The Project Gutenberg EBook of Os Filhos do Padre Anselmo, by António da Costa Couto Sá de Albergaria This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at www.gutenberg.org Title: Os Filhos do Padre Anselmo Author: António da Costa Couto Sá de Albergaria Release Date: February 15, 2008 [EBook #24625] Language: Portuguese Character set encoding: ISO-8859-1 *** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS FILHOS DO PADRE ANSELMO *** Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos. Rita Farinha (Fev. 2008) SÁ D'ALBERGARIA OS FILHOS DO PADRE ANSELMO ROMANCE PORTO LIVRARIA CHARDRON DE *Lello & Irmão, Editores* 1904 Typ. a vapor da Empreza Litteraria e Typographica 178, rua de D. Pedro, 184 OS FILHOS DO PADRE ANSELMO I Os irmãos da mão negra O relogio dos Clerigos tinha acabado de fazer soar pausadamente as doze badaladas da meia noite. O tempo estava brusco e o vento, soprando da barra em frias e cortantes rajadas, punha arrepios nos transeuntes que, levantadas as golas dos casacos e as mãos mettidas nos bolsos, seguiam a passo apressado, recolhendo a casa, sob a ameaça de um temporal desfeito. Era em fins do outono. As arvores do jardim da Cordoaria, varejadas pela ventania asperrima, despiam-se das suas ultimas folhas amarellecidas, n'um agitado e sussurrante protesto de espoliadas. Quem a essa hora passasse pelo Campo dos Martyres da Patria, veria, encostado a uma das arvores que orlam o jardim, defrontando com a praça do Peixe, um vulto immovel e indifferente ao tempestuoso rugir d'aquella noite agreste e frigidissima. Parecia esperar alguem, porque, ao ouvir bater a meia noite no relogio da torre, levou a mão ao bolso e, aproximando-se de um dos candieiros da illuminação publica, consultou o seu relogio. --Aquelle anda adiantado cinco minutos--murmurou. E deu alguns passos distrahidamente como para illudir a sua impaciencia. Agora, que o podemos vêr ao reverbero do lampeão, notaremos que é um rapaz de 18 annos, decentemente vestido e de gentil presença, não obstante as feições finas e delicadas quasi lhe desapparecerem encobertas pela aba larga do seu chapéo á Mazzantini. Tinha apenas dado um curto passeio no prolongamento do jardim, quando do lado da rua do Calvario avançou a trote rasgado um trem, que parou em frente d'elle. --És tu, Paulo?--disse de dentro uma voz. --Sou. --Entra depressa, que a noite está agreste! E a pessoa que fallava de dentro abriu a portinhola, facilitando-lhe a entrada. O mancebo saltou de um pulo para dentro do carro, a portinhola fechou-se, e os cavallos seguiram no seu trote largo, dobrando a rua da Restauração e subindo a da Liberdade até ganharem a rua do Rosario. Sigamos aquelle trem e ouçamos o dialogo que se trava dentro d'elle. Apenas o mancebo entrou, a pessoa que o chamara e que era um homem de 28 a 30 annos, desceu rapidamente as cortinas do carro e disse para o seu joven companheiro: --Meu amigo, como já te expliquei, isto são negocios em que se requer a maior circumspecção e escrupulo na observancia das praxes. Has-de consentir que te vende os olhos. --Acaso desconfias da minha lealdade, Jorge? --De modo algum. Mas é uma obrigação que o regulamento me impõe, e eu não posso faltar a ella sem trahir o meu dever. --Pois bem, seja! O sujeito que ouvimos chamar Jorge tirou então do bolso um lenço e vendou com elle os olhos do companheiro. --Has-de dar-me a tua palavra de honra que não tentarás arrancar a venda sem que para isso recebas ordem... --Dou. Mas se o fizesse? --Poderia isso custar-te a vida, meu caro. --Apre!--fez o outro, sorrindo--vocês são intransigentes! --Está n'isso a nossa força. Não violentamos ninguem a seguir-nos, damos ampla liberdade a cada um de rejeitar a nossa associação, mas defendemos a nossa existencia e mantemos o nosso segredo. --É justo. --Assim, tu podes, até á hora de prestares o teu juramento, reconsiderar e exigir que te restituam a liberdade. Nenhum mal te acontecerá por isso, a tua vontade será respeitada, a tua independencia mantida. Mas não saberás dizer onde estiveste nem as pessoas com quem fallaste. --Poderei dizer que fallei comtigo...--gracejou o outro. --Que importa? Eu não sou uma associação. Comigo póde fallar toda a gente... --Fallemos sério!--tornou o moço que dava pelo nome de Paulo.--Asseveras-me que os intuitos d'essa associação em que vou entrar são em tudo dignos das justas aspirações de um homem de bem? --Assevero-te que os irmãos da _Mão-negra_ comprehendem e cumprem á risca o nobre dever de se auxiliarem e defenderem mutuamente contra as prepotencias sociaes da nossa epoca. No nosso gremio desapparecem as differenças de gerarchia e de dinheiro. Não ha pobres, porque todos somos ricos da riqueza e da importancia dos nossos irmãos. --Poderei então contar com o auxilio da Associação na conquista da mulher que amo? --Decerto--volveu o outro.--Tanto como amanhã qualquer de nossos irmãos poderá contar com o teu auxilio para a realisação dos seus desejos. Isto é apenas uma associação de soccorros mutuos, meu caro Paulo. A mulher que amas será tua desde que te filies no nosso gremio. Comprehendes que toda a acção da _Mão-negra_ se resume em tornar felizes e ricos os seus irmãos, porque d'essa riqueza e d'essa felicidade lhe advem a ella a força, o poderio, a importancia. O trem ia correndo veloz pela estrada do Carvalhido, sem que Paulo, entretido na conversa, parecesse ter notado o tempo gasto na corrida. --No emtanto--accrescentou ainda Jorge--os fins e intuitos da Associação vão sêr-te ainda expostos e confirmados por pessoa idonea e mais competente de que eu. Se te restar alguma duvida, o minimo escrupulo, poderás renunciar ao teu intento, com a unica condição de não tirares a venda nem tentares deslealmente devassar os segredos do nosso gremio... --Conheces-me, e sabes que isso são processos indignos do meu caracter!--protestou o mancebo. O trem parou em frente de um portão largo, que dava accesso a uma vasta quinta murada. Jorge apeou-se e deu a mão ao seu companheiro. --Chegámos!--disse elle. Paulo apeou-se e, guiado sempre pelo seu amigo, transpoz o portão, que se abriu mysteriosamente, tornando a fechar-se sem ruido. --E o cocheiro?--perguntou o mancebo.--Não receias a sua indiscreção? --É um dos nossos irmãos--respondeu simplesmente o outro. --Apre!--tornou o mancebo alegremente.--Eis aqui o que se chama um serviço bem montado! Jorge não lhe respondeu. Conduziu-o por uma extensa e sombria vereda de ramadas até o fazer entrar n'um corredor ao rez do chão, pelo qual foram seguindo em silencio. --Já estamos em casa!--disse Paulo. --Porque?--perguntou o outro. --Sinto-o pela differença de temperatura. --Ainda não... Vamos entrar agora... E levando aos labios um pequeno apito, tirou d'elle um silvo agudo e prolongado. Ouviu-se uma porta girando sobre os gonzos, e os dois entraram n'um pequeno recinto em que os passos se amorteciam, abafados no tapete. --Pódes tirar a venda--disse Jorge. O mancebo levou a mão aos olhos, e com grande assombro seu, achou-se sósinho n'uma sala forrada de crepes, tendo ao centro uma mesa coberta de velludo preto e em que pousava uma caveira, allumiada por duas velas. Um momento impressionado pelo sinistro aspecto da sala e pelo funebre quadro que se lhe offerecia á vista, o mancebo empallideceu e recuou um passo, aterrado. Porém, reflectindo e com uma coragem superior á que seria de esperar na sua edade, breve retomou o sangue frio e lançou um olhar de glacial indifferença para a caveira. --É singular!--pensou comsigo.--Entro na vida pela visão da morte! Como respondendo a este pensamento, ouviu-se uma voz soturna e cavernosa resoar na sala: --Medita!--disse aquella voz. O mancebo estremeceu e voltou-se rapidamente, a vêr quem lhe fallava. Não viu pessoa alguma. Passeou então os olhos curiosos pelas paredes forradas de crepes e não descobriu a porta por onde tinha entrado. Se quizesse abandonar aquelle mysterioso e lugubre recinto, não o poderia fazer, por não encontrar sahida. Embora surprehendido, nem por isso se apavorou. --Medita!--tornou a voz a repetir. Como resposta muda áquella intimativa, o mancebo cruzou os braços sobre o peito e ficou encarando fito a caveira. N'aquella attitude altiva e firme, esteve assim por muito tempo. Dissera-lhe o seu amigo que, para ser admittido na associação secreta da _Mão negra_, era preciso dar provas de energia, coragem e inquebrantavel força de vontade. Accrescentara que as provas a que os neophytos tinham de sujeitar-se eram rudes e de molde a fazerem tremer o mais ousado. Elle, não obstante, insistira. Sentia-se capaz de affrontar os maiores perigos com animo sereno e tranquillo. --Principiou a prova!--pensou--julgam-me uma creança assustadiça, capaz de me apavorar com este apparato funebre. Mostrar-lhes-hei que a creança é um homem, que póde disputar primasias de coragem aos mais fortes. E n'esta resolução avançou para mesa, estendeu o braço e ia a tocar no funebre despojo, quando a voz mysteriosa recuou de novo, gritando: --Detem-te! O que ias fazer? --Tocar n'esta caveira--respondeu o mancebo com voz tranquilla. --Com que fim? --Com o fim de provar que a ideia da morte me não apavora. --Que pensamento te suggere a vista d'esse triste despojo humano? --Primeiramente, a ideia de que todos caminhamos para a mesma miseria... --E depois? --Depois, que a Morte é a niveladora implacavel do genero humano. --Assim, crês que na Morte se confundem bons e maus, virtuosos e impuros? --Creio que, materialmente, tudo se confunde na mesma podridão. --Materialmente, disseste? --Disse. --Crês então que vicio e virtude são coisas indifferentes, visto que tudo se apaga ao mesmo gelido sopro e tudo resvala com o homem ao abysmo do Nada? --Não. --Explica-te. --Do homem subsistem as ideias, os pensamentos, os actos bons ou maus de toda a sua vida. Esses não tem a Morte o poder de os anniquillar. --Pois bem; visto que assim é, dize-me: De quem é esse craneo? --De um meu irmão. --É vaga a resposta. Dize-me: Será d'um sabio? Será de um ignorante? Será de um homem honesto? Será d'um criminoso? Será d'um nobre? Será d'um plebeu? --Ignoro. --Confessas, pois, que na Morte tudo se confunde? --Não! Confesso apenas que na Morte todos teem egual direito ao respeito dos vivos. --Porém, essa theoria é contradictoria. Se todos devem confundir-se no mesmo respeito, como queres que se distingam os bons dos maus? --Pelo que d'elles fica no mundo e não morre. Dize-me o nome d'aquelle a quem pertenceu este craneo, e se elle foi um sabio, um artista, um litterato, um poeta, um d'esses homens que deixam a sua passagem assignalada no mundo por obras de grandeza e de virtude, eu te recordarei as suas conquistas scientificas, os seus quadros, os seus livros, os seus versos, as nobres acções e exemplos com que se perpetuou na humanidade emfim. --Tens religião? --Tenho. --Qual? --A do Bem. --A que vieste? --Dar e receber auxilio na lucta do Bem contra o Mal. --Sabes o sacrificio a que isso obriga? --A todos os sacrificios me sujeito. --Repara bem. A abnegação, o desinteresse, a obediencia cega e passiva ás ordens dos que dirigem o nosso gremio constituem a principal condição para seres admittido entre nós. --Acceito-a. --Terás que resistir ás tuas proprias paixões, terás que dominar os mais irresistiveis impulsos do teu coração, para só obedeceres á lei da nossa Sociedade; terás, emfim, que sacrificar vida, fortuna, mulher, filhos, familia--tudo, ao bem de teus irmãos, quando isso te fôr reclamado. --Obedecerei. --É preciso que o braço execute o que a cabeça ordena. Tu serás o braço. O chefe invisivel da nossa Associação é a cabeça. Se fôr preciso derramar sangue, ainda o d'aquelle que no mundo te fôr mais caro, uma vez que a cabeça t'o ordena, obedecerás? --Sem a menor hesitação. --Attende que vaes ligar-te a nós por um juramento que não póde ser quebrado nem illudido. Em toda a parte onde te encontres, seja qual fôr a posição social a que ascendas, na rua, em casa, no povoado ou n'um logar deserto, o olhar invisivel da nossa Associação seguir-te-ha por toda a parte. A _Mão-negra_, cujo auxilio buscas, mysterisa e potente, vingadora e terrivel, como a propria mão da Providencia, impedirá teus passos e guiará o teu destino. Não mais te pertencerás a ti; pertencerás aos teus irmãos. Senhor liberrimo das tuas acções até agora, vaes reduzir-te por um juramento ás condições d'um escravo, mais que d'um escravo--d'um simples automato. O teu cerebro não mais pensará para ti; o teu coração não mais sentirá por ti. Cerebro e coração teem de emmudecer perante as exigencias fataes, crueis e terriveis muitas vezes, da nossa Associação. Terás força para tanto? --Terei--respondeu firmemente o mancebo. --Pareces corajoso--observou a voz mysteriosa--pareces ter em pequena conta a propria vida. --Estou prompto a sacrificál-a para um fim justo. --A ideia da justiça é relativa. O que para uns é justiça para outros é iniquidade. Os irmãos da _Mão-negra_ não teem o direito de discutir e apreciar as ordens que dimanam do seu chefe invisivel: teem só o dever de as cumprir. Assim, se te exigirem que craves um punhal no teu coração, não terás o direito de discutir a justiça do sacrificio; apenas terás que obedecer. --Experimentem. --Lembra-te, porém, que, se o sacrificio da propria vida te é fácil, outros sacrificios te pódem ser mais penosos. Estás em tempo: se não te sentes com animo e coragem para te prenderes a nós por toda a vida,--vae, estás livre, mandar-te-hemos conduzir ao sitio d'onde vieste. --Não!--respondeu o mancebo com energia--Eu não sou dos que recuam. Quero ser dos vossos. --Estende a mão sobre essa caveira e jura que queres ser submettido á _prova_!--ordenou a voz. Paulo estendeu a mão sobre a caveira: --Juro--disse elle--que desejo ser um dos irmãos da _Mão-negra_ e estou prompto a submetter-me á prova que me for imposta! Quando acabou de proferir este juramento, sentiu que lhe tocavam no hombro. Voltou-se e viu diante de si um vulto athletico, sinistramente vestido de preto e com o rosto coberto por um capuz como o dos antigos aguazis do Santo Officio. Sem dar palavra, o mysterioso vulto vendou-lhe de novo os olhos. Em seguida disse: --_Á prova!_ Pegou-lhe na mão e conduziu-o por um extenso corredor até parar em frente de uma porta, a que bateu de maneira mysteriosa e symbolica. --Quem sois?--perguntou de dentro uma voz, sem abrir. --Irmão--respondeu o mysterioso guia de Paulo. --D'onde vindes? --Da Ala negra. --Que trazeis? --Um novo braço. --Que busca elle? --A mão. --Quem vos guia? --S. Miguel. A porta abriu-se. --Passae!--disse um homem, igualmente envolto n'um habito preto e o rosto coberto pelo capuz. Os dois seguiram ávante e entraram n'uma sala ampla, abobadada, de paredes escuras e illuminada apenas por um globo enorme de vidro, seguro por uma phantastica _mão negra_, que pendia do tecto. Á roda d'esta sala, viam-se de pé, hirtos e impassiveis, n'uma immobilidade de estatuas, muitos vultos negros, com o rosto inteiramente occulto sob o capuz do habito. Em cada uma das paredes avultava uma grande mão negra, sustentando punhaes e espadas, em panoplia. Ao centro, justamente debaixo do globo, erguia-se uma especie de throno, assente sobre quatro formidaveis dragões e todo coberto de crepes. Occupando esse logar, sem duvida destinado ao chefe da seita, estava uma figura mysteriosa como as suas companheiras e como ellas silenciosa e immovel. O _irmão_ introductor de Paulo avançou, silenciosamente, com o mancebo pela mão, até curta distancia do throno, parou, levou a dextra ao peito, movendo o pollegar rapidamente, de modo a descrever com elle uma cruz, e ficou de cabeça curvada, em attitude respeitosa. --Que quereis, irmão?