho que o André se está portando muito mal
com a Gracinha... O papá não lhe parece?
Vicente Ramires apenas moveu, n'um gesto de vencida tristeza, a
mão descarnada d'onde a cada momento lhe escorregava o annel
d'armas.
[59]
Por fim em Maio a sessão das Camaras terminou―essa
sessão que tanto interessára Gracinha, anciosa
«que elles
accabassem de discutir e tivessem férias.» E quasi
immediatamente ella em
Santa Ireneia, Gonçalo em Coimbra, souberam pelos jornaes
que «o talentoso deputado
André Cavalleiro partira para Italia e França
n'uma longa viagem
de recreio e d'estudo.» E nem uma carta á sua
escolhida, quasi
sua noiva!... Era um ultraje, um bruto ultraje, que outr'ora, no seculo
XII,
lançaria todos os Ramires, com homens de cavallo e peonagem,
sobre o solar dos Cavalleiros, para deixar cada trave denegrida pela
chamma, cada servo pendurado d'uma corda de canave. Agora Vicente
Ramires, apagado e mortal, murmurou simplesmente: «Que
traste!» Elle
em Coimbra, rugindo, jurou esbofetear um dia o infame! A boa Miss
Rhodes, para se consolar, desembrulhou a sua velha harpa, encheu Santa
Ireneia de magoados harpejos. E tudo findou nas lagrimas que Gracinha,
durante semanas,
tão desconsolada da vida que nem se penteava, escondeu sob
as olaias do Mirante.
E, ainda depois d'esses annos, a esta lembrança das lagrimas
da irmã, um rancor invadiu Gonçalo,
tão redivivo que atirou
para o lado, para sobre as sebes da valla, uma bengallada, como se
fossem ás costas
do Cavalleiro!―Caminhavam então junto á
[60]ponte da
Portella, onde os campos se alargam, e da estrada se avista
Villa-Clara, que a lua branqueava toda, desde o convento de Santa
Thereza, rente ao Chafariz,
até ao muro novo do cemiterio, no alto, com os seus finos
cyprestes. Para o fundo do valle, clara tambem no luar, era a egrejinha
de Craquêde,
Santa Maria de Craquêde, resto do antigo Mosteiro em que
ainda jaziam, nos
seus rudes tumulos de granito, as grandes ossadas dos Ramires
Affonsinos. Sob o arco, docemente, o riacho lento, arrastando entre os
seixos, sussurrava na sombra. E Videirinha, enlevado n'aquelle silencio
e suavidade saudosa, cantava, n'um gemer surdo de bordões:
Baldadas são tuas queixas,
Escusados são teus ais,
Que é como se eu morto
fôra.
E não me verás
nunca mais!...
E Gonçalo retomára as suas
recordações, repassava tristezas que depois
cahiram sobre a Torre. Vicente Ramires morrera n'uma tarde d'Agosto,
sem soffrimento, estendido na sua poltrona á varanda, com os
olhos cravados na velha Torre, murmurando para o padre
Soeiro:―«Quantos
Ramires verá ella ainda, n'esta casa, e á sua
sombra?...» Todas
essas ferias as consumiu Gonçalo no escuro cartorio,
desajudado
[61](por
que o
procurador, o bom Rebello, tambem Deus o chamára),
revolvendo papeis,
apurando o estado da casa―reduzida aos dois contos e trezentos mil
reis que rendiam os foros de Craquêde, a herdade de Praga, e
as duas
quintas historicas, Treixedo e Santa Ireneia. Quando regressou a
Coimbra deixou Gracinha em Oliveira, em casa de uma prima, D. Arminda
Nunes Viegas, senhora muito abastada, muito bondosa, que habitava no
Terreiro da
Louça um immenso casarão cheio de retratos
d'avoengos e de arvores
de costado, onde ella, vestida de velludo preto, pousada n'um
camapé de
damasco, entre aias que fiavam, perpetuamente relia os seus Livros de
Cavallaria, o
Amadis,
Leandro o Bello,
Tristão
e
Brancaflôr, as
Chronicas do Imperador
Clarimundo... Foi ahi que José
Barrôlo
(senhor d'uma das mais ricas casas d'Amarante) encontrou Gracinha
Ramires, e a amou com uma paixão profunda, quasi
religiosa―estranha n'aquelle
