Nota de editor:
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foram tomadas várias decisões quanto à
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mantida de acordo com o original. No final deste livro
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Rita
Farinha (Fev. 2008)
SÁ D'ALBERGARIA
OS FILHOS DO PADRE ANSELMO
ROMANCE
PORTO
LIVRARIA CHARDRON
DE
Lello & Irmão,
Editores
1904
Typ. a vapor da Empreza
Litteraria e Typographica
178, rua de D. Pedro, 184
OS FILHOS DO PADRE ANSELMO
I
Os irmãos da mão negra
O relogio dos Clerigos tinha acabado de fazer soar
pausadamente as doze badaladas da meia noite.
O tempo estava brusco e o vento, soprando da
barra em frias e cortantes rajadas, punha arrepios
nos transeuntes que, levantadas as golas dos casacos
e as mãos mettidas nos bolsos, seguiam a passo apressado,
recolhendo a casa, sob a ameaça de um temporal
desfeito.
Era em fins do outono.
As arvores do jardim da Cordoaria, varejadas
pela ventania asperrima, despiam-se das suas ultimas
folhas amarellecidas, n'um agitado e sussurrante protesto
de espoliadas.
Quem a essa hora passasse pelo Campo dos Martyres
da Patria, veria, encostado a uma das arvores
que orlam o jardim, defrontando com a praça do Peixe,
um vulto immovel e indifferente ao tempestuoso
rugir d'aquella noite agreste e frigidissima.
Parecia esperar alguem, porque, ao ouvir bater a
meia noite no relogio da torre, levou a mão ao bolso
[2]
e, aproximando-se de um dos candieiros da
illuminação
publica, consultou o seu relogio.
―Aquelle anda adiantado cinco minutos―murmurou.
E deu alguns passos distrahidamente como para
illudir a sua impaciencia.
Agora, que o podemos vêr ao reverbero do lampeão,
notaremos que é um rapaz de 18 annos, decentemente
vestido e de gentil presença, não obstante as
feições finas e delicadas quasi lhe
desapparecerem encobertas
pela aba larga do seu chapéo á Mazzantini.
Tinha apenas dado um curto passeio no prolongamento
do jardim, quando do lado da rua do Calvario
avançou a trote rasgado um trem, que parou em
frente d'elle.
―És tu, Paulo?―disse de dentro uma voz.
―Sou.
―Entra depressa, que a noite está agreste!
E a pessoa que fallava de dentro abriu a portinhola,
facilitando-lhe a entrada.
O mancebo saltou de um pulo para dentro do carro,
a portinhola fechou-se, e os cavallos seguiram no
seu trote largo, dobrando a rua da Restauração e
subindo
a da Liberdade até ganharem a rua do Rosario.
Sigamos aquelle trem e ouçamos o dialogo que se
trava dentro d'elle.
Apenas o mancebo entrou, a pessoa que o chamara
e que era um homem de 28 a 30 annos, desceu rapidamente
as cortinas do carro e disse para o seu joven
companheiro:
―Meu amigo, como já te expliquei, isto são
negocios
em que se requer a maior circumspecção e
escrupulo
na observancia das praxes. Has-de consentir
que te vende os olhos.
―Acaso desconfias da minha lealdade, Jorge?
[3] ―De modo algum. Mas é uma obrigação
que o
regulamento me impõe, e eu não posso faltar a
ella
sem trahir o meu dever.
―Pois bem, seja!
O sujeito que ouvimos chamar Jorge tirou então
do bolso um lenço e vendou com elle os olhos do companheiro.
―Has-de dar-me a tua palavra de honra que não
tentarás arrancar a venda sem que para isso recebas
ordem...
―Dou. Mas se o fizesse?
―Poderia isso custar-te a vida, meu caro.
―Apre!―fez o outro, sorrindo―vocês são
intransigentes!
―Está n'isso a nossa força. Não
violentamos ninguem
a seguir-nos, damos ampla liberdade a cada um
de rejeitar a nossa associação, mas defendemos a
nossa
existencia e mantemos o nosso segredo.
―É justo.
―Assim, tu podes, até á hora de prestares o teu
juramento, reconsiderar e exigir que te restituam a
liberdade. Nenhum mal te acontecerá por isso, a tua
vontade será respeitada, a tua independencia mantida.
Mas não saberás dizer onde estiveste nem as
pessoas
com quem fallaste.
―Poderei dizer que fallei comtigo...―gracejou
o outro.
―Que importa? Eu não sou uma
associação.
Comigo póde fallar toda a gente...
―Fallemos sério!―tornou o moço que dava pelo
nome de Paulo.―Asseveras-me que os intuitos d'essa
associação em que vou entrar são em
tudo dignos das
justas aspirações de um homem de bem?
―Assevero-te que os irmãos da
Mão-negra comprehendem
e cumprem á risca o nobre dever de se
auxiliarem e defenderem mutuamente contra as prepotencias
[4]
sociaes da nossa epoca. No nosso gremio
desapparecem as differenças de gerarchia e de dinheiro.
Não ha pobres, porque todos somos ricos da
riqueza e da importancia dos nossos irmãos.
―Poderei então contar com o auxilio da
Associação
na conquista da mulher que amo?
―Decerto―volveu o outro.―Tanto como amanhã
qualquer de nossos irmãos poderá contar com o
teu auxilio para a realisação dos seus desejos.
Isto é
apenas uma associação de soccorros mutuos, meu
caro
Paulo. A mulher que amas será tua desde que te filies
no nosso gremio. Comprehendes que toda a acção
da
Mão-negra se resume em
tornar felizes e ricos os
seus irmãos, porque d'essa riqueza e d'essa felicidade
lhe advem a ella a força, o poderio, a importancia.
O trem ia correndo veloz pela estrada do Carvalhido,
sem que Paulo, entretido na conversa, parecesse
ter notado o tempo gasto na corrida.
―No emtanto―accrescentou ainda Jorge―os
fins e intuitos da Associação vão
sêr-te ainda expostos
e confirmados por pessoa idonea e mais competente
de que eu. Se te restar alguma duvida, o minimo
escrupulo, poderás renunciar ao teu intento, com
a unica condição de não tirares a
venda nem tentares
deslealmente devassar os segredos do nosso gremio...
―Conheces-me, e sabes que isso são processos indignos
do meu caracter!―protestou o mancebo.
O trem parou em frente de um portão largo, que
dava accesso a uma vasta quinta murada.
Jorge apeou-se e deu a mão ao seu companheiro.
―Chegámos!―disse elle.
Paulo apeou-se e, guiado sempre pelo seu amigo,
transpoz o portão, que se abriu mysteriosamente, tornando
a fechar-se sem ruido.
―E o cocheiro?―perguntou o mancebo.―Não
receias a sua indiscreção?
[5] ―É um dos nossos irmãos―respondeu simplesmente
o outro.
―Apre!―tornou o mancebo alegremente.―Eis
aqui o que se chama um serviço bem montado!
Jorge não lhe respondeu. Conduziu-o por uma extensa
e sombria vereda de ramadas até o fazer entrar
n'um corredor ao rez do chão, pelo qual foram seguindo
em silencio.
―Já estamos em casa!―disse Paulo.
―Porque?―perguntou o outro.
―Sinto-o pela differença de temperatura.
―Ainda não... Vamos entrar agora...
E levando aos labios um pequeno apito, tirou d'elle
um silvo agudo e prolongado.
Ouviu-se uma porta girando sobre os gonzos, e os
dois entraram n'um pequeno recinto em que os passos
se amorteciam, abafados no tapete.
―Pódes tirar a venda―disse Jorge.
O mancebo levou a mão aos olhos, e com grande
assombro seu, achou-se sósinho n'uma sala forrada de
crepes, tendo ao centro uma mesa coberta de velludo
preto e em que pousava uma caveira, allumiada por
duas velas.
Um momento impressionado pelo sinistro aspecto
da sala e pelo funebre quadro que se lhe offerecia á
vista, o mancebo empallideceu e recuou um passo,
aterrado. Porém, reflectindo e com uma coragem superior
á que seria de esperar na sua edade, breve retomou
o sangue frio e lançou um olhar de glacial
indifferença
para a caveira.
―É singular!―pensou comsigo.―Entro na vida
pela visão da morte!
Como respondendo a este pensamento, ouviu-se uma
voz soturna e cavernosa resoar na sala:
―Medita!―disse aquella voz.
[6]
O mancebo estremeceu e voltou-se rapidamente, a
vêr quem lhe fallava.
Não viu pessoa alguma.
Passeou então os olhos curiosos pelas paredes
forradas de crepes e não descobriu a porta por onde
tinha entrado.
Se quizesse abandonar aquelle mysterioso e lugubre
recinto, não o poderia fazer, por não encontrar
sahida.
Embora surprehendido, nem por isso se apavorou.
―Medita!―tornou a voz a repetir.
Como resposta muda áquella intimativa, o mancebo
cruzou os braços sobre o peito e ficou encarando
fito a caveira.
N'aquella attitude altiva e firme, esteve assim
por muito tempo.
Dissera-lhe o seu amigo que, para ser admittido
na associação secreta da
Mão negra, era preciso
dar
provas de energia, coragem e inquebrantavel força de
vontade. Accrescentara que as provas a que os neophytos
tinham de sujeitar-se eram rudes e de molde
a fazerem tremer o mais ousado. Elle, não obstante,
insistira. Sentia-se capaz de affrontar os maiores perigos
com animo sereno e tranquillo.
―Principiou a prova!―pensou―julgam-me uma
creança assustadiça, capaz de me apavorar com
este
apparato funebre. Mostrar-lhes-hei que a creança
é
um homem, que póde disputar primasias de coragem
aos mais fortes.
E n'esta resolução avançou para mesa,
estendeu
o braço e ia a tocar no funebre despojo, quando a voz
mysteriosa recuou de novo, gritando:
―Detem-te! O que ias fazer?
―Tocar n'esta caveira―respondeu o mancebo
com voz tranquilla.
―Com que fim?
[7] ―Com o fim de provar que a ideia da morte me
não apavora.
―Que pensamento te suggere a vista d'esse triste
despojo humano?
―Primeiramente, a ideia de que todos caminhamos
para a mesma miseria...
―E depois?
―Depois, que a Morte é a niveladora implacavel
do genero humano.
―Assim, crês que na Morte se confundem bons e
maus, virtuosos e impuros?
―Creio que, materialmente, tudo se confunde na
mesma podridão.
―Materialmente, disseste?
―Disse.
―Crês então que vicio e virtude são
coisas indifferentes,
visto que tudo se apaga ao mesmo gelido
sopro e tudo resvala com o homem ao abysmo do
Nada?
―Não.
―Explica-te.
―Do homem subsistem as ideias, os pensamentos,
os actos bons ou maus de toda a sua vida. Esses
não tem a Morte o poder de os anniquillar.
―Pois bem; visto que assim é, dize-me: De quem
é esse craneo?
―De um meu irmão.
―É vaga a resposta. Dize-me: Será d'um sabio?
Será de um ignorante? Será de um homem honesto?
Será d'um criminoso? Será d'um nobre?
Será d'um
plebeu?
―Ignoro.
―Confessas, pois, que na Morte tudo se confunde?
―Não! Confesso apenas que na Morte todos teem
egual direito ao respeito dos vivos.
[8] ―Porém, essa theoria é contradictoria. Se todos
devem confundir-se no mesmo respeito, como queres
que se distingam os bons dos maus?
―Pelo que d'elles fica no mundo e não morre.
Dize-me o nome d'aquelle a quem pertenceu este craneo,
e se elle foi um sabio, um artista, um litterato,
um poeta, um d'esses homens que deixam a sua passagem
assignalada no mundo por obras de grandeza e
de virtude, eu te recordarei as suas conquistas scientificas,
os seus quadros, os seus livros, os seus versos,
as nobres acções e exemplos com que se perpetuou
na
humanidade emfim.
―Tens religião?
―Tenho.
―Qual?
―A do Bem.
―A que vieste?
―Dar e receber auxilio na lucta do Bem contra
o Mal.
―Sabes o sacrificio a que isso obriga?
―A todos os sacrificios me sujeito.
―Repara bem. A abnegação, o desinteresse, a
obediencia cega e passiva ás ordens dos que dirigem
o nosso gremio constituem a principal condição
para
seres admittido entre nós.
―Acceito-a.
―Terás que resistir ás tuas proprias
paixões, terás
que dominar os mais irresistiveis impulsos do teu
coração, para só obedeceres
á lei da nossa Sociedade;
terás, emfim, que sacrificar vida, fortuna, mulher, filhos,
familia―tudo, ao bem de teus irmãos, quando
isso
te fôr reclamado.
―Obedecerei.
―É preciso que o braço execute o que a
cabeça
ordena. Tu serás o braço. O chefe invisivel da
nossa
Associação é a cabeça. Se
fôr preciso derramar sangue,
[9]
ainda o d'aquelle que no mundo te fôr mais caro,
uma vez que a cabeça t'o ordena, obedecerás?
―Sem a menor hesitação.