--interrogou o vulto que se sentava no throno e que era sem duvida o chefe da seita. --Que escuteis e recebaes sob vossa protecção este meu companheiro, que pretende entrar na _ala_ como combatente. --Fiaes d'elle? --D'elle fio, senhor! --S. Miguel vos proteja! --O apresentante de Paulo afastou-se e foi tomar o seu logar junto á parede, em fila com os seus companheiros. Paulo ficou só, junto ao throno, com os olhos vendados. --Que pretendeis, mancebo?--interrogou o chefe. --Combater. --Que armas trazeis? --A submissão, a energia e a lealdade--disse Paulo. --Boas armas são essas quando temperadas ao fogo vivo do sentimento do Bem e da Justiça. Que vos falta? --A força da _Mão-negra_. --A _Mão-negra_ só dispensa a sua força e o seu amparo aos que tudo lhe sacrificam com coragem, valor, e brio. N'este gremio não se admittem nem os timidos nem os cobardes. --Não o sou. --Dizer é facil; provar é difficil. Quereis sujeitar-vos á prova? --Estou prompto! --Reparae que podeis perder a vida na jornada aspera que ides emprehender. --A vida de nada me serve, se não posso dar-lhe applicação util. --É facto. No emtanto, é meu dever prevenir-vos de que, sem perderdes a vida, podeis perder a esperança da felicidade, que é a vida do coração, o objectivo da existencia. --Tudo sacrificarei aos meus irmãos. --É melhor recuar, mancebo. Na longa estrada que tendes a percorrer antes de chegardes á _Mão-negra_, encontrareis mil perigos e mil precipicios terriveis, que sereis obrigado a transpôr ou a morrer. Avançado o primeiro passo n'esse caminho mysterioso e fatal, recuar é impossivel; a menor hesitação é a morte. Só uma coragem admiravel e uma força de vontade rara pódem conduzir-vos a salvo ao ponto desejado. --Irei e hei-de chegar. --Pois bem, vinde! Levantou-se, desceu do throno, deu-lhe a mão, abriu uma porta ao lado da parede e, empurrando-o para dentro d'ella, disse: --Podeis tirar a venda. Segui esse longo e escuro subterraneo até ao fim. Tereis que luctar com o fogo, com a agua, com os homens e com as feras, antes que chegueis á porta santa do asylo que buscaes. Ide e que S. Miguel--que venceu o dragão--vos dê força e coragem. O mancebo levou as mãos aos olhos, arrancou a venda e embrenhou-se n'uma escura e estreita galeria subterranea, que foi seguindo com estranha ousadia. A treva cercava-o sem lhe deixar perceber onde punha os pés. Algumas duzias de passos andados, um subito clarão illuminou o subterraneo. Paulo, deslumbrado, levou as mãos aos olhos. Na sua frente, erguiam-se as chammas pavorosas de um incendio, que avançava para elle em linguas de fogo, ameaçando devoral-o. Dir-se-hia que uma enorme represa de alcool ou de petroleo se havia aberto e que, incendiado, ia inundar o subterraneo, transformando-o n'um immenso forno crematorio. O mancebo, n'um momento surpreso, sentindo na face o calôr das chammas, nem por isso se deteve. Caminhou audaz e resoluto para o perigo, disposto a deixar-se queimar vivo antes que retroceder. Ao aproximar-se das chammas, porém, estas apagaram-se subitamente, tornando mais densa a treva do corredor. Seguiu ávante, e pouco depois sentiu o ruido clamoroso e sinistro de uma enorme queda d'agua, que se despenhava em catadupas de uma rocha que obstruia a passagem e que parecia o remate d'aquelle medonho e tenebroso subterraneo transformado n'um lago. A agua despenhava-se de tal altura e com tal fragor que, batendo nas pedras, resaltava, esparrinhando com tanta violencia, que algumas gottas vinham açoitar o rosto de Paulo. Á primeira vista, parecia impossivel transpôr aquelle enorme pégo sem perecer afogado. Uma dubia luz, coada por uma pequena abertura na abobada do subterraneo, esclarecia o medonho passo. Paulo, tomado da raiva febril de transpôr todas as barreiras ou morrer, avançou corajoso, fechou os olhos e atirou-se á agua. Com grande assombro seu, achou-se em terreno enxuto. A agua tinha desapparecido e com ella o ruido pavoroso da corrente. A treva tornara-se mais densa. Não obstante, elle caminhava afoito, quando, de repente, se sentiu agarrado e preso por duas fortes e vigorosas mãos que o levantaram ao ar deixando-o cahir. Procurava firmar-se nas pernas, quando notou que o terreno lhe faltava debaixo dos pés e se precipitava n'um abysmo. Não soltou um grito. Esperava morrer como um homem, e assim chegou a um segundo subterraneo, onde se encontrou de pé, illeso e sem que soffresse a menor contusão. Continuou o seu caminho corajosamente, embora sob o peso das commoções soffridas. Foi andando na treva por alguns minutos, quando um rugido terrivel lhe despertou a attenção. Olhou e viu na sua frente uma porta de ferro, defendida, por dois enormes leões, que punham n'elle os olhos de fogo, escancarando n'uma ameaça a guella hiante. Fixou a vista aterrado nos monstros, que soltaram novo rugido atroador. Pallido, os cabellos eriçados, as faces contrahidas de susto, o mancebo pensou em retroceder, mas envergonhado d'esta cobardia, exclamou, avançando para as féras: --Antes morrer que recuar! Rapidamente, os leões sumiram-se na parede e Paulo pôde bater á porta, levantando e deixando cair o pesado batente em forma de mão negra. A porta abriu-se. --Entrae!--disse o mesmo chefe que o havia introduzido no subterraneo, recebendo-o de novo na sala d'onde havia partido. Paulo entrou. --Ides dar-nos a ultima prova--propoz o chefe.--Aqui tendes este punhal. N'aquelle gabinete está, sob a acção de um narcotico, uma mulher, que é preciso _eliminar_... Ide! Cravae-lhe este punhal no coração. Paulo pegou no punhal, abriu a porta e ia avançar, quando recuou espantado, soltando um grito terrivel: --Ella!--bradou o pobre rapaz afflictivamente. É que diante dos seus olhos admirados apparecera uma bella e gentil figura de mulher, estendida sobre um pôtro de torturas, os pés e as mãos amarradas, a face pallida, os olhos cerrados, como que esvaecida ou morta, e essa mulher, essa visão inesperada, era nem mais nem menos do que a sua amada, a aspiração querida da sua alma, a mulher por quem o pobre moço ia filiar-se na mysteriosa e terrivel seita da _Mão negra_! --Hesitas?--perguntou o chefe com um accento de desprezo e sarcasmo na voz.--Não prestaste ainda juramento, mancebo; não estás preso a nós por nenhuns laços. Se o teu coração se entibia, se o teu braço treme e se recusa a obedecer, vae, deixa-nos! Profere apenas uma palavra e serás restituido á liberdade. No rosto do mancebo desenhava-se uma angustia profunda. Os cabellos em desalinho, a face pallida, a fronte banhada de um suor frio, não desfitava os olhos d'aquelle meigo e adorado vulto de mulher, a que tinha presa toda a sua existencia, todas as esperanças da sua juventude, todas as nobres aspirações da sua alma e que alli via, sem saber como nem porque, semi-morta, amarrada áquelle pôtro fatal, e prestes a cahir aos golpes de uma justiça occulta, que a mandava apunhalar! E havia de ser elle o algoz, havia de ser elle o executor da fatal sentença, elle, que por ella sacrificaria a vida, a honra, a familia, tudo o que um homem póde sacrificar á mulher amada! Era horrivel! --Decide-te, mancebo!--tornou o chefe--Ou cumpres corajosamente os mysteriosos designios da _Mão-negra_, ou recusas e vaes em paz com a tua cobardia! Como se lhe tivessem vergastado o rosto, á palavra _cobardia_, o mancebo apertou na mão o punhal e, voltando-se para o seu mysterioso interlocutor, disse, rangendo os dentes: --Cobarde não o sou, não o serei jámais! Que posso eu fazer para resgatar a vida d'aquella mulher? --Nada! --Offereço-vos a minha vida, senhores! Pegae em mim, amarrae-me áquelle pôtro onde a tendes manietada, sujeitae-me á tortura mais cruel, mais horrenda,--não soltarei uma queixa, não me ouvireis um gemido! Mas libertae-a a ella, restitui-lhe a liberdade, concedei-lhe a vida, e eu bem direi a vossa generosidade, a vossa grandeza d'alma, e o meu ultimo alento será ainda um protesto, de gratidão para comvosco! --Nada podemos fazer-te. Essa mulher está condemnada, e nada poderá libertal-a da nossa justiça. Queres executar a sentença ou preferes retirar-te em paz com a tua fraqueza... com a tua cobardia, repito? --Cobarde nunca!--bradou o moço, luzindo-lhe nos olhos uma colera terrivel--Bem vêdes que não é o meu braço que treme--é o meu coração que lucta! --Vence-o! --Vencel o-hei. Mas antes, dizei-me: não tem preço aquella vida? Quantas vidas quereis que vos entregue em resgate d'aquella? Apontae-m'as, e eu vos juro que vol-as entregarei todas, sem faltar uma, ainda que para isso eu tenha de descer tão baixo, que me confunda com os mais infimos sicarios, ou haja de subir tão alto, que chegue a transpôr os degraus de um throno! Reparae que esta é a mulher que amo! É o mundo que vós me mandaes anniquilar com aquella existencia! --Está condemnada. Decide-te!--tornou a voz--Partes ou ficas? --Pois bem, fico!... para partir com ella! Avançou desvairadamente para a sua amada, que, immovel, amarrada ao pôtro, parecia cahida em profundo lethargo. --Beatriz, perdoa-me!--murmurou elle.--Não é a ti que eu apunhál-o, é a mim proprio... Seguir-te-hei no teu resgaste! Dizendo isto, cravou-lhe fundo o punhal no coração. O sangue espadanou do peito da victima, que não soltou um gemido. O mancebo, com as mãos tintas de sangue, veio á sala e disse serenamente, encarando os seus lugubres e mysteriosos companheiros que se conservavam mudos e immoveis: --Pedistes-me uma vida. Dar-vos-hei duas, ensinando-vos ao mesmo tempo como se mata e como se morre! E n'um movimento rapido, sem dar tempo a que o detivessem, alçou o braço e cravou o punhal no coração. A lamina, porém, não penetrou a carne e o mancebo, admirado de que o ferro lhe não tivesse produzido a menor dôr, examinou espantado a arma homicida. Era um d'estes punhaes simulados, cuja lamina de latão, se embebe e desapparece no cabo quando se descarrega a punhalada, voltando a apparecer impellida por occulta mola desde que deixa de ser premida de encontro ao corpo. --Mas o que é isto?--disse elle indignado, quasi sem comprehender.--Estamos nós representando uma farça? --Não, meu amigo!--respondeu amavelmente o chefe--estiveste dando-nos a prova da tua rara coragem, do valor e lealdade do teu caracter, e nós todos, bemdizendo a hora que traz ao nosso gremio um _irmão_ de tanto valor! Depois, voltando-se para o gabinete onde ainda jazia inanime a _amada_ de Paulo, continuou: --Como já deves ter comprehendido, alli não está a tua amada, porém a sua imagem tão perfeita e semelhante, que a tomaste por ella propria. O mancebo, aturdido, punha no manequim os olhos, recusando-se a acreditar o que ouvia. --Foi, pois, uma simulação de morte--proseguiu o chefe--O valor moral da acção fica em pé, visto que a tua intenção era obedecer aos preceitos da _Mão-negra_... --E matar-me em seguida!--accrescentou o mancebo. --É a unica porta que resta aberta aos nossos _irmãos_ para se separarem de nós. A sahida por esse lado, posto seja uma fraqueza, não é nunca um crime. De resto, é tambem por ella que fazemos sahir os que se tornam indignos de pertencerem á nossa Associação. --Espero que não tereis o incommodo de me ensinar o caminho, se algum dia me arrepender de haver buscado a vossa camaradagem--disse Paulo. --Felicito-te, mancebo, pela tua rara energia, lealdade e valor do teu caracter, de que déste prova. Serás um bom _irmão da Mão-negra_ e auguro-te uma brilhante carreira dentro do nosso gremio, se perseverares em conservar puras e immaculadas as apreciaveis qualidades a que deves a tua admissão. Queres prestar juramento? --Sim! --Irmão Golias!--ordenou o chefe--vendae os olhos ao neophyto! Destacou-se da parede o _irmão_ que já havia sido o apresentante do mancebo, e cumpriu as ordens do chefe. --Vendam-se-vos ainda os olhos--disse este--não porque esteja no nosso animo guardar para comvosco novos mysterios ou admittir-vos com fins reservados, mas tão sómente porque a venda que se vos põe agora representa a confiança cega, illimitada, que deveis ter nos vossos irmãos e nos nobres e justos fins para que todos trabalhamos, unidos como um só homem, guiados pela mesma potente e mysteriosa _Mão-negra_. Findo este pequeno discurso, o chefe fez um signal. Os vultos que, de pé e immoveis rodeavam a sala, encostados á parede, avançaram silenciosamente e formaram um circulo á roda de Paulo. --Irmão Golias!--disse o chefe. --Eis-me, senhor! --Fiastes o neophyto. Persistes fiando-o? --Do fundo da minha alma. --Sois o seu padrinho. Tomae o vosso logar. O vulto que dava pelo nome de Golias postou-se ao lado do mancebo, tendo na mão uma salva de prata coberta por um crepe. O chefe subiu então ao throno e passou-se n'aquelle recinto uma scena deveras surprehendente. De pé sobre o throno, o chefe pegou em um escrinio de pau santo com embutidos de prata e marfim representando uma caveira com dois fémures em cruz, carregou em um pequeno botão, e o escrinio abriu-se, transformado-se rapidamente em uma almofada de veludo carmezim em que assentava um craneo alvissimo, seguro por dois punhaes em tropheu. Estendeu para a assembleia o braço sustentando esta estranha _reliquia_, e immediatamente os vultos, levando as mãos á cinta, desembainharam luzentes floretes que traziam occultos debaixo dos habitos e que apontaram ao neophito, formando-lhe com elles um circulo de ferro. Ao mesmo tempo uma voz resoou: --Está aberto o templo! Tres portas abriram-se e por ellas começou entrando uma verdadeira multidão de capuzes negros, trazendo na mão esquerda uma tocha accesa e na dextra um punhal. Os das tochas formaram em cruz, ao comprido e ao través do _templo_, abrindo em alas, voltados todos para o centro, onde se agrupavam, como já dissemos, os primeiros vultos, rodeando Paulo, com os floretes desembainhados. Tudo isto se fez no meio do maior silencio e quasi sem deixar perceber o ruido dos passos. Então o chefe, erguendo a voz, disse: --Mancebo, juras obediencia, lealdade e amor a todos os irmãos da _Mão negra_? Juras não revelar a alguem os segredos da nossa agremiação? Juras sacrificar por ella todos os dias da tua vida, todas as horas da tua existencia, o vigor do teu braço, os pensamentos do teu cerebro, os sentimentos do teu coração? Paulo estendeu a mão e disse solemnemente: --Juro! Immediatamente, o irmão Golias, entregando a outro a salva que tinha na mão, voltou-se para o neophyto, dizendo: --Irmão _David_, pois que sou teu padrinho, vou impor-te o habito de _Mão-negra_! Enfiou-lhe então pelos hombros um habito igual ao que os outros vestiam, deixando-lhe apenas a cabeça a descoberto, sem lhe deitar o capuz. --Tirae a venda, irmão--ordenou o chefe--para que toda a luz se faça aos vossos olhos! O mancebo arrancou a venda e ficou maravilhado e surprehendido ante o estranho quadro que se apresentava á sua vista. Os irmãos haviam atirado os capuzes para as costas e descoberto os rostos, conservando-se, porém, na mesma attitude severa e hostil, com os florêtes apontados ao novo irmão. Passando uma vista curiosa por todos elles, o mancebo ficou surprehendido de vêr muitos rôstos conhecidos á volta de si. O irmão Golias, pegou-lhe na mão e fêl-o subir os degraus do throno. O chefe veio recebel-o a meio, apertou-o nos braços e osculou-o na testa. --Bem vindo sejas, irmão, a augmentar a nossa ala!--disse elle. A estas palavras, todos os florêtes se abaixaram, entrando na bainha. Em seguida tomou-lhe a mão e acompanhou-o até ao degrau inferior do throno, dizendo: --Recebe o abraço de teus irmãos e faze por te conservares sempre digno d'elles. Os irmãos que o haviam rodeado com os florêtes vieram todos um a um abraçál-o e beijál-o na testa. --Irmãos!