moço indolente, gorducho, de bochechas coradas como uma
maçã, e
tão escasso d'espirito que os amigos lhe chamavam
«o José
Bacôco». O bom Barrolo residira sempre em Amarante
com a mãe, não conhecia o
trahido romance da «Flôr da Torre»―que
nunca se espalhára para
além dos cerrados arvoredos da quinta. E, sob o enternecido
e romanesco patrocinio de D. Arminda, noivado e casamento docemente se
apressaram, em tres mezes,
[62]depois
d'uma carta de Barrôlo a Gonçalo Mendes Ramires
jurando―«que a affeição pura que
sentia pela prima Graça, pelas suas virtudes e outras
qualidades respeitaveis, era tão grande que nem achava no
Diccionario
termos para a explicar...» Houve uma bôda luxuosa:
e os noivos
(por desejo de Gracinha, para se não affastar da querida
Torre), depois
d'uma jornada filial a Amarante, «armaram o seu
ninho» em
Oliveira, á esquina do largo d'El-Rei e da rua das
Tecedeiras, n'um palacete que o Bacôco
herdára, com largas terras, do seu tio Melchior,
Deão da
Sé. Dois annos correram, mansos e sem historia. E
Gonçalo Mendes Ramires passava
justamente em Oliveira as suas ultimas férias de Paschoa
quando
André Cavalleiro, nomeado Governador Civil do Districto,
tomou posse, estrondosamente, com foguetes, philarmonicas, o Governo
civil e o Paço do Bispo
illuminados, as armas dos Cavalleiros em transparentes no
café da Arcada
e na Recebedoria!... Barrôlo conhecia o Cavalleiro quasi
intimamente, admirava o seu talento, a sua elegancia, o seu brilho
Politico. Mas Gonçalo Mendes Ramires, que dominava
soberanamente o bom
Bacôco, logo o intimou a não visitar o Sr.
Governador Civil, a
não o saudar sequer na rua, e a partilhar, por dever
d'alliança, os rancores que
existiam entre Cavalleiros e Ramires! José Barrôlo
cedeu,
submisso, espantado, sem comprehender.
[63]Depois
uma noite, no quarto, enfiando as chinellas, contou a Gracinha
«a exquisitice de Gonçalo»:
―E sem motivo, sem offensa, só por causa da Politica!...
Ora, vê tu! Um bello rapaz como o Cavalleiro! Podiamos fazer
um ranchinho
tão agradavel!...
Outro sereno anno passou... E n'essa primavera, em Oliveira, onde se
demorára para a festa dos annos de Barrôlo, eis
que Gonçalo suspeita, fareja, descobre uma incomparavel
infamia! O impertigado homem da bigodeira negra, o Sr. André
Cavalleiro,
recomeçára com soberba impudencia a cortejar
Gracinha Ramires, de longe, mudamente, em olhadellas fundas, carregadas
de saudade e langor, procurando agora apanhar como amante aquella
grande fidalga, aquella Ramires, que desdenhára como esposa!
Tão levado ia Gonçalo pela branca estrada, no
rolo amargo d'estes pensamentos, que não reparou no
portão da Torre,
nem na portinha verde, á esquina da casa, sobre tres
degráos. E seguia,
rente do muro da horta, quando Videirinha, que estacára com
os dedos mudos nos
bordões do violão, o avisou, rindo:
―Oh, Sr. Doutor, então larga assim, a estas horas de
corrida para os Bravaes?
[64]
Gonçalo virou, bruscamente despertado, procurando na
algibeira, entre o dinheiro solto, a chavinha do trinco:
―Nem reparava... Que lindamente você tem tocado, Videirinha!
Com lua, depois de ceia, não ha companheiro mais poetico...
Realmente
você é o derradeiro trovador portuguez!
Para o ajudante de Pharmacia, filho d'um padeiro d'Oliveira, a
familiaridade d'aquelle tamanho Fidalgo, que lhe apertava a
mão na botica deante do Pires boticario e em Oliveira deante
das Auctoridades, constituia uma gloria, quasi uma
coroação, e
sempre nova, sempre deliciosa. Logo sensibilisado, feriu os
bordões rijamente:
―Então, para acabar, lá vae a grande trova, Sr.