―Attende que vaes ligar-te a nós por um juramento
que não póde ser quebrado nem illudido. Em
toda a parte onde te encontres, seja qual fôr a
posição
social a que ascendas, na rua, em casa, no povoado
ou n'um logar deserto, o olhar invisivel da nossa
Associação
seguir-te-ha por toda a parte. A
Mão-negra,
cujo auxilio buscas, mysterisa e potente,
vingadora e
terrivel, como a propria mão da Providencia,
impedirá
teus passos e guiará o teu destino. Não mais te
pertencerás
a ti; pertencerás aos teus irmãos. Senhor
liberrimo
das tuas acções até agora, vaes
reduzir-te por
um juramento ás condições d'um
escravo, mais que
d'um escravo―d'um simples automato. O teu cerebro
não mais pensará para ti; o teu
coração não mais sentirá
por ti. Cerebro e coração teem de emmudecer
perante
as exigencias fataes, crueis e terriveis muitas
vezes, da nossa Associação. Terás
força para tanto?
―Terei―respondeu firmemente o mancebo.
―Pareces corajoso―observou a voz mysteriosa―pareces
ter em pequena conta a propria vida.
―Estou prompto a sacrificál-a para um fim justo.
―A ideia da justiça é relativa. O que para uns
é justiça para outros é iniquidade. Os
irmãos da
Mão-negra
não teem o direito de discutir e apreciar as ordens
que dimanam do seu chefe invisivel: teem só o
dever de as cumprir. Assim, se te exigirem que craves
um punhal no teu coração, não
terás o direito de
discutir a justiça do sacrificio; apenas terás
que obedecer.
―Experimentem.
―Lembra-te, porém, que, se o ―Lembra-te, porém, que, se o sacrificio da propria
vida te é fácil, outros sacrificios te
pódem ser
mais penosos. Estás em tempo: se não te sentes
com
[10]
animo e coragem para te prenderes a nós por toda a
vida,―vae, estás livre, mandar-te-hemos conduzir ao
sitio d'onde vieste.
―Não!―respondeu o mancebo com energia―Eu
não sou dos que recuam. Quero ser dos vossos.
―Estende a mão sobre essa caveira e jura que
queres ser submettido á
prova!―ordenou a voz.
Paulo estendeu a mão sobre a caveira:
―Juro―disse elle―que desejo ser um dos irmãos
da
Mão-negra e estou
prompto a submetter-me á prova
que me for imposta!
Quando acabou de proferir este juramento, sentiu
que lhe tocavam no hombro. Voltou-se e viu diante de
si um vulto athletico, sinistramente vestido de preto
e com o rosto coberto por um capuz como o dos antigos
aguazis do Santo Officio.
Sem dar palavra, o mysterioso vulto vendou-lhe de
novo os olhos. Em seguida disse:
―
Á prova!
Pegou-lhe na mão e conduziu-o por um extenso
corredor até parar em frente de uma porta, a que
bateu de maneira mysteriosa e symbolica.
―Quem sois?―perguntou de dentro uma voz,
sem abrir.
―Irmão―respondeu o mysterioso guia de Paulo.
―D'onde vindes?
―Da Ala negra.
―Que trazeis?
―Um novo braço.
―Que busca elle?
―A mão.
―Quem vos guia?
―S. Miguel.
A porta abriu-se.
―Passae!―disse um homem, igualmente envolto
n'um habito preto e o rosto coberto pelo capuz.
[11]
Os dois seguiram ávante e entraram n'uma sala
ampla, abobadada, de paredes escuras e illuminada
apenas por um globo enorme de vidro, seguro por uma
phantastica
mão negra,
que pendia do tecto.
Á roda d'esta sala, viam-se de pé, hirtos e
impassiveis,
n'uma immobilidade de estatuas, muitos vultos
negros, com o rosto inteiramente occulto sob o capuz
do habito.
Em cada uma das paredes avultava uma grande
mão negra, sustentando punhaes e espadas, em panoplia.
Ao centro, justamente debaixo do globo, erguia-se
uma especie de throno, assente sobre quatro formidaveis
dragões e todo coberto de crepes. Occupando esse
logar, sem duvida destinado ao chefe da seita, estava
uma figura mysteriosa como as suas companheiras e
como ellas silenciosa e immovel.
O
irmão introductor de
Paulo avançou, silenciosamente,
com o mancebo pela mão, até curta distancia
do throno, parou, levou a dextra ao peito, movendo
o pollegar rapidamente, de modo a descrever
com elle uma cruz, e ficou de cabeça curvada, em
attitude respeitosa.
―Que quereis, irmão?―interrogou o vulto que
se sentava no throno e que era sem duvida o chefe da
seita.
―Que escuteis e recebaes sob vossa protecção
este
meu companheiro, que pretende entrar na
ala como
combatente.
―Fiaes d'elle?
―D'elle fio, senhor!
―S. Miguel vos proteja!
―O apresentante de Paulo afastou-se e foi tomar
o seu logar junto á parede, em fila com os seus
companheiros.
[12]
Paulo ficou só, junto ao throno, com os olhos vendados.
―Que pretendeis, mancebo?―interrogou o chefe.
―Combater.
―Que armas trazeis?
―A submissão, a energia e a lealdade―disse
Paulo.
―Boas armas são essas quando temperadas ao
fogo vivo do sentimento do Bem e da Justiça. Que
vos falta?
―A força da
Mão-negra.
―A
Mão-negra
só dispensa a sua força e o seu
amparo aos que tudo lhe sacrificam com coragem,
valor, e brio. N'este gremio não se admittem nem os
timidos nem os cobardes.
―Não o sou.
―Dizer é facil; provar é difficil. Quereis
sujeitar-vos
á prova?
―Estou prompto!
―Reparae que podeis perder a vida na jornada
aspera que ides emprehender.
―A vida de nada me serve, se não posso dar-lhe
applicação util.
―É facto. No emtanto, é meu dever prevenir-vos
de que, sem perderdes a vida, podeis perder a esperança
da felicidade, que é a vida do
coração, o objectivo
da existencia.
―Tudo sacrificarei aos meus irmãos.
―É melhor recuar, mancebo. Na longa estrada
que tendes a percorrer antes de chegardes á
Mão-negra,
encontrareis mil perigos e mil precipicios terriveis,
que sereis obrigado a transpôr ou a morrer.
Avançado
o primeiro passo n'esse caminho mysterioso e fatal,
recuar é impossivel; a menor hesitação
é a morte. Só
uma coragem admiravel e uma força de vontade rara
pódem conduzir-vos a salvo ao ponto desejado.
[13] ―Irei e hei-de chegar.
―Pois bem, vinde!
Levantou-se, desceu do throno, deu-lhe a mão,
abriu uma porta ao lado da parede e, empurrando-o
para dentro d'ella, disse:
―Podeis tirar a venda. Segui esse longo e escuro
subterraneo até ao fim. Tereis que luctar com o fogo,
com a agua, com os homens e com as feras, antes que
chegueis á porta santa do asylo que buscaes. Ide e
que S. Miguel―que venceu o dragão―vos dê
força
e coragem.
O mancebo levou as mãos aos olhos, arrancou a
venda e embrenhou-se n'uma escura e estreita galeria
subterranea, que foi seguindo com estranha ousadia.
A treva cercava-o sem lhe deixar perceber onde
punha os pés.
Algumas duzias de passos andados, um subito
clarão illuminou o subterraneo. Paulo, deslumbrado,
levou as mãos aos olhos. Na sua frente, erguiam-se as
chammas pavorosas de um incendio, que avançava
para elle em linguas de fogo, ameaçando devoral-o.
Dir-se-hia que uma enorme represa de alcool ou de
petroleo se havia aberto e que, incendiado, ia inundar
o subterraneo, transformando-o n'um immenso
forno crematorio.
O mancebo, n'um momento surpreso, sentindo na
face o calôr das chammas, nem por isso se deteve.
Caminhou audaz e resoluto para o perigo, disposto a
deixar-se queimar vivo antes que retroceder.
Ao aproximar-se das chammas, porém, estas apagaram-se
subitamente, tornando mais densa a treva do
corredor.
Seguiu ávante, e pouco depois sentiu o ruido clamoroso
e sinistro de uma enorme queda d'agua, que
se despe
Seguiu ávante, e pouco depois sentiu o ruido clamoroso
e sinistro de uma enorme queda d'agua, que
se despenhava em catadupas de uma rocha que obstruia
a passagem e que parecia o remate d'aquelle
[14]
medonho e tenebroso subterraneo transformado n'um
lago.
A agua despenhava-se de tal altura e com tal
fragor que, batendo nas pedras, resaltava, esparrinhando
com tanta violencia, que algumas gottas vinham
açoitar o rosto de Paulo.
Á primeira vista, parecia impossivel transpôr
aquelle enorme pégo sem perecer afogado. Uma dubia
luz, coada por uma pequena abertura na abobada do
subterraneo, esclarecia o medonho passo.
Paulo, tomado da raiva febril de transpôr todas as
barreiras ou morrer, avançou corajoso, fechou os olhos
e atirou-se á agua. Com grande assombro seu, achou-se
em terreno enxuto. A agua tinha desapparecido e
com ella o ruido pavoroso da corrente.
A treva tornara-se mais densa. Não obstante, elle
caminhava afoito, quando, de repente, se sentiu agarrado
e preso por duas fortes e vigorosas mãos que o
levantaram ao ar deixando-o cahir.
Procurava firmar-se nas pernas, quando notou que
o terreno lhe faltava debaixo dos pés e se precipitava
n'um abysmo.
Não soltou um grito. Esperava morrer como um
homem, e assim chegou a um segundo subterraneo,
onde se encontrou de pé, illeso e sem que soffresse a
menor contusão.
Continuou o seu caminho corajosamente, embora
sob o peso das commoções soffridas. Foi andando
na
treva por alguns minutos, quando um rugido terrivel
lhe despertou a attenção.
Olhou e viu na sua frente uma porta de ferro,
defendida, por dois enormes leões, que punham n'elle
os olhos de fogo, escancarando n'uma ameaça a guella
hiante.
Fixou a vista aterrado nos monstros, que soltaram
novo rugido atroador.
[15]
Pallido, os cabellos eriçados, as faces contrahidas
de susto, o mancebo pensou em retroceder, mas envergonhado
d'esta cobardia, exclamou, avançando para
as féras:
―Antes morrer que recuar!
Rapidamente, os leões sumiram-se na parede e
Paulo pôde bater á porta, levantando e deixando
cair
o pesado batente em forma de mão negra.
A porta abriu-se.
―Entrae!―disse o mesmo chefe que o havia introduzido
no subterraneo, recebendo-o de novo na sala
d'onde havia partido.
Paulo entrou.
―Ides dar-nos a ultima prova―propoz o chefe.―Aqui
tendes este punhal. N'aquelle gabinete está, sob
a acção de um narcotico, uma mulher, que
é preciso
eliminar... Ide! Cravae-lhe este
punhal no coração.
Paulo pegou no punhal, abriu a porta e ia avançar,
quando recuou espantado, soltando um grito terrivel:
―Ella!―bradou o pobre rapaz afflictivamente.
É que diante dos seus olhos admirados apparecera
uma bella e gentil figura de mulher, estendida sobre
um pôtro de torturas, os pés e as mãos
amarradas, a
face pallida, os olhos cerrados, como que esvaecida ou
morta, e essa mulher, essa visão inesperada, era nem
mais nem menos do que a sua amada, a aspiração
querida
da sua alma, a mulher por quem o pobre moço ia
filiar-se na mysteriosa e terrivel seita da
Mão negra!
―Hesitas?―perguntou o chefe com um accento
de desprezo e sarcasmo na voz.―Não prestaste ainda
juramento, mancebo; não estás preso a
nós por nenhuns
laços. Se o teu coração se entibia, se
o teu braço
treme e se recusa a obedecer, vae, deixa-nos! Profere
apenas uma palavra e serás restituido á
liberdade.
[16]
No rosto do mancebo desenhava-se uma angustia
profunda. Os cabellos em desalinho, a face pallida, a
fronte banhada de um suor frio, não desfitava os olhos
d'aquelle meigo e adorado vulto de mulher, a que tinha
presa toda a sua existencia, todas as esperanças
da sua juventude, todas as nobres aspirações da
sua
alma e que alli via, sem saber como nem porque, semi-morta,
amarrada áquelle pôtro fatal, e prestes a
cahir aos golpes de uma justiça occulta, que a mandava
apunhalar!
E havia de ser elle o algoz, havia de ser elle o
executor da fatal sentença, elle, que por ella sacrificaria
a vida, a honra, a familia, tudo o que um homem
póde sacrificar á mulher amada!
Era horrivel!
―Decide-te, mancebo!―tornou o chefe―Ou
cumpres corajosamente os mysteriosos designios da
Mão-negra, ou recusas e
vaes em paz com a tua cobardia!
Como se lhe tivessem vergastado o rosto, á palavra
cobardia, o mancebo apertou na
mão o punhal e,
voltando-se para o seu mysterioso interlocutor, disse,
rangendo os dentes:
―Cobarde não o sou, não o serei
jámais! Que
posso eu fazer para resgatar a vida d'aquella mulher?
―Nada!