--disse o chefe do alto do throno--vae reunir o sublime capitulo. Está encerrado o _templo_. As luzes apagaram-se, e os vultos começaram a sahir pelas differentes portas do recinto, sumindo-se mysteriosamente sem que alguem pudesse dizer que caminho levavam. II Amôr e esperança Deixemos os mysteriosos irmãos da _Mão-negra_ seguir o caminho que os havia de reconduzir ao mundo do qual por algum tempo semelhavam ter-se apartado, e sigamos o arrojado e corajoso adolescente que acaba de iniciar-se nos mysterios da terrivel seita. Paulo, tendo sahido da quinta do Carvalhido em companhia do seu amigo Jorge, agora convertido em seu _irmão_, regressou á cidade no mesmo trem que o conduzira, apeando-se e despedindo-se do companheiro em uma rua proxima da de Cedofeita. Eram tres horas da manhã e o vento continuava soprando rijo da barra, pondo negrumes de tempestade n'aquella noite desabrida. O mancebo seguiu pela rua deserta até parar junto de uma casa de luxuosa apparencia, e que denunciava pelo exterior severo e pelo amplo jardim gradeado que lhe ficava contiguo, a opulencia dos seus habitantes. Inflou as bochechas e, batendo-lhe com as mãos, imitou o canto da perdiz. Era evidentemente um signal, porque algum tempo depois, uma das janellas do rez do chão, vedada por grades de ferro, abriu-se manso, e uma voz feminina disse, tremula e quasi sumida: --Como vens tarde, meu amigo! --Beatriz, perdôa, mas um assumpto do mais alto interesse e de que depende a nossa felicidade futura impediu-me de vir á hora costumada. Hesitei em vir despertar-te a esta hora; mas a ideia de que havia de estar sem te fallar e talvez sem te ver até amanhã á noute, obrigou-me a procurar-te, Beatriz. --Eu esperava-te... Esperava-te, porque tinha tambem que te dizer... Oh! se soubesses como estou afflicta! --Tu! Mas o que te succedeu, anjo da minh'alma?... --Paulo...--gemeu a meiga voz que fallava do lado de dentro da grade--não sei como t'o hei de dizer... meu Deus! --Falla, Beatriz, falla, pelo nosso amor t'o peço!--supplicou o moço--Não me tenhas por mais tempo n'esta cruel espectativa... Tu choras, tu pareces afflicta... Meu Deus! o que é que motiva a tua dôr? Beatriz, cujo vulto mal podemos distinguir na penumbra do aposento, occultava o rosto entre as mãos buscando afogar os soluços. --Paulo,--disse ella--meu pae... quer casar-me! O mancebo recuou um passo como se lhe tivessem descarregado uma violenta pancada no peito. --Quer casar-te!--exclamou.--E com quem? --Com um rapaz que eu mal conheço... um rapaz que tem vindo duas ou tres vezes de visita a nossa casa, onde foi apresentado por um dos mais intimos amigos de meu pae... --Dize-me o nome d'esse rapaz!--intimou desvairadamente o moço. --Eugenio de Mello--soluçou Beatriz. --Eugenio de Mello!--repetiu o mancebo.--Esse nome é completamente estranho para mim. Nunca t'o ouvi pronunciar. --Se te digo que apenas veio duas ou tres vezes de visita a nossa casa, apresentado por um amigo de meu pae... --Mas, emfim, como é que surge agora essa ideia de te casarem com elle? Acaso esse rapaz alguma vez te manifestou sentimentos de sympathia ou de amor? Falla-me com franqueza, Beatriz. Comprehendo que por uma bem entendida delicadeza da tua parte para comigo, julgasses dever occultar-me os galanteios d'esse rapaz, se porventura elles te eram indifferentes... Mas não comprehendo como teu pae pudesse ter a ideia subita de te casar com elle, sem mesmo tentar indagar se o teu coração não repelliria um semelhante enlace. --Não! juro-te que nunca dos labios d'esse rapaz ouvi uma palavra que pudesse dar-me a perceber o mais tenue sentimento de amor por mim. Fóra dos cumprimentos e ceremoniosas attenções que as pessoas de boa sociedade usam ter para com uma senhora, não se trocaram entre nós quaesquer amabilidades que justificassem o pensamento d'este enlace que me surprehende! --É extraordinario! E como é que teu pae pretende impor-te um casamento em que tu nem sequer tinhas pensado? --Sabes que meu pae--volveu Beatriz--habituou-se a contar com a minha obediencia cega e passiva em todos os seus desejos, que para mim são ordens. Muito austero, educou-me sob um regimen de ferro em que a sua vontade é a unica que predomina... --Isso, porém, não é rasão para que elle se julgue no direito de sacrificar o teu futuro de mulher aos seus caprichos de... pae. --Meu pae ignora que eu te amo, Paulo! Julga o meu coração desprendido de qualquer affecto e crê que não me repugna a ideia de unir o meu destino ao de um homem que elle julga digno de mim. --E se de facto te não repugna... obedece-lhe!--bradou o mancebo n'uma voz estridente em que ia todo o fel do seu desespero. --Paulo! És injusto para comigo! Sabes que te amo, que não posso amar outro homem que não sejas tu; e quando me vês afflicta, atormentada ao peso da cruel exigencia de meu pae, em vez de suavisares a minha dôr, de me animares com o teu conselho a resistir á fatal imposição que me é feita, ainda me torturas mais com esse tom acrimonioso e hostil das tuas palavras! Não te mereço isso... As lagrimas da joven interlocutora de Paulo que, se realmente possue um rosto tão meigo como as suas palavras, de linhas tão suaves e puras como é doce o accento da sua voz, deve de ser uma creatura encantadora, pareceu abrandar um pouco o irritado animo do mancebo. --Mas o que queres tu que te diga, minha querida, se eu noto que era vez de pensares em repellir a despotica imposição de teu pae, ainda tentas desculpal-o? --Não o desculpo... digo apenas o que elle pensa. --Mas que tenho eu que saber o que pensa teu pae? O que desejo saber é o que pensas tu, minha querida! O que é que tencionas fazer? Que respondeste a teu pae? Qual é a tua intenção? Beatriz pareceu hesitar na resposta. --Desejava ouvir-te, primeiro, Paulo... desejava que me dissesses o que devo fazer... --Eu?! Pois é a mim que compete dirigir os teus actos? É a mim que compete dictar a tua resposta? Consulta o teu coração, Beatriz... Elle que te responda e te diga a resolução que deves tomar... --Paulo! O meu coração diz-me que só a ti pertenço, que só a ti eu desejo ter por marido... Mas, bem vês, quando eu disser a meu pae que te amo, e que por ti estou decidida a recusar outro qualquer enlace, por mais vantajoso que se apresente, meu pae ha de perguntar-me quem és... --E tu dize-lhe que sou aquelle que julgas que eu seja. Ou vae tão longe a tua piedade por mim e o teu despreso por ti que, tendo-me na conta de indigno do teu amor, assim mesmo m'o concedes? --Oh! não, não, Paulo! --N'esse caso, o que receias? --É que eu julgo-te com o coração; meu pae, porém, ha-de julgar-te com a cabeça; e entre o coração da filha e o cerebro do pae existe uma distancia tão grande, que eu receio bem que não possamos transpôl-a... --Se essa é a tua convicção e te faltam forças para resistir e luctar, submette-te e... adeus! Adeus para sempre, Beatriz!... Paulo ia a retirar-se. O animo orgulhoso e altivo d'este adolescente de 18 annos, que tinha já a energia e a vontade de ferro de um homem feito, não podia supportar sem protesto os timidos receios e as hesitações offensivas da mulher que adorava. --Paulo!--tornou a chamar a joven.--Escuta-me! Que singular prazer tens em me atormentar, quando eu tanto preciso da tua compaixão e da tua piedade! --Fallas-me em tormentos, Beatriz, quando desde que aqui cheguei outra coisa não tens feito senão revolver-me n'um perfeito inferno de torturas! Acabemos com isto, e vamos direitos ao fim sem tergiversações nem rodeios. Teu pae impôz-te o casamento com esse... rapaz, que deve ser por força rico, distincto... amavel, emfim. E tu acceitaste? --Eu... --Hesitas na resposta e a tua propria hesitação me responde: acceitaste e vens dizer-me que está tudo terminado entre nós... --Oh, não!--accudiu a joven, com impeto.--Eu não acceitei nem respondi como desejava. Pedi que me deixassem reflectir, porque o meu primeiro pensamento foi ganhar tempo, para poder combinar comtigo o que devo fazer... --O que deves fazer não seja eu quem t'o diga. Teu pae é rico, Beatriz; tu mesma és já herdeira de uma avultada fortuna, e eu sou pobre. Separa-nos, portanto, actualmente um abysmo... Cuidei que poderia contar comtigo solteira e livre até ao dia, que não viria longe, em que eu pudesse apresentar-me a teu pae, a solicitar a tua mão, sem que o pedido revestisse o caracter humilhante para mim de uma tentativa de penetrar no sanctuario da riqueza pela porta do coração de uma mulher. Vejo, porém, que o destino quer o contrário; que outro pretendente se apresenta com menos escrupulos ou mais dinheiro do que eu, e que da firmeza e constancia do teu amor nada tenho a esperar, se eu não me resolver a prestar-te o amparo incompativel com a minha dignidade de homem e com o programma que me tracei de só a mim dever o meu triumpho. Paciencia! --Paulo, tu não me conheces! ou, se me conheces, estás sendo para mim de uma injustiça que mais tarde te ha-de fazer remorsos... Escuta-me, meu amigo, escuta-me com serenidade e repara bem nas minhas palavras. E Beatriz, com voz tremula de commoção, principiou dizendo: --Não conheces o caracter de meu pae e não admira por isso que julgues sêr-me coisa facil o contrariar-lhe os propositos... Eu, porém, que o conheço, que por elle fui educada e com elle tenho vivido sob o jugo do seu genio rispido e severo, avalio bem que crueis amarguras e horriveis tormentos a sua colera me prepara na lucta que vou ser obrigada a sustentar, recusando-me a acceitar por esposo o homem que elle me escolheu. Não me intimida, porém, a perspectiva do soffrimento. Morrerei de bom grado na defesa dos sagrados affectos do meu coração e conservar-me-hei fiel ao juramento tantas vezes repetido do meu amôr. O que quero é ter a certeza de que a tua confiança me não abandona, Paulo; que quaesquer que sejam as mudanças que se operem no nosso modo de viver e de nos relacionarmos--mudanças que eu não posso prevêr por emquanto quaes sejam, mas que certamente hão de sêr as mais dolorosas para o nosso coração--eu terei no teu espirito e na tua lembrança o logar a que o meu amôr me dá direito... --Beatriz!--exclamou o mancebo--quando se ama como eu te amo; quando se sente no peito a chamma ardentissima de um vivo e intenso amor que de todo nos senhoreia o espirito e nos absorve a existencia, lucta-se, soffre-se, morre-se, mas não se esquece jámais o nome d'aquella que nos inspirou tão fervoroso culto! --Pois bem, meu Paulo! É possivel que o destino nos reserve dias bem sombrios de uma ausencia crudelissima, que ha-de retalhar-nos o coração e quasi volver-nos loucos de desespero. Sejam quaes forem as circumstancias em que nos encontremos, sejam quaes forem as apparencias que me condemnem, não duvidarás nunca da lealdade do meu affecto como eu não duvidarei, jámais da sinceridade da tua alma, não é verdade? --Fazes-me estremecer de receio, Beatriz! Decerto exaggeras o pavoroso quadro dos nossos infortunios...--disse o mancebo, pallido de commoção. --É que tu não conheces meu pae! --Que poderá elle fazer, se tu recusares tenazmente esse enlace como uma violencia imposta ao teu coração? Antes de tudo, tu és sua filha; e um pae, por muito severo e rispido que pareça, não se transforma por simples capricho no algoz d'aquella a quem deu o sêr. --Não sei... não posso dizer-te nada por emquanto, senão que tudo espero d'este funesto designio manifestado por meu pae... Mas seja como fôr, jura-me que não duvidarás nunca da mim, que has-de sempre confiar na tua Beatriz como n'aquella que mais te ama no mundo. --Juro-te, meu amor, que serás minha e que não te has-de encontrar só na lucta e no soffrimento. Tenho amigos--continuou Paulo--amigos poderosos, contra os quaes não é facil nem prudente luctar... Com elles conto como _irmãos_ e n'elles espero encontrar o auxilio de que ambos carecemos. Não te assustes nem te deixes dominar pelo terror. Hontem, ainda desprotegido, poderia talvez apavorar-me a ideia da minha fraqueza contra inimigos tão poderosos como é teu pae; hoje, conscio de que os brados intimos do meu coração ameaçado de morte encontrarão ecco n'outros corações que me são dedicados, levanto-me orgulhoso e altivo do teu amor, e digo-te: «Não succumbas, anjo da minha alma! Tem confiança em mim, que havemos de vencer». O tom de absoluta segurança com que Paulo proferiu estas palavras pareceu transmittir novo alento á joven. --Luctarei--disse ella--e agora com mais energia, desde que nas tuas palavras tenho o penhor de que não será perdido o meu sacrificio. Nada mais te pedia e nada mais te peço do que essa confiança inabalavel na constancia do meu amor. Ama-me como eu te amo, Paulo! e d'este sentimento, que é a vida, hauriremos forças para resistir aos embates de uma sorte cruel e adversa! Trocaram-se ainda novas juras e protestos de constancia e amor sem fim, despedindo-se, e promettendo tornar a ver-se na noite seguinte. O leitor, eivado do realismo da epoca, certamente está sorrindo do córte romanticamente amoroso e piegas d'este dialogo dos dois namorados. Effectivamente, a menina tem a phrase um tanto brunida e lustrosa das heroinas dos romances d'outras eras, o que dá um tom de inverosimilhança ao lance ingenuamente sentimental. Mas o romancista, se copía do natural como nós o estamos fazendo, não tem remedio senão acingir-se á verdade e reproduzir os seus personagens com os aleijões que a natureza, as condições do meio ou os acasos do nascimento e da educação lhes imprimiram no corpo ou no caracter. Esta menina, assim romanticamente apaixonada, exprimindo-se em termos de um antiquado sabor litterario, não nos está revelando uma assidua e ingenua leitora das novellas de Camillo? Claro está que ella reproduz incorrectamente o que de peor podia haurir na leitura do genial escriptor--a emphase, o arredondado do periodo, a declamação cantante, sem os esmêros da dicção, sem a impeccavel belleza e elegancia de fórma do grande Mestre. Mas o facto é que ella, em assumptos de coração, não podia exprimir-se de outra maneira, visto que, como mais tarde teremos occasião de averiguar, foi nas paginas soluçantes do «Amor de Perdição» que aprendeu a traduzir as primeiras balbuciações do seu amoroso coração de creança. Paulo tambem, pela sua parte, influenciado pelas mesmas leituras, correspondia-lhe no tom e no gosto do seu arrasoado. Se, porém, esta linguagem póde ser capitulada de falsa, o mais espantoso é que ella exprimia um sentimento profundamente verdadeiro. Os dois amavam-se com entranhado ardôr, e isso é o que mais importa saber ao leitor inimigo de divagações. Ponhamos, pois, de parte a preoccupação de responder a reparos que a grande maioria certamente não fará e digamos em poucas palavras o que foi feito de Paulo, desde que, cerrada a janella da sua amada, teve que retirar-se a passos apressados para que a chuva, que começava a cair em grossas gôtas, o não surprehendesse na rua tristemente deserta. O mancebo era estudante. Tinha completado o curso do Lyceu e matriculara-se no primeiro anno da Academia. O padre Filippe, seu protector e amigo, era quem se dizia encarregado de lhe fornecer os meios de subsistencia e de estudo. Não o tinha, porém, na sua companhia. Incumbira-o aos cuidados de uma familia honesta, onde era tratado como filho, e limitara-se apenas a exigir que o _seu estudante_ o fosse visitar duas vezes por semana, nas quintas e nos domingos, á casa que elle habitava, na rua Chã. Paulo não conhecera outra familia, além d'aquella em casa de quem o hospedaram aos doze annos. Até ahi, que se lembrasse, fôra alumno interno d'um instituto religioso, onde umas irmãs piedosas o trataram com o carinho de mães, ficando-lhe d'esse internato uma recordação tão saudosa que, ainda agora, ia a meudo visitar a abbadessa, madre Paula, que tinha no seu coração o primeiro logar. Recolhendo a casa na manhã d'aquella noite accidentadissima, o mancebo não pôde dormir. Agitadissimo, recordando o seu passado, em que parecia haver um ponto escuro que o mortificava, Paulo resolveu erguer uma ponta do veu mysterioso que encobria o seu nascimento. No dia seguinte, pelas 10 horas, dirigiu-se a casa do seu protector, e sem mais preambulos, disparou-lhe esta pergunta á queima roupa: --Diga-me, padre: quem é meu pae? O padre Filippe, surprehendido pelo imprevisto da pergunta, pôz no mancebo os olhos espantados e ficou-se a consideral-o em silencio por alguns momentos. --Porque me fazes essa pergunta, Paulo?