Doutor!
Era a sua famosa cantiga, o
Fado dos Ramires,
rosario de heroicas Quadras celebrando as Lendas da Casa illustre―que
elle desde mezes apurava e completava, ajudado na terna tarefa pelo
saber do velho Padre Soeiro, capellão e archivista da Torre.
Gonçalo empurrou a portinha verde. No corredor espirrava uma
lamparina mortiça, já sem azeite, junto ao
castiçal de prata. E Videirinha, recuando ao meio da
estrada, com um «dlindlon»
ardente, fitára a Torre, que, por cima dos telhados da vasta
casa, mergulhava as ameias, o negro miradoiro,
[65]no
luminoso silencio do ceu de verão. Depois para
ella e para a lua atirou as endeixas glorificadoras, na dolente melodia
d'um fado de Coimbra, rico em
ais:
Quem te v'rá sem que
estremeça,
Torre de Santa Ireneia,
Assim tão negra e callada,
Por noites de lua cheia...
Ai! Assim callada,
tão negra,
Torre de Santa
Ireneia!
Ainda suspendeu para agradecer ao Fidalgo, que o convidava a subir e
enxugar um calice de genebra salvadora. Mas retomou logo o descante,
ditoso em descantar, como sempre arrebatado pelo sabor dos seus versos,
pelo prestigio das Lendas, emquanto Gonçalo
desapparecia―com folgazãs desculpas ao Trovador
«por cerrar a portinha do
Castello...»
Ai! ahi estás, forte e
soberba,
Com uma historia em cada ameia,
Torre mais velha que o reino,
Torre de Santa Ireneia!...
E começára a quadra a Muncio Ramires,
Dente
de
Lobo, quando em cima uma sala, aberta á frescura
da noite, se allumiou―e o
Fidalgo da Torre,
[66]
com o charuto acceso, se debruçou da varanda para receber a
serenada. Mais ardente, quasi soluçante, vibrou o cantar do
Videirinha. Agora era a quadra de Gutierres Ramires, na Palestina,
sobre o monte das Oliveiras, á porta da sua tenda, deante
dos
Barões que o acclamavam com as espadas nuas, recusando o
Ducado de Galiléa e o senhorio
das Terras d'Além-Jordão.―Que não
podia, em
verdade, acceitar terra, mesmo Santa, mesmo de Galiléa...
Quem já tinha em Portugal
Terras de Santa Ireneia!
―Boa piada! murmurou Gonçalo.
Videirinha, enthusiasmado, entoou logo outra nova, trabalhada n'essa
semana―a do sahimento de Aldonça Ramires, Santa
Aldonça, trazida do mosteiro d'Arouca ao solar de Treixedo,
sobre o almadraque em que morrera, aos hombros de quatro Reis!
―Bravo! gritou o Fidalgo pendurado da varanda. Essa é
famosa, oh Videirinha! Mas ahi ha Reis de mais... Quatro Reis!
Enlevado, empinando o braço do violão, o ajudante
da Pharmacia lançou outra, já antiga―a d'aquelle
terrivel Lopo Ramires que,
morto, se erguera da sua campa no Mosteiro de Craquêde,
montára um
[67]ginete
morto, e toda a noite galopára atravez da Hespanha para se
bater nas
Navas de Tolosa! Pigarreou―e, mais chorosamente, atacou a do
Descabeçado:
Lá passa a negra figura...
Mas Gonçalo, que abominava aquella lenda, a silenciosa
figura degolada, errando por noites de inverno entre as ameias da Torre
com a
cabeça nas mãos―despegou da varanda, deteve a
Chronica immensa:
―Toca a deitar, oh Videirinha, hein? Passa das tres horas,
é um horror. Olhe! O Titó e o Gouveia jantam
cá na Torre, no
Domingo. Appareça tambem, com o violão e cantiga
nova: mas menos sinistra...
Bona sera! Que linda noite!
Atirou o charuto, fechou a vidraça da sala―a
«sala velha,» toda revestida d'esses denegridos e
tristonhos retratos de Ramires que elle desde pequeno chamava as
carantonhas
dos vovós.
E,
atravessando o corredor, ainda sentia rolarem ao longe, no silencio dos
campos cobertos de luar, façanhas rimadas dos seus:
Ai! lá na grande batalha...