―Offereço-vos a minha vida, senhores! Pegae em
mim, amarrae-me áquelle pôtro onde a tendes
manietada,
sujeitae-me á tortura mais cruel, mais
horrenda,―não
soltarei uma queixa, não me ouvireis um
gemido! Mas libertae-a a ella, restitui-lhe a liberdade,
concedei-lhe a vida, e eu bem direi a vossa generosidade,
a vossa grandeza d'alma, e o meu ultimo alento
será ainda um protesto, de gratidão para
comvosco!
―Nada podemos fazer-te. Essa mulher está condemnada,
[17]
e nada poderá libertal-a da nossa
justiça.
Queres executar a sentença ou preferes retirar-te em
paz com a tua fraqueza... com a tua cobardia, repito?
―Cobarde nunca!―bradou o moço, luzindo-lhe
nos olhos uma colera terrivel―Bem vêdes que não
é
o meu braço que treme―é o meu
coração que lucta!
―Vence-o!
―Vencel o-hei. Mas antes, dizei-me:
não tem preço
aquella vida? Quantas vidas quereis que vos entregue
em resgate d'aquella? Apontae-m'as, e eu vos
juro que vol-as entregarei todas, sem faltar uma, ainda
que para isso eu tenha de descer tão baixo, que
me confunda com os mais infimos sicarios, ou haja de
subir tão alto, que chegue a transpôr os degraus
de
um throno! Reparae que esta é a mulher que amo!
É o mundo que vós me mandaes anniquilar com
aquella existencia!
―Está condemnada. Decide-te!―tornou a voz―Partes
ou ficas?
―Pois bem, fico!... para partir com ella!
Avançou desvairadamente para a sua amada, que,
immovel, amarrada ao pôtro, parecia cahida em profundo
lethargo.
―Beatriz, perdoa-me!―murmurou elle.―Não
é a ti que eu apunhál-o, é a mim
proprio... Seguir-te-hei
no teu resgaste!
Dizendo isto, cravou-lhe fundo o punhal no
coração.
O sangue espadanou do peito da victima, que
não soltou um gemido.
O mancebo, com as mãos tintas de sangue, veio á
sala e disse serenamente, encarando os seus lugubres
e mysteriosos companheiros que se conservavam mudos
e immoveis:
―Pedistes-me uma vida. Dar-vos-hei duas, ensinando-vos
[18]
ao mesmo tempo como se mata e como se
morre!
E n'um movimento rapido, sem dar tempo a que
o detivessem, alçou o braço e cravou o punhal no
coração.
A lamina, porém, não penetrou a carne e o
mancebo,
admirado de que o ferro lhe não tivesse produzido
a menor dôr, examinou espantado a arma homicida.
Era um d'estes punhaes simulados, cuja lamina de
latão, se embebe e desapparece no cabo quando se descarrega
a punhalada, voltando a apparecer impellida
por occulta mola desde que deixa de ser premida de
encontro ao corpo.
―Mas o que é isto?―disse elle indignado, quasi
sem comprehender.―Estamos nós representando uma
farça?
―Não, meu amigo!―respondeu amavelmente o
chefe―estiveste
dando-nos a
prova da tua rara
coragem,
do valor e lealdade do teu caracter, e nós todos,
bemdizendo a hora que traz ao nosso gremio um
irmão
de tanto valor!
Depois, voltando-se para o gabinete onde ainda jazia
inanime a
amada de Paulo, continuou:
―Como já deves ter comprehendido, alli não
está
a tua amada, porém a sua imagem tão perfeita e
semelhante,
que a tomaste por ella propria.
O mancebo, aturdido, punha no manequim os
olhos, recusando-se a acreditar o que ouvia.
―Foi, pois, uma simulação de morte―proseguiu
o chefe―O valor moral da acção fica em
pé, visto
que a tua intenção era obedecer aos preceitos da
Mão-negra...
―E matar-me em seguida!―accrescentou o mancebo.
―É a unica porta que resta aberta aos nossos
[19]
irmãos para se separarem
de nós. A sahida por esse
lado, posto seja uma fraqueza, não é nunca um
crime.
De resto, é tambem por ella que fazemos sahir os
que se tornam indignos de pertencerem á nossa
Associação.
―Espero que não tereis o incommodo de me ensinar
o caminho, se algum dia me arrepender de haver
buscado a vossa camaradagem―disse Paulo.
―Felicito-te, mancebo, pela tua rara energia,
lealdade e valor do teu caracter, de que déste prova.
Serás um bom
irmão da
Mão-negra e auguro-te uma
brilhante carreira dentro do nosso gremio, se perseverares
em conservar puras e immaculadas as apreciaveis
qualidades a que deves a tua admissão. Queres
prestar juramento?
―Sim!
―Irmão Golias!―ordenou o chefe―vendae os
olhos ao neophyto!
Destacou-se da parede o
irmão que já
havia sido
o apresentante do mancebo, e cumpriu as ordens do
chefe.
―Vendam-se-vos ainda os olhos―disse este―não
porque esteja no nosso animo guardar para comvosco
novos mysterios ou admittir-vos com fins reservados,
mas tão sómente porque a venda que se vos
põe agora
representa a confiança cega, illimitada, que deveis
ter nos vossos irmãos e nos nobres e justos fins para
que todos trabalhamos, unidos como um só homem,
guiados pela mesma potente e mysteriosa
Mão-negra.
Findo este pequeno discurso, o chefe fez um signal.
Os vultos que, de pé e immoveis rodeavam a sala, encostados
á parede, avançaram silenciosamente e formaram
um circulo á roda de Paulo.
―Irmão Golias!―disse o chefe.
―Eis-me, senhor!
―Fiastes o neophyto. Persistes fiando-o?
[20] ―Do fundo da minha alma.
―Sois o seu padrinho. Tomae o vosso logar.
O vulto que dava pelo nome de Golias postou-se
ao lado do mancebo, tendo na mão uma salva de prata
coberta por um crepe.
O chefe subiu então ao throno e passou-se n'aquelle
recinto uma scena deveras surprehendente.
De pé sobre o throno, o chefe pegou em um escrinio
de pau santo com embutidos de prata e marfim representando
uma caveira com dois fémures em cruz,
carregou em um pequeno botão, e o escrinio abriu-se,
transformado-se rapidamente em uma almofada de veludo
carmezim em que assentava um craneo alvissimo,
seguro por dois punhaes em tropheu.
Estendeu para a assembleia o braço sustentando
esta estranha
reliquia, e
immediatamente os vultos,
levando as mãos á cinta, desembainharam luzentes
floretes
que traziam occultos debaixo dos habitos e que
apontaram ao neophito, formando-lhe com elles um
circulo de ferro.
Ao mesmo tempo uma voz resoou:
―Está aberto o templo!
Tres portas abriram-se e por ellas começou
entrando
uma verdadeira multidão de capuzes negros, trazendo
na mão esquerda uma tocha accesa e na dextra
um punhal.
Os das tochas formaram em cruz, ao comprido e
ao través do
templo,
abrindo em alas, voltados todos
para o centro, onde se agrupavam, como já dissemos,
os primeiros vultos, rodeando Paulo, com os floretes
desembainhados.
Tudo isto se fez no meio do maior silencio e quasi
sem deixar perceber o ruido dos passos.
Então o chefe, erguendo a voz, disse:
―Mancebo, juras obediencia, lealdade e amor a
todos os irmãos da
Mão
negra? Juras não revelar a
[21]
alguem os segredos da nossa agremiação? Juras
sacrificar
por ella todos os dias da tua vida, todas as
horas da tua existencia, o vigor do teu braço, os
pensamentos
do teu cerebro, os sentimentos do teu coração?
Paulo estendeu a mão e disse solemnemente:
―Juro!
Immediatamente, o irmão Golias, entregando a
outro a salva que tinha na mão, voltou-se para o neophyto,
dizendo:
―Irmão
David, pois que
sou teu padrinho, vou
impor-te o habito de
Mão-negra!
Enfiou-lhe então pelos hombros um habito igual
ao que os outros vestiam, deixando-lhe apenas a cabeça
a descoberto, sem lhe deitar o capuz.
―Tirae a venda, irmão―ordenou o chefe―para
que toda a luz se faça aos vossos olhos!
O mancebo arrancou a venda e ficou maravilhado
e surprehendido ante o estranho quadro que se apresentava
á sua vista.
Os irmãos haviam atirado os capuzes para as costas
e descoberto os rostos, conservando-se, porém, na
mesma attitude severa e hostil, com os florêtes apontados
ao novo irmão.
Passando uma vista curiosa por todos elles, o mancebo
ficou surprehendido de vêr muitos rôstos conhecidos
á volta de si.
O irmão Golias, pegou-lhe na mão e
fêl-o subir os
degraus do throno.
O chefe veio recebel-o a meio, apertou-o nos braços
e osculou-o na testa.
―Bem vindo sejas, irmão, a augmentar a nossa
ala!―disse elle.
A estas palavras, todos os florêtes se abaixaram,
entrando na bainha.
Em seguida tomou-lhe a mão e acompanhou-o até
ao degrau inferior do throno, dizendo:
[22] ―Recebe o abraço de teus irmãos e faze por te
conservares sempre digno d'elles.
Os irmãos que o haviam rodeado com os florêtes
vieram todos um a um abraçál-o e
beijál-o na testa.
―Irmãos!―disse o chefe do alto do throno―vae
reunir o sublime capitulo. Está encerrado o
templo.
As luzes apagaram-se, e os vultos começaram a
sahir pelas differentes portas do recinto, sumindo-se
mysteriosamente sem que alguem pudesse dizer que
caminho levavam.
[23]
II
Amôr e esperança
Deixemos os mysteriosos irmãos da
Mão-negra seguir
o caminho que os havia de reconduzir ao mundo
do qual por algum tempo semelhavam ter-se apartado,
e sigamos o arrojado e corajoso adolescente que
acaba de iniciar-se nos mysterios da terrivel seita.
Paulo, tendo sahido da quinta do Carvalhido em
companhia do seu amigo Jorge, agora convertido em
seu
irmão, regressou
á cidade no mesmo trem que o
conduzira, apeando-se e despedindo-se do companheiro
em uma rua proxima da de Cedofeita.
Eram tres horas da manhã e o vento continuava
soprando rijo da barra, pondo negrumes de tempestade
n'aquella noite desabrida.
O mancebo seguiu pela rua deserta até parar
junto de uma casa de luxuosa apparencia, e que denunciava
pelo exterior severo e pelo amplo jardim
gradeado que lhe ficava contiguo, a opulencia dos
seus habitantes.
Inflou as bochechas e, batendo-lhe com as mãos,
imitou o canto da perdiz.
Era evidentemente um signal, porque
algum
tempo
[24]
depois, uma das janellas do rez do chão, vedada
por grades de ferro, abriu-se manso, e uma voz feminina
disse, tremula e quasi sumida:
―Como vens tarde, meu amigo!
―Beatriz, perdôa, mas um assumpto do mais alto
interesse e de que depende a nossa felicidade futura
impediu-me de vir á hora costumada. Hesitei em vir
despertar-te a esta hora; mas a ideia de que havia
de estar sem te fallar e talvez sem te ver até
amanhã
á noute, obrigou-me a procurar-te, Beatriz.
―Eu esperava-te... Esperava-te, porque tinha
tambem que te dizer... Oh! se soubesses como estou
afflicta!
―Tu! Mas o que te succedeu, anjo da minh'alma?...
―Paulo...―gemeu a meiga voz que fallava do
lado de dentro da grade―não sei como t'o hei de
dizer... meu Deus!
―Falla, Beatriz, falla, pelo nosso amor t'o
peço!―supplicou
o moço―Não me tenhas por mais tempo
n'esta cruel espectativa... Tu choras, tu pareces afflicta...
Meu Deus! o que é que motiva a tua dôr?
Beatriz, cujo vulto mal podemos distinguir na penumbra
do aposento, occultava o rosto entre as mãos
buscando afogar os soluços.
―Paulo,―disse ella―meu pae... quer casar-me!
O mancebo recuou um passo como se lhe tivessem
descarregado uma violenta
pancada
no peito.
―Quer casar-te!―exclamou.―E com quem?
―Com um rapaz que eu mal conheço... um rapaz
que tem vindo duas ou tres vezes de visita a
nossa casa, onde foi apresentado por um dos mais intimos
amigos de meu pae...
―Dize-me o nome d'esse rapaz!―intimou desvairadamente
o moço.
[25] ―Eugenio de Mello―soluçou Beatriz.
―Eugenio de Mello!―repetiu o mancebo.―Esse
nome é completamente estranho para mim. Nunca t'o
ouvi pronunciar.
―Se te digo que apenas veio duas ou tres vezes
de visita a nossa casa, apresentado por um amigo de
meu pae...
―Mas, emfim, como é que surge agora essa ideia
de te casarem com elle? Acaso esse rapaz alguma
vez te manifestou sentimentos de sympathia ou de
amor? Falla-me com franqueza, Beatriz. Comprehendo
que por uma bem entendida delicadeza da tua parte
para comigo, julgasses dever occultar-me os galanteios
d'esse rapaz, se porventura elles te eram indifferentes...
Mas não comprehendo
como
teu pae pudesse
ter a ideia subita de te casar com elle, sem mesmo
tentar indagar se o teu coração não
repelliria um semelhante
enlace.