--disse por fim. --Porque sou um homem, porque tenho já dezoito annos, e desejo saber d'onde venho, para poder destinar para onde vou, ou para onde devo ir... respondeu o mancebo com firmeza. O padre Filippe sorriu bondoso a esta replica do moço e continuou a olhal-o fixamente. --Paulo--disse elle afinal--se dizes que és um homem, como póde influir no teu destino o saberes ou deixares de saber o nome d'aquelles a quem deves a existencia? És um homem; e todos os homens devem ser guiados pelo mesmo sentimento do bem, todos devem caminhar para o mesmo fim: serem uteis a si e á humanidade. Creio que o facto de cada um saber ou ignorar o nome de seus paes nada influe ou nada deve influir no destino que lhe está traçado. --Perdão, meu bom amigo!--objectou Paulo--Todo o homem tem o direito, creio eu, de conhecer a sua origem, de saber o nome dos seus progenitores, não só para os respeitar e bemdizer pelo beneficio da vida que lhe concederam, mas ainda para nortear os seus actos pelas tradições da sua familia. Por isso insisto na pergunta: quem é ou quem foi meu pae? --Teu pae--tornou o padre placidamente e agora de todo reposto do sobresalto que lhe causára a pergunta--teu pae é ou foi um homem. D'isso não te deve restar duvida, pois que homem te dizes já e como homem te apresentas. --Mas não tinha nome esse homem? --Se o tinha, não chegou nunca ao meu conhecimento. --Nem o nome de minha mãe? --Nem o nome de tua mãe. --Como é, pois, que eu me chamo Paulo de Noronha? --Naturalmente porque aquelles que te deram o sêr assim quizeram que te chamasses. --Assim quizeram! A quem manifestaram elles essa vontade? São ainda vivos? Se o são, porque se occultam e me não apparecem? Se morreram, porque motivo deixaram envolto no mysterio o meu nascimento? --A nenhum filho é licito discutir e muito menos censurar os actos de seus paes. --Mas eu não censuro, nem sequer discuto!--obtemperou Paulo--eu apenas pergunto. --Ha perguntas que envolvem censura, se não para aquelles a quem se fazem, pelo menos para aquelles de quem se fazem... Mas dize-me, Paulo, que estranha curiosidade é essa que assim te move a querer saber o que por emquanto deves ignorar? O mancebo hesitou por alguns instantes e por fim disse: --Padre Filippe, permitta-me que lhe falle com franqueza e lhe exponha as duvidas que ha tempo a esta parte me obcecam o espirito e me fazem reflectir na minha estranha situação... --Falla, meu amigo, falla!--animou o padre bondosamente--e crê que, a não sêr madre Paula, ninguem no mundo merece tanto como eu a tua confiança. --Pois bem!--tornou Paulo--ha muito tempo que eu dirijo a mim mesmo estas perguntas: Quem sou eu? De que familia descendo? Como se chamam ou se chamavam meus paes? Todos os meus condiscipulos dizem de quem são filhos, todos repetem com orgulho o nome dos paes ou relembram com saudosa ternura o nome das mães. Todos dizem: «a minha casa, a minha familia», só eu não posso dizer--_meu pae_, _minha mãe_, porque são entes que não conheço, de que nunca ouvi fallar, de quem não tenho a menor noticia. Dar-se-ha caso que eu não tivesse pae, que não tivesse mãe? Mas então a quem devo eu a minha existencia, o amparo e protecção que até agora tenho recebido? Sou um orphão? Sou um engeitado? Vivo e alimento-me do que por direito de nascimento me pertence, ou recebo a esmola de nobres almas compassivas? No primeiro caso, se tenho direitos, reclamo-os, porque esses direitos impõem-me deveres que eu quero respeitar e cumprir. No segundo, como sou já um homem e tenho o braço bastante robusto para ganhar o pão da existencia, não devo por mais tempo acceitar criminosamente a caridade que me trouxe até aqui e que póde fazer falta a outro desgraçado como eu! --Paulo!--disse o padre Filippe, fundamente commovido--és ainda muito novo para te preoccupares com assumptos que, por emquanto, devem permanecer envoltos no véo do mysterio que os encobre aos teus e aos meus olhos. Eu nada te posso dizer, filho. --É então á caridade de vossa reverendissima e de madre Paula que eu devo o pão que até agora me tem alimentado, não é assim?--perguntou o mancebo, extraordinariamente commovido e pallido. --Não! Não!--atalhou padre Filippe.--Eu recebi de um meu superior, a quem assisti nos ultimos instantes, o encargo de velar por ti e de applicar ás despezas da tua sustentação e educação a quantia que mensalmente me é enviada por pessoa que desconheço e que já antes a enviava ao santo sacerdote que me legou este encargo. A mim nada me deves, meu filho, senão a grande estima que tenho por ti e o grande desejo que sinto de te vêr conquistar uma posição digna e honrosa na sociedade. Paulo calou-se. As palavras do padre Filippe, repassadas de suavidade e doçura, impressionaram-n'o profundamente. --Estou então condemnado--disse elle, passados instantes--a ignorar toda a vida o nome de meus paes? --E de que te valeria o sabel-o? --De que me valeria! Valer-me-hia de não ter que córar diante de quem me interrogar a esse respeito! Valer-me-hia de não ter que recuar envergonhado e confundido diante de uma familia honesta que, antes de me admittir como filho em seu seio, terá que perguntar-me o nome de meus paes! Valer-me-hia, emfim, de não me encontrar n'esta horrorosa situação de não saber quem sou, se o portador legal de um nome honrado, se o vil e abjecto fructo de uma acção indigna, de um amor bestial e criminoso! Ouvindo esta retumbante tirada do moço, o padre Filippe sorriu ainda amoravel e observou-lhe: --Os tempos mudaram e com elles a orientação da sociedade moderna, meu Paulo. Já nenhum homem se impõe hoje pela familia, pelas tradições dos seus antepassados, pelas chimericas e phantasticas illusões de uma arvore geneologica, bracejando vergonteas e rebentões inuteis pelos seculos fóra. Nenhum homem vale hoje pelo que valeram seus paes e seus avós... Hoje, cada um vale por si, pelos seus merecimentos proprios, pelas nobres qualidades do seu caracter, pelas brilhantes manifestações da sua intelligencia. A tendencia democratica dos nossos tempos de ha muito que pôz de parte as falsas convenções de uma sociedade que se desmoronou... --Mas não pôz de parte, creio eu, os dictames da honra!--retorquiu o mancebo. --Decerto. E alguem te impede de te affirmares sempre um homem honrado, Paulo? A honra está nos nossos actos, está no uso que fazemos das faculdades com que a natureza nos dotou, está na firmeza e altivez com que, através de todas as vicissitudes, cumprimos intemeratamente o nosso dever; não está nos acasos do nascimento, nos brios de passados avoengos, nos appellidos pomposos dos que nos deram o sêr. Faze, pois, por merecer a estima e o respeito dos teus concidadãos, Paulo, e não te preoccupe a ideia de não saberes de quem vens. Basta que apenas conheças para onde vaes e sigas sem tergiversar a linha do dever. O mancebo guardou silencio por alguns instantes. --É, pois, um mysterio impenetravel o meu nascimento? Mas com que direito se me occulta o nome de meus paes? Com que direito me condemnam a esta lucta permanente comigo mesmo, sem saber se o que me dão o devo receber como meu, se o devo considerar como uma esmola? --Paulo! Por duas vezes já, desde que aqui entraste, proferiste a palavra _esmola_. As esmolas dão-se aos desgraçados, aos invalidos, aos que se encontram impossibilitados de, por esforço proprio, provêrem aos meios de subsistencia. Tu não estás n'esse caso. Quando muito, o que recebes de mão ignota que não precisas conhecer, é um adiantamento, uma divida que contrahes e que te será facil solvêr, correspondendo dignamente ás esperanças que em ti depositaram os que quizeram fazer-te um bom cidadão, um homem util a ti e aos teus semelhantes. E sobre isto, meu amigo, creio que temos fallado bastante. Dize-me--continuou o padre Filippe--tens ido visitar madre Paula? --Ha mais de quinze dias que a não vejo. --És ingrato, Paulo! A pobre senhora deve ter estranhado a falta da tua visita... Como é que pódes esquecer assim por tanto tempo quem tantas provas de carinhoso affecto te tem dado? --Padre--disse Paulo, ruborisado--eu não esqueço, nem poderei esquecer nunca quanto devo a essa bondosa e santa senhora, que tem tido para mim desvelos e ternuras de... de mãe. Na minha vida, porém, começam a surgir tão imprevistas luctas, incidentes de tal modo inquietadores, que não sei se deva perturbar com a minha presença o suave remanso d'aquella existencia para mim tão cara! --Luctas imprevistas, incidentes inquietadores...--O que é isso, Paulo? Falla-me com franqueza, dize-me tudo, rapaz! O que é que te acontece de estranho e de ameaçador? Não te esqueças de que deves considerar-me o teu primeiro e mais sincero amigo, meu filho! Creio que tenho direito á tua confiança... Ou não? --Respeito-o muito, meu padre, para vir importunal-o com assumptos que lhe parecerão talvez pueris... --Bem sei!... Negocios do coração... Temos amores no caso... São os primeiros rebates da virilidade no coração de um adolescente. Vamos! quem é a tua Virginia, meu Paulo?--perguntou jovialmente o sacerdote. --A minha Virginia--disse o mancebo, com enthusiasmo--chama-se Beatriz, e não é menos formosa nem menos adoravel do que a immortal inspiradora do Dante. --Bravo!--exclamou rindo o padre Filippe.--Temos, pois, em perspectiva uma _comedia divina_, para fazer confronto com a _Divina Comedia_... --Se não tivermos antes um drama extraordinario, até agora inédito na historia dos soffrimentos humanos... O padre encarou-o gravemente. --Fallas serio, Paulo? --Tão serio que me atrevi a vir interrogal-o, padre Filippe, sobre a historia do meu nascimento. --Ah! era por isso que vinhas assim n'essa ancia, pedir-me a chave do enygma da tua existencia? Eu devia tel-o adivinhado... Só as mulheres são curiosas por indole... --Não, não!--atalhou Paulo.--A mulher que eu amo ainda não me fez a menor pergunta que me difficultasse a resposta. Eu, porém, é que desejo saber quem sou para saber o que posso offerecer-lhe. --Pois não é sufficiente o coração do homem que ama para a mulher amada? --Padre, a mulher que eu amo não é livre; tem pae, que se julga com direito a intervir no seu destino e a impedir que sua filha busque a alliança de um homem de origem... desconhecida. --Foi essa menina quem t'o disse? --Disse-m'o a minha propria razão. --Queres um conselho, Paulo?--perguntou inopinadamente o padre Filippe. --Os conselhos de vossa reverendissima são para mim leis sabias e justas, que eu não posso deixar de acatar com o respeito e gratidão que lhe devo. --Pois bem; refreia os impetos da tua paixão por essa menina e busca antes de tudo fazer-te digno do seu amor. --Já o sou. --Pelos dotes do coração, concordo, mas não pela posição social alcançada. O primeiro que o pae d'essa menina ha-de perguntar-te, quando souber que lhe pretendes a mão da filha, é com que recursos contas para proporcionares a tua mulher a felicidade e o bem estar a que ella tem direito. Quererá saber que posição é a tua, que profissão exerces ou de que meios de fortuna dispões para poderes dignamente apresental-a na sociedade ao respeito e á consideração das pessoas de bem. E comprehendes, meu Paulo, que a taes perguntas não se responde com uma certidão de baptismo que nos dá avós illustres de quem não herdámos um palmo de terra onde cahir mortos, nem com a reedição apaixonada dos mil juramentos de amor constante que enviamos á filha em perfumadas cartinhas que lá estão, em maço, amarradas com fita de seda... O mancebo não pôde deixar de sorrir a estas palavras do padre Filippe, que denunciavam um profundo conhecedor da arte do galanteio. --Os paes não se contentam com tão pouco, exigem mais alguma coisa--continuou o sacerdote--Ora esse _mais alguma coisa_ é que está na tua mão offerecer-lh'o, Paulo. Conquista pelo estudo e pelo trabalho honesto uma posição que te nobilite aos olhos do mundo; engrandece-te a ti proprio, torna-te homem; e quando a tua consciencia te disser que não és inferior á mulher que amas, vae pedil-a e não receies que o pae te não encontre bastante nobilitado para entrares na sua familia. --Mas o pae de Beatriz quer casal-a com outro!--exclamou o mancebo, dando largas ao desespero que lhe ia na alma. --O pae d'essa menina sabe que ella te ama? --Não sabe. --É, pois, natural que, julgando o coração da filha desligado de qualquer affeição, pense em lhe proporcionar um enlace que lhe parece vantajoso. Todos os paes pensam no futuro de suas filhas e esse não o seria, se desdissesse da regra geral. Mas d'ahi a violentar-lhe o coração e a impor-lhe á força um casamento que ella rejeita, vae uma distancia enorme. Se essa menina te ama sinceramente, como dizes, recusará o consorcio que o pae lhe proporciona, allegando motivo que para todos os paes deve ser sagrado--a ausencia absoluta de sympathia pelo noivo proposto. Se, pelo contrario, o sentimento que diz nutrir por ti não é tão vivo e intenso que lhe permitta a recusa, casar-se-ha, e com o facto só tu tens a lucrar, pois que assim te livras do escolho de vires a possuir por companheira uma creatura incapaz de corresponder ás nobres aspirações da tua alma. Não creio, pois, que isso seja contrariedade de maior, que te dê motivos para os sobresaltos e inquietações que revelas. Vae visitar madre Paula, meu rapaz... Conta-lhe os segredos da tua alma, nada lhe occultes, e verás como nas suas palavras e conselhos has-de encontrar o socego e quietação que precisas... Isto não é desviar de mim o encargo de te guiar e dirigir no accidentado caminho a que o coração te propelle--accrescentou o padre--Mas é que as mulheres, em questões do coração, teem mais auctoridade, são mais profundamente conhecedoras da mysteriosa sciencia do sentimento alheio, e teem sobretudo um poder de persuasão que a nós outros os homens nos fallece. Procura madre Paula, conta-lhe tudo, escuta as suas palavras e verás que has-de sentir-te bem, meu filho. --Procural-a-hei--disse Paulo--mas creio bem que não poderá aconselhar-me melhor do que vossa reverendissima acaba de o fazer; nem as palavras da santa e virtuosa senhora poderão trazer mais funda ao meu espirito a convicção que vossa reverendissima me deu de que preciso engrandecer-me, fazer-me _homem_ para conquistar a posse da mulher que amo! --Folgo de ver que comprehendeste bem o intuito das minhas palavras, Paulo. Crê que ninguem mais do que eu deseja a tua felicidade e o teu bem estar. Se fosses meu filho, não te aconselharia de modo differente nem desejaria com mais ardor ver-te ascender a uma posição culminante. D'isso pódes estar certo. --Trabalharei e empregarei todos os esforços para realisar os desejos de vossa reverendissima--que são tambem os meus. --E conseguil-o-has, porque és intelligente, és energico, e revelas nobreza de caracter. Com taes predicados, só não alcança uma posição distincta na sociedade quem não quer. Agora, reanimado pela esperança que as palavras do padre Filippe lhe incutiram, o mancebo despediu-se do seu protector, mais que nunca resolvido a encetar a lucta pela vida e pelo triumpho completo das nobres aspirações do seu amoroso coração de rapaz. III Pae e filha Emquanto o pupillo do padre Filippe e de madre Paula busca a maneira de realisar os dourados sonhos da sua imaginação juvenil, queira o leitor acompanhar-nos a casa do pae de Beatriz e travar conhecimento com o sombrio progenitor da encantadora menina. Não tendo nós os mesmos motivos de Paulo para occultar do pae as relações com a filha, justo é que busquemos o conhecimento de ambos e entremos na intimidade dos dois para melhor podermos avaliar o caracter de cada um e apreciar os acontecimentos que vão desenrolar-se aos nossos olhos. Á hora a que entramos, está o sr. Custodio de Jesus sentado á secretária do seu gabinete, fazendo contas e archivando documentos que parece lhe são muito uteis, pela attenção e minuciosidade com que os examina e pelo cuidado com que em seguida os guarda emmaçados e rodeados de uma larga cinta de papel branco, em que se lê n'uma excellente letra garrafal, a palavra--Hypothecas. --Estas bem estão--murmura elle coçando distrahidamente com a mão direita a vasta suissa grisalha, talhada em fórma de foucinha e franzindo o labio superior completamente rapado á navalha, talvez para facilitar a passagem do meio grosso destillado e liquifeito em repetidas pitadas nas profundezas insondaveis de um nariz que exteriormente apresenta a configuração e o aspecto de um capacete de alambique--Estas bem estão... O peor são as outras... Passou a examinar segundo maço, mostrando no rosto evidentes signaes de mau humor. --Aqui está!