El-Rei Dom Sebastião...
O mais moço dos Ramires
Que era pagem do guião...
[68]
Despido, soprada a vella, depois de um rapido signal da cruz, o Fidalgo
da Torre adormeceu. Mas no quarto, que se povoou de Sombras,
começou para elle uma noite revôlta e pavorosa.
André
Cavalleiro e João Gouveia romperam pela parede, revestidos
de cótas de malha, montados
em horrendas tainhas assadas! E lentamente, piscando o olho
máo, arremessavam contra o seu pobre estomago pontoadas de
lança,
que o faziam gemer e estorcer sobre o leito de pau preto. Depois era,
na Calçadinha de Villa-Clara, o medonho Ramires morto, com a
ossada a ranger dentro da armadura, e El-rei Dom Affonso II,
arreganhando afiados dentes de lobo, que o arrastavam furiosamente para
a batalha das Navas. Elle resistia, fincado nas lages, gritando pela
Rosa, por Gracinha, pelo Titó! Mas D. Affonso tão
rijo murro lhe despedia
aos rins, com o guante de ferro, que o arremessava desde a Hospedaria
do Gago até
á Serra Morena, ao campo da lide, luzente e fremente de
pendões e
d'armas. E immediatamente seu primo d'Hespanha, Gomes Ramires, Mestre
de Calatrava, debruçado do negro ginete, lhe arrancava os
derradeiros
cabellos, entre a retumbante galhofa de toda a hoste sarracena e os
prantos da tia Louredo trazida como um andor aos hombros de quatro
Reis!...―Por fim, moido, sem socêgo, já com a
madrugada clareando
nas fendas das janellas
e as
[69]andorinhas
piando no beiral dos telhados, o Fidalgo da Torre atirou um derradeiro
repellão aos lençoes, saltou ao
soalho, abrio a vidraça―e respirou deliciosamente o
silencio, a frescura, a verdura, o repouso da quinta. Mas que
sêde! uma sêde desesperada que lhe
encortiçava os labios! Recordou então o famoso
fruit
salt
que lhe
recommendára o Dr. Mattos,―arrebatou o frasco, correu
á sala de jantar, em
camisa. E, a arquejar, deitou duas fartas colheradas n'um copo d'agua
da Bica-Velha, que esvasiou d'um trago, na fervura picante.
―Ah! que consolo, que rico consolo!...
Voltou derreadamente á cama: e readormeceu logo, muito
longe, sobre as relvas profundas d'um prado d'Africa, debaixo de
coqueiros susurrantes, entre o apimentado aroma de radiosas flores que
brotavam atravez de pedregulhos d'oiro. D'essa perfeita beatitude o
arrancou o Bento, ao meio dia, inquieto com «aquelle tardar
do Sr.
Doutor.»
―É que passei uma noite horrenda, Bento! Pesadelos,
pavores, bulhas, esqueletos... Foram os malditos ovos com
chouriço; e o
pepino... Sobretudo o pepino! Uma idéa d'aquelle animal do
Titó... Depois, de madrugada, tomei o tal
fruit
salt, e estou
optimo, homem!... Estou optimissimo! Até me sinto capaz de
trabalhar. Leva para a
livraria uma chavena de chá verde, muito forte... Leva
tambem torradas.
[70]
E momentos depois, na livraria, com um roupão de flanella
sobre a camisa de dormir, sorvendo lentos goles de chá,
Gonçalo
relia junto da varanda essa derradeira linha da Novella, tão
rabiscada e molle, em
que «os largos raios da lua se estiravam pela larga sala
d'armas...»
De repente, n'uma rasgada impressão de claridade, entreviu
detalhes
expressivos para aquella noite de Castello e de verão―as
pontas das
lanças dos esculcas faiscando silenciosamente pelos adarves
da muralha, e o coaxar triste das rans nas bordas lodosas dos fossos...
―Bons traços!
Achegou de vagar a cadeira, consultou ainda no volume do
Bardo
o Poemeto do tio Duarte. E, desannuviado, sentindo as Imagens e os
Dizeres surgirem como bolhas d'uma agua represa que rebenta, atacou
esse lance do Capitulo I em que o velho Tructesindo Ramires, na sala
d'armas de Santa Ireneia, conversava com seu filho Lourenço
e seu primo
D. Garcia Viegas, o
Sabedor, de aprestos de
guerra...