―Não! juro-te que nunca dos labios d'esse rapaz
ouvi uma palavra que pudesse dar-me a perceber o
mais tenue sentimento de amor por mim. Fóra dos
cumprimentos e ceremoniosas attenções que as
pessoas
de boa sociedade usam ter para com uma senhora, não
se trocaram entre nós quaesquer amabilidades que
justificassem o pensamento d'este enlace que me surprehende!
―É extraordinario! E como é que teu pae pretende
impor-te um casamento em que tu nem sequer
tinhas pensado?
―Sabes que meu pae―volveu Beatriz―habituou-se
a contar com a minha obediencia cega e passiva
em todos os seus desejos, que para mim são
ordens. Muito austero, educou-me sob um regimen
de ferro em que a sua vontade é a unica que predomina...
―Isso, porém, não é rasão
para que elle se julgue
[26]
no direito de sacrificar o teu futuro de mulher
aos seus caprichos de... pae.
―Meu pae ignora que eu te amo, Paulo! Julga
o meu coração desprendido de qualquer affecto e
crê
que não me repugna a ideia de unir o meu destino ao
de um homem que elle julga digno de mim.
―E se de facto te não repugna... obedece-lhe!―bradou
o mancebo n'uma voz estridente em que ia
todo o fel do seu desespero.
―Paulo! És injusto para comigo! Sabes que te
amo, que não posso amar outro homem que não sejas
tu; e quando me vês afflicta, atormentada ao peso da
cruel exigencia de meu pae, em vez de suavisares a
minha dôr, de me animares com o teu conselho a
resistir á fatal imposição que me
é feita, ainda me
torturas mais com esse tom acrimonioso e hostil das
tuas palavras! Não te mereço isso...
As lagrimas da joven interlocutora de Paulo que,
se realmente possue um rosto tão meigo como as suas
palavras, de linhas tão suaves e puras como é
doce o
accento da sua voz, deve de ser uma creatura encantadora,
pareceu abrandar um pouco o irritado animo
do mancebo.
―Mas o que queres tu que te diga, minha querida,
se eu noto que era vez de pensares em repellir
a despotica imposição de teu pae, ainda tentas
desculpal-o?
―Não o desculpo... digo apenas o que elle
pensa.
―Mas que tenho eu que saber o que pensa teu
pae? O que desejo saber é o que pensas tu, minha
querida! O que é que tencionas fazer? Que respondeste
a teu pae? Qual é a tua intenção?
Beatriz pareceu hesitar na resposta.
―Desejava ouvir-te, primeiro, Paulo... desejava
que me dissesses o que devo fazer...
[27] ―Eu?! Pois é a mim que compete dirigir os teus
actos? É a mim que compete dictar a tua resposta?
Consulta o teu coração, Beatriz... Elle que te
responda
e te diga a resolução que deves tomar...
―Paulo! O meu coração diz-me que só a
ti pertenço,
que só a ti eu desejo ter por marido... Mas,
bem vês, quando eu disser a meu pae que te amo, e
que por ti estou decidida a recusar outro qualquer enlace,
por mais vantajoso que se apresente, meu pae
ha de perguntar-me quem és...
―E tu dize-lhe que sou aquelle que julgas que
eu seja. Ou vae tão longe a tua piedade por mim e o
teu despreso por ti que, tendo-me na conta de indigno
do teu amor, assim mesmo m'o concedes?
―Oh! não, não, Paulo!
―N'esse caso, o que receias?
―É que eu julgo-te com o coração; meu
pae,
porém, ha-de julgar-te com a cabeça; e entre o
coração
da filha e o cerebro do pae existe uma distancia
tão grande, que eu receio bem que não possamos
transpôl-a...
―Se essa é a tua convicção e te
faltam forças
para resistir e luctar, submette-te e... adeus! Adeus
para sempre, Beatriz!...
Paulo ia a retirar-se. O animo orgulhoso e altivo
d'este adolescente de 18 annos, que tinha já a energia
e a vontade de ferro de um homem feito, não podia
supportar sem protesto os timidos receios e as
hesitações
offensivas da mulher que adorava.
―Paulo!―tornou a chamar a joven.―Escuta-me!
Que singular prazer tens em me atormentar,
quando eu tanto preciso da tua compaixão e da tua
piedade!
―Fallas-me em tormentos, Beatriz, quando desde
que aqui cheguei outra coisa não tens feito senão
revolver-me
n'um perfeito inferno de torturas! Acabemos
[28]
com isto, e vamos direitos ao fim sem
tergiversações
nem rodeios. Teu pae impôz-te o casamento com
esse... rapaz, que deve ser por força rico, distincto...
amavel, emfim. E tu acceitaste?
―Eu...
―Hesitas na resposta e a tua propria hesitação
me responde: acceitaste e vens dizer-me que está
tudo terminado entre nós...
―Oh, não!―accudiu a joven, com impeto.―Eu
não acceitei nem respondi como desejava. Pedi que
me deixassem reflectir, porque o meu primeiro pensamento
foi ganhar tempo, para poder combinar comtigo
o que devo fazer...
―O que deves fazer não seja eu quem t'o diga.
Teu pae é rico, Beatriz; tu mesma és
já herdeira de
uma avultada fortuna, e eu sou pobre. Separa-nos,
portanto, actualmente um abysmo... Cuidei que poderia
contar comtigo solteira e livre até ao dia, que
não viria longe, em que eu pudesse apresentar-me a
teu pae, a solicitar a tua mão, sem que o pedido revestisse
o caracter humilhante para mim de uma tentativa
de penetrar no sanctuario da riqueza pela
porta do coração de uma mulher. Vejo,
porém, que o
destino quer o contrário; que outro pretendente se
apresenta com menos escrupulos ou mais dinheiro do
que eu, e que da firmeza e constancia do teu amor
nada tenho a esperar, se eu não me resolver a prestar-te
o amparo incompativel com a minha dignidade
de homem e com o programma que me tracei de só a
mim dever o meu triumpho. Paciencia!
―Paulo, tu não me conheces! ou, ―Paulo, tu não me conheces! ou, se me conheces,
estás sendo para mim de uma injustiça que mais
tarde
te ha-de fazer remorsos... Escuta-me, meu amigo,
escuta-me com serenidade e repara bem nas minhas
palavras.
[29]
E Beatriz, com voz tremula de commoção,
principiou
dizendo:
―Não conheces o caracter de meu pae e não admira
por isso que julgues sêr-me coisa facil o contrariar-lhe
os propositos... Eu, porém, que o conheço, que
por elle fui educada e com elle tenho vivido sob o jugo
do seu genio rispido e severo, avalio bem que crueis
amarguras e horriveis tormentos a sua colera me prepara
na lucta que vou ser obrigada a sustentar, recusando-me
a acceitar por esposo o homem que elle me
escolheu. Não me intimida, porém, a perspectiva
do
soffrimento. Morrerei de bom grado na defesa dos sagrados
affectos do meu coração e conservar-me-hei fiel
ao juramento tantas vezes repetido do meu amôr. O
que quero é ter a certeza de que a tua confiança
me
não abandona, Paulo; que quaesquer que sejam as
mudanças que se operem no nosso modo de viver e de
nos relacionarmos―mudanças que eu não posso
prevêr
por emquanto quaes sejam, mas que certamente hão
de sêr as mais dolorosas para o nosso
coração―eu
terei no teu espirito e na tua lembrança o logar a que
o meu amôr me dá direito...
―Beatriz!―exclamou o mancebo―quando se
ama como eu te amo; quando se sente no peito a
chamma ardentissima de um vivo e intenso amor que
de todo nos senhoreia o espirito e nos absorve a existencia,
lucta-se, soffre-se, morre-se, mas não se esquece
jámais o nome d'aquella que nos inspirou tão
fervoroso
culto!
―Pois bem, meu Paulo! É possivel que o destino
nos reserve dias bem sombrios de uma ausencia
crudelissima, que ha-de retalhar-nos o coração e
quasi
volver-nos loucos de desespero. Sejam quaes forem as
circumstancias em que nos encontremos, sejam quaes
forem as apparencias que me condemnem, não
duvidarás
nunca da lealdade do meu affecto como eu não
[30]
duvidarei, jámais da sinceridade da tua alma, não
é
verdade?
―Fazes-me estremecer de receio, Beatriz! Decerto
exaggeras o pavoroso quadro dos nossos infortunios...―disse
o mancebo, pallido de commoção.
―É que tu não conheces meu pae!
―Que poderá elle fazer, se tu recusares tenazmente
esse enlace como uma violencia imposta ao teu
coração? Antes de tudo, tu és sua
filha; e um pae,
por muito severo e rispido que pareça, não se
transforma
por simples capricho no algoz d'aquella a quem
deu o sêr.
―Não sei... não posso dizer-te nada por
emquanto,
senão que tudo espero d'este funesto designio manifestado
por meu pae... Mas seja como fôr, jura-me
que não duvidarás nunca da mim, que has-de sempre
confiar na tua Beatriz como n'aquella que mais te
ama no mundo.
―Juro-te, meu amor, que serás minha e que não
te has-de encontrar só na lucta e no soffrimento. Tenho
amigos―continuou Paulo―amigos poderosos, contra
os quaes não é facil nem prudente luctar... Com
elles
conto como
irmãos e
n'elles espero encontrar o auxilio
de que ambos carecemos. Não te assustes nem te deixes
dominar pelo terror. Hontem, ainda desprotegido,
poderia talvez apavorar-me a ideia da minha fraqueza
contra inimigos tão poderosos como é teu pae;
hoje,
conscio de que os brados intimos do meu coração
ameaçado de morte encontrarão ecco n'outros
corações
que me são dedicados, levanto-me orgulhoso e altivo
do teu amor, e digo-te: «Não succumbas, anjo da
minha alma! Tem confiança em mim, que havemos
de vencer».
O tom de absoluta segurança com que Paulo proferiu
estas palavras pareceu transmittir novo alento
á joven.
[31] ―Luctarei―disse ella―e agora com mais energia,
desde que nas tuas palavras tenho o penhor de
que não será perdido o meu sacrificio. Nada mais
te
pedia e nada mais te peço do que essa confiança
inabalavel
na constancia do meu amor. Ama-me como eu
te amo, Paulo! e d'este sentimento, que é a vida,
hauriremos forças para resistir aos embates de uma sorte
cruel e adversa!
Trocaram-se ainda novas juras e protestos de constancia
e amor sem fim, despedindo-se, e promettendo
tornar a ver-se na noite seguinte.
O leitor, eivado do realismo da epoca, certamente
está sorrindo do córte romanticamente amoroso e
piegas
d'este dialogo dos dois namorados.
Effectivamente, a menina tem a phrase um tanto
brunida e lustrosa das heroinas dos romances d'outras
eras, o que dá um tom de inverosimilhança ao
lance
ingenuamente sentimental.
Mas o romancista, se copía do natural como nós
o estamos fazendo, não tem remedio senão
acingir-se á
verdade e reproduzir os seus personagens com os
aleijões que a natureza, as condições
do meio ou os
acasos do nascimento e da educação lhes
imprimiram
no corpo ou no caracter.
Esta menina, assim romanticamente apaixonada,
exprimindo-se em termos de um antiquado sabor
litterario, não nos está revelando uma assidua e
ingenua
leitora das novellas de Camillo?
Claro está que ella reproduz incorrectamente o
que de peor podia haurir na leitura do genial escriptor―a
emphase, o arredondado do periodo, a declamação
cantante, sem os esmêros da dicção, sem
a impeccavel
belleza e elegancia de fórma do grande Mestre. Mas
o facto é que ella, em assumptos de
coração, não podia
exprimir-se de outra maneira, visto que, como mais
tarde teremos occasião de averiguar, foi nas paginas
[32]
soluçantes do «Amor de
Perdição» que aprendeu a
traduzir as primeiras balbuciações do seu amoroso
coração de creança.
Paulo tambem, pela sua parte, influenciado pelas
mesmas leituras, correspondia-lhe no tom e no gosto
do seu arrasoado. Se, porém, esta linguagem póde
ser
capitulada de falsa, o mais espantoso é que ella exprimia
um sentimento profundamente verdadeiro.
Os dois amavam-se com entranhado ardôr, e isso
é o que mais importa saber ao leitor inimigo de
divagações.
Ponhamos, pois, de parte a preoccupação de
responder
a reparos que a grande maioria certamente
não fará e digamos em poucas palavras o que foi
feito
de Paulo, desde que, cerrada a janella da sua amada,
teve que retirar-se a passos apressados para que a
chuva, que começava a cair em grossas gôtas, o
não
surprehendesse na rua tristemente deserta.
O mancebo era estudante. Tinha completado o
curso do Lyceu e matriculara-se no primeiro anno da
Academia.
O padre Filippe, seu protector e amigo, era quem
se dizia encarregado de lhe fornecer os meios de
subsistencia e de estudo.
Não o tinha, porém, na sua companhia. Incumbira-o
aos cuidados de uma familia honesta, onde era
tratado como filho, e limitara-se apenas a exigir que
o
seu estudante o fosse visitar duas
vezes por semana,
nas quintas e nos domingos, á casa que elle habitava,
na rua Chã.