--disse elle, batendo com a mão espalmada sobre os papeis--Mais de cincoenta contos em hypothecas que não pagam ha um anno um real de juro! Ladrões! E agora são capazes de ainda vir fazer questão para juizo e arranjar-me a tramoia de modo que eu não fique com as propriedades pelo preço da louvação... Como correspondendo a estas reflexões, que accusavam no sr. Custodio de Jesus um agiota costumado a perseguir as suas victimas até as espoliar em leilão, nos tribunaes, abriu-se a porta do escriptorio e entrou por ella um homem alto, espadaudo, porém excessivamente magro, usando uma comprida barba que quasi lhe chegava á cintura e que lhe dava á physionomia um aspecto carregado, ameaçador, capaz de apavorar o mais remisso devedor, o mais teimoso dos litigantes. Este homem entrou como pessoa intima na casa, cerrou a porta sobre si, dirigiu-se a uma cadeira que estava devoluta junto da secretária, e sentou-se sem mesmo se dar ao incommodo de tirar o chapéo que lhe ensombrava o barbudo rosto. Ao vêl-o, o sr. Custodio de Jesus teve um sorriso de intimo contentamento e exclamou: --Estava agora mesmo a pensar em você, amigo Belchior! --Aqui me tem. Os amigos lembram sempre na occasião... Não vim mais cedo porque tive de ir ao tribunal requerer um arresto... E amanhã tenho outro... Isto é um nunca acabar de caloteiros, que só gostam de comer e não pagar! Mas aquelle que me cahe nas unhas e tem por onde pagar, amola-se! Deixo-o expremido que nem um limão. --É o que eu preciso que se faça a estes tratantes que aqui estão com o juro por pagar!--exclamou o sr. Custodio de Jesus, apontando para as escripturas que tinha diante de si. --Não se afflija, que isso é negocio de pouca demora... Qualquer dia tratamos d'isso. Sabe ao que eu cá venho? --Você o dirá, amigo Belchior. --O rapaz, pelas informações que tenho d'elle, e um partidão! --Sim? --Não imagina! É mesmo mais rico do que eu supunha... O melhor que temos a fazer é não perder tempo e tratarmos de aferventar isto quanto antes. --Você bem sabe que o caso não é para pressas, amigo Belchior... Eu mesmo tenho receio do rapaz... Diz você que elle tem uma grande fortuna, e eu mesmo não duvido que assim seja, mas quem é que me assegura que elle não tem a maior parte dos haveres compromettidos, ou que não possa vir a compromettel-os? --Quanto á primeira hypothese, posso affirmar-lhe que o rapaz tem sido estroina, tem gasto em passeios, em ceias com as actrizes, tem finalmente pago o seu tributo á mocidade... Mas todas essas rapaziadas não teem desfalcado o rendimento, que é grande... Quanto á segunda hypothese, é provavel que elle, depois de casar com sua filha, mude de feitio e comece a portar-se como homem sério... Mas se o não fôr, tanto melhor... --Tanto melhor, como?--interrogou o sr. Custodio de Jesus, indignado.--Então é melhor que minha filha case com um valdevinos, um dissipador, um extravagante? Bonita moral a sua, seu Belchior! Pois eu, meu amigo, desde já lhe declaro que o que tenho me custou muito a ganhar, e não é para o vêr dissipado em patuscadas e ceias ás actrizes! --O meu amigo Custodio de Jesus saberá muito bem como é que se ganha dinheiro, como se descontam letras e se empresta a juro sobre hypotheca; mas o que não sabe é nada de jurisprudencia--disse o Belchior com emphase.--É preciso que o meu amigo se lembre de que sou solicitador ha mais de vinte e cinco annos, e que, durante todo este tempo, tenho adquirido conhecimentos que me habilitam a segurar o que é meu e o que é dos meus constituintes... --Não digo que não, mas essa theoria, com franqueza, não me agrada... Lá que o rapaz tenha tido estroinices, emfim, não é bom precedente, mas desde que elle ainda possue uma casa grande, de vasto rendimento, tudo se lhe póde perdoar e esquecer com a condição de mudar de vida e de costumes dissipadores, logo que ligue o seu destino ao de minha filha. Mas agora achar melhor que elle continue nas suas dissipações e loucuras, do que se emende e seja um bom marido, isso é que me não entra cá! --É o que eu digo!--volveu o procurador com desdem--não sabem nada da lei e mettem-se a discutir com quem conhece a letra dos codigos! --Os codigos, amigo Belchior, pódem dizer o que quizerem, mas o que elles não pódem é metter-me em cabeça que um marido estroina é muito melhor do que um marido economico, morigerado e amante de sua mulher. --É porque o amigo e sr. Custodio de Jesus--respondeu o procurador, formalisado--não sabe que a lei faculta uma acção de interdicção contra o marido prodigo, e confere a administração do casal a uma ou mais pessoas de familia. O Custodio de Jesus arregalou os olhos, espantado. --O quê? O que é isso? Explique lá, homem, que eu não percebi bem. --Não tem que explicar. Não se fazem escripturas, de modo que a noiva tem a meação nos haveres de seu marido, como o marido a tem nos haveres da mulher. Ora a administração do casal pertence de facto e por lei ao marido; mas se este, em vez de administrar parcimoniosamente, se entrega a dissipações e patuscadas escandalosas, á mulher assiste o direito de requerer a interdicção do marido e pôr-lhe uma tutela que, n'este caso, poderia muito bem ser exercida pelo meu amigo o sr. Custodio de Jesus... Ora percebe agora a razão por que eu digo que mais valerá que elle continue a affirmar-se um estroina, um dissipador de marca? --Realmente você, amigo Belchior, é uma cabecinha privilegiada! exclamou enthusiasmado o pae de Beatriz.--Porque não estudou você para doutor? O procurador sorriu com bonhomia e encolheu os hombros com despreso: --Não me faz falta--disse.--Conheço tão bem a lei como aquelles que fôram a Coimbra. Por isso lhe digo, não deixe perder esta bella occasião de apanhar uma fortuna, que decerto lhe não voltará tão cedo a bater á porta outra igual... Case a pequena quanto antes com o doidivanas que se lhe offerece, e deixe o caso por minha conta. --Eu já disse á minha Beatriz que fazia muito gosto em que ella acceitasse por marido este rapaz... --E ella, o que respondeu? --Como o meu amigo póde bem avaliar, minha filha, que até agora não tem pensado em casamento, caiu das nuvens quando lhe fallei em casar. --Mas manifestou repugnancia em acceitar o marido que se lhe propõe? --Ella pediu-me que a deixasse pensar na resposta... Emfim... deseja consultar o seu coração, e isso não se lhe póde levar a mal... --Bem! Mas supponha que ella recusa...? --Que motivo terá para recusar quando sabe que a minha vontade é que este casamento se faça e quando o noivo é realmente uma bella figura, capaz de captar as sympathias da menina mais exigente? --Mas supponhamos que recusa!--Insistiu ainda o procurador. --Não posso suppôr tal cousa, porque não estou habituado a que, em minha casa, alguem tenha vontade differente da minha. --Nas pequenas questões da vida domestica, d'accordo... eu creio que o meu amigo tenha sido e continuará a ser completamente obedecido... Mas n'este caso talvez não encontre a mesma cega obediencia que suppõe... --Por que? --Porque as mulheres, quando encarreiram as suas affeições para um lado, não ha diabo que as faça voltar para outro, amigo e sr. Custodio... --O que quer dizer com isso, amigo Belchior? --Quero dizer que se a Beatrizita já tem por ahi namoro que lhe faça andar a cabeça á roda, ao meu amigo não lhe será tão facil como julga o fazer que ella obedeça á sua vontade... --Namoro! A minha Beatriz é uma creança de dezeseis annos e não pensa n'essas tolices!--protestou o sr. Custodio de Jesus encrespando o sobr'olho.--Isso é bom para aquellas raparigas que são educadas á redea solta e que não teem paes que lhes saibam dar educação... Namoro! Eu admittia lá que uma filha minha tivesse namoro! --As filhas nunca pedem licença aos paes para essas coisas...--commentou o outro. --As filhas que não respeitam os paes ou que não teem paes que se façam respeitar, d'accordo. Mas em minha casa não se dá isso... --E se se desse? --Se se desse! Você sabe alguma coisa, Belchior? --Se se desse, é o que eu pergunto?--retorquiu o procurador com um sorriso mysterioso. --Se se desse, ia ahi tudo com seiscentos diabos! Fechava a rapariga n'um quarto, que não tornava a vêr sol nem lua, emquanto não fosse á egreja casar com quem eu dissesse!--bramiu o sr. Custodio de Jesus, assentando furioso murro sobre as escripturas das hypothecas em divida.--Mas você sabe alguma coisa? Homem, seja franco! --Pois então fique o amigo Custodio sabendo que temos moiro na costa e que a pequena... mas você não vá agora fazer asneira... estas coisas levam-se com prudencia... --Diga, diga, homem!--insistiu o capitalista afflicto.--Sabe que a minha filha... --Tem um namoro. E então? É a coisa mais natural d'este mundo. --Você falla serio? --Não costumo brincar com coisas d'estas. Quando eu lhe digo que sua filha se corresponde com um rapaz a quem vae fallar da janella para a rua todas as noites, é porque tenho d'isso a certeza. Custodio de Jesus levantou-se de um salto como mordido da tarantula. --Você não me repita isso nem a brincar!--bramiu elle--porque eu vou-me áquella desavergonhada e racho-a! --Mau! assim não fazemos nada!--reprehendeu o procurador--Aqui o que convem é saber o que se passa e tratar de encaminhar as coisas de modo que o projectado casamento com o nosso rapaz se realise o mais breve possivel... --Mas quem é, quem é esse outro que ella namora? --É um estudantito... um rapaselho. --Rico?--interrogou o Custodio arregalando os olhos. O procurador soltou uma gargalhada. --Você, amigo Custodio, cuida que os rapazes ricos andam por ahi aos pontapés! Isto hoje é tudo uma pelintrice, você bem o sabe... Quando apparece um como o Eugenio, é um milagre! Porisso é que eu digo: vamos a deitar a unha a este, porque se o deixamos escapar não apparece outro tão cedo... O Custodio de Jesus passeava agitado pelo aposento, quasi sem prestar attenção ás palavras do procurador. --Mulheres! Raça maldita! Nasceram só para enganar!--blasphemava elle--Até esta, de 16 annos, creada com todo o recato, longe das sociedades, retirada das más companhias, até esta, que parecia uma innocente, me sae á ultima hora a corresponder-se com um namoro, sem que eu, que sou pae e ando sempre com mil cuidados e cautelas a vigiar-lhe os menores movimentos, tenha dado por isso! --Amigo Custodio--obtemperou o procurador--não vale a pena affligir... Não é caso de morte de homem ou casa queimada... Que diabo! eu disse isto porque entendo que a você, como pae, convem saber o que se passa para saber como ha de proceder... --Como hei de proceder sei eu!--rugiu colerico o pae de Beatriz--Ponho-a de pé descalço a fazer o serviço da casa, a varrer, a lavar a louça, a cosinhar, para lhe tirar o vicio! Se tem sentimentos de criada de servir, que seja criada de servir em tudo! --Homem, eu desconheço-o!--reprehendeu severo o Belchior--Tinha-o na conta de um homem de juizo, um homem prudente que sabe o que lhe convem e que respeita os seus interesses, e você sae-me a querer fazer tolices e disparates que não lembram a ninguem! --É que você não sabe o odio que eu tenho ás mulheres!--explicou o Custodio--Esta filha veio para meu castigo! --Não veio para seu castigo nada! Apparece-lhe um casamento bom para ella, um casamento de primeira ordem? Aproveite-o, trate de a casar por bem ou por mal... isso sim, senhor! Mas agora romper no excesso de a pôr a fazer de servilheta, isso é dar murros em si proprio, amigo Custodio. Ora imagine que você faz isso, e a pequena desesperada lhe foge... E depois? Você desherdal-a não póde, porque ella é sua filha. Além d'isso; já não tem mãe e mais tarde ou mais cedo tem que entrar na posse da herança materna... Homem, prudencia!... levemos as coisas por bem, que é melhor... --Tem razão!--concordou por fim o Custodio--Mas olhe que é para um homem arreliar! Não ha ninguem mais infeliz com as mulheres do que eu!--desabafou com o desespero de quem tocou a méta do soffrimento--Eu fui casado duas vezes... A primeira mulher, a Carlota, sahiu-me uma bebeda, uma desavergonhada que toda a vida me atraiçoou com um padre em quem eu tinha toda a confiança e que até por ultimo me roubou, levando-me tudo, deixando-me a pedir uma esmola!... Veja lá você! Eu era um bolas que não sabia nada do mundo, via Deus no céo e a mulher na terra, tudo o que ella dizia era o que se fazia, e afinal o pago que me deu foi aquelle! Tambem a levou o diabo, que lá se envenenou em Lisboa, e tão infame que até á hora da morte deixou um bilhete a dizer que se matava por minha causa! Isso foi uma coisa muito fallada, até andou nas gazetas... --Espere lá!... D. Carlota? Tenho ideia de lêr isso... --Foi ha dezoito annos... --Sim... ha de haver esse tempo, ha de... --Pois, meu amigo, o ladrão do padre arranjou-me uma tramoia de umas letras que eu acceitei a um outro maroto como elle, um tal João Ignacio... --Bem sei! Conheço perfeitamente. Esse homem tambem parece que deu com tudo á costa. Até esteve doido, e a sua mania é que tinha sido roubado por um padre... --Era o mesmo... o padre Anselmo! Um ladrão, um malandro com capa de santo, que foi a minha desgraça! Se não fosse elle metter-se-me com a mulher e roubar-me tudo, eu tinha a estas horas mais de quatrocentos contos! --Vamos lá!--observou sorrindo o procurador--Parece que ainda lhe não levou tudo, porque você, amigo Custodio, está possuidor de capitaes muito avultados. --Á custa de muito trabalho e depois do segundo casamento para cá--explicou o Custodio. --Não sei como você, depois de ser tão infeliz com a primeira mulher, ainda caiu em casar segunda vez. --Que remedio tive eu! Não foi por minha vontade, não... Mas eu fiquei, como o outro que diz, sem eira nem beira nem ramo do figueira. Appareceu-me uma mulher que tinha ido em nova para o Brazil e que por lá arranjou uns contos de reis e esta filha com que voltou a Braga... --Ah! então Beatriz... --Não é minha filha, mas eu perfilhei-a no acto de casar com a mãe, e ahi é que eu quero chegar... A bebeda, a grande desavergonhada enganou-me! --Enganou-o... quem? --A minha segunda mulher. Disse-me que trazia para cima de cincoenta contos, e afinal vae-se a vêr, entre joias, dinheiro e papeis, pouco passava de vinte! --Está feito! --Está feito, diz você! Mas eu perfilhei-lhe a filha, tenho trabalhado como um burro, aturei-a a ella até á hora da morte--que ella vinha arruinada da saude, escangalhada, um caco velho em summa--tive de sahir de Braga, porque lá toda a gente lhe sabia a vida e era uma vergonha, e agora, depois de tudo isto, ainda não sou senhor de deixar o que é meu a quem eu quizer, porque para todos os effeitos esta rapariga é que é a minha herdeira. --Por esse lado, tem o meu amigo razão--concordou o procurador--mas tambem, se não tem parentes ou outra pessoa que melhor lh'o mereça, pouco desarranjo lhe póde fazer... O amigo para a cova não o póde levar... --Mas podia deixal-o ás Ordens ou a quem eu muito bem quizesse!