Guerra! Porque? Acaso pelos cerros arraianos corriam, ligeiros entre o
arvoredo, almogavares mouros? Não! Mas
desgraçadamente,
«n'aquella terra já remida e christã,
em breve se crusariam, umas contra outras, nobre lanças
portuguezas!...»
Louvado Deus! a penna desemperrára! E, attento
[71]ás
paginas marcadas n'um tomo da
Historia
d'Herculano, esboçou
com
segurança a Epocha da sua Novella―que abria entre as
discordias de Affonso II e de seus
irmãos por causa do testamento d'El-Rei seu pae, D. Sancho
I. N'esse
começo do Capitulo já os Infantes D. Pedro e D.
Fernando, esbulhados,
andavam por França e Leão. Já com
elles
abandonára o Reino o forte primo dos Ramires,
Gonçalo Mendes de Souza, chefe magnifico da casa
dos Souzas. E agora, encerradas nos castellos de Monte-Mór e
de Esgueira,
as senhoras Infantas, D. Thereza e D. Sancha, negavam a D. Affonso o
senhorio real sobre as villas, fortalezas, herdades e mosteiros, que
tão
copiosamente lhes doára El-Rei seu pae. Ora, antes de morrer
no
Alcaçar de Coimbra, o senhor D. Sancho supplicára
a Tructesindo Mendes Ramires,
seu collaço e Alferes-Mór, por elle armado
cavalleiro em
Lorvão, que sempre lhe servisse e defendesse a filha amada
entre todas, a infanta D. Sancha, senhora de Aveyras. Assim o
jurára o leal Rico-Homem junto
do leito onde, nos braços do Bispo de Coimbra e do Prior do
Hospital
sustentando a candeia, agonisava, vestido de burel como um penitente, o
vencedor de Silves... Mas eis que rompe a féra contenda
entre Affonso II, asperamente cioso da sua auctoridade de Rei―e as
Infantas, orgulhosas, impellidas á resistencia pelos freires
do Templo e pelos
Prelados a quem
[72]D. Sancho
legára tão vastos pedaços do
Reino! Immediatamente Alemquer e os arredores d'outros castellos
são devastados pela hoste
real que recolhia das Navas de Tolosa. Então D. Sancha e D.
Thereza
appellam para El-rei de Leão, que entra com seu filho D.
Fernando por
terras de Portugal a soccorrer as «Donas
opprimidas.»―E
n'este lance o tio Duarte, no seu
Castello de Santa Ireneia,
interpellava com soberbo garbo o Alferes-Mór de Sancho I:
Que farás tu, mais velho
dos
Ramires?
Se ao pendão leonez juntas o
teu
Trahes o preito que deves ao rei vivo!
Mas se as Infantas deixas indefezas
Trahes a jura que déstes ao
rei morto!...
Esta duvida, porém, não angustiára a
alma d'esse Tructesindo rude e leal que o Fidalgo da Torre rijamente
modelava. N'essa noite, apenas recebera pelo irmão do
Alcaide d'Aveyras, disfarçado em
beguino, um afflicto recado da senhora D. Sancha―ordenava a seu filho
Lourenço
que, ao primeiro arreból, com quinze lanças,
cincoenta
homens de pé da sua mercê e quarenta besteiros,
corresse sobre Monte-mór. Elle no
emtanto daria alarido―e em dous dias entraria a campo com os parentes
de solar, um troço mais rijo de cavalleiros acontiados e de
[73]frecheiros,
para se juntar a seu primo, o
Souzão,
que na
vanguarda dos
leonezes descia d'Alva-do-Douro.
Depois logo de madrugada o pendão dos Ramires, o
Açor negro em campo escarlate, se plantára deante
das barreiras gateadas: e ao
lado, no chão, amarrado á haste por uma tira de
couro,
reluzia o velho emblema senhorial, o sonoro e fundo
caldeirão polido. Por todo o
Castello se apressavam os serviçaes, despendurando as
cervilheiras,
arrastando com fragor pelas lages os pesados saios de malhas de ferro.