Paulo não conhecera outra familia, além d'aquella
em casa de quem o hospedaram aos doze annos. Até
ahi, que se lembrasse, fôra alumno interno d'um instituto
religioso, onde umas irmãs piedosas o trataram
com o carinho de mães, ficando-lhe d'esse internato
uma recordação tão saudosa que, ainda
agora, ia a
[33]
meudo visitar a abbadessa, madre Paula, que tinha
no seu coração o primeiro logar.
Recolhendo a casa na manhã d'aquella noite accidentadissima,
o mancebo não pôde dormir.
Agitadissimo, recordando o seu passado, em que
parecia haver um ponto escuro que o mortificava,
Paulo resolveu erguer uma ponta do veu mysterioso
que encobria o seu nascimento.
No dia seguinte, pelas 10 horas, dirigiu-se a casa
do seu protector, e sem mais preambulos, disparou-lhe
esta pergunta á queima roupa:
―Diga-me, padre: quem é meu pae?
O padre Filippe, surprehendido pelo imprevisto
da pergunta, pôz no mancebo os olhos espantados e
ficou-se a consideral-o em silencio por alguns momentos.
―Porque me fazes essa pergunta, Paulo?―disse
por fim.
―Porque sou um homem, porque tenho já dezoito
annos, e desejo saber d'onde venho, para poder destinar
para onde vou, ou para onde devo ir... respondeu
o mancebo com firmeza.
O padre Filippe sorriu bondoso a esta replica do
moço e continuou a olhal-o fixamente.
―Paulo―disse elle afinal―se dizes que és um
homem, como póde influir no teu destino o saberes ou
deixares de saber o nome d'aquelles a quem deves a
existencia? És um homem; e todos os homens devem
ser guiados pelo mesmo sentimento do bem, todos
devem caminhar para o mesmo fim: serem uteis a si
e á humanidade. Creio que o facto de cada um saber
ou ignorar o nome de seus paes nada influe ou nada
deve influir no destino que lhe está traçado.
―Perdão, meu bom amigo!―objectou Paulo―Todo
o homem tem o direito, creio eu, de conhecer a
sua origem, de saber o nome dos seus progenitores,
[34]
não só para os respeitar e bemdizer pelo
beneficio da
vida que lhe concederam, mas ainda para nortear os
seus actos pelas tradições da sua familia. Por
isso insisto
na pergunta: quem é ou quem foi meu pae?
―Teu pae―tornou o padre placidamente e agora
de todo reposto do sobresalto que lhe causára a
pergunta―teu
pae é ou foi um homem. D'isso não te
deve restar duvida, pois que homem te dizes já e
como homem te apresentas.
―Mas não tinha nome esse homem?
―Se o tinha, não chegou nunca ao meu conhecimento.
―Nem o nome de minha mãe?
―Nem o nome de tua mãe.
―Como é, pois, que eu me chamo Paulo de
Noronha?
―Naturalmente porque aquelles que te deram o
sêr assim quizeram que te chamasses.
―Assim quizeram! A quem manifestaram elles
essa vontade? São ainda vivos? Se o são, porque
se
occultam e me não apparecem? Se morreram, porque
motivo deixaram envolto no mysterio o meu nascimento?
―A nenhum filho é licito discutir e muito menos
censurar os actos de seus paes.
―Mas eu não censuro, nem sequer discuto!―obtemperou
Paulo―eu apenas pergunto.
―Ha perguntas que envolvem censura, se não
para aquelles a quem se fazem, pelo menos para
aquelles de quem se fazem... Mas dize-me, Paulo,
que estranha curiosidade é essa que assim te move a
querer saber o que por emquanto deves ignorar?
O mancebo hesitou por alguns instantes e por fim
disse:
―Padre Filippe, permitta-me que lhe falle com
franqueza e lhe exponha as duvidas que ha tempo a
[35]
esta parte me obcecam o espirito e me fazem reflectir
na minha estranha situação...
―Falla, meu amigo, falla!―animou o padre
bondosamente―e crê que, a não sêr madre
Paula,
ninguem no mundo merece tanto como eu a tua
confiança.
―Pois bem!―tornou Paulo―ha muito tempo
que eu dirijo a mim mesmo estas perguntas: Quem
sou eu? De que familia descendo? Como se chamam
ou se chamavam meus paes? Todos os meus condiscipulos
dizem de quem são filhos, todos repetem com
orgulho o nome dos paes ou relembram com saudosa
ternura o nome das mães. Todos dizem: «a minha
casa, a minha familia», só eu não posso
dizer―
meu
pae,
minha
mãe, porque são entes que
não conheço,
de que nunca ouvi fallar, de quem não tenho a menor
noticia. Dar-se-ha caso que eu não tivesse pae, que
não tivesse mãe? Mas então a quem devo
eu a minha
existencia, o amparo e protecção que
até agora tenho
recebido? Sou um orphão? Sou um engeitado? Vivo
e alimento-me do que por direito de nascimento me
pertence, ou recebo a esmola de nobres almas compassivas?
No primeiro caso, se tenho
direitos, reclamo-os,
porque esses direitos impõem-me deveres que
eu quero respeitar e cumprir. No segundo, como sou
já um homem e tenho o braço bastante robusto para
ganhar o pão da existencia, não devo por mais
tempo
acceitar criminosamente a caridade que me trouxe
até aqui e que póde fazer falta a outro
desgraçado
como eu!
―Paulo!―disse o padre Filippe, fundamente
commovido―és ainda muito novo para te preoccupares
com assumptos que, por emquanto, devem permanecer
envoltos no véo do mysterio que os encobre aos teus e
aos meus olhos. Eu nada te posso dizer, filho.
―É então á caridade de vossa
reverendissima e
[36]
de madre Paula que eu devo o pão que até agora me
tem alimentado, não é assim?―perguntou o
mancebo,
extraordinariamente commovido e pallido.
―Não! Não!―atalhou padre Filippe.―Eu recebi
de um meu superior, a quem assisti nos ultimos
instantes, o encargo de velar por ti e de applicar ás
despezas da tua sustentação e
educação a quantia que
mensalmente me é enviada por pessoa que
desconheço
e que já antes a enviava ao santo sacerdote que me
legou este encargo. A mim nada me deves, meu filho,
senão a grande estima que tenho por ti e o grande desejo
que sinto de te vêr conquistar uma
posição digna
e honrosa na sociedade.
Paulo calou-se. As palavras do padre Filippe, repassadas
de suavidade e doçura, impressionaram-n'o
profundamente.
―Estou então condemnado―disse elle, passados
instantes―a ignorar toda a vida o nome de meus
paes?
―E de que te valeria o sabel-o?
―De que me valeria! Valer-me-hia de não ter que
córar diante de quem me interrogar a esse respeito!
Valer-me-hia de não ter que recuar envergonhado e
confundido diante de uma familia honesta que, antes
de me admittir como filho em seu seio, terá que perguntar-me
o nome de meus paes! Valer-me-hia, emfim,
de não me encontrar n'esta horrorosa
situação de não
saber quem sou, se o portador legal de um nome honrado,
se o vil e abjecto fructo de uma acção indigna,
de um amor bestial e criminoso!
Ouvindo esta retumbante tirada do moço, o padre
Filippe sorriu ainda amoravel e observou-lhe:
―Os tempos mudaram e com elles a orientação da
sociedade moderna, meu Paulo. Já nenhum homem se
impõe hoje pela familia, pelas
tradições dos seus antepassados,
pelas chimericas e phantasticas illusões de
[37]
uma arvore geneologica, bracejando vergonteas e rebentões
inuteis pelos seculos fóra. Nenhum homem vale
hoje pelo que valeram seus paes e seus avós... Hoje,
cada um vale por si, pelos seus merecimentos proprios,
pelas nobres qualidades do seu caracter, pelas brilhantes
manifestações da sua intelligencia. A tendencia
democratica
dos nossos tempos de ha muito que pôz de
parte as falsas convenções de uma sociedade que
se
desmoronou...
―Mas não pôz de parte, creio eu, os dictames da
honra!―retorquiu o mancebo.
―Decerto. E alguem te impede de te affirmares
sempre um homem honrado, Paulo? A honra está
nos nossos actos, está no uso que fazemos das faculdades
com que a natureza nos dotou, está na firmeza
e altivez com que, através de todas as vicissitudes,
cumprimos intemeratamente o nosso dever; não está
nos acasos do nascimento, nos brios de passados avoengos,
nos appellidos pomposos dos que nos deram o sêr.
Faze, pois, por merecer a estima e o respeito dos teus
concidadãos, Paulo, e não te preoccupe a ideia de
não
saberes de quem vens. Basta que apenas conheças
para onde vaes e sigas sem tergiversar a linha do
dever.
O mancebo guardou silencio por alguns instantes.
―É, pois, um mysterio impenetravel o meu
nascimento? Mas com que direito se me occulta o nome
de meus paes? Com que direito me condemnam a esta
lucta permanente comigo mesmo, sem saber se o que
me dão o devo receber como meu, se o devo considerar
como uma esmola?
―Paulo! Por duas vezes já, desde que aqui entraste,
proferiste a palavra
esmola. As
esmolas dão-se
aos desgraçados, aos invalidos, aos que se encontram
impossibilitados de, por esforço proprio, provêrem
aos
meios de subsistencia. Tu não estás n'esse caso.
Quando
[38]
muito, o que recebes de mão ignota que não
precisas
conhecer, é um adiantamento, uma divida que
contrahes e que te será facil solvêr,
correspondendo
dignamente ás esperanças que em ti depositaram os
que quizeram fazer-te um bom cidadão, um homem
util a ti e aos teus semelhantes. E sobre isto, meu
amigo, creio que temos fallado bastante. Dize-me―continuou
o padre Filippe―tens ido visitar madre
Paula?
―Ha mais de quinze dias que a não vejo.
―És ingrato, Paulo! A pobre senhora deve ter
estranhado a falta da tua visita... Como é que
pódes
esquecer assim por tanto tempo quem tantas provas
de carinhoso affecto te tem dado?
―Padre―disse Paulo, ruborisado―eu não esqueço,
nem poderei esquecer nunca quanto devo a essa
bondosa e santa senhora, que tem tido para mim desvelos
e ternuras de... de mãe. Na minha vida, porém,
começam a surgir tão imprevistas luctas,
incidentes
de tal modo inquietadores, que não sei se deva
perturbar com a minha presença o suave remanso
d'aquella existencia para mim tão cara!
―Luctas imprevistas, incidentes inquietadores...―O
que é isso, Paulo? Falla-me com franqueza, dize-me
tudo, rapaz! O que é que te acontece de estranho
e de ameaçador? Não te esqueças de que
deves
considerar-me o teu primeiro e mais sincero amigo,
meu filho! Creio que tenho direito á tua
confiança...
Ou não?
―Respeito-o muito, meu padre, para vir importunal-o
com assumptos que lhe parecerão talvez pueris...
―Bem sei!... Negocios do coração... Temos
amores no caso... São os primeiros rebates da virilidade
no coração de um adolescente. Vamos! quem
é
a tua Virginia, meu Paulo?―perguntou jovialmente
o sacerdote.
[39] ―A minha Virginia―disse o mancebo, com enthusiasmo―chama-se
Beatriz, e não é menos formosa
nem menos adoravel do que a immortal inspiradora
do Dante.
―Bravo!―exclamou rindo o padre Filippe.―Temos,
pois, em perspectiva uma
comedia
divina, para
fazer confronto com a
Divina
Comedia...
―Se não tivermos antes um drama extraordinario,
até agora inédito na historia dos soffrimentos
humanos...
O padre encarou-o gravemente.
―Fallas serio, Paulo?
―Tão serio que me atrevi a vir interrogal-o, padre
Filippe, sobre a historia do meu nascimento.
―Ah! era por isso que vinhas assim n'essa ancia,
pedir-me a chave do enygma da tua existencia? Eu
devia tel-o adivinhado... Só as mulheres são
curiosas
por indole...
―Não, não!―atalhou Paulo.―A mulher que
eu amo ainda não me fez a menor pergunta que me
difficultasse a resposta. Eu, porém, é que desejo
saber
quem sou para saber o que posso offerecer-lhe.
―Pois não é sufficiente o
coração do homem que
ama para a mulher amada?
―Padre, a mulher que eu amo não é livre; tem
pae, que se julga com direito a intervir no seu destino
e a impedir que sua filha busque a alliança de
um homem de origem... desconhecida.
―Foi essa menina quem t'o disse?
―Disse-m'o a minha propria razão.
―Queres um conselho, Paulo?―perguntou inopinadamente
o padre Filippe.
―Os conselhos de vossa reverendissima são para
mim leis sabias e justas, que eu não posso deixar de
acatar com o respeito e gratidão que lhe devo.
―Pois bem; refreia os impetos da tua paixão por
[40]
essa menina e busca antes de tudo fazer-te digno do
seu amor.
―Já o sou.