--recalcitrou o Custodio, indignado. --As Ordens não lh'o agradeciam melhor do que esta pequena...--philosophou scepticamente o Belchior, com um sorriso desdenhoso.--Não havia Ordem nenhuma que fosse capaz de lhe metter em casa uma fortuna como a que ella lhe traz pela porta dentro, se casar com o Eugenio de Mello... --Fortuna... para ella! --E você não é pae? E sendo pae, não fica sendo sogro do rapaz? E sendo sogro do rapaz, desde o momento em que elle não dê carreira direita não lhe vem a administração do casal parar ás unhas? --Isso ainda está em _vêl-o-hemos_... Se o rapaz ganhar juizo... --Se ganhar juizo, faz-se-lhe perder... A questão é que você queira... --Mas faz-se-lhe perder como? Como é que eu hei-de querer?--perguntou o Custodio de Jesus, arregalando os olhos, sem comprehender. --Homem! o rapaz é estroina, a doidice está-lhe na massa do sangue... E os estroinas são como os alcoolicos, a quem os medicos dizem que morrem se continuarem a beber... Emendam-se, fazem um grande esforço para se habituarem á agua, mas se um dia entram n'uma patuscada e vêem uma garrafa que lhes desperta o appetite, perdem o mêdo atiram-se a ella, bebem e morrem victimas do vicio que o instincto da conservação não foi sufficiente para debelar. Ora o rapaz está n'este caso. Ha-de querer portar-se bem, emendar-se, ser um homem exemplar, mas, se lhe apparecer um amigo que o leve a uma ceia e lhe mostre uma actrizita com um palmo de cara regular, não tenha você mêdo que elle ahi irá de vento em pôpa pelo caminho da dissipação e da prodigalidade, e então é que é dar-lhe o golpe de misericordia... Percebe-me agora? O Custodio, maravilhado, contemplava aquelle patife que tinha sobre elle a enorme vantagem de conhecer os _escaninhos da lei_, segundo a phrase pittorêsca do procurador. --Você--disse elle por fim, encarando sorridente o Belchior--é dos de estrella e bêta e pé calçado! --Meu amigo, um homem tem obrigação de não ser tôlo, de não andar no mundo por vêr andar os mais... As patifarias da vida é que põem um homem fino... --Você havia de me ter apparecido em Braga, aqui ha vinte annos antes... Não era comsigo que o ladrão do padre Anselmo mettia dente... E você não me tinha deixado roubar! --Estava bem arranjado o padreca! Que viesse para cá... Comigo nem elle nem o mais pintado fazia farinha!--blasonou basofiento o procurador.--Tenho dado com elles d'aqui... detrás da orelha; mas eu atiro-lhes para a caveira com as baldas certas e elles veem buscar lã mas vão tosquiados! O Custodio suspirou: --Aquelle ladrão!--exclamou n'um surdo rancôr--roubou-me por eu o não conhecer a você! --Meu amigo, com aguas passadas não móem moinhos... O que não tem remedio remediado está... Agora vamos a vêr mas é se se trata de arranjar outro... Disponha as coisas de modo que o casamento se faça quanto antes, porque a fatia é boa e não se póde perder... --A rapariga casa. Por bem ou por mal, que remedio tem ella senão obedecer-me e fazer o que eu disser! --Se ella estiver deveras encarriçada com o tal franganote, ha de custar-lhe a resolvêl-a... --Por isso não seja a duvida... A questão é saber se o negocio convem... O procurador assobiou, acompanhando o assobio com repetidos estalos produzidos pelos dedos maioral e pollegar. --Se convem!--disse elle--É uma pechincha! É um negocio de costa acima! Queira elle noventa contos pela casa, que eu pago-lhe as dividas todas e ainda metto para cima de cincoenta no bolso. É um casão! --Bom! pois então fique descançado, que a rapariga eu cá me encarrego de a domesticar... --Mas veja lá; você não lhe falle no namoro, que é peor...--aconselhou o procurador. --Nem palavra! Para lhe fallar n'elle, tinha de lhe partir os ossos... Nada! eu resolvi ir cá por outro caminho... --E se fôr preciso que o rapaz appareça para lhe fazer o seu pé de alferes... --Por ora não... Deixe estar, deixe vêr como as coisas se preparam... --Arranje lá... E adeus, que devo ter lá em casa os constituintes á espera. Despediu-se, estendendo dois dêdos protectores ao Custodio. --Mas você apparece por cá?--disse o pae de Beatriz, apertando e retendo na mão os dedos do Belchior. --Sim, amanhã... E dirigiu-se para a porta. --Olhe lá: você vá dando esperanças ao rapaz, hein? --Não tem duvida... Disponha você a pequena. Mal que o procurador sahiu, o Custodio subiu ao andar superior e chamou a filha. Beatriz era uma d'estas creaturas franzinas, delicadas, doceis e submissas por indole e por temperamento, na apparencia faceis de dominar, mas que, depois de terem tomado uma resolução, primeiro se deixarão matar do que render-se. Alta, elegante, cabellos e olhos castanhos, tez clara, faces rosadas, o seu gracioso vulto, de uma distincção rara, captivava pela belleza e impunha respeito pelo suave perfume de innocencia e bondade que respirava. Quando o pae a chamou, a pobre menina appareceu tremula, como se o coração lhe presagiasse a tortura que a esperava. --Aqui estou, meu pae--disse ella. O sr. Custodio ameigou a voz, contra o seu costume, e, contrafazendo o semblante n'um risinho agradavel, chamou a filha para o pe de si, fel-a sentar ao seu lado, e perguntou-lhe: --Então, já pensaste no casamento em que te fallei, minha filha? --Já, meu pae... já pensei...--tartamudeou a pobre pequena, commovida. --E decidiste acceitar o partido que se te offerece, não é assim? --Não, meu pae... --Não?!--exclamou o sr. Custodio, fingindo-se surprehendido e mudando rapidamente d'aspecto.--E porque? --Porque não me sinto ainda com disposição para casar... --Não te sentes com disposição! Essa é bôa! Mas para casar ninguem está á espera de disposição... Aproveita-se o noivo quando apparece, e a disposição vem depois... --Eu não poderia unir-me a um homem por quem o meu coração não sentisse a menor sympathia... --Sympathia!--bramiu o sr. Custodio furioso, dando largas ao seu desespero.--Que vem a ser cá isso? Temos frioleiras de romance? Com as sympathias não é que os casados fazem sopa e compram os chapéos e os vestidos ás modistas. O noivo é rico? É o essencial. Ora este tem uma grande fortuna, é novo, é uma bôa figura, não é cego, não é aleijado--e ainda que o fosse, não se perdia nada--porque é que elle não te hade ser sympathico? --Será para outras, mulheres, não para mim...--atreveu-se a dizer Beatriz. Isto foi o mesmo que fazer explodir o immenso paiol em que o sr. Custodio tinha accumulado toda a polvora dos seus rancores de ha muitos annos contra as mulheres. --Que pouca vergonha é essa?!--berrou elle, levantando-se e encarando a filha, rubro de colera--Quem é aqui o pae: sou eu ou é vocemecê? A ira dementava-o a ponto de não o deixar reparar no burlesco e incongruente disparate da pergunta, que faria rir a pobre menina, se o horror da situação em que se encontrava não a tivesse afogado em pranto. --Meu pae! Meu pae!--bradou ella supplicante, caindo de joelhos com as mãos postas--pelo amor de Deus, perdoe-me! mas eu não posso... não posso! --Deixemo-nos de comedias!--rugiu o Custodio n'um recrudescimento de ira--Ou casa ou metto-a nas irmãs da caridade! Beatriz, de joelhos, continuava a implorar: --Meu pae, por alma de minha mãe lhe peço que não me force a este casamento que o meu coração não póde acceitar! --Sua mãe! Não me falle em quem já morreu! Quem lá vae, lá vae, não é aqui chamado! A esta brutal e grosseira reprehensão, Beatriz ergueu-se. No rosto pallido as lagrimas seccaram-se-lhe como por encanto, e nos olhos, fulgurantes de indignação, lia-se-lhe agora uma resolução inabalavel. --Minha mãe--disse ella em voz calma e firme--não me responderia assim, se eu, de joelhos, lhe invocasse a memoria de meu pae morto. Esta resposta acabou de exasperar o sr. Custodio. --Cale-se!--não me falte ao respeito! --Não sabia que a lembrança de minha mãe era para meu pae uma offensa. Beatriz, perfilhada pelo sr. Custodio aos dois annos d'edade, fôra educada na crença de que este homem era seu pae e ignorava por completo a historia do seu nascimento. Notava que o homem a quem chamava pae a tratára sempre com grande severidade e rispidez, e lamentava-se intimamente de não achar no coração do auctor de seus dias a ternura e carinho a que tem direito uma filha obediente e submissa, como ella era. Esta severidade recrudescera, quasi degenerando em tyrannia, depois que a mãe se lhe finara. A pobre pequena habituara-se áquelle tratamento, e, crescendo na edade, sentira mudar-se-lhe o terror infantil n'uma repugnancia instinctiva, porém soffredora e paciente, que mais e mais a afastava do pae. Evitava a sua presença o mais que podia; e nos curtos instantes em que era obrigada a aproximar-se d'elle e a ouvir-lhe as reprehensões grosseiras e injustas, era sempre com os olhos no chão que o escutava. Havia, pois, uma antipathia profunda entre estes dois sêres, que o destino cruel pussera em face um do outro, ligados pelos laços de um parentesco ficticio, mas nem por isso menos respeitavel aos olhos do mundo e da propria victima. A attitude do senhor Custodio, que sempre fôra mau para com a filha, tornara-se desde este momento odiosa. Ferira a pobre creança no que ella tinha de mais santo e mais sagrado no fundo do coração e que fazia objecto do seu culto:--o respeito pela memoria de sua mãe e o seu amor por Paulo. O despreso amargo com que seu pae acolhera a supplica que ella lhe dirigira humildemente, de joelhos, em nome da mãe, revoltou-a, e onde a revolta começa o respeito acaba. Aquella phrase altiva, serena e sêcca com que respondeu ao pae, que a mandava calar, era o prenuncio da lucta que ia travar-se, era como que o grito de revolta chamando em seu auxilio todas as energias da sua alma de mulher para resistir á violencia com que queriam esmagar-lhe o coração. --Já disse!--volveu o descaroado pae.--Quem manda aqui sou eu. Este casamento ha de fazer-se por vontade ou por força. --Viva não me levarão á egreja!--respondeu firmemente a pequena. --Atreve-se a fallar-me assim, a faltar-me ao respeito? Esquece que sou seu pae? --Não esqueço. Mas lembro-me tambem de que não devo ser tratada como escrava. --Quem é que a quer escravisar? Chama escravisarem-n'a ao quererem fazer-lhe um casamento rico, com um rapaz de bôa familia, educado e que póde dar-lhe respeito na sociedade? --O meu coração não se vende a pezo de dinheiro, meu pae! Se esse homem quer comprar affectos, que os busque onde elles se vendem. --Está muito adeantada! Quem é que lhe ensinou tanto? --A minha razão e a consciencia dos meus deveres de mulher digna. O senhor Custodio enviesou-lhe um olhar furibundo. A sua vontade seria estrangulal-a. Mas conteve-se. --Isso são frioleiras de romances!--gritou elle--. A menina não sabe o que diz. A culpa tenho-a tido eu em consentir que certas leituras lhe ponham a cabeça á razão de juros. Mas não tem duvida... Eu a mandarei para onde lhe ensinem os seus deveres de filha. --Mande-me o pae para onde quizer. Obedecer-lhe-hei como filha que não necessita que lhe ensinem os seus deveres. Mas não exija que acceite por marido um homem que o meu coração não estime, porque a isso recusar-me-hei. --Veremos! O sr. Custodio sahiu bufando como um touro e foi direito ao escriptorio. -- Que tal está a _bisca_?!--rosnova elle, no auge da furia.--Bem se vê que não é minha filha! Passeou com as mãos ora mettidas nos bolsos, ora coçando nervoso a suissa, o que n'elle denunciava sempre ou uma profunda meditação ou um violento desespero. --E ainda o Belchior a dizer-me que leve as coisas com prudencia!--regougou por fim.--A prudencia era dar-lhe com um cacête até o diabo dizer _basta_! Amanhã estava ahi macia como um velludo e ia casar com quem eu quizesse... De repente parou como ferido por ideia subita. --E talvez... quem sabe? Esta ideia não é má e póde dar resultado... Vamos lá a experimentar se, levando as coisas por bem, conseguimos o nosso fim. Tornou a subir ao andar superior e chamou a filha. A pequena, muito pallida, veio ter com o pae e perguntou: --O pae deseja alguma coisa? --Desejo, minha filha. Anda cá... senta-te aqui. Quero que me escutes com attenção e que vejas que não sou tão mau como pareço... O sr. Custodio, vendo que Beatriz, sempre com os olhos baixos, não respondia, pegou-lhe na mão e puxou-a docemente para junto de si, fazendo-a sentar ao seu lado, e principiou dizendo: --Ora anda cá, minha filha! É preciso que saibas que ninguem é mais teu amigo n'este mundo do que teu pae... Eu estou velho... estou com os pés na cova, e, com estes desgostos que me estás dando, não posso ir muito longe. --Mas em que é que eu o desgostei, meu pae? --Desgostaste-me com o teu procedimento de ha pouco... --Perdão! eu fui humilde e submissa, eu implorei de joelhos e mãos postas que não me forçasse ao casamento com um homem que o meu coração não póde acceitar... É isto desobediencia? --Filha! mas tu matas-me com essa recusa!--exclamou o sr. Custodio, afflicto, simulando uma enorme contrariedade. --Mato-o porque não me quero casar, porque prefiro viver ao lado de meu pae?! --Matas-me porque o teu futuro e o meu está dependente d'esse casamento, filha! Matas-me porque recusando a mão d'este rapaz lavras uma sentença de morte contra mim! Beatriz empallideceu. --Não o comprehendo, meu pae--balbuciou ella. --Eu te explico, minha filha... E aqui o sr. Custodio interrompeu-se, como para tomar alento, passou o lenço pelos olhos para enxugar uma lagrima ausente, suspirou fundo e proseguiu: --Eu ha pouco fallei-te desabridamente, fui severo, fui rispido, fui mesmo, injusto para comtigo; mas tudo isto era não só o resultado do muito amor que sinto por ti, porque todo o meu desejo é vêr-te feliz, mas tambem e principalmente era motivado pelo desespero da minha horrorosa situação... Suspendeu-se a olhar para a filha, a vêr o effeito que n'ella produziam estas palavras. A pequena permanecia com os olhos baixos, immovel, na attitude de quem escuta pacientemente uma historia que não lhe interessa. --Ouves, Beatriz? --Ouço, meu pae. --Da minha horrorosa situação!--tornou o sr. Custodio a dizer, com um suspiro ainda mais fundo. E abraçando-se na pequena, a soluçar, exclamou: --Ah! filha! filha! teu pae está perdido! Se tu o não salvas, ficas orphã... orphã e pobre, porque eu a esta dôr não resisto! Beatriz, surprehendida, porém de modo algum commovida com esta dôr ficticia, perguntou, como se apenas cumprisse um dever: --Mas o que foi que lhe succedeu, meu pae? Porque é que assim se afflige? --Filha!--tornou o senhor Custodio, com a voz entrecortada pelos soluços e sem desprender dos braços o corpo franzino de Beatriz--estou pobre... estou arruinado e só tu me pódes salvar! --Eu, meu pae! O que posso eu fazer em seu auxilio? --Tudo, minha filha! Mas deixa-me explicar-te primeiro... Os meus negocios teem corrido mal... Nos ultimos tempos tenho soffrido prejuizos importantes que me teem reduzido á miseria... Este procurador, este Belchior que aqui vem e que, coitado, é meu amigo...--não o posso negar, é meu amigo!...--tem-me valido com a sua amizade, abonando-me importantes quantias que me teem sido precisas para solvêr compromissos creados... Mas agora nem já elle tem, nem eu... Este rapaz é rico, possue uma importante fortuna e ama-te apaixonadamente, minha filha... Elle promette pagar todas as minhas dividas no momento em que tu consintas em ser sua esposa... Portanto, vê lá: ou ficamos reduzidos á miseria, sem um bocado de pão, e sem abrigo, porque tudo quanto está n'esta casa é dos credores, ou tu acceitas este casamento e voltam para o nosso lar os dias felizes, a paz e a abundancia, como até aqui. E como Beatriz permanecesse calada, com os olhos no chão, sem responder, o sr. Custodio fitou-a anciosamente e perguntou n'um tom supplicante: --Então, Beatriz, o que dizes? A joven guardou ainda silencio por alguns instantes e depois murmurou: --Digo que é uma grande desgraça, meu pae... --Sim, é uma grande desgraça, não ha duvida... Mas, graças a Deus, temos o remedio para ella, se tu quizeres, minha filha. --Todas as desgraças teem remedio, meu pae, e esta tambem o terá, sem nos ser preciso buscar uma desgraça ainda maior... --Não te comprehendo, Beatriz!