Nos pateos os armeiros aguçavam ascumas, amaciavam a dureza
das grevas e
coxotes com camadas d'estopa. Já o adail, na ucharia,
arrolára as rações de vianda para os
dous quentes dias da arrancada. E por todas as cercanias de Santa
Ireneia, na doçura da tarde, os atambores mouriscos,
abafados no arvoredo, tararam! tararam! ou mais vivos nos
cabeços,
ratatam! ratatam! convocavam os cavalleiros de soldo e a peonagem da
mesnada dos Ramires.
No emtanto o irmão do Alcaide, sempre disfarçado
em beguino, de volta ao castello d'Aveyras com a boa nova de prestes
soccorros, transpunha ligeiramente a levadiça da carcova...
E aqui, para alegrar
tão sombrias vesperas de guerra, o tio Duarte, no seu
Poemeto, engastára
uma sorte galante:
[74]
Á moça, que na
fonte enchia a bilha,
O frade rouba um beijo e diz Amen!
Mas Gonçalo hesitava em desmanchar com um beijo de clerigo a
pompa d'aquella formosa sortida d'armas... E mordia pensativamente a
rama da penna―quando a porta da livraria rangeu.
―O correio...
Era o Bento com os Jornaes e duas cartas. O Fidalgo apenas abriu uma,
lacrada com o enorme sinete d'armas do Barrôlo―repellindo a
outra em que reconhecera a lettra detestada do seu alfaiate de Lisboa.
E immediatamente, com uma palmada na mesa:
―Oh diabo! quantos do mez, hoje? quatorze, hein?
O Bento esperava com a mão no fecho da porta.
―É que não tardam os annos da mana
Graça! De todo esqueci, esqueço sempre. E sem ter
um presentinho engraçado... Que secca,
hein?
Mas na véspera o Manoel Duarte, na Assembléa,
á mesa do voltarete, annunciára uma fuga a Lisboa
por tres dias, para tratar do
emprego do sobrinho nas Obras Publicas. Pois corria a Villa-Clara pedir
ao snr. Manoel Duarte que lhe comprasse em Lisboa um bonito
guarda-solinho de sêda branca com rendas...
―O snr. Manoel Duarte tem gosto; tem muito
[75]gosto!
E então o
Joaquim que não selle a egoa; já não
vou ao
Sanches Lucena. Oh, senhores, quando pagarei eu esta infame visita? Ha
tres mezes!... Emfim, por dous dias mais a bella D. Anna não
envelhece; e o velho Lucena tambem
não morre.
E o Fidalgo da Torre, que decidira arriscar o beijo
folgazão, retomou a penna, arredondou o seu final com
elegante harmonia:
«A moça, furiosa, gritou:
Fu!
Fu!
villão! E o beguino, assobiando,
aligeirou as sandalias pelo corrego, na sombra das altas faias,
emquanto que por todo o fresco valle, até Santa Maria de
Craquêde, os atambores mouriscos, tararam! ratamtam!
convocavam á mesnada dos
Ramires, na doçura da tarde...»
III
Durante a longa semana, nas horas da calma, o Fidalgo da Torre
trabalhou com afferro e proveito. E n'essa manhã, depois de
repicar a
sineta no corredor, duas vezes o Bento empurrára a porta da
livraria,
avisando o snr. Doutor «que o almocinho, assim á
espera,
certamente se estragava.» Mas de sobre a tira
d'almaço Gonçalo rosnava
«já vou!»―sem despegar a penna, que
corria como quilha leve em agua mansa, na pressa amorosa de terminar,
antes do almoço, o seu Capitulo I.
Ah! e que canceira lhe custára, durante esses dias, esse
copioso Capitulo, tão difficil, com o immenso Castello de
Santa
Ireneia a erguer; e toda uma edade esfumada da Historia de Portugal a
condensar em contornos robustos; e a mesnada dos Ramires a apetrechar,
sem que faltasse uma ração nos
[78]alforges,
ou uma garruncha
nos caixotes, sobre o dorso das mulas! Mas felizmente, na vespera,
já movera para
fóra do Castello o troço de Lourenço
Ramires, em soccorro
de Monte-mór, com um vistoso coriscar de capellos e
lanças em torno ao
pendão tendido.