―Pelos dotes do coração, concordo, mas
não pela
posição social alcançada. O primeiro
que o pae d'essa
menina ha-de perguntar-te, quando souber que lhe
pretendes a mão da filha, é com que recursos
contas
para proporcionares a tua mulher a felicidade e o
bem estar a que ella tem direito. Quererá saber que
posição é a tua, que
profissão exerces ou de que meios
de fortuna dispões para poderes dignamente apresental-a
na sociedade ao respeito e á
consideração das
pessoas de bem. E comprehendes, meu Paulo, que a
taes perguntas não se responde com uma certidão
de
baptismo que nos dá avós illustres de quem
não herdámos
um palmo de terra onde cahir mortos, nem
com a reedição apaixonada dos mil juramentos de
amor
constante que enviamos á filha em perfumadas cartinhas
que lá estão, em maço, amarradas com
fita de
seda...
O mancebo não pôde deixar de sorrir a estas
palavras
do padre Filippe, que denunciavam um profundo
conhecedor da arte do galanteio.
―Os paes não se contentam com tão pouco, exigem
mais alguma coisa―continuou o sacerdote―Ora
esse
mais alguma coisa é
que está na tua mão
offerecer-lh'o, Paulo. Conquista pelo estudo e pelo trabalho
honesto uma posição que te nobilite aos olhos do
mundo; engrandece-te a ti proprio, torna-te homem;
e quando a tua consciencia te disser que não és
inferior
á mulher que amas, vae pedil-a e não receies que
o pae te não encontre bastante nobilitado para entrares
na sua familia.
―Mas o pae de Beatriz quer casal-a com outro!―exclamou
o mancebo, dando largas ao desespero
que lhe ia na alma.
[41] ―O pae d'essa menina sabe que ella te ama?
―Não sabe.
―É, pois, natural que, julgando o
coração da
filha desligado de qualquer affeição, pense em
lhe
proporcionar um enlace que lhe parece vantajoso. Todos
os paes pensam no futuro de suas filhas e esse não
o seria, se desdissesse da regra geral. Mas d'ahi a violentar-lhe
o coração e a impor-lhe á
força um casamento
que ella rejeita, vae uma distancia enorme. Se
essa menina te ama sinceramente, como dizes, recusará
o consorcio que o pae lhe proporciona, allegando motivo
que para todos os paes deve ser sagrado―a ausencia
absoluta de sympathia pelo noivo proposto. Se,
pelo contrario, o sentimento que diz nutrir por ti
não é tão vivo e intenso que lhe
permitta a recusa,
casar-se-ha, e com o facto só tu tens a lucrar, pois
que assim te livras do escolho de vires a possuir por
companheira uma creatura incapaz de corresponder ás
nobres aspirações da tua alma. Não
creio, pois, que
isso seja contrariedade de maior, que te dê motivos
para os sobresaltos e inquietações que revelas.
Vae
visitar madre Paula, meu rapaz... Conta-lhe os
segredos da tua alma, nada lhe occultes, e verás como
nas suas palavras e conselhos has-de encontrar o socego
e quietação que precisas... Isto não
é desviar
de mim o encargo de te guiar e dirigir no accidentado
caminho a que o coração te propelle―accrescentou
o
padre―Mas é que as mulheres, em questões do
coração,
teem mais auctoridade, são mais profundamente
conhecedoras da mysteriosa sciencia do sentimento
alheio, e teem sobretudo um poder de persuasão que a
nós outros os homens nos fallece. Procura madre Paula,
conta-lhe tudo, escuta as suas palavras e verás
que has-de sentir-te bem, meu filho.
―Procural-a-hei―disse Paulo―mas creio bem
que não poderá aconselhar-me melhor do que vossa
[42]
reverendissima acaba de o fazer; nem as palavras da
santa e virtuosa senhora poderão trazer mais funda
ao meu espirito a convicção que vossa
reverendissima
me deu de que preciso engrandecer-me, fazer-me
homem
para conquistar a posse da mulher que amo!
―Folgo de ver que comprehendeste bem o intuito
das minhas palavras, Paulo. Crê que ninguem mais
do que eu deseja a tua felicidade e o teu bem estar.
Se fosses meu filho, não te aconselharia de modo differente
nem desejaria com mais ardor ver-te ascender
a uma posição culminante. D'isso pódes
estar certo.
―Trabalharei e empregarei todos os esforços para
realisar os desejos de vossa reverendissima―que são
tambem os meus.
―E conseguil-o-has, porque és intelligente, és
energico, e revelas nobreza de caracter. Com taes
predicados, só não alcança uma
posição distincta na
sociedade quem não quer.
Agora, reanimado pela esperança que as palavras
do padre Filippe lhe incutiram, o mancebo despediu-se
do seu protector, mais que nunca resolvido a encetar
a lucta pela vida e pelo triumpho completo das nobres
aspirações do seu amoroso
coração de rapaz.
III
Pae e filha
Emquanto o
pupillo do padre
Filippe e de madre
Paula busca a maneira de realisar os dourados sonhos
da sua imaginação juvenil, queira o leitor
acompanhar-nos
a casa do pae de Beatriz e travar conhecimento
com o sombrio progenitor da encantadora
menina.
Não tendo nós os mesmos motivos de Paulo para
occultar do pae as relações com a filha, justo
é que
busquemos o conhecimento de ambos e entremos na
intimidade dos dois para melhor podermos avaliar o
caracter de cada um e apreciar os acontecimentos que
vão desenrolar-se aos nossos olhos.
Á hora a que entramos, está o sr. Custodio de
Jesus
sentado á secretária do seu gabinete, fazendo
contas e archivando documentos que parece lhe são
muito uteis, pela attenção e minuciosidade com
que os
examina e pelo cuidado com que em seguida os guarda
emmaçados e rodeados de uma larga cinta de papel
branco, em que se lê n'uma excellente letra garrafal,
a palavra―
Hypothecas.
―Estas bem estão―murmura elle coçando
distrahidamente
[44]
com a mão direita a vasta suissa grisalha,
talhada em fórma de foucinha e franzindo o labio superior
completamente rapado á navalha, talvez para
facilitar a passagem do meio grosso destillado e liquifeito
em repetidas pitadas nas profundezas insondaveis
de um nariz que exteriormente apresenta a
configuração
e o aspecto de um capacete de alambique―Estas
bem estão... O peor são as outras...
Passou a examinar segundo maço, mostrando no
rosto evidentes signaes de mau humor.
―Aqui está!―disse elle, batendo com a mão
espalmada
sobre os papeis―Mais de cincoenta contos
em hypothecas que não pagam ha um anno um real
de juro! Ladrões! E agora são capazes de ainda
vir
fazer questão para juizo e arranjar-me a tramoia de
modo que eu não fique com as propriedades pelo
preço
da louvação...
Como correspondendo a estas reflexões, que accusavam
no sr. Custodio de Jesus um agiota costumado
a perseguir as suas victimas até as espoliar em
leilão,
nos tribunaes, abriu-se a porta do escriptorio e
entrou por ella um homem alto, espadaudo, porém
excessivamente magro, usando uma comprida barba
que quasi lhe chegava á cintura e que lhe dava á
physionomia um aspecto carregado, ameaçador, capaz
de apavorar o mais remisso devedor, o mais teimoso dos
litigantes.
Este homem entrou como pessoa intima na casa,
cerrou a porta sobre si, dirigiu-se a uma cadeira que
estava devoluta junto da secretária, e sentou-se sem
mesmo se dar ao incommodo de tirar o chapéo que
lhe ensombrava o barbudo rosto.
Ao vêl-o, o sr. Custodio de Jesus teve um sorriso
de intimo contentamento e exclamou:
―Estava agora mesmo a pensar em você, amigo
Belchior!
[45] ―Aqui me tem. Os amigos lembram sempre na
occasião... Não vim mais cedo porque tive de ir
ao
tribunal requerer um arresto... E amanhã tenho outro...
Isto é um nunca acabar de caloteiros, que só
gostam de comer e não pagar! Mas aquelle que me
cahe nas unhas e tem por onde pagar, amola-se! Deixo-o
expremido que nem um limão.
―É o que eu preciso que se faça a estes
tratantes
que aqui estão com o juro por pagar!―exclamou
o sr. Custodio de Jesus, apontando para as escripturas
que tinha diante de si.
―Não se afflija, que isso é negocio de pouca
demora...
Qualquer dia tratamos d'isso. Sabe ao que eu
cá venho?
―Você o dirá, amigo Belchior.
―O rapaz, pelas informações que tenho d'elle, e
um partidão!
―Sim?
―Não imagina! É mesmo mais rico do que eu
supunha... O melhor que temos a fazer é não
perder
tempo e tratarmos de aferventar isto quanto antes.
―Você bem sabe que o caso não é para
pressas,
amigo Belchior... Eu mesmo tenho receio do rapaz...
Diz você que elle tem uma grande fortuna, e eu mesmo
não duvido que assim seja, mas quem é que me
assegura que elle não tem a maior parte dos haveres
compromettidos, ou que não possa vir a compromettel-os?
―Quanto á primeira hypothese, posso affirmar-lhe
que o rapaz tem sido estroina, tem gasto em passeios,
em ceias com as actrizes, tem finalmente pago
o seu tributo á mo ―Quanto á primeira hypothese, posso affirmar-lhe
que o rapaz tem sido estroina, tem gasto em passeios,
em ceias com as actrizes, tem finalmente pago
o seu tributo á mocidade... Mas todas essas rapaziadas
não teem desfalcado o rendimento, que é grande...
Quanto á segunda hypothese, é provavel que elle,
depois de casar com sua filha, mude de feitio e comece
[46]
a portar-se como homem sério... Mas se o não
fôr,
tanto melhor...
―Tanto melhor, como?―interrogou o sr. Custodio
de Jesus, indignado.―Então é melhor que minha
filha case com um valdevinos, um dissipador, um extravagante?
Bonita moral a sua, seu Belchior! Pois eu,
meu amigo, desde já lhe declaro que o que tenho me
custou muito a ganhar, e não é para o
vêr dissipado
em patuscadas e ceias ás actrizes!
―O meu amigo Custodio de Jesus saberá muito bem
como é que se ganha dinheiro, como se descontam
letras e se empresta a juro sobre hypotheca; mas o
que não sabe é nada de jurisprudencia―disse o
Belchior com emphase.―É preciso que o meu amigo
se lembre de que sou solicitador ha mais de vinte e
cinco annos, e que, durante todo este tempo, tenho
adquirido conhecimentos que me habilitam a segurar
o que é meu e o que é dos meus constituintes...
―Não digo que não, mas essa theoria, com
franqueza,
não me agrada... Lá que o rapaz tenha tido
estroinices, emfim, não é bom precedente, mas
desde
que elle ainda possue uma casa grande, de vasto rendimento,
tudo se lhe póde perdoar e esquecer com a
condição de mudar de vida e de costumes
dissipadores,
logo que ligue o seu destino ao de minha filha.
Mas agora achar melhor que elle continue nas suas
dissipações e loucuras, do que se emende e seja
um
bom marido, isso é que me não entra
cá!
―É o que eu digo!―volveu o procurador com
desdem―não sabem nada da lei e mettem-se a discutir
com quem conhece a letra dos codigos!
―Os codigos, amigo Belchior, pódem dizer o que
quizerem, mas o que elles não pódem é
metter-me em
cabeça que um marido estroina é muito melhor do
que
um marido economico, morigerado e amante de sua
mulher.
[47] ―É porque o amigo e sr. Custodio de Jesus―respondeu
o procurador, formalisado―não sabe que
a lei faculta uma acção de
interdicção contra o marido
prodigo, e confere a administração do casal a uma
ou mais pessoas de familia.
O Custodio de Jesus arregalou os olhos, espantado.
―O quê? O que é isso? Explique lá,
homem, que
eu não percebi bem.
―Não tem que explicar. Não se fazem escripturas,
de modo que a noiva tem a meação nos haveres
de seu marido, como o marido a tem nos haveres da
mulher. Ora a administração do casal pertence de
facto e por lei ao marido; mas se este, em vez de
administrar parcimoniosamente, se entrega a
dissipações
e patuscadas escandalosas, á mulher assiste o direito
de requerer a interdicção do marido e
pôr-lhe
uma tutela que, n'este caso, poderia muito bem ser
exercida pelo meu amigo o sr. Custodio de Jesus...
Ora percebe agora a razão por que eu digo que mais
valerá que elle continue a affirmar-se um estroina, um
dissipador de marca?
―Realmente você, amigo Belchior, é uma cabecinha
privilegiada! exclamou enthusiasmado o pae de
Beatriz.―Porque não estudou você para doutor?
O procurador sorriu com bonhomia e encolheu os
hombros com despreso:
―Não me faz falta―disse.―Conheço
tão bem
a lei como aquelles que fôram a Coimbra. Por isso lhe
digo, não deixe perder esta bella occasião de
apanhar
uma fortuna, que decerto lhe não voltará
tão cedo a
bater á porta outra igual... Case a pequena quanto
antes com o doidivanas que se lhe offerece, e deixe o
caso por minha conta.
―Eu já disse á minha Beatriz que fazia muito
gosto em que ella acceitasse por marido este rapaz...
[48] ―E ella, o que respondeu?
―Como o meu amigo póde bem avaliar, minha
filha, que até agora não tem pensado em
casamento,
caiu das nuvens quando lhe fallei em casar.
―Mas manifestou repugnancia em acceitar o marido
que se lhe propõe?