--exclamou o sr. Custodio--O que queres dizer? --Quero dizer que se a perda de todos os seus haveres, meu pae, é uma grande desgraça, o meu casamento com esse rapaz ainda a aggravaria mais... --Porque, minha filha? --Porque eu não o amo. --Deixa-te de creancices, Beatriz! O amor vem com a convivencia... Tendo tu o que necessitas para continuar a viver na abundancia, e tendo um marido que te estime e que satisfaça todos os teus desejos, ainda os mais insignificantes, verás que breve te affeiçoas a elle. --Mas eu não necessito de coisa alguma!--protestou vivamente Beatriz. --Não necessitas! Pois estando eu pobre, arruinado... --Eu trabalharei e viveremos do meu trabalho--acudiu corajosamente a nobre menina.--Darei lições pelos collegios e pelas casas particulares, e se não pudermos viver com ostentação, o que não dá a felicidade, viveremos remediados e livres de maiores privações... --Tu estás doida!--berrou o sr. Custodio, desmanchando-se no seu papel de carpidor de desgraças, para assumir a attitude grosseiramente petulante da sua indole má, irritada pola teimosia da filha.--Bem se vê que tens instinctos baixos e que não te repugna fazer má figura! --O que me repugna, meu pae, é illudir e enganar alguem, seja por que preço fôr... --Mas a quem é que tu enganavas, casando com o Eugenio? Anda, dize lá! --Enganava principalmente esse homem, que julgaria encontrar em mim um affecto que eu não posso sentir por elle! --Historias! Affecto não é coisa que se coma! E recahindo nas lamentações primitivas: --Que infeliz eu sou! Velho, com os pés na cova, reduzido á ultima miseria, e não achar na minha propria filha amparo nem compaixão para a minha desgraça! Beatriz ouvia quasi indifferente as lamurias do pae. Toda aquella dôr, manifestada assim em lamentações tão improprias de um homem que sempre se mostrara altivo, sêcco e intractavel, afigurava-se-lhe ignobil. Sentia uma revolta interior, um nojo intimo d'aquella vilissima creatura, de quem se suppunha filha, e tinha como que um secreto remorso de não poder amar o auctor de seus dias. O sr. Custodio percebia esta indifferença da filha, e emquanto se lamuriava, dizia comsigo: --Grande desavergonhada! Bem se vê que não és minha filha! Por fim, Beatriz aventurou esta pergunta: --E se esse rapaz não tivesse apparecido a querer casar comigo, o pae não teria outro meio de remediar os desastres soffridos no seu negocio? --Como havia de eu remediál-os? O remedio era entregar tudo aos credores e ficarmos sem nada! --Mas haviamos de viver... --Viver como?--interrogou o sr. Custodio impaciente. --Como vivem tantos pobres, resignados com a sua miseria... D'esta vez o sr. Custodio conteve-se e não descambou no repellão habitual. --Sabes lá o que dizes, filha! Os que vivem conformados com a sua pobresa são os que nunca souberam o que era viver melhor. Nasceram miseraveis, na miseria se crearam e assim vivem e morrem sem soffrimento nem pesar. Mas quem está na nossa situação, filha, quem experimentou a abundancia e depois se vê reduzido á penuria póde lá conformar-se com isso?! Eu por mim, declaro, dou cabo da vida, e ha-de ficar-te o remorso de teres causado a morte de teu pae! Esta ultima phrase fez estremecer a pobre menina. Tudo quereria menos a pungir-lhe na consciencia o crime de haver morto seu pae. Embora não sentisse por elle os extremos de affecto que o genio irascivel, rispido e severo d'aquelle homem não soubera inspirar-lhe, a sua razão dizia-lhe que tinha deveres de filha a cumprir, e a esses não queria ella faltar. --Mato-me!--continuava o sr. Custodio, abrindo a valvula ao desespero que lhe ia na alma--mato-me, porque não tenho animo para soffrer os horrores da miseria que me estão reservados, e antes quero dar cabo de mim do que vêr a minha filha exposta a todas as desgraças que a pobresa traz comsigo! --Por mim, não se mate, meu pae! Eu tenho força e coragem para resistir aos golpes da adversidade. --Tu terás forças, minha filha, mas eu é que já não as tenho! Dize-me terminantemente que não casas com esse rapaz, que não salvas teu velho pae da miseria, e tu verás o que eu faço... Não tenho animo para vêr os credores entrar por aqui dentro e pôrem-me lá fóra a mim e mais a ti! Não! quando elles entrarem, hão-de vir já encontrar-me cadaver! Disse, e levantando-se como quem tinha tomado uma resolução inabalavel, perguntou: --O que resolves, Beatriz? Nas tuas mãos está a minha vida, a vida de teu pae!... A joven, assim instada, sentiu-se vacillar. Vencida pelo tom humilde e supplicante em que o pae se lhe dirigia, não tinha forças para recusar abertamente. --Meu pae--balbuciou por fim--deixe-me ainda reflectir até amanhã. O usurario percebeu que levava o inimigo de vencida e não quiz abandonar a victoria. --Amanhã será tarde--disse elle--A resposta tem de ser dada hoje ao Belchior impreterivelmente, sob pena de amanhã os credores entrarem por aqui dentro e levarem tudo. Resolve, pois. Eu não te quero forçar a um casamento que te repugna. Bem reconheço mesmo que não tenho direito ao teu sacrificio, porque eu não sou d'esses paes que andam sempre a acarinhar as filhas, sem terem por ellas metade do amor que eu sinto por ti... Tenho este genio assim... pareço severo, pareço um homem que não sabe o que é amor de pae, mas o que o meu coração sente só eu é que o sei!... Interrompeu-se para abafar os soluços e enxugar as lagrimas, que não chorava, ao lenço tabaqueiro e proseguiu: --Paciencia! Tinha de ser assim... seja! E como a filha se conservasse silenciosa, pegou-lhe na mão, exclamando: --Adeus, Beatriz! Despede-te do teu pae, que o não tornas a vêr vivo! --Meu pae!--disse a pobre menina com a voz embargada na garganta pela commoção--Pelo amor de Deus, não tome qualquer resolução desesperada sem que eu falle primeiro com esse rapaz! --Com quem?--interrogou o sr. Custodio, fixando a filha. --Com esse... sr. Eugenio. --Queres fallar com elle para lhe dizeres que não? Dize-m'o antes a mim, filha! --Não, meu pae. Desejo fallar com elle para ouvir de seus labios a declaração de que me quer por mulher. --E casarás? --Casarei, se não houver outro remedio. O sr. Custodio, radiante, estreitou-a nos braços com frenesi. --Deus te abençôe, minha filha! Pódes dizer que salvaste teu pobre pae! Vou mandar avisar o Belchior. E, beijando a filha na testa, sahiu quasi doido de contentamento. IV Dois patifes O procurador Belchior está no seu escriptorio, sentado á carteira, conversando animadamente com um rapaz alto, pallido, elegantemente vestido, de maneiras distinctas, e bastante desenvoltas, que frequentemente o interrompe com uma gargalhada de intima satisfação. No rosto d'este rapaz, que poderá contar, quando muito, vinte e quatro ou vinte e cinco annos, ha os traços indeleveis do bohemio que passa a mocidade entregue a toda a sorte de vicios e prazeres e para quem a vida tem apenas uma difficuldade séria: arranjar dinheiro para gastar. Os olhos pretos, vivissimos e o sorriso zombeteiro que lhe baila constantemente nos labios, meio disfarçado pelo bigode fino, lustroso e petulantemente encaracolado nas guias, dão-lhe á physionomia uma expressão velhaca que poria de sobreaviso um observador experimentado, mas que ao sr. Belchior não parece inspirar a minima desconfiança. Este rapaz é Eugenio de Mello, o pretendente á mão de Beatriz. Ouçamos a conversa travada entre os dois, a vêr se por ella podemos conhecer melhor o personagem com quem vamos travar conhecimento. --O velhote está enthusiasmado--diz o procurador--e o meu amigo apanha, além de uma linda mulher, uma bôa maquia--uma maquia de se lhe tirar o chapéo! --Pois é o que se quer--responde o outro--o que se quer é _massa_. Quanto calcula você, amigo Belchior, que viremos a apanhar? --Homem, já lhe disse, ao certo não sei, porque o Custodio é manhoso... Depois que foi roubado por um padre, não descobre a sua vida a ninguem. Mas, pelos documentos que me teem passado pela mão, aquella besta deve ter para mais de setenta contos. --Menos mau!--considerou o bohemio, piscando o olho.--Mas isso está ainda tudo nas unhas do velho, que póde ter a má lembrança de não morrer estes dez annnos mais chegados... --E os vinte contos que couberam á rapariga, no inventario por morte da mãe?--accudiu o procurador.--Esses é que lhe passam já para as unhas assim que o casamento se fizer... --Vinte contos... que diabo!--tirando-lhe as commissões, o que é que me fica?--considerou o outro, encolhendo os hombros com desprezo. --Sim, que você agora tem mais!--contraveio o procurador sarcasticamente.--Que diabo! vocês são todos assim! Quanto mais teem mais querem! --Não é isso, amigo Belchior. É que eu penso e vejo as coisas como ellas são... Afinal de contas, este negocio vem a ser bom mas é para você... --É bom para ambos! Ou você queria que eu trabalhasse de graça para lhe encher os bolsos de dinheiro e ficasse a fazer cruzes na bocca? --Não, não queria... Mas vamos a saber: a pequena tem vinte contos?... --Para já. Mas a bolada maior ha-de-vir por morte do velho. --Não esperemos por sapatos de defuncto, e façamos calculos positivos. Por agora e para já, realisado o casamento, podemos contar com vinte contos, não é isso? --Perfeitamente. --Você quanto leva de commissão? --Trinta por cento, por sermos amigos. --Obrigado!--respondeu o bohemio zombeteiramente--trinta por cento sobre vinte contos, são seis contos de réis... --Muito justos. --E venho eu a ficar só com quatorze!... --E acha pouco? Para quem não tem presentemente quatorze vintens, parece-me que quatorze contos de mão beijada e uma mulher bôa, é dinheiro... --Não ha duvida, é dinheiro... Mas tome você conta da mulher, dos encargos de a sustentar, de a vestir, de lhe dar criadas, de a aturar e de pagar aos meus crédores antigos, tudo por quatorze contos, e dê-me para mim os seis que você recebe limpinhos e sêccos... Quer? O procurador fez uma carêta. --Você está a fazer-se de manto de sêda!--disse elle descontente.--Se acha que é mau o partido, não o acceite, que não faltará quem lhe pegue. --O partido não é mau, mas não é tão bom como você me quer fazer acreditar... --Com os diabos!--gritou o procurador arreliado.--E os setenta contos do velho não é nada? Você acho que cuida que eu nasci hontem! Eu mettia-me lá n'este negocio por seis contos de réis, se não fosse a certeza de vir a apanhar mais, logo que o velho _estique o pernil_? Não que o meu tempo é dinheiro e eu não ando a trabalhar para o bispo! --Bem sei--tornou o Mello--mas eu é que tambem não estou para perder a minha liberdade e ficar toda a vida com o trambolho da mulher preso á perna, a troco de quatorze contos que os crédores me hão-de vir buscar, logo que saibam que tenho por onde pague... --Mas você póde arranjar uma coisa. --O que é? --Faça uma concordata com elles antes de casar... --Mas eu não sou commerciante, não posso lançar mão desses meios que são privilegio do commercio honrado...--considerou epigrammaticamente o estroina. --Agora não póde! Cace-lhes você o recibo em como estão pagos, e veremos depois se elles lhe pedem alguma coisa. O Mello pareceu meditar. --Effectivamente, você tem razão... Se áquelles a quem devo seis pagasse com dois, a coisa ainda não iria muito longe... --Menos a mim!--protestou o procurador--a mim é que você me ha-de pagar tudo por inteiro. --Isso, comnosco, é outra coisa... Mas vamos a saber: como é que eu hei-de propôr esse negocio aos meus crédores, se não tenho dinheiro para liquidar de prompto antes de casar?. --Não lhe dê cuidado. Traga-me a lista dos crédores, que eu cá arranjarei isso da melhor maneira... --Abona você o dinheiro? --Certamente. Você acceita-me letras na importancia do que eu pagar e depois nós cá nos entenderemos. --Pois bem, arranje lá isso. --Ora agora--tornou o procurador--temos ainda uma questão a decidir... --Diga lá. --O velho está persuadido de que você é um homem riquissimo... Metti-lhe essa _caraminhola_ em cabeça, porque, de outra forma, elle não lhe dava a filha... --Bom! Que duvida ha? Dir-lhe-hei que sou rico... --A questão não é dizer-lh'o, a questão é provar-lh'o. Você não me disse que ha um Eugenio de Mello no Alemtejo, possuidor de uma riqueza immensa? --Disse e ha. --Bom. Pois então é pedir ao escrivão de fazenda respectivo uma certidão das decimas e contribuições pagas por esse sujeito ao estado... --Para que? --Para que! É boa! Para podermos provar ao Custodio que você é um importante proprietario do Alemtejo e que póde dar-lhe a filha, porque não hão de faltar-lhe porcos nem cortiças para os netos. O bohemio soltou uma gargalhada. --Você é o diabo, Belchior!--disse elle. --E se for preciso provar que você tem quarenta ou cincoenta contos de reis representados em letras, tambem se arranjam com _acceites_ valiosos e de muito credito... --Como? --Tenho constituintes ricos que lhe acceitarão letras na importancia que se quizer, acceitando-lhes você outras de igual importancia. Comprehende? --Não comprehendo muito bem... --Expliquemos: eu acceito-lhe a você letras no valor de oitenta contos e você, na mesma data, acceita-me letras d'igual importância. Você quer _provar_ que possue oitenta contos e mostra essas letras acceites por mim... Mas ellas realmente não valem nada, porque se você vier recebel-as, eu apresento os seus _acceites_, que você tem igualmente de me pagar, e portanto estamos quites... Percebe agora? --Agora, percebo! --Bem. Pois este é também um expediente de que podemos lançar mão quando nos fôr preciso. Mas obra mais limpa é certamente essa da confusão dos nomes, que nos permitte fazer a prova com um documento official... Em que terra do Alemtejo existe esse tal Eugenio de Mello? --Em Borba. --Está muito bem! E então eu que conheço o escrivão de fazenda que lá está agora. Vou já escrever-lhe, e na volta do correio temos cá a certidão. --Olhe lá, não será conveniente eu amiudar as minhas visitas ao Custodio? --Já lhe fallei n'isso a elle. Mas elle diz que por ora não... que o deixemos primeiro resolver a filha a acceitar o casamento, e depois fallaremos... --E essa delambidita porque é que me hade recusar Eu não valerei mais do que o franganito que lhe anda a arrastar a aza?--disse o bohemio. --Mulheres, meu amigo! As mulheres são caprichosas... --E escolhem sempre o peor... --É a unica probabilidade que você tem a seu favor!--exclamou o procurador rindo--Porque peor do que você, com franqueza, não conheço! --Obrigado, amigo Belchior! Você é muito modesto! Os dois patifes encararam-se e desataram a rir. --Ora agora--disse por fim o Mello--não se esqueça de que estou a precisar de dinheiro. --Já? --Pudera! Este Porto é o diabo! Com os seus ares pacatos de terriola de provincia, tem sorvedouros terriveis! --Mas ainda não ha oito dias que lhe dei duzentos mil reis. --E o que vem a ser isso para um homem relacionado como eu? Duzentos mil réis gastam-se n'uma ceia com tres amigos e outras tantas mulheres... --Mas você, que diabo! está hospedado no _Francfort_, um hotel de primeira, onde o tratamento é magnifico, não tem necessidade de comer fóra... --Amigo Belchior, você sabe muito bem como o dinheiro se arranja, mas não sabe como elle se gasta. Não falle, portanto, d'aquillo que não sabe, e chegue-me cá mais duzentos mil reis, que é o essencial. --Assim, por esse andar, quando chegar o dia do casamento, já os haveres da noiva estão espatifados... --Não diz você que temos ainda a reserva dos setenta contos do velho? --Sim, mas isso, como você considerou ha pouco, são sapatos de defuncto... --Homem, haja os sapatos, que o defuncto arranja-se quando nos convier... --Você seria capaz d'isso?