E agora, n'esse remate do Capitulo, era noite, e o sino de recolher
tangera, e a almenára luzira na Torre albarran, e
Tructesindo Ramires descera á sala terrea da
Alcaçova para
ceiar―quando fóra, deante da carcova, com tres toques
fortes annunciando filho-d'algo, uma bozina apressada soou. E, sem que
o villico tomasse permissão do
Senhor, o alçapão da levadiça rangeu
nas
correntes de ferro, rebombou cavamente nos apoios de pedra. Quem assim
chegava em dura pressa era Mendo Paes, amigo de Affonso II e mordomo da
sua Curia, casado com a filha mais velha de Tructesindo, D.
Theresa―aquella que, pelo ondeante e alvo pescoço, pelo
pisar mais leve que um vôo, os
Ramires chamavam a
Garça Real. O
Senhor de Santa Ireneia correra ao patim para
acolher, n'um abraço, o genro amado―«membrudo
cavalleiro, com
os cabellos ruivos, a alvissima pelle da raça germanica dos
visigodos...» E, de mãos enlaçadas,
ambos penetraram n'essa sala de abobada,
allumiada por tochas que toscos anneis de ferro seguravam, chumbados
aos muros.
Ao meio pousava a massiça meza de carvalho,
[79]rodeada de
escanhos até ao topo, onde se erguia, deante d'um aspero
mantel de linho coberto de pratos de estanho e de picheis luzidios, a
cadeira senhorial com o
Açor grossamente lavrado nas altas espaldas, e d'ellas
suspensa, pelo cinturão tauxeado de prata, a espada de
Tructesindo. Por
traz negrejava a funda lareira apagada, toda entulhada de ramos de
pinheiro, com a prateleira guarnecida de conchas, entre bocaes de
sanguesugas, sob dois molhos de palmas trazidas da Palestina por
Gutierres Ramires, o
d'Ultramar. Rente a um
esteio da
chaminé, um
falcão, ainda emplumado, dormitava na sua alcondora: e ao
lado, sobre as lages, n'uma camada de juncos, dois alões
enormes dormiam tambem, com o focinho nas
patas, as orelhas rojando. Toros de castanheiro sustentavam a um canto
um pipo de vinho. Entre duas frestas engradadas de ferro, um monge, com
a face sumida no capuz, sentado na borda de uma arca, lia, á
claridade do candil que por cima fumegava, um pergaminho desenrolado...
Assim
Gonçalo adornára a soturna sala Affonsina com
alfaias tiradas do Tio
Duarte, de Walter Scott, de narrativas do
Panorama.
Mas que
esforço!... E mesmo, depois de collocar sobre os joelhos do
monge um folio impresso em Moguncia por Ulrick Zell,
desmanchára toda essa linha
tão erudita, ao recordar, com um murro na mesa, que ainda a
Imprensa
[80]se
não
inventára em tempos de seu avô Tructesindo, e que
ao monge lettrado apenas
competia «um pergaminho de amarellada escripta...»
E caminhando nos ladrilhos sonoros, desde a lareira até ao
arco da porta cerrado por uma cortina de couro, Tructesindo, com a
branca barba espalhada sobre os braços cruzados, escutava
Mendo Paes,
que, na confiança de parente e amigo, jornadeára
sem
homens da sua mercê, cingindo apenas por cima do brial de
lã cinzenta uma espada
curta e um punhal sarraceno. Açodado e coberto de
pó correra
Mendo Paes desde Coimbra para supplicar ao sogro, em nome do Rei e dos
preitos jurados, que se não bandeasse com os de
Leão e com as
senhoras Infantas. E já desenrolára ante o velho
todos os fundamentos invocados
contra ellas pelos doutos Notarios da Curia―as
resoluções do
Concilio de Toledo! a bulla do Apostolo de Roma, Alexandre! o velho
fóro dos
Visigodos!... De resto, que injuria fizera ás senhoras
Infantas seu real
irmão para assim chamarem hostes Leonezas a terras de
Portugal? Nenhuma! Nem regedoria nem renda dos castellos e villas da
doação de D.