―Ella pediu-me que a deixasse pensar na resposta...
Emfim... deseja consultar o seu coração, e isso
não se lhe póde levar a mal...
―Bem! Mas supponha que ella recusa...?
―Que motivo terá para recusar quando sabe que
a minha vontade é que este casamento se faça e
quando
o noivo é realmente uma bella figura, capaz de
captar as sympathias da menina mais exigente?
―Mas supponhamos que recusa!―Insistiu ainda o
procurador.
―Não posso suppôr tal cousa, porque
não estou
habituado a que, em minha casa, alguem tenha vontade
differente da minha.
―Nas pequenas questões da vida domestica, d'accordo...
eu creio que o meu amigo tenha sido e continuará
a ser completamente obedecido... Mas n'este
caso talvez não encontre a mesma cega obediencia que
suppõe...
―Por que?
―Porque as mulheres, quando encarreiram as suas
affeições para um lado, não ha diabo
que as faça voltar
para outro, amigo e sr. Custodio...
―O que quer dizer com isso, amigo Belchior?
―Quero dizer que se a Beatrizita já tem por ahi
namoro que lhe faça andar a cabeça á
roda, ao meu
amigo não lhe será tão facil como
julga o fazer que
ella obedeça á sua vontade...
―Namoro! A minha Beatriz é uma creança de
dezeseis annos e não pensa n'essas tolices!―protestou
o sr. Custodio de Jesus encrespando o sobr'olho.―Isso
[49]
é bom para aquellas raparigas que são
educadas
á redea solta e que não teem paes que lhes saibam
dar
educação... Namoro! Eu admittia lá que
uma filha
minha tivesse namoro!
―As filhas nunca pedem licença aos paes para
essas coisas...―commentou o outro.
―As filhas que não respeitam os paes ou que não
teem paes que se façam respeitar, d'accordo. Mas em
minha casa não se dá isso...
―E se se desse?
―Se se desse! Você sabe alguma coisa, Belchior?
―Se se desse, é o que eu pergunto?―retorquiu
o procurador com um sorriso mysterioso.
―Se se desse, ia ahi tudo com seiscentos diabos!
Fechava a rapariga n'um quarto, que não tornava a
vêr sol nem lua, emquanto não fosse á
egreja casar
com quem eu dissesse!―bramiu o sr. Custodio de
Jesus, assentando furioso murro sobre as escripturas
das hypothecas em divida.―Mas você sabe alguma
coisa? Homem, seja franco!
―Pois então fique o amigo Custodio sabendo que
temos moiro na costa e que a pequena... mas você
não vá agora fazer asneira... estas coisas
levam-se
com prudencia...
―Diga, diga, homem!―insistiu o capitalista
afflicto.―Sabe que a minha filha...
―Tem um namoro. E então? É a coisa mais natural
d'este mundo.
―Você falla serio?
―Não costumo brincar com coisas d'estas. Quando
eu lhe digo que sua filha se corresponde com um
rapaz a quem vae fallar da janella para a rua todas
as noites, é porque tenho d'isso a certeza.
Custodio de Jesus levantou-se de um salto como
mordido da tarantula.
―Você não me repita isso nem a brincar!―bramiu
[50]
elle―porque eu vou-me áquella desavergonhada
e racho-a!
―Mau! assim não fazemos nada!―reprehendeu
o procurador―Aqui o que convem é saber o que se
passa e tratar de encaminhar as coisas de modo que
o projectado casamento com o nosso rapaz se realise
o mais breve possivel...
―Mas quem é, quem é esse outro que ella namora?
―É um estudantito... um rapaselho.
―Rico?―interrogou o Custodio arregalando os
olhos.
O procurador soltou uma gargalhada.
―Você, amigo Custodio, cuida que os rapazes
ricos andam por ahi aos pontapés! Isto hoje é
tudo
uma pelintrice, você bem o sabe... Quando apparece
um como o Eugenio, é um milagre! Porisso é que eu
digo: vamos a deitar a unha a este, porque se o deixamos
escapar não apparece outro tão cedo...
O Custodio de Jesus passeava agitado pelo aposento,
quasi sem prestar attenção ás palavras
do procurador.
―Mulheres! Raça maldita! Nasceram só para
enganar!―blasphemava elle―Até esta, de 16 annos,
creada com todo o recato, longe das sociedades,
retirada das más companhias, até esta, que
parecia
uma innocente, me sae á ultima hora a corresponder-se
com um namoro, sem que eu, que sou pae e
ando sempre com mil cuidados e cautelas a vigiar-lhe
os menores movimentos, tenha dado por isso!
―Amigo Custodio―obtemperou o procurador―não
vale a pena affligir... Não é caso de morte de
homem ou casa queimada... Que diabo! eu disse
isto porque entendo que a você, como pae, convem
saber o que se passa para saber como ha de proceder...
[51] ―Como hei de proceder sei eu!―rugiu colerico
o pae de Beatriz―Ponho-a de pé descalço a fazer
o
serviço da casa, a varrer, a lavar a louça, a
cosinhar,
para lhe tirar o vicio! Se tem sentimentos de criada
de servir, que seja criada de servir em tudo!
―Homem, eu desconheço-o!―reprehendeu severo
o Belchior―Tinha-o na conta de um homem de
juizo, um homem prudente que sabe o que lhe convem
e que respeita os seus interesses, e você sae-me a
querer fazer tolices e disparates que não lembram a
ninguem!
―É que você não sabe o odio que eu
tenho ás
mulheres!―explicou o Custodio―Esta filha veio
para meu castigo!
―Não veio para seu castigo nada! Apparece-lhe
um casamento bom para ella, um casamento de primeira
ordem? Aproveite-o, trate de a casar por bem
ou por mal... isso sim, senhor! Mas agora romper
no excesso de a pôr a fazer de servilheta, isso é
dar
murros em si proprio, amigo Custodio. Ora imagine
que você faz isso, e a pequena desesperada lhe foge...
E depois? Você desherdal-a não póde,
porque ella é
sua filha. Além d'isso; já não tem
mãe e mais tarde ou
mais cedo tem que entrar na posse da herança materna...
Homem, prudencia!... levemos as coisas
por bem, que é melhor...
―Tem razão!―concordou por fim o Custodio―Mas
olhe que é para um homem arreliar! Não ha
ninguem mais infeliz com as mulheres do que eu!―desabafou
com o desespero de quem tocou a méta do
soffrimento―Eu fui casado duas vezes... A primeira
mulher, a Carlota, sahiu-me uma bebeda, uma
desavergonhada que toda a vida me atraiçoou com um
padre em quem eu tinha toda a confiança e que até
por ultimo me roubou, levando-me tudo, deixando-me
a pedir uma esmola!... Veja lá você! Eu era um
[52]
bolas que não sabia nada do mundo, via Deus no
céo
e a mulher na terra, tudo o que ella dizia era o que se
fazia, e afinal o pago que me deu foi aquelle! Tambem
a levou o diabo, que lá se envenenou em Lisboa, e
tão
infame que até á hora da morte deixou um bilhete
a dizer
que se matava por minha causa! Isso foi uma coisa
muito fallada, até andou nas gazetas...
―Espere lá!... D. Carlota? Tenho ideia de lêr
isso...
―Foi ha dezoito annos...
―Sim... ha de haver esse tempo, ha de...
―Pois, meu amigo, o ladrão do padre arranjou-me
uma tramoia de umas letras que eu acceitei a
um outro maroto como elle, um tal João Ignacio...
―Bem sei! Conheço perfeitamente. Esse homem
tambem parece que deu com tudo á costa. Até
esteve
doido, e a sua mania é que tinha sido roubado por um
padre...
―Era o mesmo... o padre Anselmo! Um ladrão,
um malandro com capa de santo, que foi a minha
desgraça! Se não fosse elle metter-se-me com a
mulher
e roubar-me tudo, eu tinha a estas horas mais de
quatrocentos contos!
―Vamos lá!―observou sorrindo o procurador―Parece
que ainda lhe não levou tudo, porque você,
amigo Custodio, está possuidor de capitaes muito avultados.
―Á custa de muito trabalho e depois do segundo
casamento para cá―explicou o Custodio.
―Não sei como você, depois de ser tão
infeliz
com a primeira mulher, ainda caiu em casar segunda
vez.
―Que remedio tive eu! Não foi por minha vontade,
não... Mas eu fiquei, como o outro que diz, sem ―Que remedio tive eu! Não foi por minha vontade,
não... Mas eu fiquei, como o outro que diz, sem
eira nem beira nem ramo do figueira. Appareceu-me
uma mulher que tinha ido em nova para o Brazil e
[53]
que por lá arranjou uns contos de reis e esta filha
com que voltou a Braga...
―Ah! então Beatriz...
―Não é minha filha, mas eu perfilhei-a no acto
de casar com a mãe, e ahi é que eu quero
chegar...
A bebeda, a grande desavergonhada enganou-me!
―Enganou-o... quem?
―A minha segunda mulher. Disse-me que trazia
para cima de cincoenta contos, e afinal vae-se a vêr,
entre joias, dinheiro e papeis, pouco passava de vinte!
―Está feito!
―Está feito, diz você! Mas eu perfilhei-lhe a
filha,
tenho trabalhado como um burro, aturei-a a ella
até á hora da morte―que ella vinha arruinada da
saude, escangalhada, um caco velho em summa―tive
de sahir de Braga, porque lá toda a gente lhe sabia
a vida e era uma vergonha, e agora, depois de
tudo isto, ainda não sou senhor de deixar o que é
meu
a quem eu quizer, porque para todos os effeitos esta
rapariga é que é a minha herdeira.
―Por esse lado, tem o meu amigo razão―concordou
o procurador―mas tambem, se não tem parentes
ou outra pessoa que melhor lh'o mereça, pouco
desarranjo lhe póde fazer... O amigo para a cova
não o póde levar...
―Mas podia deixal-o ás Ordens ou a quem eu
muito bem quizesse!―recalcitrou o Custodio, indignado.
―As Ordens não lh'o agradeciam melhor do que
esta pequena...―philosophou scepticamente o Belchior,
com um sorriso desdenhoso.―Não havia Ordem
nenhuma que fosse capaz de lhe metter em casa uma
fortuna como a que ella lhe traz pela porta dentro, se
casar com o Eugenio de Mello...
―Fortuna... para ella!
―E você não é pae? E sendo pae,
não fica sendo
[54]
sogro do rapaz? E sendo sogro do rapaz, desde o momento
em que elle não dê carreira direita não
lhe vem
a administração do casal parar ás
unhas?
―Isso ainda está em
vêl-o-hemos... Se o rapaz
ganhar
juizo...
―Se ganhar juizo, faz-se-lhe perder... A questão
é que você queira...
―Mas faz-se-lhe perder como? Como é que eu
hei-de querer?―perguntou o Custodio de Jesus, arregalando
os olhos, sem comprehender.
―Homem! o rapaz é estroina, a doidice está-lhe
na massa do sangue... E os estroinas são como os
alcoolicos, a quem os medicos dizem que morrem se
continuarem a beber... Emendam-se, fazem um grande
esforço para se habituarem á agua, mas se um dia
entram n'uma patuscada e vêem uma garrafa que
lhes desperta o appetite, perdem o mêdo atiram-se a
ella, bebem e morrem victimas do vicio que o instincto
da conservação não foi sufficiente
para debelar.
Ora o rapaz está n'este caso. Ha-de querer portar-se
bem, emendar-se, ser um homem exemplar,
mas, se lhe apparecer um amigo que o leve a uma
ceia e lhe mostre uma actrizita com um palmo de cara
regular, não tenha você mêdo que elle
ahi
irá de
vento em pôpa pelo caminho da
dissipação e da prodigalidade,
e então é que é dar-lhe o golpe de
misericordia... Percebe-me agora?
O Custodio, maravilhado, contemplava aquelle patife
que tinha sobre elle a enorme vantagem de conhecer
os
escaninhos da lei, segundo a
phrase pittorêsca
do procurador.
―Você―disse elle por fim, encarando sorridente
o Belchior―é dos de estrella e bêta e
pé calçado!
―Meu amigo, um homem tem obrigação de
não
ser tôlo, de não andar no mundo por vêr
andar os
[55]
mais... As patifarias da vida é que põem um homem
fino...
―Você havia de me ter apparecido em Braga,
aqui ha vinte annos antes... Não era comsigo que o
ladrão do padre Anselmo mettia dente... E você
não
me tinha deixado roubar!
―Estava bem arranjado o padreca! Que viesse
para cá... Comigo nem elle nem o mais pintado fazia
farinha!―blasonou basofiento o procurador.―Tenho
dado com elles d'aqui... detrás da orelha; mas eu
atiro-lhes para a caveira com as baldas certas e elles
veem buscar lã mas vão tosquiados!
O Custodio suspirou:
―Aquelle ladrão!―exclamou n'um surdo
rancôr―roubou-me
por eu o não conhecer a você!
―Meu amigo, com aguas passadas não móem
moinhos... O que não tem remedio remediado
está...
Agora vamos a vêr mas é se se trata de arranjar
outro...
Disponha as coisas de modo que o casamento
se faça quanto antes, porque a fatia é boa e
não se
póde perder...