--interrogou o procurador com um sorriso indescriptivel de cynismo. --Nós somos capazes de muito mais--respondeu o Mello, frisando intencionalmente a palavra _nós_. --Você é o diabo! Mas olhe lá, não se alargue muito, que eu agora estou sem dinheiro... --Pois sem _massas_ não se faz nada! Você bem sabe, que sendo eu um rico proprietario do Alemtejo, que faço quinze contos de cortiça de tres em tres annos, afóra os porcos, não devo deixar de gastar em harmonia com os meus rendimentos. As mulheres, aqui no Porto, não são de grande luxo, mas comem como freiras e aquelle Palacio de Crystal e aquelle _Suisso_ teem uma lista reduzida, mas cortante como uma navalha de barba! Além d'isso, ha sempre uns amigos _depennados_, que se _encostam_ e que não ficam baratos... --Mande-os trabalhar! Sucia de vadios!--aconselhou o Belchior, indignado. --Bem digo eu! Você não sabe o que diz! Estes amigos são os comparsas da grande comedia que eu preciso de representar. São elles os que fingem de _povo_ e apregoam aos quatro ventos, pelas tubas da fama e das notas de cinco mil réis que lhes empresto, a minha grandeza e opulencia de rico proprietario. Que eu lhes negue o regabofe de uma ceia e a _pastilha_ que me pedem emprestada no fim, porque a carteira lhes esqueceu em casa, e ámanhã eu serei o pelintra, o intrujão que realmente sou, e toda a gente saberá, até o Custodio, que eu não tenho nem cortiça, nem porcos, nem sequer bolota para comer como elles... --Você tem razão!--disse o procurador--Mas, com os diabos, gaste menos. --Que gaste menos! Eu tenho até gasto mais, e decerto não chegaria o que você me dá, se não tivesse tido umas noites de sorte á batota. Meu amigo, todo o negocio requer capital para poder dar lucros... Este negocio do casamento é bom, mas é preciso empatar capital... Eu sou o socio d'industria; você é o socio capitalista: chegue-me cá as _massas_, porque eu preciso de mostrar quem sou. --Deus nos livre! se mostra quem é, está o caldo entornado!--clamou o procurador, levando as mãos á cabeça n'um gesto tragico. O Mello riu com vontade. --Você nasceu para mim, e eu nasci para você!--disse elle.--Difficilmente se encontram e se juntam dois como nós. Ande, vá buscar o dinheiro. O procurador levantou-se, foi ao cofre de ferro, ao canto do escriptorio, contou duzentos mil réis em notas, e voltou com ellas e com um livro na mão. --Ande! ponha aqui por sua mão que recebeu este dinheiro--disse. --Quanto? --Eu dou-lhe duzentos mil réis. Não foi isso o que você pediu? --Mas aqui no livro estão duzentos e cincoenta! --É isso. Os cincoenta mil réis são de juros. --Ladrão! Roubar ao inferno!--clamou o Mello em tom de amigavel censura. --E o risco? Você não tem onde cahir morto. Se este casamento se não fizer, ou se a você o levar o diabo d'hoje para ámanhã, quem perde sou eu! --Não leva, que eu sou cá preciso para animar as artes e as industrias!--retorquiu risonho e senhor de si o bohemio. --O que me anima é que o gado ruim não tem perigo--disse Belchior gracejando. O Mello assignou no livro a quantia indicada pelo procurador, metteu o dinheiro ao bolso e preparou-se para sahir. --Você ande-me com o velho!--disse elle.--Não o deixe resfolegar, e elle que obrigue a filha por geito ou por força a casar comigo. --Coitada da creatura! Ha-de ser feliz com um tal marido! --Eu lhe digo... póde ser que me apaixone por ella... Ás vezes o diabo, quando lhe parece, faz das suas... --Quem! Você apaixonar-se? Se ella fosse uma dama de copas... talvez! --Eu supponho-a uma dama d'oiros... Já vê que a differença do naipe não é tamanha como parece... Dizendo isto, o Mello saiu trauteando uma modinha, emquanto o Belchior, rindo, arrumava o livro das suas contas com o bohemio. --Isto é que é um mariola!--murmurava o procurador satisfeito.--Não ha dinheiro que lhe chegue... O jogo e as mulheres levam-lhe tudo... Ha-de acabar mal este patife! V Madre Paula Na casa conventual das Sereias, vamos encontrar madre Paula, aquella espirituosa e gentil abbadessa que os leitores da _Irmã Dorothêa_ certamente não terão esquecido e com quem aquelles que porventura a não conheçam d'ahi, acharão prazer em travar conhecimento. Formosa ainda, posto que um ou outro fio de prata ponha um signal de velhice nos seus lindos cabellos pretos, a amiga de Helena de Noronha não tem já aquella vivacidade traquina dos tempos em que a conhecemos. A sua conversa, porém, é ainda adoravel d'encanto pelas scintillações do seu espirito gracioso e fino, que ás vezes se desata em torrentes de bom humor que muito alegram o padre Filippe, de ha muitos annos seu unico e constante director espiritual. Á hora a que vamos encontrál-a, está ella sentada em fofa poltrona, escutando o padre Filippe, que acaba de chegar e que, ao que parece, traz novidades importantes a communicar-lhe. A conversação intima entre os dois conserva ainda aquelle caracter familiarmente carinhoso de duas almas que se comprehendem, de dois corações que se amam e que se acham ligados pelos laços indestructiveis da mais solida confiança. --Sabes, minha querida amiga?--disse-lhe o padre Filippe depois de a beijar carinhosamente nas faces--tive hoje a visita do nosso Paulo, do filho da irmã Dorothêa... --Sim? Esse ingrato ha muito tempo que aqui me não apparece! Senta-te e conta-me: como está elle? --Physicamente, pareceu-me bom. Agora, quanto _á bóla_, o rapaz tem-n'a um pouco transtornada... --O que! que dizes tu?--perguntou madre Paula com visivel interesse--Notaste n'elle qualquer alteração? --Imagina tu, minha amiga, que me entra em casa com ares melodramáticos e dispara-me esta pergunta com que eu não contava: «Diga-me, padre, quem é meu pae?!» --Elle fez-te essa pergunta? --E queria por força que eu lhe dissesse de quem era filho e por que razão se lhe occultava o segredo do seu nascimento. --Mas isso é extraordinario! Como se atreveu a perguntar-te semelhante coisa? --Como se atreveu! A mocidade de hoje atreve-se a tudo. A educação livre que lhe demos havia de produzir n'elle os naturaes resultados. Não nos suppõe seus protectores, nem sequer lhe passa pela imaginação que tudo quanto é o deve a nós. Julga-nos intermediarios, apenas, entre elle e os paes, para o acto material de lhe entregarmos as mezadas e mais ou menos inquirirmos do seu aproveitamento. N'estas circumstancias, comprehendes que acanhamento algum podia ter em se me dirigir da maneira por que o fez. --E o que lhe respondeste? Como satisfizeste á curiosidade d'essa creança? --Comprehendes, minha amiga, que eu não podia senão tomar o partido de me fingir tão ignorante como elle ácerca dos mysterios do seu nascimento; e foi isso o que fiz. --Mas que motivo o levou a querer saber quem são os paes? --Achas estranho? Tambem eu estranhei uma tal pergunta, e por isso não o quiz deixar partir sem indagar o que se passava de extraordinario n'aquella alma juvenil... --E indagaste? --Indaguei e soube. --O que é, pois? --O nosso Paulo ama! --Ah! mau prenuncio! Cêdo começa esse pobre pequeno! --Que queres tu, minha Paula? Hoje as creanças passam cêdo a considerar-se homens feitos, e a não guardarem para os trinta annos os prazeres do coração, que lh'os reclama aos dezoito... --Isso é uma doença muito séria, a meu vêr, e que póde causar graves prejuizos de futuro ao nosso protegido... --Ha doenças que em vez de matarem, salvam. Talvez esta seja uma d'ellas... --Sempre optimista, sempre!--disse madre Paula com um sorriso de leve censura.--Não creio que o nosso Paulo possa lucrar grande coisa com uma affeição que certamente lhe ha-de preoccupar o espirito e desviar-lhe as attenções do estudo para o objecto dos seus amores. A prova de que essa paixão nascente, e de todo o ponto intempestiva, começa a produzir perniciosos effeitos, é que já despertou n'elle o desejo de penetrar o segredo do seu nascimento... --Isso tinha de succeder mais hoje ou mais amanhã--replicou o padre Filippe--Não era natural que um espirito vivo e irrequieto como o de Paulo se conservasse por muito tempo indifferente ao desejo de saber quem são ou quem fôram seus paes... Madre Paula conservou-se silenciosa e meditativa por alguns instantes. --Creio que fizemos mal--disse ella--em dar a esse rapaz a educação livre que os modernos philosophos preconisam... Uma creança entregue aos imprudentes impulsos do seu coração juvenil, sem uma voz amiga que a aconselhe, sem a presença de preceptor austero cuja voz auctorisada lhe indique o caminho do dever, ha de necessariamente cahir no deploravel desvario de Paulo. --Os homens formam-se na adversidade; o coração retempera-se nas amarguras para as grandes luctas da vida--retorquiu o padre Filippe.--A educação moralisadora de um preceptor austero corta os vôos ao espirito, e perniciosamente contribue para deformar a indole e perverter o caracter do um adolescente. A violencia imposta pelos preconceitos de uma conducta regrada, sujeita a methodos e convenções oppostas ao sentir individual, dá em resultado a falsificação de um caracter. O individuo assim creado não é nunca um producto apreciavel da natureza, é o producto artificial de uma odiosa tyrannia exercida sobre o seu espirito. Não é mais um homem são--bom ou mau--é um hypocrita; isto é, um aleijado que se arrasta miseravelmente deformado pela vida fóra, tanto mais perigoso aos outros homens quanto aprendeu a occultar e a disfarçar as suas intenções e os seus instinctos. Deixemos a este rapaz ampla liberdade de manifestar a sua indole. Se é bôa, avigorada pela liberdade da educação, ella bracejará frondescente como arvore de bons fructos; se é má, não haveria destra mão de habil podador capaz de extirpar a seiva ruim que a natureza lhe pôz na raiz. --Elle é filho do padre Anselmo!--disse madre Paula--e se herdou a indole cruel, hypocrita e verdadeiramente sanguinaria do pae, com certeza ha de ser um monstro temivel, de que a sociedade terá que arrecear-se. --É tambem filho da irmã Dorothêa--atalhou o padre Filippe--e é possível que haja herdado da mãe os sentimentos de singela bondade que a fizeram cahir nas rêdes infernaes d'esse homem extraordinario que nunca mais tornámos a vêr! --É um caso que ainda hoje não sei explicar, o desapparecimento subito d'essas tres creaturas!--exclamou madre Paula.--Parece incrivel que até hoje não tenhamos tido mais noticias do padre Anselmo nem da irmã Dorothêa, nem ainda do padre Hilario! --Como sabes, minha amiga--ponderou o padre Filippe--nas congregações jesuiticas, muda-se frequentamente de nome, e é esse até o processo adoptado por muitos dos nossos irmãos e irmãs, para apagar os rastos compremettedores da sua passagem por este ou por aquelle ponto. É, pois, de presumir que o padre Anselmo, ascendendo aos logares superiores da Companhia, julgasse conveniente adoptar outro nome, e, levando comsigo a irmã Dorothêa e o padre Hilario, lhes impuzesse a mesma mudança, afim de que ninguem mais pudesse seguir-lhes o rasto no amplo caminho das suas grandezas... --Assim será. No emtanto, Helena é ingrata! Sabendo quanto eu a estimava, sabendo que lhe salvei a vida e lhe dediquei sempre uma amizade sincera de irmã, é imperdoavel o esquecimento a que me votou! --Minha querida amiga, a distancia enfraquece os affectos. Não ha peor inigma da amizade do que é a ausencia. Depois, quem sabe? Talvez que o padre Anselmo, hoje Provincial ou Assistente com outro nome, lhe impozesse silencio como condição indispensavel de seus beneficios... --Oh! não! Custa-me a crêr que a irmã Dorothêa tranzigisse com esse homem, que tão profundamente detestava agora! --Mas não dizes tu, minha querida, que ella amava o padre Hilario, o joven filho do padre Anselmo, que desempenhava o cargo de capellão no convento da Covilhã, de que ella era abbadessa? --Ella propria m'o confessou. --Nesse caso, o amor pelo filho venceu a natural repugnancia pelo pae, e a esta hora temol-os juntos, n'algum convento do estrangeiro, felizes e resignados como nós o estamos, cavando com verdadeiro enthusiasmo na santa vinha do Senhor. --Se tudo se passou como suppões--ponderou madre Paula--se realmente o padre Anselmo ascendeu aos mais altos cargos da Companhia e levou comsigo o filho e a amante d'elle e do filho, é impossivel que a estas horas Helena ignore quanto temos feito por esta creança que ella cruelmente engeitou... --Decerto. Ella póde ter noticias nossas. Nós é que não as temos nem podemos obtel-as d'ella... --Mas é ingrata!--repetiu ainda madre Paula.--Por quanto procederia eu de igual modo para com ella, eu que tu accusavas de leviana, superficial e inconstante nos meus affectos? --Minha querida amiga--volveu risonho o padre Filippe--eu sempre fiz justiça ao teu coração; e se me queixava da tua cabeça, é porque era ella a que vinha receber-me na ante-camara dos affectos sem me deixar penetrar no sanctuario intimo do teu peito. E, para cumulo de desgraça, succedia que eu nunca me encontrava alli sosinho; havia sempre na sala commum das affeições triviaes dois ou tres frequentadores impertinentes com quem me acotovelava e cuja presença me indispunha e fazia soffrer... --Sabes que foste sempre o preferido do meu coração! --Suspeitava-o. Não tinha, porém, a certeza. E essa duvida torturava-me. --E agora? --Agora, minha bôa e querida Paula, tambem eu me não queixo. Devo-te os mais bellos momentos de toda a minha vida; devo-te os mais ardentes prazeres da minha mocidade e as mais suaves consolações da minha velhice. Bemdita sejas! E enlaçou-a nos braços, beijando-a com um ardor ainda não de todo extincto n'aqueile organismo gasto pela edade. Madre Paula deixou-se enlaçar n'um suave e doce abandono, murmurando com os olhos brilhantes e as faces purpureadas de prazer: --Agora, e de ha muito tempo, és tu o unico senhor absoluto de todo o meu ser. Reinas e governas nos meus sentidos como no meu coração. Se me faltasses, morria! --Se o amôr é a vida--tornou-lhe o padre Filippe--se é a grande lei universal que rege todos os sêres; se o amôr é a suprema aspiração dos novos, e ainda a unica força que ampara os velhos, como poderemos nós, minha querida, impedir ou sequer estranhar que Paulo ame com todo o fôgo do seu juvenil coração a mulher que o destino pôz no seu caminho? --Não é precisamente esse o meu desejo, mas tão sómente guiar e dirigir esse pobre rapaz para que o desvairamento da paixão o não precipite nos abysmos da desgraça irremediavel. --O coração apaixonado raro escuta os dictames da prudencia. Todavia, talvez tu possas, minha amiga, com essa tua dôce voz persuasiva, influir no espirito d'esse rapaz a deixar-se guiar pelos conselhos da experiencia. Prometteu-me que viria procurar-te, e creio bem que virá. A ti incumbe, pois, a difficil missão de dirigir os seus passos e vigiar pelo seu futuro. Elle ama-te como filho e se não escutar a tua voz, ninguem n'este mundo poderá fazer-se obedecer por elle. --Pois bem; se até amanhã aqui não apparecer, mandal-o-hei chamar e ouvirei o que me diz. No emtanto, convém saber quem é a mulher que elle ama, a que familia pertence, e no caso que a união dos dois não seja uma d'estas inconsequencias absurdas que a razão repelle e as conveniencias sociaes condemnam, espero que não duvidarás unir os teus esforços aos meus para aplanarmos o caminho da felicidade a esse pobre rapaz. O padre Filippe sorriu. --Queres arvorar-me em casamenteiro á ultima hora!--acquiesceu elle--Seja! Interroga-me esse rapaz, inquire e desvenda todos os segredos da sua alma; e se te convenceres de que se trata de uma paixão séria e não d'uma d'essas velleidades tão frequentes e tão perigosas na adolescencia, faremos todo o possivel por lhe aplanar as difficu