Sancho lhes negava o senhor D. Affonso. O Rei de Portugal só
queria que nenhum
palmo de chão portuguez, baldio ou murado, jazesse
fóra de seu senhorio
real. Escasso e avido El-Rei D. Affonso?... Mas não
entregára
elle á senhora D. Sancha
[81]oito
mil
morabitinos d'oiro? E a gratidão da irmã
fôra o Leonez passando a raia e logo cahidos os castellos
formosos d'Ulgoso, de Contrasta, d'Urros e de Lanhosello! O mais velho
da casa dos Souzas,
Gonçalo Mendes, não se encontrára ao
lado dos cavalleiros
da Cruz na jornada das Navas, mas lá andava em recado das
Infantas, como moiro,
talando terra portugueza desde Aguiar até Miranda! E
já pelos
cerros d'Além-Douro apparecera o pendão renegado
das treze arruellas―e por
traz, farejando, a alcateia dos Castros! Carregada ameaça, e
de armas
christãs, opprimindo o Reino―quando ainda Moabitas e
Agarenos corriam
á redea solta pelos campos do Sul!... E o honrado Senhor de
Santa Ireneia, que tão rijamente ajudára a fazer
o Reino,
não o deveria decerto desfazer arrancando d'elle os
pedaços melhores para monges e para
donas rebeldes!―Assim, com arremessados passos, exclamára
Mendo
Paes, tão acalorado do esforço e da
emoção, que
duas vezes encheu de vinho uma conca de pau e d'um trago a despejou.
Depois, limpando a bocca
ás costas da mão tremula:
―Ide por certo a Monte-mór, senhor Tructesindo Ramires! Mas
em recado de paz e boa avença, persuadir vossa senhora D.
Sancha e as
senhoras Infantas que voltem honradamente a quem hoje contam por seu
pae e seu Rei!
[82]
O enorme senhor de Santa Ireneia parára, pousando no genro
os olhos duros, sob a ruga das sobrancelhas, hirsutas e brancas como
sarças em manhã de geada:
―Irei a Monte-mór, Mendo Paes, mas levar o meu sangue e o
dos meus para que justiça logre quem justiça tem.
Então Mendo Paes, amargurado, ante a heroica teima:
―Maior dó, maior dó! Será bom sangue
de Ricos-homens vertido por más desfórras...
Senhor Tructesindo Ramires, sabei que em
Canta-Pedra vos espera Lopo de Baião, o Bastardo, para vos
tolher a passagem
com cem lanças!
Tructesindo ergueu a vasta face―com um riso tão soberbo e
claro que os alões rosnaram torvamente, e, acordando, o
falcão
esticou a aza lenta:
―Boa nova e de boa esperança! E, dizei, senhor
Mordomo-mór da Curia, tão de
feição e certa assim m'a
trazeis para me intimidar?
―Para vos intimidar?... Nem o Senhor Archanjo S. Miguel vos
intimidaria descendo do céo com toda a sua hoste e a sua
espada de lume!
De sobra o sei, senhor Tructesindo Ramires. Mas casei na vossa casa. E
já que n'esta lide não sereis por mim bem
ajudado, quero, ao menos,
que sejaes bem avisado.
[83]
O velho Tructesindo bateu as palmas para chamar os sergentes:
―Bem, bem, a cear, pois! Á ceia, Frei Munio!... E
vós, Mendo Paes, deixai receios.
―Se deixo! Não vos póde vir damno que me anceie
de cem lanças, de duzentas, que vos surjam a caminho.
E, emquanto o monge enrolava o seu pergaminho, se acercava da
mesa―Mendo Paes ajuntou com tristeza, desafivelando vagarosamente o
cinturão da espada:
―Só um cuidado me pesa. E é que, n'esta jornada,
senhor meu sogro, ides ficar de mal com o Reino e com o Rei.
―Filho e amigo! De mal ficarei com o Reino e com o Rei, mas de bem com
a honra e commigo!
Este grito de fidelidade, tão altivo, não resoava
no poemeto do tio Duarte. E quando o achou, com inesperada
inspiração, o Fidalgo da Torre, atirando a penna,
esfregou as mãos, exclamou, enlevado:
―Caramba! Aqui ha talento!
Rematou logo o Capitulo. Estava esfalfado, á banca do
trabalho desde as nove horas, a reviver intensamente, e em jejum, as
energias magnificas dos seus fortes avó