―A rapariga casa. Por bem ou por mal, que remedio
tem ella senão obedecer-me e fazer o que eu
disser!
―Se ella estiver deveras encarriçada com o tal
franganote, ha de custar-lhe a resolvêl-a...
―Por isso não seja a duvida... A questão
é saber
se o negocio convem...
O procurador assobiou, acompanhando o assobio
com repetidos estalos produzidos pelos dedos maioral
e pollegar.
―Se convem!―disse elle―É uma pechincha!
É um negocio de costa acima! Queira elle noventa
contos pela casa, que eu pago-lhe as dividas todas e
ainda metto para cima de cincoenta no bolso. É um
casão!
[56] ―Bom! pois então fique descançado, que a
rapariga
eu cá me encarrego de a domesticar...
―Mas veja lá; você não lhe falle no
namoro, que
é peor...―aconselhou o procurador.
―Nem palavra! Para lhe fallar n'elle, tinha de
lhe partir os ossos... Nada! eu resolvi ir cá por outro
caminho...
―E se fôr preciso que o rapaz appareça para lhe
fazer o seu pé de alferes...
―Por ora não... Deixe estar, deixe vêr como as
coisas se preparam...
―Arranje lá... E adeus, que devo ter lá em casa
os constituintes á espera.
Despediu-se, estendendo dois dêdos protectores ao
Custodio.
―Mas você apparece por cá?―disse o pae de
Beatriz, apertando e retendo na mão os dedos do Belchior.
―Sim, amanhã...
E dirigiu-se para a porta.
―Olhe lá: você vá dando
esperanças ao rapaz, hein?
―Não tem duvida... Disponha você a pequena.
Mal que o procurador sahiu, o Custodio subiu ao
andar superior e chamou a filha.
Beatriz era uma d'estas creaturas franzinas, delicadas,
doceis e submissas por indole e por temperamento,
na apparencia faceis de dominar, mas que, depois
de terem tomado uma resolução, primeiro se
deixarão matar do que render-se. Alta, elegante, cabellos
e olhos castanhos, tez clara, faces rosadas, o seu
gracioso vulto, de uma distincção rara, captivava
pela
belleza e impunha respeito pelo suave perfume de innocencia
e bondade que respirava.
Quando o pae a chamou, a pobre menina appareceu
tremula, como se o coração lhe presagiasse a
tortura
que a esperava.
[57] ―Aqui estou, meu pae―disse ella.
O sr. Custodio ameigou a voz, contra o seu costume,
e, contrafazendo o semblante n'um risinho agradavel,
chamou a filha para o pe de si, fel-a sentar ao seu
lado, e perguntou-lhe:
―Então, já pensaste no casamento em que te
fallei,
minha filha?
―Já, meu pae... já pensei...―tartamudeou a
pobre pequena, commovida.
―E decidiste acceitar o partido que se te offerece,
não é assim?
―Não, meu pae...
―Não?!―exclamou o sr. Custodio, fingindo-se
surprehendido e mudando rapidamente d'aspecto.―E
porque?
―Porque não me sinto ainda com
disposição para
casar...
―Não te sentes com disposição! Essa
é bôa! Mas
para casar ninguem está á espera de
disposição...
Aproveita-se o noivo quando apparece, e a
disposição
vem depois...
―Eu não poderia unir-me a um homem por quem
o meu coração não sentisse a menor
sympathia...
―Sympathia!―bramiu o sr. Custodio furioso,
dando largas ao seu desespero.―Que vem a ser cá
isso? Temos frioleiras de romance? Com as sympathias
não é que os casados fazem sopa e compram os
chapéos e os vestidos ás modistas. O noivo
é rico? É
o essencial. Ora este tem uma grande fortuna, é novo,
é uma bôa figura, não é
cego, não é aleijado―e ainda
que o fosse, não se perdia nada―porque é que
elle
não te hade ser sympathico?
―Será para outras, mulheres, não para
mim...―atreveu-se
a dizer Beatriz.
Isto foi o mesmo que fazer explodir o immenso paiol
em que o sr. Custodio tinha accumulado toda a polvora
[58]
dos seus rancores de ha muitos annos contra as
mulheres.
―Que pouca vergonha é essa?!―berrou elle, levantando-se
e encarando a filha, rubro de colera―Quem
é aqui o pae: sou eu ou é vocemecê?
A ira dementava-o a ponto de não o deixar reparar
no burlesco e incongruente disparate da pergunta,
que faria rir a pobre menina, se o horror da
situação
em que se encontrava não a tivesse afogado em pranto.
―Meu pae! Meu pae!―bradou ella supplicante,
caindo de joelhos com as mãos postas―pelo amor de
Deus, perdoe-me! mas eu não posso... não posso!
―Deixemo-nos de comedias!―rugiu o Custodio
n'um recrudescimento de ira―Ou casa ou metto-a nas
irmãs da caridade!
Beatriz, de joelhos, continuava a implorar:
―Meu pae, por alma de minha mãe lhe peço
que não me force a este casamento que o meu
coração
não póde acceitar!
―Sua mãe! Não me falle em quem já
morreu!
Quem lá vae, lá vae, não é
aqui chamado!
A esta brutal e grosseira reprehensão, Beatriz ergueu-se.
No rosto pallido as lagrimas seccaram-se-lhe
como por encanto, e nos olhos, fulgurantes de
indignação,
lia-se-lhe agora uma resolução inabalavel.
―Minha mãe―disse ella em voz calma e firme―não
me responderia assim, se eu, de joelhos, lhe invocasse
a memoria de meu pae morto.
Esta resposta acabou de exasperar o sr. Custodio.
―Cale-se!―não me falte ao respeito!
―Não sabia que a lembrança de minha
mãe era
para meu pae uma offensa.
Beatriz, perfilhada pelo sr. Custodio aos dois annos
d'edade, fôra educada na crença de que este
homem era seu pae e ignorava por completo a historia
do seu nascimento.
[59]
Notava que o homem a quem chamava pae a tratára
sempre com grande severidade e rispidez, e lamentava-se
intimamente de não achar no coração do
auctor de seus dias a ternura e carinho a que tem
direito uma filha obediente e submissa, como ella era.
Esta severidade recrudescera, quasi degenerando
em tyrannia, depois que a mãe se lhe finara.
A pobre pequena habituara-se áquelle tratamento,
e, crescendo na edade, sentira mudar-se-lhe o terror
infantil n'uma repugnancia instinctiva, porém soffredora
e paciente, que mais e mais a afastava do pae.
Evitava a sua presença o mais que podia; e nos
curtos instantes em que era obrigada a aproximar-se
d'elle e a ouvir-lhe as reprehensões grosseiras e injustas,
era sempre com os olhos no chão que o escutava.
Havia, pois, uma antipathia profunda entre estes
dois sêres, que o destino cruel pussera em face um do
outro, ligados pelos laços de um parentesco ficticio,
mas nem por isso menos respeitavel aos olhos do
mundo e da propria victima.
A attitude do senhor Custodio, que sempre fôra mau
para com a filha, tornara-se desde este momento odiosa.
Ferira a pobre creança no que ella tinha de mais
santo e mais sagrado no fundo do coração e que
fazia
objecto do seu culto:―o respeito pela memoria
de sua mãe e o seu amor por Paulo.
O despreso amargo com que seu pae acolhera a
supplica que ella lhe dirigira humildemente, de joelhos,
em nome da mãe, revoltou-a, e onde a revolta
começa
o respeito acaba.
Aquella phrase altiva, serena e sêcca com que
respondeu ao pae, que a mandava calar, era o prenuncio
da lucta que ia travar-se, era como que o
grito de revolta chamando em seu auxilio todas as
energias da sua alma de mulher para resistir á violencia
com que queriam esmagar-lhe o coração.
[60] ―Já disse!―volveu o descaroado pae.―Quem
manda aqui sou eu. Este casamento ha de fazer-se
por vontade ou por força.
―Viva não me levarão á
egreja!―respondeu
firmemente a pequena.
―Atreve-se a fallar-me assim, a faltar-me ao respeito?
Esquece que sou seu pae?
―Não esqueço. Mas lembro-me tambem de que
não devo ser tratada como escrava.
―Quem é que a quer escravisar? Chama escravisarem-n'a
ao quererem fazer-lhe um casamento
rico, com um rapaz de bôa familia, educado e que
póde dar-lhe respeito na sociedade?
―O meu coração não se vende a pezo de
dinheiro,
meu pae! Se esse homem quer comprar affectos,
que os busque onde elles se vendem.
―Está muito adeantada! Quem é que lhe ensinou
tanto?
―A minha razão e a consciencia dos meus deveres
de mulher digna.
O senhor Custodio enviesou-lhe um olhar furibundo.
A sua vontade seria estrangulal-a. Mas conteve-se.
―Isso são frioleiras de romances!―gritou elle―. A
menina não sabe o que diz. A culpa tenho-a tido eu
em consentir que certas leituras lhe ponham a cabeça
á razão de juros. Mas não tem
duvida... Eu a
mandarei para onde lhe ensinem os seus deveres de
filha.
―Mande-me o pae para onde quizer. Obedecer-lhe-hei
como filha que não necessita que lhe ensinem
os seus deveres. Mas não exija que acceite por marido
um homem que o meu coração não estime,
porque
a isso recusar-me-hei.
―Veremos!
O sr. Custodio sahiu bufando como um touro e foi
direito ao escriptorio.
[61] ― Que tal está a
bisca?!―rosnova elle, no auge
da furia.―Bem se vê que não é minha
filha!
Passeou com as mãos ora mettidas nos bolsos, ora
coçando nervoso a suissa, o que n'elle denunciava
sempre ou uma profunda meditação ou um violento
desespero.
―E ainda o Belchior a dizer-me que leve as coisas
com prudencia!―regougou por fim.―A prudencia
era dar-lhe com um cacête até o diabo dizer
basta! Amanhã estava ahi
macia como um velludo e
ia casar com quem eu quizesse...
De repente parou como ferido por ideia subita.
―E talvez... quem sabe? Esta ideia não é
má
e póde dar resultado... Vamos lá a experimentar
se,
levando as coisas por bem, conseguimos o nosso fim.
Tornou a subir ao andar superior e chamou a filha.
A pequena, muito pallida, veio ter com o pae e
perguntou:
―O pae deseja alguma coisa?
―Desejo, minha filha. Anda cá... senta-te aqui.
Quero que me escutes com attenção e que vejas que
não sou tão mau como pareço...
O sr. Custodio, vendo que Beatriz, sempre com os
olhos baixos, não respondia, pegou-lhe na mão e
puxou-a
docemente para junto de si, fazendo-a sentar ao
seu lado, e principiou dizendo:
―Ora anda cá, minha filha! É preciso que saibas
que ninguem é mais teu amigo n'este mundo do
que teu pae... Eu estou velho... estou com os pés
na cova, e, com estes desgostos que me estás dando,
não posso ir muito longe.
―Mas em que é que eu o desgostei, meu pae?
―Desgostaste-me com o teu procedimento de ha
pouco...
―Perdão! eu fui humilde e submissa, eu implorei
[62]
de joelhos e mãos postas que não me
forçasse ao casamento
com um homem que o meu coração não
póde
acceitar... É isto desobediencia?
―Filha! mas tu matas-me com essa recusa!―exclamou
o sr. Custodio, afflicto, simulando uma enorme
contrariedade.
―Mato-o porque não me quero casar, porque prefiro
viver ao lado de meu pae?!
―Matas-me porque o teu futuro e o meu está
dependente d'esse casamento, filha! Matas-me porque
recusando a mão d'este rapaz lavras uma sentença
de morte contra mim!
Beatriz empallideceu.
―Não o comprehendo, meu pae―balbuciou ella.
―Eu te explico, minha filha...
E aqui o sr. Custodio interrompeu-se, como para
tomar alento, passou o lenço pelos olhos para enxugar
uma lagrima ausente, suspirou fundo e proseguiu:
―Eu ha pouco fallei-te desabridamente, fui severo,
fui rispido, fui mesmo, injusto para comtigo;
mas tudo isto era não só o resultado do muito
amor
que sinto por ti, porque todo o meu desejo é
vêr-te feliz,
mas tambem e principalmente era motivado pelo desespero
da minha horrorosa situação...
Suspendeu-se a olhar para a filha, a vêr o effeito
que n'ella produziam estas palavras. A pequena permanecia
com os olhos baixos, immovel, na attitude de
quem escuta pacientemente uma historia que não lhe
interessa.
―Ouves, Beatriz?
―Ouço, meu pae.
―Da minha horrorosa situação!―tornou o sr.
Custodio a dizer, com um suspiro ainda mais fundo.
E abraçando-se na pequena, a soluçar, exclamou: ―Ah! filha! filha! teu pae está perdido! Se
[63]
tu o não salvas, ficas orphã... orphã
e pobre, porque
eu a esta dôr não resisto!
Beatriz, surprehendida, porém de modo algum
commovida com esta dôr ficticia, perguntou, como se
apenas cumprisse um dever:
―Mas o que foi que lhe succedeu, meu pae?
Porque é que assim se afflige?
―Filha!―tornou o senhor Custodio, com a voz
entrec